 A CIOCIARA

Jos de Alencar


CAPiTULO I

Ah! Os belos tempos em que me casei e deixei a minha aldeia
para ir instalar-me em Roma! Todos conhecem a cano:

Quando la ciociara' si marita a chi tocca lo spago e a chi la
ciocia 2,

Mas eu dei tudo ao meu marido, a sola e o cordo, porque era
meu marido e tambm porque me levava para Roma e eu gostava de
ir para l e no sabia que precisamente em Roma me esperava a
desgraa. Tinha um rosto redondo, olhos negros, grandes e
fixos, cabelos pretos, que me cresciam quase por cima dos
olhos, apartados em duas trances espessas, semelhantes a
cordas A minha boca, vermelha como o coral, mostrava, quando
ria, duas filas de dentes brancos, cerrados e regulares. Era
bastante forte e capaz at de equilibrar  cabea, sobre a
cercine3, o peso de meio quintal. Meu pai e minha me eram
camponeses, mas deram me um enxoval de senhora, trinta de
tudo: trinta lenis, trinta fronhas, trinta lenc,os, trinta
camisas, trinta calcinhas. Tudo roupa fiea, de bom linho fiado
e tecido  mo por minha me, no seu tear; alguns lencis
tinham at a cobra bordada com muitos e lindos lavores. Tambm
possua jias de coral vermelho-escuro, o de mais alto prec,o.
Um colar, brincos de coral e ouro, um anel de ouro com um
coral e at um belo alfinete tambm de ouro e coral. Alm dos
corais, tinha outros objectos de ouro, jias de familia, e um
medalho para trazer ao peito, com um camafeu mnito bonito, no
qual se via um pastorinho com as sues ovelhas.

Camponeses da ciociaria, regio montanhosa das proximidades de
xoma. Usam uma espcie de sandlias, ciocia, feita com um
rectngulo de coiro revirado para o peito do p e ligado 
perna por cordes ou correl as.

z Ouando a ciociara se casa7A um d o cordoo a outro a sofa.
Aluso sem dvida aos costumes bastante livres das camponesas
da regio, que, uma vez casadas, no ligam grande importncia
 fidelidade.

3 Espcie de rolo, feito de trapo, usado para equilibrar pesos
 cabea, correspondente  nossa rodilha ou sogra.

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Meu marido tinha uma pequena mercearia em Trastevere, no Heco
clos Cinco, e ahrgou uma casita mesmo por cima da loja, tanto
que, se me debruasse na janela do quarto, podia pr os dedos
na tabuleta cor de sangue de boi com os dizeres- Po e Massa A
casinha tinha duas janelas que davam para o sagrro i outras
duas para a rua; eram quatro divises ao todo, poqueninas e
baixas, mas eu mobilei as bem: alguns mveis comprmo los ern
Campo di Fiori e outros deu mos a minha familia. O quarto era
todo novo, c,om o leito conjugal de ferro pint,rdo a imitar
macleira, a cahr x eira enfeitada com ramos e grinaldas; na
sala pus um lindo sof' de maderra com torcidos e estofo de
flores estampadas, duas cadeiras com o mesmo estofo e os
mesmos torr idos, uma mesa rerionda para as refeies e um
guarda loia para os pratos, todos rle porr elana fina, com um
vivo de ouro e no f'urldo um desenho rle flor r s e fnrta.

O mou marido descia de manh cerlo para a loja e eu arrurrlava
a casa. Esfregava, varria, dava Rrstro, sac udia o p, fimpava
todos os cantos, todos os ohjectos; depois a casa ficava mesmo
rrm espelho, i das janelas, com cortinas hranc as, vinha uma
hiz t.ranquila e doce, e eu olhava para os quar~os c, venclo
os to amrmados limpos e brilhantes, com toclas as coisas no
seu Rrgar, entrava me no sci que ` alegria no corao. Ah!
Como  bom ter casa nossa, onde ningum entra e que ningum
conhece, e passar a vida a limp la e a arrum la! Acabadas as
limpezas, vestia me, penteava me com cuidado pogava no cabaz e
ia ao mercado f'azer r ompras. O mercado era mesmo ali a
poucos passos, e eu andava por- entre as bancadas, mais cle
uma hora, no tanto para ~omprar, porque ~rande parter das
coisas tinha as na loja, mas para ver. And.rva e olhava para
tudo: a fruta, os legumes, a c ame, o peixe, os ovos; entendia
daquilo e gostava de c alcular os preos e os lucros, avaliar
a qualidade, descobrir as trapaas e os truques dos
vend'~dores. Gostava tambm de discutir, tomar o peso s
coisas, deix las, depois disc:utir outra vez e por fim no
c:omprar nada. Alguns vendedores f`aziam me a r ort.e, dando
me a entender que me ofereceriam isto e aquilo sr Ihes clesse
troco; mas eu respondia Ihes de tal maneira qrr'` c
ompreendiam logo que no estavam a f`alar com quem julgavam.
Sempre fifi orgulhosa e no  preciso moito para me subir o
sangue  cabea; ento vejo tudo vermelho e  uma sort.e que
as mulheres no usem facas na algibeira, como os homens,
porque, dmltro modo, seria at capaz de matar. A um vendedor
que me aborrecia mais do que os outros e insistia em f'azer me
propostas, obogando me a aceitar Ihe presentes, corri um dia
atrs dele com um grande aiLnete na mo; por sorte intervieram
os guardas, seno espetava

-Iho no lombn

Bem; voltava para casa contente e, depois de pr na gua a
f`erver para o caldo os trmlper-~; alquns ossos e um bocadinho
de r ame, d, ~:~a imediatamente para a loja. Tambm ali era
feliz Vendamos um pouco de tudo, massa, peo, arroz, legumes
secos, vinho, azeite, conservas, e eu estava atrs do balco
como uma rainha, os braos nus at o cotovelo e o meu medalho
com o camufeu ao peito: recebia as encomendas dos clientes,
pesava, fazia rpidamente as contas com o lpis num bocado de
papel pardo, embrulhava as, entregava as. Meu marido, esse era
mais lento. Por f`alar no meu marido, esquecia me de dizer que
era j quase velho quando nos casmos e houve at quem
dissesse que o fiz por interesse;  verdade que nunca estive
doida por ele, mas, to certo como Deus estar no C,u, sempre
Ihe fui fiel, se bem que ele o no fosse Tinha l as s~ms
manias, o pobrezinho, e a principal era a de agradar s
mulheres, o que no correspondia  verdade. Era gordo, ma~ no
uma gordura s, com olhos negros, raiados de sangue, e ''aces
plidas com pequenas manchas como migalhas de tabaco.
tiilioso, concentrado, grosseiro, ai de quem o contrariasse.
ausentva-se continuamente da loja e eu sabia que ia encontrar
se am qualquer mulher, mas quase podia jurar que nenhuma Ihe
dava atenco seno a troco de dinheiro. Com dinheiro, sabe se,
tudo se consegue, at mesmo que uma noiva levante a saia. Eu
percebia logo quando as coisas Ihe corriam bem, porque ento
mostrava se quase alegre e gentil. Quando, ao contrrio, no
conseguia nada, ficava sombrio, respondia me mal e algumas
vezes at rme batia. Mas um dia disse Ihe "Vai l para essas
perdidas quando quiseres, mas no me toques, seno deixo te e
volto para a minha casa.n Eu no queria ter amantes, embora,
como j disse, moitos homens andassem atrs de mim; toda a
minha paixno a pus na casa, na lola e, depois de ser me, na
minha filha. Com o amor no me importava, ou, antes,
provvelmente por s ter conhecido o meu mariclo, to velho e
feio, quase me enqlava. Queria apenas viver tranquila e que me
no t'altasse nada. De resto, uma mulher deve ser fiel,
acontea o que acontecer, mesmo quanclo o marido, como era o
caso, no o .

O meu marido, com os anos, deixou de encontrar mulheres que
Ihe dessem atencoo, nem por dinheiro o queriam, e tomou se
insuport.vel. H mnito tempo que no fazamos vida de
casados, mas de repente, talvez  f'alta de melhor, apaixonou
se de novo por mim e quis me ter  viva fora, no
simplesmente, como marido r mulher, mas como as marafonas com
os amantes, tenando, com certas manobras, obrigar me ao que
nunca me agrachJu e mmca quis, nem mesmo quando vim para Roma,
casacla de t'resco, e me sentia to feliz que cheguei quase a
imaginar que estava apalxonada por ele.

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Disse-lhe que me deixasse em paz, e ele, a primeira vez,
bateu-me, fazendo-me at saltar o sangue pelo nariz; depois,
vendo que eu estava mesmo resolvida a no ceder, deixou de me
importunar, mas passou a odiar-me e a perseguir-me de todas as
maneiras. Eu suportava tudo pacientemente, mas no fundo tambm
o odiava e no podia v-lo. At disse ao padre, em confisso:
"isto um dia acaba mal", e o padre, como verdadeiro padre,
aconselhou-me a ter pacincia e a dedicar os meus sofrimentos
 Virgem. Entretanto, arranjei uma rapariga para me ajudar,
uma certa Bice, de quinze anos, cujos pais ma tinham confiado,
pois era ainda quase criana, e ele comeou a arrastar-lhe a
asa quando me via ocupada com os clientes, abandonava a loja,
galgava os degraus a quatro e quatro, ia  cozinha e
deitava-se a ela como um lobo. Desta vez impus-me e disse-lhe
que deixasse a Bice em paz, mas, como ele insistisse em
atorment-la, mandei-a embora. Por causa disto, o meu marido
passou a odiar me ainda mais e foi ento que comeou a
chamar-me labrega: "A labrega j voltou?... Onde est a
labrega?" Em suma, era bem pesada a minha cruz, e, quando ele
adoeceu a srio, devo confessar, quase senti alivio. Tratei-o,
no entanto, com todo o carinho, como se deve tratar um marido
doente, e todos sabem que nem quis saber mais da loja, s para
estar ao p dele; at perdi o sono. Finalmente morreu e
senti-me de novo quase feliz. Tinha a loja e a casa, tinha a
minha filha, que era um anjo, e na verdade no desejava mais
nada da vida.

Foram aqueles os anos mais felizes que vivi: 1940, 1941, 1942,
1943.  verdade que havia a guerra, mas eu de guerra no
percebia nada, e, como s tinha aquela filha, no me
preocupava que houvesse guerra ou no. Que se matassem uns aos
outros, com avies, carros blindados, bombas, a mim no me
importava, bastava-me a loja e a casa para ser feliz, como de
facto era. De resto, sabia pouco de guerra, pois, embora saiba
fazer contas e at assinar 0 meu nome num postal ilustrado,
para falar verdade, no sei ler l muito bem e nos jomais s
lia a crnica dos crimes, ou, antes, mandava-a ler a Rosetta.
Para mim, alemes, ingleses, americanos. russos, como diz o
provrbio, caa, caa, que  tudo a mesma raca. Aos militares
que aparaciam na loja e diziam: venceremos alm, iremos acol,
faremos isto e mais aquilo, eu respondia: para mim tudo corre
bem enquanto correr bem o negcio. E o negcio corria
realmente bem, embora houvesse aquele inconveniente das senhas
e Rosetta e eu passssemos todo o dia de tesoura na mo, como
se fssemos costureiras, e no comerciantes. 0 negcio corria
bem porque eu era esperta e no peso conseguia ganhar sempre
alguma coisa e tambm porque, como havia racionamento,
fazamos as duas

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-

um pouco de mercado negro. De tempos a tempos, Rosetta e eu
fechvamos a loja e iamos  minha aldeia ou a qualquer outra
localidade mais prxima. Levvamos duas grandes malas de
fibra, vazias, e traziamo-las para casa cheias de tudo:
farinha, presunto, ovos, batatas. Com os fiscais no havia
complicaes porque eles tambm tinham fome, e assim cheguei a
vender mais coisas s escondidas do que s claras. Mas a um
desses tipos meteu-se-lhe na cabea aproveitar-se das
circunstncias. Um dia disse que me denunciava se eu no Ihe
desse trela. Respondi-lhe, muito calma: "Est bem... vai logo
a minha casa." Ele ficou vermelho como se Ihe tivesse dado um
sopapo e foi-se embora sem dizer nada.  hora combinada
aparaceu, mandei-o entrar pela cozinha, abri uma gaveta,
agarrei numa faca e apontei-lha logo ao pescoo, dizendo: "Tu
denuncias-me, mas eu primeiro mato-te." Assustou-se e disse-me
 pressa que eu era maluca, pois aquilo no passara duma
brincadeira. E acrescentou: "No s como as outras mulheres?
No te agradam os homens?"

Respondi-lhe: "Vai perguntar isso s outras... eu sou viva,
tenho a minha loja e no penso em nada mais... para mim o amor
no existe, lembra-te disto, para teu govemo." Ele no
acreditou logo e durante algum tempo continuou a arrastar-me a
asa, mas respeitosamente. E eu tinha dito a pura verdade. O
amor, depois do nascimento de Rosetta, nunca mais me
interessou, e talvez nem mesmo antes. Sou assim, no suporto
que algum me ponha as mos em cima. Se os meus pais, a seu
tempo, no tivessem combinado o meu casamento, creio que
estaria ainda hoje como a minha me me deitou ao mundo.

Mas a minha aparncia engana, porque agrado aos homens, e,
embora seja baixa e com os anos alargasse um pouco. tenho a
cara lisa, sem uma ruga, os olhos negros e os dentes brancos.
Naquele perodo, que, como disse, foi o mais feliz da minha
vida, perdi a conta aos homens que me propuseram casamento.
Mas eu sabia que a loja e a casa  que os seduzia, mesmo
queles que diziam amar-me a srio. Talvez nem eles prprios
soubessem que assim era e se iludissem sobre os seus
sentimentos; mas eu julgava por mim e pensava: "Eu trocaria
qualquer homem pela loja e pela casa... Porque ho de ser eles
diferentes?... Somos todos feitos da mesma massa...~> Se ao
menos fossem, no digo ricos, remediados; mas no, eram uns
pobretanas, e via-se a uma lgua de distfincia que tinham
necessidade de se amparar. A um de Npoles, agente da
segurana pblica, que mais do que qualquer outro fazia de
apaixonado e procurava conquistar-me com adulaes,
enchendo-me de cumprimentos e chamando-me at,  maneira
napolitana, "Dona







Cesira", disse-lhe francamente: "Vejamos: se eu no tivesse a
loja e a casa, vinhas dizer-me essas coisas?~> Aquele ao menos
foi sincero, Respondeu a rir: "Mas como tens a casa e a
loja..." Tambm , verdade que foi sincero porque Ihe tirei
todas as esperanas.

Entretanto, a guerra prosseguia, mas a mim no me interessava,
e quando, na rdio, depois das canonetas, liam o comunicado,
dizia a Rosetta: "Fecha, fecha essa telefonia.,. que se matem
 vontade uns aos outros, esses filhos duma m`~:... i~.i~
quero ouvi-los; o que nos interessa a guerra?... Eles fazem-na
sem se importarem nada com a pobre gente que tem de ir para
l... portanto, ns, que somos a pobre gente, estamos no
direito de no nos importarmos tambm." Por outro lado, devo
confess-lo, a guerra favorecia-me: vendia cada vez mais no
mercado negro, com preos ao meu gosto, e cada vez menos na
loia, com preos fLxados pelo Governo. Quando comecaram os
bombardeamentos a Npoles e a outras cidades, muita gente
dizia-me: "Fujamos, seno matam-nos a todos." Eu respondia: "A
Roma no vm, porque em Roma est o papa... e, se me vou
embora, quem cuida da loja?" Tambm os meus pais me escreveram
da aldeia, convidando-me a ir para l, mas recusei. R osetta e
eu amos cada vez mais frequentemente ao campo e trazamos nas
malas tudo o que encontrvamos: no campo havia abundncia de
mantimentos, os camponeses no queriam vend-los ao Governo,
que pagava pouco, e esperavam por ns, os do mercado negro,
que pagvamos preos altos. Alm do que metamos nas malas,
trazamos muitas outras coisas; lembro-me que uma vez voltei a
Roma com alguns quilos de salsichas enroladas em volta da
cintura, debaixo da saia, e at parecia grvida. Rosetta
escondia os ovos no seio e, quando os tirava, estavam to
quentes como se acabassem de sair da galinha.

Estas viagens, porm, eram longas e perigosas; uma vez, para
os lados de Frosinone, um avio metralhou o comboio e
estivemos parados em pleno campo; disse a Rosetta que descesse
e se escondesse em qualquer fosso, mas eu no desci porque
tinha as malas cheias e no compartimento havia algumas caras
pouco tranquilizadoras e uma mala depressa se rouba.
Estendi-me no cho, entre os assentos, com as almofadas em
cima do corpo e da cabea, e Rosetta desceu com os outros e
escondeu-se num fosso. O avio, depois de nos metralhar a
primeira vez, deu uma volta no cu e voltou  carga, voando
baixo por cima do comboio parado, com um barulho infernal dos
motores e o tiquetique continuo das metralhadoras, como
granizo. Passou, afastou-se e tudo ficou em silencio.
Finalmente, os passageiros voltaram ao compartimento e o
combolo partiu, Daquela vez at me mostraram as balas,
compridas

~2





-

como um dedo; uns diziam que eram americanas, outros afirmavam
que eram alems. Eu disse a Rosetta: "Temos de ganhar para o
euxoval e para o dote. Os soldados voltam da guerra, no 
verdade? E na guerra esto sempre a disparar contra eles,
procurando mat-los de todas as formas... Pois bem, ns tambm
havemos de voltar a salvo destas viagens`" Rosetta no
respondia, ou ento dizia-me que iria aonde eu fosse. Tinha um
feitio meigo, diferente do meu, e Deus sabe que, se alguma vez
houve um anjo na Terra, ela era mesmo um anj o.

Eu dizia-lhe constantemente: "Pede a Deus que a guerra dure
ainda alguns anos... porque ento no s ters um bom euxoval
e um bom dote, mas sers rica." Ela no respondia, ou
suspirava, e por fim soube que o namorado andava na guerra e
ela tinha medo que o matassem. Escreviam-se, ele estava nessa
altura na Jugoslvia; pedi h1formaes e vim a saber que era
um bom rapaz de Pontecorvo, onde os pais tinham umas territas;
estudava para guarda-livros e interrompera os estudos por
causa da guerra, mas contava retom-los quando a guerra
acabasse. Ento, disse a Rosetta: "O principal  que ele
volte... do resto encarrego-me eu." Rosetta abraou-me, moito
feliz. E eu podia de facto dizer, nessa altura. "do resto
encarrego-me eu": tinha a casa, tinha a loja, tinha dinheiro
guardado, e as guerras, j se sabe. um dia tem de acabar e
tudo volta aos seus lugares. Rosetta at me deu a ler a ltima
carta do noivo e lembro-me sobretudo duma frase: "Aqui temos
uma vida muito dura. Estes eslavos no querem submeter-se e
estamos sempre em estado de alerta." Eu no sabia nada da
Jugoslvia, mas mesmo assim disse a Rosetta: "Que diabo fomos
nds fazer a esse pais? No podamos ficar na nossa casa? Eles
no querem submeter -se e tem razo, digo-te eu."

Em 1943 fiz um negcio importante: consegui trazer uma dezena
de presuntos de Sermoneta para Roma. Arranjei maneira de
chegar a acordo com o dono duma camioneta que transportava
cimento, ele meteu os presuntos debaixo dos sacos e assim
chegaram sos e salvos e eu ganhei bastante dinheiro, pois
toda a gente os queria. Foi talvez por causa dos presuntos que
nem dei conta do que estava a suceder. Ao voltar de Sermoneta
disseram-me que Mussolini tinha tugido e que a guerra ia
acabar. Eu respondi: "Para mim, Mussolini ou Badoglio ou outro
qualquer, pouco me importa, contanto que se faa negcio." Com
M ussolini, de resto, nunca me importei, achava-o ~mtiptico,
por causa dos olhos ameaadores e daquela boca qu nunca se
calava; alis sempre pensei que as coisas Ihe comecassem a
correr mal, desde o dia em que se meteu com a Petacci, pois o
amor faz perder a cabea aos homens velhos e Mussolini j era
av

1 ~





quando conheceu aquela rapariga. A nica vantagem dessa noite
de 25 de Julho foi terem posto a saque um armazm da
Intendncia, na Via Garibaldi. Fui l, como muitos outros, e
levei para casa,  cabea, um queijo parmeso. Mas havia ali
de tudo e no ficou nada para amostra. Um vizinho meu levou
para casa, num carrinho, o fogo de sala, de terracota, que
estava no gabinete do administrador.

Durante aquele Vero fizeram-se bons negcios, toda a gente
tinha medo e amontoava em casa coisas e mais coisas e nunca
Ihe pareciam bastantes. Havia mais gneros nas adegas e
despensas do que nas lojas. Lembro-me que um dia levei um
presunto a uma senhora, para os lados da Via Veneto. Morava
num lindo palcio. Um criado de libr abriu-me a porta, eu
levava o presunto na mala do costume, e a senhora, moito
bonita e perfumada, com tantas j6ias que at parecia Nossa
Senhora, veio ao meu encontro na antecamara, e atrs dela o
marido, baixinho e gordo, e quase me beijou, tal era a sua
gratido, dizendo-me: "Querida... oh! querida... venha por
aqui, faa favor... entre, entre." Eu segui-a por um corredor
e a senhora abriu a porta da despensa: havia ali de tudo, mais
do que numa mercearia. Era uma diviso sem janelas, com
prateleiras de alto a baixo, sobre as quais se alinhavam todas
as qualidades de gneros: aqui, uma fila de caixas grandes,
das de quilo, de sardinhas em azeite; ali, outras conservas
finas, americanas ou inglesas; mais alm, pacotes de massa,
sacos de farinha e de feijo, frascos de doce e, pelo menos,
uma dezena de presuntos e paios. Eu disse-lhe: "Minha senhora,
tem aqui que comer para dez anos." Mas ela respondeu: "Nunca
se sabe." Ps o presunto ao lado dos outros, o marido pagou-me
ali mesmo e, enquanto tirava o dinheiro da carteira, as mos
tremiam-lhe de alegria e no fazia seno repetir: "Quando
tiver coisas boas, lembre-se de ns... estamos dispostos a
pagar vinte e at trinta por cento mais do que os outros."

Em suma, toda a gente queria coisas de comer e pagava qualquer
preo sem hesitar; por isso nem pensei em guardar para mim
fosse o que fosse, pois me habituara a considerar o dinheiro a
coisa mais preciosa; mas o dinheiro no se come e, quando a
escassez chegou, no tinha absolutamente nada. Na loja, as
prateleiras estavam vazias, no restavam seno alguns pacotes
de massa e umas caixas de sardinha de m qualidade. Tinha,
sim, uns cobres amealhados em casa, e no no banco, por
precauo, pois dizia-se que o Governo queria fechar os bancos
e ficar com as economias dos pobres; mas agora o dinheiro j 
ningum o queria e, alm disso, no me agradava nada, depois
de o ter ganho no mercado negro, ir gast-lo no mesmo

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mercado, onde os preos quase atingiam as estrelas.
Entretanto, tinham voltado os alemes e os fascistas e uma
manh, ao passar na Praa Colonna, vi a grande bandeira negra
dos fascistas a flutuar no balco do palcio de Mussolini e
toda a praa cheia de homens com camisas negras, armados at
aos dentes. Os que tinham feito todo aquele barulho na noite
de 25 de Julho fugiam agora rente aos muros, como ratos quando
aparece o gato. Eu disse a Rosetta: "Oxal uns ou outros
venam rpidamente a guerra, a ver se podemos comer seja o que
for.~> Estvamos no ms de Setembro e uma manh disseram-me
que havia uma distribuio de ovos para os lados da Via della
Vite. Fui l e vi de facto dois camies cheios de ovos. Mas
no distribuam nada e um alemo de calses e em mangas de
camisa, com uma espingarda-metralhadora a tiracolo, vigiava a
descarga. Juntaram-se muitas pessoas em volta a ver
descarregar os ovos sem dizerem nada, mas de olhos esgazeados,
como se estivessem cheias de fome, e na verdade estavam.
Via-se que o alemo tinha medo que o agredissem, pois no
fazia outra coisa seno voltar-se para todos os lados, a mo
na espingarda -metralhadora, dando saltos como uma r na
margem dum pntano. Era novo, gordo e branco, mnito vermelho
por causa do sol, com queimaduras nas c oxas e nos braos c
omo se tivesse pass ado o dia  beira-mar. A multido, vendo
que no distribuam os ovos, comeou e murmurar, primeiro
baixinho, depois cada vez mais alto, e o alemo, que estava
cheio de medo, via-se a uma lgua de distncia, pegou na
espingarda e apontou-a para nds, dizendo: "Embora, embora,
embora!" Ento perdi a cabea, naquela manh no tinha comido
nada e estava com fome, e gritei-lhe: "D-nos os ovos, que ns
vamo-nos embora!" Ele repetiu: "Embora, embora>>, apontando-me
a espingarda; fiz um gesto, a indicar que tinha fome, levando
a mo  boca. Mas ele no se deu por entendido e de repente
ps-me o cano da espingarda mesmo sobre o estmago, com tal
fora que me magoou. Foi tanta a minha raiva que gritei:
"Fizeram mal em mandar embora Mussolini... estava-se melhor no
tempo dele... desde que vocs vieram, no h que comer." No
sei porqu, a estas palavras toda a gente comeou a rir e
alguns charharam-me "labrega", tal qual como o meu marido; um
disse-me: "Em Sgurgola no se lem jornais?" Respondi
enfurecida "Sou de Vallecorsa, e no de Sgurgola... alm
disso, no te conheo e no falo contigo." Mas os outros
continuavam a rir e at o alemo parecia querer rir tambm.
Entretanto iam descarregando os ovos, em caixas abertas, mnito
brancos e lindos, e levavam-nos para dentro do armazm. Ento,
gritei: "Ah! malandros, queremos os ovos, compreendem...
queremos os ovos!" Da multido saiu um policia e ordenou-me:
"Vai





-te embora, que  melhor.. Respondi-lhe: "J comeste hoje? Eu
ainda no.s Ele ento deu-me uma bofetada e empurrou-me para o
meio da turba. Palavra que at tive vontade de o matar; e
debatia-me, dizendo-lhe tudo o que me vinha  cabea; mas em
volta empurravam-me para me afastarem dali e por fim tive de
me ir embora mesmo. Na balbrdia, at perdi n leno.

Fui para casa e disse a Rosetta: "Se no sairmos daqui a
tempo, acabamos por morrer de fome." Ela ps-se a chorar e
murmurou: "Mam, tenho tanto medo!. Senti-me mal, porque at
esse momento Rosetta nunca se lamentara e mais de uma vez me
tinha eneorajado com a sua tranquilidade. Disse-lhe: "Pateta,
porque tens medo?" Ela respondeu: "Dizem que vm com avies e
matam-nos a todos... parece que tm um plano: primeiro
destroem as linhas frreas os comboios e depois, quando Roma
estiver isolada e no houver mais nada que comer e ningum
puder fugir para o campo, matam-nos a todos com os
bombardeamentos... Oh! mam, tenho tanto medo... e Gino no me
escreve h mais de um ms e no sei nada dele!..., Tentei
consol-la. dizendo-lhe as coisas do costume, que eu j no
sabia se eram verdades: que em R oma estava o papa, que os
Alemes iam ganhar depressa a guerra, que no havia razo para
ter medo. Mas ela continuava a soluar. Por fim apertei-a nos
braos e embalei-a como quando tinha dois anos. Enquanto a
acariciava e ela chorava e repetia: "Tenho tanto medo, mam!",
P~. pensava que ela no se parecia comigo, pois no tenho medo
de nada nem de ningum. Mesmo fisicamente, no havia entre ns
grandes parecenas: Rosetta tinha uma cara de borreguinha,
olhos grandes, de expresso doce e quase ardente, o nariz fino
arqueado um pouco para o lbio e uma boca bonita e carnuda
ligeiramente proeminente em relao ao queixo fugidio, tal
como o das ovelhas. Os seus cabelos lembravam a l dos
cordeiros, dum louro-escuro, muito espessos e encaracolados, e
a pele era branca, delicada, salpicada de sardas, ao passo que
eu tenho os cabelos negros e a carnao morena, como queimada
do sol. Finalmente, para acalm-la, disse-lhe: "Todos pensam
que a chegada dos Ingleses  uma questo de dias e, quando
vierem, acaba a escassez... entretanto, sabes o que vamos
fazer? Vamos para junto dos teus avs, para a aldeia, enquanto
a guerra no acaba. H l que comer, feijes, ovos, porcos. No
campo encontra se sempre qualquer coisa." Ela perguntou ento:
"E a casa?" Respondi: "Minha filha, tambm j pensei nisso...
arrendo-a a Giovanni... arrendo-a  uma maneira de dizer...
quando voltarmos, ele entrega-nos a casa tal qual... A loja,
fecho-a, tanto mais que no tem nada dentro e durante algum.
n~mpo

? no haver que vender."

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 bom saber-se que Giovanni era comerciante de carvo e lenha
e fora amigo do meu marido. Era um homenzarro, calvo, de cara
vermelha, bigodes eriados e olhos meigos. Em vida do meu
marido tinham sido companheiros,  noite, na taberna, com
outros negociantes do bairro. Vestia habitualmente fatos
largos e amarrotados e trazia sempre metade dum charuto
apagado entre os dentes, debaixo dos bigodes; nunca o vi sem
um canhenho e um lpis na mo, pois andava constantemente a
fazer contas e a tomar notas e apontamentos. As suas maneiras
eram, como os seus olhos, doces, afectuosas, familiares, e,
quando Rosetta era pequena, perguntava sempre que me via:
"Como est a boneca?... O que faz a boneca?" Direi ainda...
mas no estou bem certa, porque h coisas que acontecem e
depois se duvida que tenham sucedido, principalmente se as
pessoas, como neste caso, no falam mais no assunto e se
comportam como se nada se tivesse passado. Giovanni, ainda em
vida do meu marido, subiu um dia a minha casa, no me lembro a
que pretexto; eu estava junto do fogo a cozinhar e ele
sentou-se e comeou a falar disto ~ daqud`~ e por tim, do meu
marido. Eu Julgava que eram amigos, e por isso pode
imaginar-se a minha surpresa quando, de repente, o ouvi
perguntar: <<Mas dize-me l, Cesira, como consegues aturar
esse malandro?" Disse assim mesmo, "malandro", e eu nem queria
acreditar no que ouvia e voltei-me para ele: estava sentado
tranquilamente, o charuto apagado ao canto da boca.
Acrescentou: "J no se aguenta em p e qualquer dia morre...
mas antes,  fora de andar metido com prostitutas, ainda te
pega alguma doena ruim." Respondi: "Quero l saber do que faz
o meu marido!... Quando entra em casa, j tarde, mete se na
cama, eu volto-me para o outro lado, e boa noite." Ento ele
disse ou pareceu-me ouvir: "Mas tu ainda s nova; queres ir
para freira? s nova e precisas dum homem que te queira bem.~>
Eu tornei-lhe: "Que te importa? No preciso de homens e, mesmo
que precisasse, que tinhas tu com isso?" Nesta altura ele
levantou-se, parece-me que estou a v-lo, veio ao p de mim e
pegou me no queixo, dizendo: "Com vocs, mulheres,  preciso
falar sempre po po, queijo queijo... Eu estou aqui, no vs?
Nunca pensaste em mim?" J passaram tantos anos e as minhas
recordaes baralham-se neste ponto. Mas estou quase certa de
que me fez propostas de amor e lembro-me de lhe ter
respondido: "No te envergonhas? Vicenzo  teu amigo." Ele
retorquiu: "Qual amigo! No sou amigo de ningum." E em
seguida, posso jur lo, disse-me que, se quisesse ser dele, me
dava dinheiro. Abriu a carteira e, ali mesmo, na mesa da
cozinha, comeou a pr, uma a uma, mnitas notas, enquanto me
fitava e repetia: "Mais ainda? Ou basta?" Quando Ihe disse,
sem me zangar,

C. - 2

1 7





que desaparecesse, guardou as notas e saiu. Tudo isto sucedeu
com certeza, porque nao o podia ter inventado, mas no dia
seguinte ele no disse uma palavra sobre o assunto, nem nos
outros dias, nem nunca mais. A sua atitude para comigo voltou
a ser o que sem pre fora, simples e afectuosa, de tal maneira
que comecei a perguntar a mim mesma se acaso no teria sonhado
que ele chamara malandro ao meu marido e me fizera propostas
de amor e pusera dinheiro em cima da mesa da cozinha. Com o
decorrer dos anos, essa sensao de que tudo fora um sonho
prevaleceu no meu espirito. Mas, ao mesmo tempo, nao sei
porqu, tinha a impresso de que Giovanni era o nico homem
que gostava de mim a valer, s pelo que eu era, no pelo que
possuia, e o nico tambm que me poderia valer numa ~ .sio
de apuro.

Por isso fui ter com Giovanni: encontrei-o na sua cave negra,
cheia de molhos de lenha e sacos de carvo, nicas mercadorias
que havia em Roma naquela altura. Disse Ihe o que queria e ele
ouviu-me em silncio, piscando os olhos e mordiscando o
charuto meio apagado. Por fim, anuiu: "Est bem... olharei
pela loja e pela casa enquanto estiveres fora...  uma maada,
especialmente nos tempos que correm... nem sei mesmo porque o
fao... admitamos que seja por aquela boa alma..." Estas
palavras soaram-me mal, pois parecia-me estar ainda a ouvi-lo:
Como consegues aturar esse malandro?" E mais uma vez me
custava a acrclitar no que ouvia. De repente escapou-me:
"Espero que o faas tambm por mim." No sei porque o disse,
talvez por estar convencida de que ele me queria bem e de que
sentiria prazer, naquele momento difcil, de o ouvir afirmar
que o fazia tambm por mim. Ele olhou-me um instante, tirou o
charuto da boca e pousou o na beira da mesa. Depois foi at a
porta da cave, subiu os degraus, `echou-a, pos a tranca,
correu o ferrolho, e ficmos completamente s escuras.
Compreendi logo tudo, fiquei sem poder respirar, o corao
batia-me apressado, mas no posso dizer que aquilo me
desagradava: sentia-me, sim, perturbada. Imagino que a culpa
foi das circunstancias: Roma inteira em desordem, a carestia,
o medo, 0 desespero de deixar a loja e a casa e a sensao de
no ter um homem ao meu lado, como todas as outras mulheres,
que naquele momento me ajudasse e desse coragem. A verdade 
que, pela primeira vez na minha vida, enquanto Giovanni, no
escuro, caminhava ao meu encontro, senti o corpo
quebrar-se-me, tornar-se fraco, vencido; e, quando chegou ao
p de mim, sempre no escuro, e me tomou nos braos, o meu
primeiro impulso foi apertar-me contra ele e unir a minha 
sua boca, arquejante. Ele empurrou-me para cima duns sacos de
carvo e ali me entreguei, sentindo que era a

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primeira vez que me dava verdadeiramente a um homem: e, embora
os sacos fossem duros, experimentei uma sensao de alvio e
de conforto: quando tudo acabou e ele se afastou de mim,
fiquei ainda um bom bocado estendida em cima dos sacos, tonta
e feliz; quase me parecia ter voltado  juventude, ao tempo em
que cheguei a Roma com o meu marido, sonhando experimentar uma
sensao semelhante e, ao contrrio, passara a ter nojo dos
homens e do amor. Por fim, ele perguntou-me no escuro se eu
queria falar do nosso negcio; levantei-me e disse-lhe que
sim, ento acendeu uma lamparina e,  sua luz fraca, vi-o
sentado  mesa, como antes, como se nada tivesse acontecido, o
charuto entre os dentes, os olhos semicerrados. E disse-lhe,
aproximando-me: "Jura-me que nunca contars a ningum o que se
passou hoje... Jura..a'Giovanni sorriu e respondeu: "No sei a
que te referes... No te compreendo... Vieste falar-me a
respeito da casa e da loja, no  verdade?" De novo tive a
impresso de ter sonhado e. se no fosse o vestido em
desalinho e as mascarras de carvo bem visiveis, por me ter
rebolado em cima dos sacos, na verdade podia pensar que nada
acontecera. Balbuciei, desconcertada: "Sim, tens razo... vim
por causa da casa e da loja." Ele ento pegou numa folha de
papel, escreveu uma declarao na qual eu dizia que lhe
alugava a casa e a loja por um ano e mandoume assinar. Depois
meteu a folha de papel numa gaveta. foi abrir a porta e disse:
"Estamos entendidos... hoje vou l a casa fazer o inventrio e
amanh vou busc-las e acompanho-as  estao." Estava ao p
da porta e, quando passei em frente para sair, deu-me uma
palmada no rabo, sorridente, como se dissesse: "Estamos
entendidos tambm neste negcio..." Pensei comigo mesma que j
no tinha o direito de protestar, deixara de ser uma mulher
honesta, e admiti que isto tambm era um efeito da guerra e da
carestia; uma mulher honesta, em certa altura, sente que lhe
dao assim uma palmada e no pode dizer nada, precisamente
porque j no  honesta. . .

Voltei para casa e comecei logo a fazer os preparativos da
partida. Desagradava-me, confrangia-me o corao ter de deixar
aquela casa onde passara os ltimos vinte anos, sem nunca me
afastar dela, a no ser para as viagens do mercado negro.
Estava convencida,  certo, que os Ingleses chegariam dum
momento para o outro, dai a uma semana ou duas, e preparava-me
para uma ausncia de um ms apenas; mas, ao mesmo tempo, tinha
no sei que pressentimento nao s duma ausncia maior, mas
tambm de que o futuro me reservava qualquer tristeza. Nunca
me importara com a poltica e nao sabia nada dos fascistas,
Ingleses, Russos ou Americanos: todavia,  fora de ouvir
falar de tudo isso  minha

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volta, no digo que compreendesse j alguma coisa, porque,
para falar verdade, no compreendia patavina, mas percebia que
no andava nada de bom no ar para a pobre gente como ns. Era
como no campo quando o cu se pe negro  aproximaco da
tempestade, as folhas das rvores se voltam todas para o mesmo
lado, as ovelhas se encostam umas s outras e, embora no pino
de Vero, sopra um vento frio rente  terra, no se sabe
donde. Tinha medo, mas no sabia de que, e apertava-se-me o
corao ao pensar que ia deixar a minha casa e a minha loja,
como se soubesse ao certo que no as tornaria a ver. Disse,
porm, a Rosetta: "No leves muita roupa, pois no estaremos
l mais de duas semanas e ainda faz calor." De facto,
estvamos em meados de Setembro e fazia bastante calor, mais
do que nos outros anos.

Assim, enchemos duas pequenas malas de fibra com roupas leves
e metemos nelas smente dois casacos de malha, para o caso de
fazer frio. Eu, querendo consolar-me da partida, descrevia
constantemente a Rosetta o acolhimento que os meus pais nos
fariam l na aldeia: "Vers, vo encher-nos de comida at mais
no podermos... engordaremos e descansaremos... no campo no
existem todas estas coisas que tornam dificil a vida em
Roma... estaremos bem, dormiremos bem, e sobretudo comeremos
melhor... vers: tm porco, farinha, fruta, vinho... Vai ser
uma vida regalada." Mas a Rosetta esta perspectiva parecia que
no bastava para a alegrar, pensava no noivo, que estava na
Jugoslvia e h um ms no dava notcias. Eu sabia que ela se
levantava cedo todas as manhs e ia  igreja rezar por ele,
para que no Iho matassem e voltasse e pudessem casar.
Querendo mostrar que a compreendia, disse-lhe, abracando-a e
beijando-a "Querida filha, tranquiliza-te, Nossa Senhora v-te
e ouve-te e no permitir que te suceda nenhum mal."
Entretanto, continuava os preparativos da abalada e agora,
passado o momento das apreensoes, parecia-me que nunca mais
chegava a hora de partir. Talvez porque nos ltimos tempos,
com os alarmes areos, a falta de comida, a ideia de partir e
tantas outras coisas, a vida para mim j no era vida, at nem
tinha vontade de limpar a casa, eu que habitualmente me punha
de joelhos no cho para Ihe dar brilho e no parava de
esfregar enquanto tinha f'lego, tornando-a luzidia como um
espelho. Parecia-me que a vida se desconjuntara, como uma
caixa que cai dum carro e se desfaz, espalhando tudo o que
contm na rua. Se pensava no que acontecera com o Giovanni,
sobretudo na palmada que ele me dera, sentia me desconjuntada
como a vida e capaz de fazer no sei o qu. at de roubar ou
de matar. porque perdera o respeito por mim mesma e no era j
0 que fora antes. Consolava-me

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pensando em Rosetta, que. ao menos, tinha a mae para a
proteger. Ela seria aquilo que eu j no era. Ah! Na verdade,
a vida  feita de hbitos e at a honestidade  um hbito
tambm; e, assim que se muda de hbitos, a vida torna se um
inferno, somos diabos  solta, sem respeito por ns prprios
nem pelos outros.

Rosetta estava preocupada com o seu gato, um lindo gato pardo
que encontrara na rua ainda pequenirlo e criara com todo o
carinho:  noite dormia corn ela na camA e de dia seguia-a
para toda a parte como nm cozinho. Disse Ihe que o confiasse
 porteira do prdio ao lado e resporideu rne que assim faria.
Agora estava sentada no quarto, aos ps da cama, sohre a qual
se encontrava a mala de viagern, J techada, com o gato nos
joelhos. e acariciava-o devagarinho. O gato, coitado. no
adivinhando que a dona o ia abandorlar, tazia ronrom de olhos
fechados. Tive pena, vi que ela sofria, e disse Ihe "Querida
filha... deixa passar este mau bocado, que depois tudo entrar
nos eixos... a guerra acaba, volta a abundncia, tu casas-te,
vivers com o teu marido e sers feliz." Precisamente nesse
momento, como para me dar resposta, soou a sereia de alarme,
aquele rudo maldito que me parecia trazer mau agoiro e me
confrangia sempre o corao. Ento possuiu-me no sei que
raiva, abri a Janela que dava para o saguo, levantei o punho
para o cu e gritei: "Que morras e nem a alma se te aproveite
e mais quem te mandou c vir!" Rosetta, que no se mexera,
observou "Mam, porque te zangas tanto? Disseste agora mesmo
que tudo h-de voltar ao seu lugar... " Por amor daquele anjo,
acalmei-me, embora com esforo, e respondi "Sim, mas
entretanto temos de sair da nossa casa e quem sabe o que
suceder mais ainda..."

Naquele dia sofri as penas do Inferno. Parecia-me que j no
era eu. Ora pensava no que tinha sucedido com Giovanni, que me
entregara a ele como qualquer reles mulher da rua,
completamente vestida, em cima dos sacos de carvo, e dava-me
vontade de morder as mos de raiva: ora olhava em volta, para
a casa que fora minha durante vinte anos e que tinha agora de
deixar, e sentia-me desesperada. Na cozinha, o lume estava
apagado; no quarto, onde eu dormia com Rosetta no leito
conjugal, os lenis estavam revolvidos, em desordem; e no
sentia forcas para fazer a cama, na qual sabia que no havia
de dormir to cedo, nem para acender o fogo, que no dia
seguinte j no seria meu e onde no tornaria a cozinhar.
Comemos, na mesa sem toalha, po e sardinhas; de vez em quando
olhava para Rosetta, muito triste, e sentia um n na garganta,
cheia de pena e de medo por ela, pensando que tivera pouca
sorte em nascer e viver nos tempos que corriam. Por volta das
duas horas deitmo-nos na cama por fazer e dormimos um pouco;

21





ou, melhor, Rosetta adormeceu, mnito aconchegada a mim, e eu
fiquei de olhos abertos, pensando todo o tempo em Giovarmi,
nos sacos de carvo e na palmada que ele me dera, na casa e na
loja que ia deixar. Finalmente bateram  porta; furtei-me com
todo o cuidado ao peso de Rosetta adormecida e fui abrir. Era
Giovanni, sorridente, de charuto na boca. Nem o deixei
respirar: "Ouve", disse

lhe, furiosa, "o que aconteceu, aconteceu, e no sou mais o
que era antes, concordo, e tens razo para me tratar como uma
prostituta... mas se me ds outra palmada como esta manh,
mato te, to certo como Deus existir... depois vou para a
priso, mas nesta altura pode ser at que se esteja l bem, e
vou de boa vontade." Ele apenas arqueou um pouco as
sobrancelhas, surpreendido, mas no disse nada. Passou 
antecmara, pronunciando baixinho: cEnto vamos l fazer o
inventrio."

Fui ao quarto e peguei numa folha de papel em que mandara
escrever a Rosetta tudo quanto tinha em casa e na loja. Ali
discriminara at os mais pequenos objectos, no porque desc
onfiasse de Giovanni , m as p orque  mais se guro no c
onfiar em ningum. Assim, antes de comear o inventrio,
disse-lhe, muito sria: <<Olha que tudo isto foi ganho com o
meu suor e o do meu marido, em vinte anos de trabalho... toma
cuidado, guarda tudo bem, lembra-te que um prego  um prego, e
aqui dentro no deve faltar nada quando eu voltar." Ele sorriu
e respondeu: <<Est descansada, encontrars c os pregos
todosa~

Comecei pelo quarto. Tinha feito duas cpias desta lista: uma
entreguei-a a ele e outra a Rosetta e eu ia indicando os
objectos. Mostrei-lhe a cama, para duas pessoas, de ferro
pintado a imitar madeira, to bonita, com todos os veios e
llOS a conhecerern-se, que qualquer um julgaria ser de
nogueira. Levantei a coberta e mostrei -lhe que tinha dois
colches, um de crina e outro de l. Abri o armrio e contei
as colchas, os lenis e toda a roupa branca. Abri as mesinhas
de cabeceira e mostrei-lhe os bacios de porcelana, com f~ores
vermelhas e azuis. Depois enumerei os mveis. uma cmoda com
tampo de mrmore branco, um espelho oval com moldura dourada,
quatro cadeiras, uma cama, duas mesinhas de cabeceira, um
guarda-vestidos com espelho nos dois batentes. Apontei todas
as ninharias: uma redoma de vidro com um ramo de f.ores de
cera que pareciam mesmo verdadeiras, prencla de casamento da
minha madrinha; uma caixa de porcelana para arnndoas; duas
estatuetas que representavam uma pastorinha e um pastorinho;
uma almofada de veludo azul para alfinetes; uma caixa de
msica de Sorrento que, quando se abria, tocava uma riazinha
e tinha na tampa um embutido representando o Vesvio; duas
garrafas para gua e os

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respectivos copos de vidro gravado e macio; uma jarra de
porcelana colorida, em forma de tlipa, com trs penas de
pavo mnito bonitas. em vez de flores; dois quadros a cores,
um com a Nossa Senhora e o Menino e outro com uma cena de
teatro, um mouro e uma mulher loura, que me tinham dito ser
duma pera chamada Otelo, que era tambm o nome do mouro. Do
quarto passei  sala de jantar. que servia igualmente de sala
de visitas e onde tinha a mquina de costura. Aqui quis que
ele tocasse na mesa redonda, de nogueira escura, com um centro
bordado e uma jarra de flores igual  do quarto e quatro
cadeiras em volta, forradas de veludo verde; depois abri o
guarda-loia e contei pea por pea todo o servio de
porcelana com flores e grinaldas, muito bonito, para seis
pessoas, que talvez tivesse servido apenas umas duas vezes em
toda a minha vida. Nessa altura adverti-o: "Olha que quero
tanto a este servico como  luz dos meus olhos... se o
partires, vers...~> Ele respondeu a sorrir: <<Est
descansada.~> Continuando o inventrio, mostrei-lhe todos os
outros objectos: dois quadros de flores, a mquina de costura,
o aparelho ae rdio, o sof estofado com as duas poltronas, a
licoreira, de vidro cor-de-rosa e azul, com seis clices,
algumas caixas para bolos, um bonito leque que estava
pendurado na parede, de vrias cores, com uma vista de Veneza.
Depois passmos  cozinha e aqui contei, pea por pea, todo o
trem de cozinha, panelas de aluminio e de cobre, faqueiro de
ao inoxidvel, e mostrei-lhe que nao faltava nada, nem o
forno, nem a mquina de esmagar batatas, nem o armriozinho
das vassouras, nem o caixote do lixo. Em suma, viu tudo; a
seguir descemos  loja. Aqui o inventrio foi mais rpido
porque, fora as prateleiras, o balco e algumas cadeiras, no
ficara nada, tudo se tinha vendido, fora uma limpeza geral nos
ltimos meses de penria. Finalmente voltmos para cima. Ento
suspirei, desanimada: "Para que serve este inventrio?...
Sinto que no voltarei mais." Giovanni, que se sentara e
fumava, abanou a cabea e respondeu: "Os Ingleses chegam daqui
a quinze dias, at os fascistas o dizem... vais para frias
duas semanas e voltas e faremos uma bela festa quando
chegares... Que dizes a isto?~> Giovanni, depois destas
palavras, ainda acrescentou muitas outras para nos consolar e
quase o conseguiu; assim, quando se foi embora, ficmos mais
animadas e ele, desta vez, embora estivssemos szinhos na
antecamara, no repetiu a palmada, contentou-se em fazer-me
uma caricia na face. como costumava fazer mnitas vezes em vida
do meu marido, e eu fiquei lhe grata e quase me pareceu, na
verdade, que nada se passara entre ns e continuava a ser a
mesma que sempre fora.

O resto do dia passei-o a ultimar os preparativos. Primeiro
que

Z3





tudo, fiz um grande embrulho da comida para a viagem: um
salame, caixas de conserva de sardinha e de atum e um bocado
de po. Para o meu pai e a minha mae fiz um embrulho  parte:
para o meu pai, um fato do meu marido, quase novo, que ele
mandara fazer pouco antes de morrer e me pedira que Iho
vestisse quando fosse para a cova; mas eu, no ltimo momento,
pensei que era um pecado estragar assim um fato to bom de l
azul e embrulhei-o num lencol velho. Meu pai tinha quase a
mesma estatura que o meu marido e ao fato juntei tambm os
sapatos, J usados, mas ainda em bom estado. Para a minha me,
decidi levar-lhe um xaile e uma saia. Meti no pacote tudo o
que me restava de salsicharia e de mercearia, alguns quilos de
acar e de caf, conservas e dois salames. Pus estas coisas
numa terceira mala, de modo que tnhamos agora trs malas,
mais um saco em que pus duas almofadas, para o caso de sermos
obrigadas a dormir no comboio. Toda a gente me dizia que os
comboios levavam dois dias a chegar a N poles e ns amos
precisamente at meio caminho entre Roma e Npoles; por isso
pensei que estas precauses no eram demasiadas.

 noite sentmo-nos  mesa, mas desta vez cozinhara alguma
coisa para no entristecer ainda mais; mal tnhamos comecado,
soou o alarme e vi que Rosetta se tornava plida de medo, toda
ela tremia; compreendi que, depois de resistir tanto tempo,
agora j no podia mais, tinha os nervos num feixe.
Resignei-me a deixar a ceia e descemos para a cave, precauo
alis intil, porque, se casse alguma bomba, a nossa casa,
velha como era, frcava feita em p e ns enterrados debaixo
dela. Mesmo assim, l fomos para o abrigo, onde j estavam
todos os inquilinos do prdio, e a passmos trs quartos de
hora, sentadas nos bancos, no escuro. Todos falavam da chegada
dos Ingleses como de coisa certa, da a poucos dias. Tinham
desembarcado em Salerno, que fica ao p de Npoles, e de
Npoles a Roma no levavam talvez uma semana, mesmo a andar
devagar, porque os Alemes e os fascistas fugiam agora como
lebres e no paravam seno nos Alpes. Alguns, porm, diziarn
que os Alemaes se preparavam para defender Roma, pois
Mussolini continuava na cidade e no se importava nada que ela
ficasse redozida a escombros, contanto que os Ingleses l no
entrassem.

Eu ouvia estas coisas e pensava que fazia bern em ir me
embora. Rosetta achegava-se muito a rnim e eu compreendia que
ela agora estava cheia de medo e s sossegarra quando
sassemos de Roma. Em certa altura, algum atirou: "vabem o
que dizem? Que vo lancar pra quedistas e que eles entram nas
casas e f`azem coisas do arco-da velha." "O qu?" <<Bem,
primeiro pilham o que encontrarem, depois atiram-se s
mulheres.~> Ento eu disse "Sempre quero ver se

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algurn tem a coragem rR~ me tocar.~> N" escur-o a voz dum tal
Proietti, um pade.ro horrlem estfpido como no havia outro e
de lngua comprida, corn quem nunca simpatizei prot`eriu, numa
risada <<A ti talvez no te toquem, porque j s velha . mas 
tua filha, no digo nada.> Rr~sponfli "V l como fala~ .. eu
tenho trinta e cinco anos, pois casei acc dezassei`, e h
ainda quem queira casar comigo ,. se no tornei a casar, foi
porque no quis.~> "Sim,\, respondeu ele, "a raposa e as
uvas." Eu disse ento, furiosa: " melhor que penses na cabra
da tua mulher... ela j agora tos pe e no esto c os
pra-quedistas... imagina o que no ser depois...~\ Julgava
que a mulher estivesse na aldeia, eles eram de Sutri e tinha-a
visto partir uns dias antes; no entanto, por coincidncia, ela
estava tambm no abrigo e eu nao a vira por causa do e~curo.
Mas ouvi-a imediatamente berrar "Cabra s tu, bbecia.
velhaca, desgracada!" E senti que ela agarrava Rosetta peloc
cabelos, julgando que era eu, e Rosetta gritava e a outra
batia-lhe, Ento, sempre no escuro, atirei-me a ela e rolmos
as duas pelo cho, dando rJancadas e arrancando os cabelos uma
 outra. enquarZto todos gritavam e Rosetta chorava, rezava e
chamava por mirn, Acabaram por separar-nos. sempre no escuro,
e creio que tambm aos pacificadores coube alguma lambada
porque, de repente, quando nos separaram, tocou a sereia do
im do alarme e algum acendeu a luz estvamos uma em t'rente
da outra, desgrenhadas e arquejantes, presas pelos bracos. e
os que 'IOS agarravam, um tinha a cara arranhada e os outros
os c abelos em desalirlllo, Rosetta solucava a um canto,

Naquela noite, depois desta cena deitrno nos muito cedo, sem
sequer acabarmos a ceia, que ticou em cima da mesa e na manh
seguinte ainda l estava Na cama, Rosetta aninhou-se a mim,
como quando era pequenina e como h muito tempo j no fazia,
Perguntei-lhe: "O qu, ainda tens medo?" Ela respondeu: "No,
no tenho medo mas  verdade, mam. que os pra quedistas
fazem aquilo s mulheres?~> E eu "No ds ouvidos a es,se
parvo ,, nao sabe o que diz.~' "Mas  verdade?~' insistiu ela,
E eu: `<No, no  verdade,, e. de resto, ns partimos amanh,
varnos para o campo e l no acontece nada, est tranquila," R
osetta ficou calada um momento, depois disse: <<Mas, para que
possamos voltar para casa, quem deve ganhar, os Alemes ou os
Ingleses?~, Esta pergunta deixou me atrapalhada, porque, como
j disse, nao lia jornais e, alm disso, nunca me interessou
saber como ia a guerra Respondi: "No sei o que combinaram,,,
sei s que so todos uns flhos da me, Ingleses e Alemes,., e
que fazem a guerra sem perguntarem nada a ns, os pobres,,,
Tvas sabes o que te digo? Precisamos que qualquer

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deles venca a srio e que a guerra acabe... Alemes ou
Ingleses, no importa, contanto que um seja o mais forte."

Mas ela insistiu: <Todos dizem que os Alemes so maus... mas
o que fazem, mam?" Ento, respondi: "0 que fazem? Em vez de
estarem na terra deles, vieram para c aborrecer-nos... por
isso os olhamos de mau modo.~> <<Mas para onde vamos",
perguntou ela, <<esto l os Alemes ou os Ingleses?~> Eu no
sabia que responder e disse: <<L no h alemes nem
ingleses... h campos, vacas, camponeses e est-se bem...
agora dorme.~> Rosetta no disse rr ais nada, aninhou-se a mim
e pareceu-me que acabou por adormecer.

Que noite aquela~ Eu acordava a todo o momento e creio que
Rosetta tambm no pregou olho, embora fingisse dormir para
no me inquietar. s vezes julgava me acordada e estava a
dormir e a sonhar que acordava, outras vezes supunha-me a
dormir e, ao contrrio, estava acordada e o cansaco e o
nervosismo iludiam-me. Jesus no horto, na noite em que Judas o
foi prender, no sofreu tanto como eu naquela noite. Apertava
se-me o corao ao pensar que ia deixar a casa onde vivera
tantos anos e receava que metralhassem o comboio durante a
viagem, ou ento que deixasse de haver comboios, pois dizia se
que dum dia para o outro Roma ficaria isolada. Pensava tambm
em Rosetta e na verdadeira desgraca que era para mim j no
ter marido, porque duas nulheres szinhas no mundo. sem um
homem a gui-las e a proteg-las, so, em certo sentido, como
duas cegas que caminham sem ver e sem saber onde se encontram.

Uma vez, no sei que horas eram, ouvi tiros na rua; j estava
habituada quilo, disparavam todas as noites, parecia que
andavam a atirar ao alvo, mas Rosetta acordou e perguntou: "O
que , mam?" Respondi: <<Nada, nada... so esses filhos da
me que se divertem a dar tiros... no se matarem eles uns aos
outros..." Outra vez passou uma fila de camies, mesmo rente 
casa, e todo o prdio tremia; os camies no acabavam de
passar: quando parecia que era o ltimo, logo outro rodava com
um barulho de ensurdecer. Eu abracava Rosetta, que tinha a
cabeca sobre o meu peito, e, de repente, talvez por isso,
lembrei-me de quando ela era pequenina e lhe dava de mamar; eu
tinha os peitos sempre cheios de leite, como todas as
camponesas da Ciociaria, que somos conhecidas como as melhores
amas do Lcio, e ela sugava todo aquele leite e ficava cada
dia mais bonita, era mesmo uma flor, at as pessoas paravam na
rua para a ver, e disse de rnim para mim que teria sido talvez
melhor ela no ter nascido do que viver num mundo de
ansiedades, perigos e medo. Mas depois reflecti que essas
ideias s se tem  noite e  pecado pensar em tais coisas. E
no escuro fiz o sinal da cruz e

Z6





encomendei-me a Jesus e  Virgem. Ouvi cantar um galo na casa
ao lado, onde morava uma familia que tinha uma capoeira na
retrete, e pensei que no tardaria a nascer o dia. Julgo que
ento adormeci,

Acordei sobressaltada com a campainha da porta, que tocava e
tornava a tocar, como se algum estivesse a toc-la h
bastante tempo. Levantei-me no escuro e fui abrir. Era
Giovanni. Entrou, dizendo: "Ena, que sono, estou a tocar h
uma hora.~> Eu estava em camisa; ainda hoje tenho o peito
rijo, bem direito, sem necessidade de o amparar, e naquela
altura era ainda mais belo, os seios fortes e firmes, os bicos
salientes, como se quisessem por fora fazer-se notar por
haixo da camisa. Vi que ele me olhava o peito e que os seus
olhos ardiam sob as sobrancelhas, como dois carvoes em brasa
debaixo das cinzas. Cornpreendi que estava prestes a atirar-se
a mim e disse-lhe, de sbito, dando uns passos atrs: "No,
Giovanni, no... para mim no existes mais e deves esquecer o
que sucedeu... se no fosses casado, casava contigo... mas s
casado e entre ns no deve haver mais nada.~> Ele no disse
sim nem no. mas via-se que se esforava por dorr.inar-se. Por
fim l o conseguiu, dizendo, numa voz natural: `<Tens razo...
esperemos que aquele estafermo da minha mulher morra durante a
guerra... assim, quando voltares, estarei vivo e casamos...
morre por a tanta gente boa com os bombardeamentos, porque
no h-de ela morrer?" E eu mais uma vez fiquei apalermada; ao
ouvir-lhe tal coisa, quase no queria acreditar no que ouvia,
tal como quando ele chamara malandro ao meu marido, pois at
ento julgava-os muito amigos, por assim dizer inseparveis.
Conhecia a mulher de Giovanni e sempre supus que ele gostasse
dela, ou pelo menos lhe tivesse afeiao, pois estavam casados
h muitos anos e tinham trs filhos; no entanto, eis que o
ouvia falar dela com dio, desejando-lhe at a morte, e. pela
maneira como falava, dava bem a entender que a odiava h mnito
tempo e no sentia por ela seno dio, mesmo que alguma vez
lhe tivesse manifestado outro sentimemo. Para falar verdade,
quase me assustou pensar que um homem pudesse ser amigo de
outro e marido duma mulher durante tantos anos e depois Ihes
chamasse, com tamanha frieza e perversidade, malandro a ele e
estafermo a ela. Mas no disse nada disso a Giovanni, que
entretanto fora para a cozinha, onde o ouvia a gracejar com
Rosetta, tambm j levantada: "Vers que voltam as duas mais
gordas; para vocs ser essa a nica consequncia da guerra...
L no campo h queijos, ovos, cordeiros... vo comer do bom e
do melhor."

Estava tudo pronto; levei as trs malas e o saco com os
embrulhos para a entrada; Giovanni pegou em duas malas, eu
peguei no saco e Rosetta na mala mais pequena. Os dois foram

2

27





descendo as escadas enquanto eu fingia demorar-me a fechar a
porta; logo que os vi afar a volta pare descerem outro lanco,
entrei de novo em case, fui ao quarto, levantei um tijolo do
pavimento e tired o dinheiro que l tinha escondido. Era uma
some importante pare aquele tempo, toda em notes de mil e no
quis tir-la na presena de Rosetta, porque com o dinheiro
todos os cuidados so poucos e uma inocente pode cometer a
imprudncia de dizer o que no deve, e em questes de dinheiro
no devemos cont`iar em ningum. Levantei a saia e meti as
notac dentro dum saquinho de pano que tinha feito de
propsito. Depois fui juntar me a Giovam~i e a Rosetta na rue.

 porta estava uma carroa, pods Giovanni no quis servir-se
do camio do carvo, com medo que Iho requisitassem. Giovanni
ajudou-nos a subir e depots subiu tambm. A carroa partiu e
eu no puce deixar de voltar-me pare trs e olhar pela ltima
vez a minha case e a minha loja, pods tinha o mau
pressentimento de que nunca mais as tornaria a ver. Ainda no
era dia. mas j no era noise, e na semiobscuridade do
alvorecer vi a minha case, que fazia esquina, com as janelas
sodas fechadas, e, no rs-do -cho, a loja com os taipais
corridos. Em frente havia outra case, tambm de esquina, que
tinha no segundo andar, num nicho, um medalho com a irnagem
da Virgem circundada de raios de ouro e uma lamparina
continuamente acesa. Pensei que aquela luzinha que ardia at
em tempo de guerra, at em tempo de fome, era um pouco como a
minha esperana de voltar e semi-me um tanto confortada essa
esperanca continuaria a aquecer-me quando estivesse longe. Na
claridade cinzenta, a esquina da rue dir-se-ia um palco de
teatro vazio, depots de os actores o terem abandonado: via-se
que eram cases de gente pobre. pequenos casebres, em suma, um
pouco inclinadas, como que pare se apoiarem umas s outras, e
um pouco esfoladas, especialmente no rs-do cho, por cause do
roar de carrocas e automveis, mesmo ao lado da minha loJa
ficava a carvoaria de Giovanni e em volta da porta estava tudo
negro como a boca dum forno: quela hora. todo esse negrume,
no sei porqu, me pareceu imensamente triste... e lembrei-me
que durante 0 dia. nos bons tempos, essa rue estava sempre
cheia de gente, pessoas que passavam, mulheres sentadas em
cadeiras de palhinha na soleira das portas, gatos
vagabundeando na calada, garotos a correr e a salter  corda,
jovens a caminho das oficinas ou entrando na taberna, semp~ ~
~ ne~a. tit nsar~cto em tudo isto, senti despedaar-se-me o
corao e percebi que aquelas cases e aquele stio me eram
queridos, talvez porque tivesse passado ali quase toda a vida:

28





quando os vira pela primeira vez, era ainda rapariga e agora
era uma mulher feita, com uma filha j crescida. Disse a
Rosetta "No olhas pare a nossa case, no olhas pare a loja?"
Ela respondeu: <<Mam, sossega, tu prpria me disseste que
voltamos daqui a poucas semanas.>, Suspirei e no disse mais
nada. A carroa dirigiu se pare o Tibre e ento voltei me e d~
: ~e olhar.

J ~o.rs as ruas estavam desertas e o ar cinzento do amanhecer
dava a ideia do vapor da barrela quando a roupa est mnito
suja. No cho, o orvalho fazia brilhar o empedrado. que dir se
ia de ferro. No passava ningum, smente os ces: vi cinco ou
sets, feios, esfomeados e sujos, a farejar os cantos e a alar
a perna contra as ~ paredes, donde pendiam, rasgados, os
manifestos coloridos que j incitavam  guerra. Passrnos o
Tibre na Ponte Garibaldi, percorremos a Via Arenula,
atravessmos a Praa da Argentina e a Praa de Veneza. N a
sacada do palcio de Mussolini pendia a mesma bandeira negra
que tinha visto dies antes na Praa Coionna e dois fascistas
armados estavam postados ao lado da porta, A praa deserta
parecia major do que o costume. Primeiro no vi ofascio de
ouro na bandeira negra, parecou-me mesmo uma bandeira de luto,
tanto mais que no havia vento e pendia no mastro como aqueles
crepes que se pem nas portas quando morre alqum no prdio.
Depois, l vi o fascio de ouro, emblema de Mussolini, por
entre as cobras da bandeira. Perguntei a Giovanni: "Mas
Mussolini voltou?~> Ele fumava a ponta dum charuto e respondeu
com nfase: "Voltou e esperamos que pare sempre.~> Fiquei de
boca aberta, pods sabia que no simpatizava nada com
Mussolini; mas ele estava constantemente a causer-me surpresas
e por isso nunca podia | prever o que Ihe passava pela cabea.
Mas logo senti uma pequena I cotovelada e vi que me piscava o
olho na direco do cocheiro, como quem queria dizer que
aquelas palavras eram apenas pare o outro ouvir. Pareceu me um
exagero, o cocheiro era um pobre velho, via-Ihe os cabelos
brancos a aparecer em todo o lado por baixo do bon, parecia
mesmo o meu av, decerto no era espio, mas no disse nada.

Seguimos pela Via Nacional e o ar j estava menos cinzento: no
cimo da Torre de Nero via-se at uma faixa luminosa de sol.
Mas, quando chegmos  estaco e entrmos. l dentro era como
se ainda fosse noise, com sodas as lampadas acesas por cause
da escurido. A estaco estava apinhada de gente, a major
parse gente pobre como ns, com os seus embrulhos, mas havia
tambm muitos soldados alemes, carregados de armas e
mochilas, de p, uns junto dos outros, nos cantos mais
escusos. Giovanni 'oi comprar os bilhetes e deixou nos all,
com a bagagem, no meio da estao, Enquanto

2'}





espervamos, soou de repente um enorme banz e vimos aparecer
uma dezena de motociclistas, todos vestidos de negro, como os
diabos do Inferno. Depois da bandeira negra da Praa de
Veneza, aqueles motociclistas, vestidos tambm de negro,
inspiraram-me tal indignaco que pensei: <<Mas porque negro,
porqu todo este negro? Estes filhos duma cabra, com a sua
maldita cor, acabam por nos deitar mau olhado." Os
motociclistas pararam as motos, encostaram nas s colunas da
entrada e postaram-se aos lados da porta, a cara meio tapada
pelos capacetes de couro negro e as mos nas pistolas que
traziam nos cintures. Nesse momento faltou-me a respiraco,
tive medo, o coraco comecou a bater-me apressado, pensei que
aqueles motociclistas negros tinham vindo ali e guardavam as
sadas para prender toda a gente, como muitas vezes sucedia,
metendo depois as pessoas em camies, para nunca mais se saber
delas. Olhei em volta,  procura duma sada por onde pudesse
escapar. Foi entao que vi aproximar-se um grupo de homens,
enquanto outros gritavam: <<Deixem passar! Deixem passar!"
Compreendi que aqueles motociclistas estavam ali por causa da
chegada dalguma personagem importante. No a cheguei a ver,
com toda aquela multido no se podia ver nada, mas logo a
seguir tornei a ouvir o barulho das malditas motocicletas e
conclu que iam atrs do automvel da tal personagem.

Giovanni veio buscar-nos, com os bilhetes na mo, dizendo-nos
que eram para Fondi: da, atravessando a montanha, poderamos
atingir a aldeia. Entrmos na gare, dirigimo-nos para o
comboio. Ali j havia sol, os seus raios alongavam se no
pavimento e parecia o sol que se v nas salas dos hospitais e
nos ptios das prises. No se via ningum e o con.boio, muito
com prido, dir-se-ia vazio. Mas, quando subimos e comemos a
andar nos corredores, verifiquei que estava completarnente
cheio de soldados alemes, todos armados, as mochilas s
costas, os capacetes enterrados at aos olhos, as espingardas
entre as pernas. Havia no sei quantos, passvamos dum
compartimento para outro e vamos sempre oito soldados
alemes, com toda a sua tralha, parados e mudos como se
tivessem recebido ordem para no se mexerem nem falarem.
Finalmente, numa carruagem de terceira, encontrmos italianos.
Estavam amontoados nos corredores e nos compartimentos, como
animais levados para o aougue e que no importa instalar
cmodamente, pois da a pouco vao morrer; tambm eles. como os
alemes, no diziam nada e no se mexiam: mas compreendia-se
que a sua imobilidade e o seu silncio eram devidos ao cansao
e ao desespero, ao passo que os alemes estavam prontos a
saltar do comboio e a

30





combater imediatamente. Disse a Rosetta: <`Vers que teremos
de fazer toda a viagem em p." De facto, depois de andarmos
no sei quanto tempo, com aquele so] que entrava pelos vidros
sujos e j abrasava as carruagens. conseguimos arrumar as
malas no corredor e ali nos acomodmos como pudemos. Giovanni,
que nos acompanhava, disse nos nesse momento: "Bem, vou
deix-las, daqui a pouco o comboio parte.~> Mas um fulano
qualquer, vestido de preto e sentado em cima duma mala,
rebateu-o, taciturno, sem levantar os olhos: <<Daqui a pouco,
 uma maneira de falar,.. estamos  espera j h trs
horas...~>

Por fim, Giovanrli despediu-se, beijou Rosetta nas duas faces
e.a mim ao canto da boca; talvez quisesse beijar me mesmo na
boca, mas eu voltei a cara a tempo. Logo que Giovanni partiu,
sentmo

nos em cima das malas, eu na mais alta e Rosetta na mais
baixa, com a cabea apoiada nos mous joelhos. Rosetta, depois
de estarmos assim meia hora, sem falar, perguntou: "Mama,
quando partimos?~> Eu respondi: <<Minha filha, sei tanto como
tu.~'E fiquei ali quieta. com Rosetta agachada aos rneus ps,
nem sei quanto tempo. As pessoas no corredor dormitavam e
suspiravam, o sol queimava e l fora, no cais, no se ouvia um
nico rumor. Os alemes estavam mnito calados, dir se-ia que
nem estavam ali. Mas, de repente, no compartimento ao lado,
comearam a cantar. No se pode dizer que cantassem mal, vozes
baixas e roucas, mas afinadas, porm eu, que ouvira tantas
vezes cantar alegremente os nossos soldados, como sempre fazem
quando viajan. juntos, enchi-me de tristeza porque cantavam na
lngua deles qualquer coisa que me parecia muito triste. Era
um canto arrastado e lento e fiquei com a impresso de que no
tinham grande vontade de andar na guerra. Por isso, disse
quele homem vestido de negro que ia ao meu lado: "A guerra
tambm no lhes agrada... no fim de contas, so homens como os
outros... ouve como cantam com tristeza.~> Mas ele resmungou:
"No entendes nada disto...  o hino deles...  como a nossa
marcha real.~> Em seguida, passado um momento de silncio: "A
verdadeira tristeza temo-la ns, os Italianos.~>

Finalmente, o comboio ps-se em movimento, sem um apito, sem
um toque de corneta, sem barulho nenhum, como por acaso.
Queria encomendar-me uma ltima vez  Virgem, para que nos
protegesse, a mim e a Rosetta, de todos os perigos com que
iriamos deparar. Mas veio-me um sono to grande que no tive
foras. Pensei smente: "Estes filhos duma cabra...~> E nao
sabia se pensava nos Alemes, ou nos Ingleses, ou nos
'ascistas, ou nos Italianos... Talvez um pouco em todos eles.
E assim adormeci.





CAptulo II

Acordei uma hora depois e o comboio estava parado. Reinava  um
grande silncio. Dentro da carruagem, agora, quase nem se
podia respirar com o calor: Rosetta levantara-se e fora para a
Janela, a olhar no sei o qu. Muitos outros assomavam tambm
s janelas, em fila. ao longo do corredor. Levantei me a
custo, sentia-me suada e tonta, e aproximei-me de Rosetta.
Havia sol, e via o cu azol, os campos verdes, as colinas
cobertas de vinhedos e numa delas, mesmo na nossa frente, uma
casinha branca, recentemente incendiada. Das janelas saam
ainda lnguas vermelhas de fogo e nuvens negras de f`umo, e
aquelas chamas e aquele fumo eram as nicas coisas que se
moviam na paisagem, porque tudo o mais estava imvel e
tranquilo: um dia verdadeiramente lindo, e no se via n
ngum... Depois, na carruagem, todos gritaram: ~OIhem! L

vein ele!~ Olhei para o cu e vi um insecto negro no horizonte
que
logo tomou a forma dum avio e depois desapareceu. De sbito
senti-o mesmo por cima da cabeca, a sobrevoar o comboio, qual
martelar terrvel dum ferreiro louco, e, no meio desse
barulho, o
tiquetaque duma mquina de costura. O estrpito durou um ins
tante, depois atenuou se e logo a seguir houve uma exploso
fortissima e prxima: todos se deitaram no cho, excepto eu,
que no o fiz a tempo ou nem pensei nisso sequer. Assim, vi a
casinha incendiada desaparecer numa nuvem cinzenta, que logo
comecou a alastrar pela colina, descendo em lufadas na direc
c30 do comboio; agora estava tudo outra vez em silncio e as
pessoas levantaram-se, quase no acreditando que ainda viviam:
ento todos voltaram para as janelas, para ver. O ar estava
carregado dum p fino que provocava tosse; depois a nuvem
dissipou-se lentamente e vimos que a casinha branca j no
existia.
Passados alguns minutos, o comboio retomou a sua marcha.
Isto foi o mais importante que aconteceu em toda a viagem.
Houve mnitas paragens, sempre no meio do campo, s vezes
meia ~
hora, outras uma; assim, o comboio, que em tempo normal
levaria   c
cerca de duas horas a fazer 0 percurso, demorou quase seis.
Rosetta,  E
que tanto medo sentira em Roma durante o bombardeamento, desta
vez, depois de ver a casinha branca ir pelos ares, quando o
comboio   a
se ps em marcha, disse: <<No campo tenho menos medo do que
em   c

~'J2





Roma. Aqui h sol, ar livre. Em Roma tinha receio de que a
case me casse em cima. Aqui, se morresse, ao menos via o
sol.~> Ento, um dos que viajavam connosco no corredor
observou: "Eu vi os mortos ao sol. em Npoles. Havia duas
files nos passeios, depots do bombardeamento. Pareciam montes
de roupa suja. Aqueles viram teem o sol antes de morrer." E
outro comentou, a rir: "Como diz a canao napolitana: Oh!
quer~do Sol!. Mas ningum tinha verdadeiramente vontade de
falar e muito menos de rir; e assim ficmos em silncio
durante todo o tempo que durou ainda a vlagem.

Deviamos descer em Fondi e, mal passmos Terracina, disse a
Rosetta que se aprontasse. Os meus pais viviam na montanha,
numa aldeiazinha pare os lados de Vallecorsa, once tinham uma
casita e um bocado de terra, De Fondi l, pela estrada
principal, em automvel, era coisa duma hora. Mas quando, como
Deus quis, chegmos por alturas do Monte San Biagio, uma
aldeia encarrapitada numa colina donde se avista o vale de
Fondi, vi que toda a gente saa da carruagem. Os alemes j
tinham descido em Terracina; no comboio seguiam apenas
italianos. Desceram todos e ns as duas ficmos no
compartimento vazio. Ento semi-me melhor, porque estvamos
szinhas e fazia um lindo dia; depressa chegariamos a Fondi e
deli seguiramos pare junto dos meus pais. O comboio estava
parado, mas no me admirei, pods j tinha parado muitas vezes.
Disse a Rosetta: "Vers como no campo te senses reviver:
comes, dormes e tudo correr teem." Continuei a falar do que
fariamos e entretanto o comboio no saa do mesmo sitio. Seria
uma hora da tarde ou talvez mesmo duas e estava muito calor.
Decidi: "Vamos comer." Tirei pare baixo a maleta once pusera
as provises, abri-a e fiz duas sandes com o po e o salame.
Tinha tambm uma garrafa de vinho e dei um copo a Rosetta e
bebi outro. Comemos, o calor cada vez apertava mais e o
silncio era absoluto. Atravs das janelas viam-se smente os
pltanos que circundavam o largo da estao, brancos de p,
queimados do sol, com cigarras a canter na folhagem como se
estivssemos em pleno Agosto. Era o campo, o verdadeiro campo
once eu tinha nascido e vivido at aos dezasseis anos, o campo
da minha aldeia, cheirando e poeira quente, a estrume seco e a
ervas queimadas. "Ah! como me sinto teem!" no puce deixar de
exclamar, estendendo as pernas em cima do banco da frente.
"No te agrada este silencio? Estou contente por ter
abandonado Roma.~

Nesse instante, a porta do compartimento abriu-se e apareceu
algum. Era um ferrovirio, magro e moreno, de bon ao lado, o
casaco desabotoado, a barba comprida. Entrou e disse: "Bom

33





apetite...", mas com ar srio, quase zangado. Pensei que
tivesse f ome, o que era normal nesse tempo. e indiquei-lhe o
papel amarelo onde estavam as fatias de salame: " servido?"
Mas ele respondeu cada vez de pior catadura: "Qual servido,
nem qual carapua! Tm  que descer!~> Eu respondi,
mostrando-lhe os bilhetes: "Ns vamos para Fondi." Ele nem
sequer os olhou e retorquiu: "Mas no viram que j desceu toda
a gente? O comboio no passa daqui." "No vai at Fondi?"
"Qual Fondi! As linhas esto cortadas." Passado um momento
acrescentou, um pouco mais amvel: "A p, podem chegar a Fondi
em meia hora. Mas tm de descer, porque daqui a pouco o
comboio parte novamente para Romaa, E foi-se embora, batendo
com a porta,

Ficmos petrificadas, olhando uma para a outra, com o po
dentado nas mos. Disse a Rosetta: "Isto comea mal." E ela,
como se adivinhasse os meus pensamentos, respondeu: "Mas no,
mam, descemos e encontraremos uma carroa ou um automvel."
Eu j no a ouvia. Tirei para baixo as malas, abri a porta e
desci do comboio.

Na estao no estava ningum, atravessmos a sala de espera:
nem vivalma; saimos para a praa: a mesma coisa. Da praa
partia uma estrada, uma estrada mesmo do campo, branca,
poeirenta, deslumbrante de sol, por entre sebes cobertas de p
e algumas rvores tambm com poeira. Num canto da praa havia
uma fonte; o calor e a ansiedade tinham-me secado a boca, fui
l para beber: nem pinga de gua deitava. Rosetta ficara junto
das malas e olhavame com uma cara assustada: "Mam, que vamos
fazer agora?i>

Eu conhecia bem aqueles stios e sabia que a estrada ia
direita a Fondi: "Filha, que queres que faa? Temos de meter
os ps ao caminho."

"E as malas?"

"Levamo-las ns."

Ela no disse nada, mas olhou desolada para as malas: no
compreendia como as poderiamos levar. Abri uma e tirei dois
guardanapos, com que fiz duas rodilhas, uma para mim e outra
para ela. Em rapariga estava habituada a transportar pesos 
cabea, era capaz de levar at cinquenta quilos. Enquanto
fazia os rolos, disse-lhe: <<Agora a mam ensina-te como se
faz." Rosetta, reanimada, sorriu.

Pus a rodilha na cabea, bem calcada, e convidei Rosetta a
fazer o mesmo. Depois tirei os sapatos e as meias e disse-lhe
que se descalasse tambm. Em seguida coloquei em cima da
minha rodilha a mala maior, a do meio e o embrulho das
provises, por ordem de tamanhos, e pus  cabea de Rosetta a
mala mais

34





pequena. Expliquei-lhe que devia caminhar com o pescoo bem
direito, amparando com uma das mos o canto da mala. Vi que
tinha compreendido, pondo-se a caminhar com a mala  cabea.
Entao pensei: "Nasceu em Roma, mas  uma ciociara; quem sai
aos seus no degenera.,> E assim, de malas  cabea, os ps
descalos, caminhando pela berma da estrada, onde crescia
alguma erva, dirigimo-nos para Fondi.

Andmos um bocado. A estrada estava deserta e no campo tambm
no se via-ningum. Para uma pessoa da cidade, podia parecer
tudo normal; mas eu fora camponesa antes de ser citadina e por
isso percebi logo que atravessvamos um campo abandonado: os
cachos de uvas das vinhas, que j deviam estar vindimadas,
pendiam ainda entre as folhas amareladas, damasiado dourados,
alguns j castanhos, podres, meio comidos por vespas e
lagartas. Aqui e alm via-se milho espalhado no cho, em
desordem, com muitas folhas e as espigas maduras, quase
vermelhas. Em volta das figueiras, o solo estava juncado de
figos caidos dos ramos, maduros de mais, estragados e abertos,
debicados pelos pssaros. Nao se via um s campons e julguei
que todos tivessem fugido. No entanto, estava um dia lindo,
quente e sereno, um magnifico dia de campo. Tudo parece
normal, pensei, mas o caruncho da guerra avana, roendo
sempre; os homens, tomados de medo, fogem, enquanto o campo
continua, indiferente, a desentranhar-se em frutos, trigo,
ervas e plantas, como se nada acontecesse.  isto a guerra...

Chegmos s portas de Fondi com p a embranquecer-nos as
pernas at os joelhos, a garganta seca, cansadas e mudas.
Disse a Rosetta: "Agora vamos a uma hospedaria, bebemos e
comemos qualquer coisa e repousamos um pouco. Depois veremos
se encontramos um automvel ou uma carroa que nos leve a casa
dos teus avs." Sim, uma hospedaria, um automvel, uma
carroa! Mal entrmos em Fondi, vimos imediatamente que a
cidade estava deserta e abandonada. No passava vivalma, todas
as lojas tinham os taipais corridos e um ou outro bocado de
papel branco fixado aqui e alm explicava que os proprietrios
se tinham ausentado; as casas tinham as portas e portes
trancados, as janelas fechadas e at as gateiras entaipadas.
Parecia que andvamos numa cidade cujos habitantes houvessem
sido dizimados por alguma epidemia. E pensar que em Fondi 
costume, naquela poca, toda a gente andar na rua, mulheres,
homens, crianas, juntamente com gatos, ces, burros, cavalos
e tambm galinhas, uns na sua lida, outros aproveitando a
beleza do dia para passear ou sentar-se  soleira das portas
ou nas esplanadas dos cafs. Algumas ruelas davam a impresso
de vida por causa da luz forte do Sol que batia na calada

35





e nas fachadas; mas, olhando-se melhor, viam-se as janelas
fechadas, as portas trancadas, e aquele sol que se
espreguiava nas pedras da calada quase metia medo; como
metia medo o silncio e, no meio do silncio, o rumor dos
nossos passos. Parava de vez em quando, batia a uma porta,
chamava, mas ningum abria, ningum aparecia a responder-me.
Por fim, chegmos  Hospedaria do Galo, com uma tabuleta de
madeira na qual se via um galo pintado, j mnito descolorido e
maltratado. A porta estava fechada, uma velha porta pintada de
verde, com fechadura antiga, de grande buraco. Apliquei nele
um olho e espreitei. Vi ao fundo da escurido da sala a janela
que dava para o jardim e debaixo da parreira, ainda verde,
inundada de luz, uma mesa a brilhar ao sol; e era tudo. Tambm
aqui ningum respondeu: o dono fugira, como todos os outros.

Assim estava o campo: pior do que Roma! E, pensando que me
tinha enganado ao imaginar que encontraria no campo aquilo que
faltava em Roma, voltei-me para Rosetta e disse: "Sabes o que
te digo? Vamos descansar um momento e depois voltamos para a
estao e tomamos outra vez o comboio para Roma." Antes o
tivesse feito. Mas vi que Rosetta fazia uma cara assustada,
decerto a pensar nos bombarde amentos , e acrescentei  press
a : <<P orm , an~es de renunciar, quero fazer uma ltima
tentativa. Isto  Fondi. Experimentemos o campo. Pode ser que
encontremos algum campons que nos deixe dormir em sua casa
uma ou duas noites. Depois veremos."

Assim, sentmo-nos uns momentos num muro baixo, sem falar,
pois naquele deserto at as nossas vozes nos metiam medo, e em
seguida tornmos a pr as malas  cabea e samos da cidade
pelo lado oposto quele por onde haviamos entrado. Caminhmos
talvez meia hora pela estrada principal,  torreira do sol, a
respirar aquele p6 branco e farinhento. Mal comearam os
laranjais dos dois lados da estrada, meti pelo primeiro
carreiro entre as rvores, pensando: h-de ir ter a algum
lado, no campo os atalhos vo sempre dar a qualquer parte. As
laranjeiras, mnito juntas umas s outras, com a folhagem
luzidia e sem p, enchiam 0 pomar de sombra; depois da estrada
principal, soalheira e poeirenta, aquela frescura revigorava

-nos. A certa altura, enquanto seguamos o carreiro que
serpenteava por entre as rvores, Rosetta perguntou: "Mam,
quando se colhem as laranjas?" Respondi sem pensar: "Em
Novembro comeam a colh-las. Vers como so doces."
Imediatamente mordi os lbios, pois estvamos ainda em fins de
Setembro e eu sempre Ihe dissera que no ficaramos fora de
Roma mais de dez dias, embora soubesse que isso no era
verdade, e agora tinha-me trado. Mas, por sorte, ela nem
reparou e continumos a andar.

36





Por fim, ao fundo do atalho, desembocmos numa clareira, no
meio da qual havia uma casinha que em tempos devia ter sido
cor-de-rosa, mas agora, com a humidade e a velhice, estava
toda negra e escalavrada. Uma escada exterior subia para o
segundo piso, onde havia uma varanda com um arco, do qual
pendiam enfiadas de pimentes, tomates e cebolas. Diante da
casa, na eira, uma quantidade de figos espalhados, a secar ao
sol. Uma casa de camponeses habitada. De facto, o dono
apareceu imediatamente, ainda antes de o chamarmos, e
compreendi que estava escondido em qualquer sitio para ver
quem chegava. Era um velho to magro que at fazia impresso,
de cara mirrada, nariz comprido de ave de rapina, olhos
encovados, testa estreita e cabea calva: parecia um milhafre.
Disse-nos: "Quem so vocs? o que querem?> E tinha na mo uma
foicinha, como para se defender. Eu porm no me desconcertei,
sobretudo porque estava ali Rosetta, e no se faz ideia da
fora que nos d uma pessoa mais fraca que precisa da nossa
proteco. Respondi-lhe que no queriamos nada, que ramos de
Lenola, o que no deixava de ser verdade, pois nasci num lugar
no muito distante de L~nola, que naquele dia tnhamos andado
muito e l no podiamos mais, e, se ele nos arranjasse um
quarto para passarmos a noite, pagaramos bem, como no hotel.
Ele ouviu-me, parado no meio da eira, de pernas abertas: com
as calas rasgadas, o casaco cheio de buracos e a foicinha na
mo, parecia mesmo um espantalho. Creio que de tudo quanto Ihe
disse s percebeu que eu pagava bem, pois mais tarde vim a
descobrir que era meio parvo e s compreendia as coisas se Ihe
cheirava a dinheiro. Mas mesmo isso devia custar-lhe bastante
a compreender, porque levou no sei quanto tempo a remoer o
que eu dizia, repedndo: "Ns no temo~ quartos, e tu pagas,
mas com que pagas?~> Eu no queria mostrar Ihe o dinheiro que
tinba no saquinho debaixo da saia; em tempo de guerra nunca se
sabe, todos podem tornar-se ladres e assassi nos e ele de
ladro e talvez de assassino j tinha cara; por isso rne
limitei a responder que estivesse tranquilo, pois pagava-lhe
com certeza. Mas ele no compreendia. E j Rosetta me puxava
pelas mangas, dizendo-me baixinho que era melhor irmo-nos
embora, quando por sorte apareceu a mulher, uma mulherzinha
pequena e magra, muito mais nova do que ele, com ar ofegante e
exaltado e olhos cintilantes. Ao contrrio do marido, ela
compreendeu imediatamente e quase nos deitou os braos ao
pescoo, repetindo: "Mas, naturalmente, um quarto, porque no?
x6s dormiremos na varanda ou no palheiro e cedemos-te o nosso
quarto. E tambm de comer, comers connosco, coisas simples,
comida de camponeses, claro..." O marido tinha-se afastado e

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olhava-nos, sombno; parecia um galo doente, daqueles que
reviram os olhos e ficam monos e no querem comer. Ela
agarrou-me o brao, repetindo: "Anda, vou mostrar te o quarto,
anda, dou-te a minha cama, eu e o meu marido dormiremos na
varanda." E l subimos a escada exterior para o segundo piso.

Assim comeou para ns a vida em casa de Concetta, pois era
este 0 nome da mulher. O marido chamava-se Vincenzo e tinha
mais vinte anos do que ela: era rendeiro, ou, melhor, meeiro
dum tal Festa, um comerciante que fugira, como tantos outros
da cidade, e vivia agora numa casinha no cimo dum dos montes
que circundavam o vale. Tinham dois filhos, Rosrio e
Giuseppe, ambos morenos, de caras macicas e brutas, olhos
pequenos e testa baixa; nunca falavam e s raramente os
vamos: escondiam-se porque na altura do armistcio estavam
nas fileiras e tinham fugido, no tornando a apresentar se:
agora receavam ser presos pelas patrulhas fascistas, que
andavam por toda a parte a arrebanhar homens para irem
trabalhar na Alemanha. Escondiam-se nos laranjais, apareciam 
hora das refeioes, comiam  pressa, quase sem falar, e
desapareciam novamente, no sei para onde. Eram amveis
connosco, todavia achava-os antipticos, sem saber porqu, e
s vezes dizia at de mim para mim que estava a ser injusta:
mas um belo dia compreendi que o meu instinto no me enganara,
e na verdade eram pouco recomndveis, como suspei

tava desde o princpio.

A pouca distancia da casa, entre as laranjeiras, havia uma
grande barraca pintada de verde, com telhado de zinco.
Concetta dissera-me que naquela barraca metiam as laranjas 
medida que as iam colhendo, e talvez fosse verdade, mas agora
no se colhiam laranjas, estavam ainda nas rvores, e, no
obstante isso, reparei que tanto os dois filhos como Vincenzo
e Concetta iam muitas vezes para l. No sou curiosa, mas,
encontrando-me szinha com a minha filha em casa de gente
estranha, na qual, para falar verdade, no confiava mnito,
tinha de o ser. a bem dizer por necessidade.

Numa tarde em que toda a familia foi para a barraca, passado
algum tempo sa tambm e escondi-me atrs dumas laranjeiras. A
barraca ficava numa clareira mais pequena e parecia mesmo um
monto de runas toda destingida, 0 telhado  banda, as tbuas
to desconjuntadas que s por milagre se mantinham unidas. No
meio da clareira estava a carroa de Vincenzo, atrelada a um
macho, e, amontoadas na carroa, vi no sei quantas coisas:
colches, enxerges, cadeiras, mesas de cabeceira, embrulhos
vrios. A porta da barraca, bastante larga, de dois batentes,
estava escancarada e os filhos de Concetta desatavam as cordas
que amarravam todo





aquele material. Vincenzo mantinha-se  parte, meio
apalermado, como de costume, sentado num cepo, a fumar o seu
cachimbo: mas Concetta estava l dentro, no a via, mas
ouvia-lhe a voz: "Vamos, despachem-se, andem depressa. j 
tarde!" Os dois filhos, que sempre vi calados e molengoes,
como que assustados, pareciam agora outros: geis. diligentes,
desembaraados, enrgicos. Pus-me a pensar que  preciso ver
as pessoas a fazer o que Ihes interessa, os camponeses nos
campos, os operrios na oficina, os comerciantes na loja e. em
suma, digamos tambm, os ladres s voltas com o que roubam.
Porque aqueles colches, aquelas cadeiras, aquelas mesas de
cabeceira, enfim, todos aqueles embrulhos, eram coisas
roubadas: tive imediatamente essa suspeita e Concetta
confirmou-a na mesma noite, quando, enchendo-me de coragem,
Ihe perguntei, de improviso, a quem pertenciam os trastes que
tinham estado a descarregar nesse dia na barraca. Os filhos,
como de costume, no estavam, j tinham sado: Concetta, por
momentos, pareceu ficar desconcertada, mas logo se recomps e
disse com aquela sua alegria entusistica e exaltada: "Ah!
viste-nos?... Fizeste mal em no aparecer para nos ajudar. No
tinhamos nada e esconder, mesmo nada. So coisas duma casa de
Fondi. O proprietrio, o pobrezinho, fugiu para as montanhas e
ningum sabe quando voltar. Em vez de deixarmos essa moblia
l em casa, para ser destruida no prximo bombardeamento, j
se sabe, preferimos ficar com ela. Ao menos, assim, serve a
algum. Estamos em guerra, claro, e  preciso ter expediente,
seja o que for que se abandone  coisa perdida, minha rica.
Alm disso. esse proprietrio, no fim da guerra, ser
reembolsado pelo Governo, e decerto compra outros mveis ainda
mais bonitos do que estes." Confesso que me senti mal, ou,
antes, assustei-me e creio que me pus plida, pois Rosetta
levantou os olhos para mim e perguntou: "Que tens, mam?" Eu
estava aterrada, oorque, como comerciante, tinha um forte
sentimento da propriedade: era honesta e sempre pensei que o
meu  meu e o teu  teu, sem margem para confuses, pois,
quando as h, anda tudo em desordem. E eis que vinha parar a
uma casa de ladres, e o pior  que estes ladres no tinham
medo de nada, pois na regio no havia leis nem carabineiros.
E nao s no tinham medo, mas quase se vangloriavam de roubar.
No entanto, achei melhor no abrir o bico. Concetta percebeu
em mim qualquer coisa, pois acrescentou: "Entendamo-nos: se
trouxemos esses trastes,  porque, como o outro que diz, no
so de ningum. Somos gente honesta, Cesira, e provo

?to imediatamente: bate aqui." Levantou-se e deu algumas
pancadas na parede da cozinha,  esquerda do fogo.
Levantei-me e bati tambm: senti que a pancada ressoava como
se atrs da parede

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houvesse um vazio. Perguntei: "O que  que est aqui?" E
Concetta, com entusiasmo: "So as coisas de Festa,  um
tesouro, todo o euxoval da filha, todas as roupas de casa:
lenis, cobertas, linhos, pratas, loisas, objectos de valor."

Fiquei pasmada, pois no esperava aquilo. Concetta, sempre com
aquele estranho entusiasmo que punha em tudo quanto dizia e
fazia, explicou-me: Vicenzo e Filippo Festa eram, como se diz,
compadre~ isto , Festa baptizou o filho de Vicenzo e Vicenzo
 padrinho da filha de Festa; assim unidos por S. Giovanni,
como dizem, so quase parentes. Festa confiou em S. Giovanni
e, antes de se refugiar nas montanhas, emparedou todas as suas
coisas na cozinha de Vincenzo e obrigou o a jurar que lhas
restiturna tal qual no fim da guerra e Vincenzo jurou. "Estas
coisas de Festa so para ns sagradas", concluiu Concetta com
nfase, como se falasse do Santssimo. "Era mais fcil
matar-me do que tocar-lhes. Esto a h um ms e a ho-de
ficar at a guerra acabar." Eu continuei desconfiada e nem
mesmo me convenci quando Vincenzo, at ento calado, tirou o
cachimbo da boca e disse em voz cavernosa: "Isso mesmo,
sagradas. Os Alemes ou os Italianos tero de passar por cima
do meu corpo antes de Ihes tocarem.,> Concetta, ao ouvir estas
palavras, olhou para mim de olhos brilhantes e excitados, como
se me dissesse: "Vs? O que te disse eu? Somos ou no gente
honesta?" Mas eu continuava na minha e, lembrando-me dos dois
filhos atarefados a descarregar a carroa, pensava de mim para
mim: "Arreda, ladres... Cesteiro que faz um cesto...~

A descoberta daquela ladroeira foi a razo principal por que
comecei a pensar em deixar a casa de Concetta e ir para outro
stio. Eu tinha aquele dinheiro escondido no saquinho debaixo
da saia alis bastante dinheiro, e ns ramos duas mulheres
szinhas, sem ningum para nos defender, e no havia ali nem
leis nem carabineiros e pouco seria preciso para subjugar duas
pobres como ns e tirar-nos tudo quanto possuiamos. E verdade
que eu nunca mostrara o saquito a Concetta; mas dava-lhe de
vez em quando uma poquena importncia pela alimentao e pelo
quarto e dissera que tencionava pagar bem; certamente haviam
de supor que em qualquer sitio escondia as notas. Agora
roubavam coisas abandonadas, amanh poderiam roubar o meu
dinheiro, matar-me talvez, no sabia do que seriam capazes. Os
dois filhos tinham cara de salteadores, o marido parecia
estpido, Concetta tinha sempre um ar exaltado; na verdade no
se podia prever o que sucederia. E aquela casa, embora a pouca
distncia de Fondi, estava enterrada entre os laranjais,
escondida e solitria; podia-se matar ali um cristo, que
ningum daria por isso. Era, claro, um bom esconderijo;

46)
     




mas um desses esconderijos onde nos podem suceder males
maiores do que ao ar livre,  merce dos avies.

Naquela mesma noite, depois de nos deitarmos, disse a Rosetta:
" uma famlia de criminosos. Podem no nos fazer mal nenhum,
mas tambm podem matar-nos e enterrar-nos como esterco debaixo
das laranjeiras. Isso para eles  indiferente." Falei apenas
para desabafar a inquietao; mas fiz mal, pois Rosetta, que
ainda no se refizera do susto dos bombardeamentos de Roma,
comeou logo a chorar, apertando-se a mim e murmurando:
<<Mam, tenho tanto medo, porque no samos j daqui?>
Procurei ento tranquiliz-la, dizendo-lhe que naturalmente
eram tudo fantasias minhas; que a culpa era da guerra; que
Vincenzo, Concetta e os filhos eram decerto boa gente. Ela no
pareceu mnito convencida e disse por fim: "Eu iame embora na
mesma; porque estamos mal aqui." Prometi-lhe que sairiamos
dali o mais depressa possivel. A esse respeito eia tinha
razo: no podamos estar pior.

Estvamos mal de facto e hoje, ao record-lo, posso dizer que,
em todo aquele tempo de guerra que passmos fora, nunca
estivemos to mal como em casa de Concetta. Deu-nos o quarto
onde ela dormia com o marido desde que se casaram, mas, posso
afirm-lo, embora eu fosse camponesa como ela, nunca vi nos
dias da minha vida tamanha porcaria. O quarto cheirava to mal
que, mesmo com as janelas escancaradas, faltava o ar e quase
se sufocava. Porque cheiraria to mal 0 quarto? Naturalmente
por estar sempre fechado, concentrando o cheiro a suor antigo
e ranoso, a bichos e a urina. Ao procurar descobrir a origem
de tal fedor, abri as duas mesinhas de cabeceira: continham
dois bacios altos e estreitos, sem asa, semelhantes a tubos,
de porcelana branca com flores cor-de-rosa; mas com certeza
nunca tinham sido lavados, por dentro estavam de todas as
cores e uma boa parte do mau cheiro vinha dali. Pu-los fora da
porta e Concetta quase me bateu, dizendo, furiosa, que tinha
herdado aqueles bacios da me, eram da famlia, e no
compreendia porque  que eu no os queria no quarto.

Na primeira noite que dormimos no grande leito conjugal, sobre
um colcho cheio de covas e tarolos, atatulhado de coisas que
chiavam e picavam e coberto com um pano to fino que parecia
ir romper-se ao menor movimento, mal me deitei, senti
comiches em todo o corpo; Rosetta tambm no tinha descanso e
s fazia mudar de posio sem conseguir dormir. Por fim acendi
a vela e, com o castial na mo, examinei a cama:  luz da
chama vi, no um ou dois, mas grupos compactos de percevejos
que fugiam em todas as direcoes, vermelhos-escuros, grandes,
chelos do sangue que nos tinham sugado naquelas horas. A cama
estava negra de percevejos,

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e digo a verdade se afirmar que nunca vi tantos duma s vez.
Em Roma acontecia-me s vezes encontrar um ou dois, mas
imediatamente mandava encher de novo o colcho e nunca mais
davam sinal. M as aqui eram aos milhares, e nao estavam s
escondidos no colcho, mas tambm na madeira da cama e em todo
o quarto. Na manh seguinte, Rosetta e eu levantmo-nos e
fomos ver-nos ao espelho do guarda-vestidos: estvamos
cobertas, em todo o corpo, de bolhas vermelhas; os percevejos
tinham-nos mordido tanto que dir-se-ia sofrermos de alguma
doena de pele. Chamei Concetta e mostrei-lhe Rosetta toda nua
sentada em cima da cama, a chorar, e disse-lhe que era uma
vergonha ter a cama com tantos percevejos. Ela, habitualmente
exaltada, respondeu: "Tens razo,  uma vergonha,  uma
indecncia, sei que os percevejos so uma porcaria. Mas ns
somos uns pobres camponeses e tu s uma senhora da cidade para
ns percevejos, para ti lenis de seda.~ Dava-me razo com
entusiasmo, mas dum modo estranho, como se troasse de mim; e,
de facto, depois de me dar razo, concluiu duma maneira
inesperada, dizendo que os percevejos tambm so criaturas de
Deus e se Deus os criou  porque servem para alguma coisa. Em
concluso, disse-lhe que da em diante dormiramos na cabana
onde guardavam o feno para o macho. O feno picava e tambm
havia l um ou outro insecto, mas eram bichos limpos, daqueles
que passeiam pelo corpo e fazem ccegas, mas no chupam 0
sangue. Mas vi logo que no podamos ficar ali mnito tempo.

Naquela casa tudo era nojento: at a comida. Concetta,
desleixada e porca, fazia tudo  pressa e sem cuidado: a sua
cozinha era um antro escuro e as frigideiras e os pratos
tinham crostas de porcaria acumulada durante anos e anos;
nunca havia gua, no lavava nada e cozinhava a correr, mal e
porcamente. Dava-nos todos os dias a mesma comida, aquilo que
na mmha terra se chama minestrina: fatias finas de pao
caseiro, postas em cima umas das outras, at encher uma
terrina, que era um alguidar de loia; a seguir, por cima do
po, deita se uma panela de caldo de feijoes. Este prato
come-se frio, depois de o caldo ter aboborado bem o pao,
reduzindo-o a papa. Nunca gostei de minestrina, mas em casa de
Concetta at me revolvia o estmago, um pouco por causa da
porcaria, pois encontrava sempre uma mosca ou qualquer outro
bicho, e tambm porque ela nem ao menos sabia fazer esse prato
to simples. Alm disso, comiam  maneira dos camponeses, sem
pratos, cada qual metendo a sua colher no alguidar de todos,
levando-a depois  boca e tornando-a a meter nas papas. 
incrivel? Um dia fiz uma observao a propsito das moscas que
encontrava

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mortas entre o po e os feijes e Concetta, ignorante como
era, respondeu: "Come, no te apoquentes. Que  uma mosca? 
carne, tal como a vitela, nem mais nem menos." Por fim, vendo
que Rosetta no era capaz de tragar aquelas mixrdias, passei
a ir com Concetta, de vez em quando,  estrada principal. Era
agora ali o mercado; na cidade, por causa dos alarmes areos e
das requisies dos fascistas, no havia segurana de espcie
nenhuma. Por isso as camponesas se punham na estrada principal
e a vendiam ovos, fruta, um bocadinho de carne e s vezes at
peixe. Vendiam caro e zangavam-se se algum discutia e
procurava regatear o preo. Respondiam: "Est bem, come o
dinheiro, que eu como os ovos." Em suma, sabiam que havia fome
e que o dinheiro em tempo de escassez no serve para nada e
pediam couro e cabelo. Eu comprava sempre qualquer coisa e
acabei assim por dar de comer tambm  famlia de Concetta:
por isso o dinheiro me escorria das mos como a gua, e isso
era para mim mais um motivo de inquietao.

Pensvamos sair dali. Mas para onde? Um dia disse a Concetta
que, como os Ingleses no chegavam, o melhor era irmos numa
carroa, ou mesmo a p, para a aldeia dos meus pais e
esperarmos ! o fim da guerra. Ela aprovou logo com
entusiasmo: "Fazes mnito bem. S em nossa casa nos sentimos 
vontade. Quem pode ocupar o lugar da me? Fazes bem, aqui nada
te agrada, h percevejos, as sopas so ms, mas a casa dos
teus pais, com os mesmos percevejos e as mesmas sopas, h-de
parecer-te um paraso. E porque no? Amanh Rosrio leva-as na
carroa, vo dar um bonito passeio.~> Contentes e confiadas,
espermos pelo dia seguinte, em que Rosrio havia de voltar
no sei donde. De facto voltou, mas, em vez da carroa com o
macho, trouxe um saco cheio de ms motcias: os .Nlemes
requisitavam os homens, os fascistas prendiam quem se
arriscava nas estradas, os Ingleses deitavam bombas, os
Americanos lanavam-se em pra-quedas, e havia fome, carestia
e revoluo: no tardaria nada que Ingleses e Alemes
travassem batalha mesmo na regio onde ficava a aldeia dos
meus pais: entretanto, soubera-o no comando alemo, a aldeia
fora evacuada e todos os habitantes levados para um campo de
concentrao perto de Frosinone. Disse ainda que as estradas
eram perigosas por causa dos avies que voavam baixo e
metralhavam as pessoas e nao deixavam de metralhar enquanto
no as viam mortas: que nem pelos caminhos da montanha se
andava em segurana, pois estavam cheios de desertores e
salteadores que, sem mais nem menos, matavam quem quer que
fosse; em suma, era melhor esperarmos ali a chegada dos
Ingleses, que deviam entrar em Fondi dentro de dias, pois o
exrcito aliado avanava e no demoraria uma semana. Em

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concluso, disse muitas coisas falsas e outras verdadeiras,
misturadas de tal forma que as verdadeiras faziam com que as
falsas parecessem verdadeiras tambm. Era certo que havia
bombardeamentos e que metralhavam as pessoas, mas no era
verdade que se ia travar uma batalha perto da aldeia dos meus
pais nem que a aldeia tivesse sido evacuada. Mas ns ficmos
assustadas; szinhas e sem outras informaes alm daquelas,
no percebemos que nos davam tantas ms noticias s para nos
reterem ali e continuarem a ganhar dinheiro connosco.
Evidentemente, os tempos estavam ruins a valer e eu tinha uma
filha e no queria correr o risco de me meter com ela ao
caminho, mesmo que houvesse s uma probabilidade em cem de
encontrar os perigos que ele anunciava. Decidi por isso adiar
para outra altura a viagem e esperar em Fondi a chegada dos
Aliados.

Mas, de qualquer maneira, impunha-se que deixssemos o mais
depressa possivel a casa de Concetta, porque tambm naquele
isolamento, no meio dos laranjais, como j disse, podia
acontecer o pior... E os filhos de Concetta, com 0 decorrer do
tempo, causavam-me cada vez mais medo. Disse que eram
taciturnos; mas, quando se punham a falar, revelavam um
carcter que no me agradava nada. Um deles contou um dia. por
brincadeira: "Numa aldeia da Albania dispararam contra ns e
tivemos dois feridos. Em represlia, sabem o que fizemos? Como
os homens tinham fugido, agarrmos as mulheres, as mais
agradveis, claro, e passmo-las todas... umas hzeram-no de
boa vontade, umas crias que s esperavam aquela ocasio para
armar os maridos, outras fizeram-no  fora... e algumas
tantas vezes que depois j no se aguentavam em p e pareciam
como mortas." Eu ficava gelada com tais histrias; mas
Concetta ria e repetia: "Ah, rapazes... Sabe-se o que so
rapazes... gostam de raparigas... tm o sangue a ferver..."
Ainda pior do que eu, ficava Rosetta: vi-a empalidecer, tremer
quase, e ento explodi: "Acabem l com isso, est aqui a minha
filha e no se fala dessa maneira diante duma rapariga
solteira." Teria preferido que protestassem, talvez mesmo que
me injuriassem; mas no disseram nada, limitaram-se a olhar
Rosetta de alto a baixo, com aqueles olhos de carvo em brasa,
cintilantes, que metiam medo, enquanto a me repetia:
"Rapazes... j se sabe... rapazes com 0 sangue a ferver... Mas
tu, Cesira, no tens que recear pela tua filha. Os meus flhos
no lhe tocariam, nem por um milho. Vocs so hspedes e um
hspede  sagrado. A tua filha aqui est to segura como na
igreja." Mas, no meio do silncio dos filhos e da exaltao da
me, eu sentia aumentar o medo. Foi por isso talvez que
comprei a um campons uma navalha de ponta e mola e a trazia
sempre comigo,

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juntamente com o dinheiro. No me fiava e, se tentassem alguma
coisa, teriam primeiro de se avir comigo e eu era capaz at de
os matar.

Porm, o que nos convenceu definitivamente a sair dali foi o
que se passou umas duas semanas aps a nossa chegada. Uma
manh, Rosetta e eu estvamos sentadas na eira, atentas a
desfolhar espigas de milho, para passar o tempo, quando de
sbito desembocaram dois homens no carreiro. Compreendi logo o
que eram, no s por causa das espingardas que traziam ao
ombro e das camisas negras bem  vista debaixo dos casacos,
mas tambm porque Rosrio, um dos filhos de Concetta, que
estava um pouco adiante a comer po e cebola, mal os viu,
desapareceu imediatamente, correndo a bom correr. Disse
baixinho a Rosetta: "So fascistas, no digas nada, deixa-os
comigo." Conhecia bem esses novos fascistas, que apareceram
depois do 25 de Julho, pois lidara com eles em Roma: uns
brutos da pior espcie, uns vagabundos que tinham interesse em
vestir a camisa negra quando a gente honesta j no a queria
usar, mas todos homens fortes, como h mnitos em Trastevere e
na Ponte. Estes dois, porm, vi logo que no passavam de dois
migalhos de gente, dois idiotas chapados, uns coitadinhos que
tinham mais medo das prprias espingardas do que as pessoas a
quem queriam assustar. Um era meio zarolho, de cabea calva,
cara mirrada como uma castanha pilada, os ombros to estreitos
que at causava d, olhos encovados, nariz achatado e barba
comprida; o outro era quase ano, com cabea de professor,
olhos grandes, carrancudo e gordo. Concetta desceu
imediatamente e saudou o primeiro com uma alcunha que era
mesmo um retrato: "Que procuras por estes lados, Scimmiozzo?"
Scimmiozzo ~, o calvo e magro, respondeu, fanfarro,
bamboleando-se e batendo com a mo na coronha da espingarda:
"Comadre Concetta, entendamo-nos, Sabes mnito bem o que
procuramos." "Palavra de honra que no sei. Querem vinho?
Querem po? Temos pouco po, mas posso arranjar uma garrafa de
vinho e tambm alguns figos secos. Coisas do campo, j se v."
"Comadre Concetta, s esperta, mas desta vez encontras um mais
esperto ainda." "Scimmiozzo, que dizes tu?! Esperta eu?!"
"Sim, esperta; e esperto tambm o teu marido, e mais espertos
ainda os teus dois filhos." "Os meus dois filhos?! Quem me
dera ver os meus filhos! H tanto tempo que os no vejo! Esto
na Albnia. Pobres filhos, esto na Albania a combater pelo
rei e por Mussolini, e que Deus conserve ambos sempre de boa
sade." "Qual rei nem meio rei,

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estamos em Repblica, Concetta." "Ento, viva a Repblica!" E
os teus filhos no esto na Albania, esto aqui." "Aqui? Quem
me dera quP fosse vPrdade!~, .`Sim f~sto aqui P ainda ontem
foram vistos, no mercado negro, para os lados de Coccuruzzo."
"O que ests para ai a dizer, Scimmiozzo? Os meus filhos aqui?
J te disse, quem me dera que fosse verdade, abraava-os,
sabia-os longe do perigo, eu que me consumo a chorar todas as
noites e sofro por eles mais do que a Virgem das Sete Dores."
"Basta, diz onde esto e acaba l com isso." "Que sei eu
deles? Posso dar-te vinho, posso dar-te figos secos, posso
dar-te tambm farinha de milho, embora tenha pouca, mas os
meus filhos, como posso eu dar-tos, se no sei deles?" "Hum...
entretanto, venha de l esse vinho."

Sentaram-se ento na eira, em duas cadeiras. Concetta, muito
entusiasmada como de costume, foi buscar uma garrafa de vinho
e dois copos e trouxe tambm um cesto cheio de figos secos.
Scimrriiozzo escarranchou-se na cadeira, bebeu o vinho e
depois disse: "Os teus filhos so desertores. Sabes o que o
decreto manda f`azer aos desertores? Se os apanhamos, so
fuzilados.  a lei." E ela, mnito contente: "Fm razo: os
desertores devem ser fuzilados... tratantes... devem ser todos
fuzilados. Mas os meus filhos no so desertores, Scimmiozzo."
"O que so seno isso?" "So soldados. Combatem por Mussolini,
que Deus o conserve cem anos." "Sim, a fazer mercado negro?"
"Queres mais vinho?" Quando no podia responder doutro modo,
Concetta oferecia-lhes vinho; e eles, que tinham vindo ali
sobretudo pelo vinho, aceitavam e bebiam.

Ns as duas estvamos  parte, sentadas nos degraus da escada.
Scimmiozzo, mesmo a beber, no fazia outra coisa seno olhar
para Rosetta, mas no a olhava como um polcia que quises~ c~1
~ticar-se se algum tinha ou no os papis em ordem,
olhava-lhe para as pernas, para 0 peito, como um homem a quem
uma mulher agrada e est com o sangue a ferver. Finalmente.
perguntou a Concetta: <<Quem so aquelas duas?"

Apressei-me eu a responder em vez de Concetta, pois no queria
que os fascistas soubessem que ramos de Roma: "Somos primas
de Concetta, viemos de Vallecorsa." E Concetta, entusiasmada,
reforou: "Sim, so minhas pumas, Cesira  filha dum tio meu,
so do meu sangue, vieram para estar connosco, pois, j se v,
o sangue no  gua."

Mas Scimmiozzo no ficou convencido. Via-se que era mais
inteligente do que parecia: "No sabia que tinhas parentes em
Vallecorsa. Sempre me disseste que eras de Minturno. E como se
chama esta linda rapariga?

"Chama-se Rosetta>>, disse eu.

46

-





Ele esvaziou o copo, depois levantou-se e veio at junto de
ns: "Agradas-me, Rosetta. Precisamos na sede duma criada que
cozinbe e faa as camas. Queres vir connosco?" E, dizendo
isto, estendeu a mo e pegou-lhe no queixo. Dei lhe
imediatamer te uma palmada: ~Abaixa l as patinhas!"

Ele olhou-me, abriu muito os olhos e, fingindo-se admirado:
"Ol, que bicho te mordeu?"

"No quero que toques na minha filhaa'

E o malandro tirou a espingarda do ombro e apontou-ma: "Sabes
com quem falas? Mos ao alto!"

Eu ento, mnito calma, como se, em vez da espingarda, ele me
estendesse a colher para mexer a polenta', afastei o cano um
quase nada e disse-lhe com desprezo: "Qual mos ao alto!
Julgas que me metes medo com a tua espingarda? Sabes para que
ela te serve? Para arranjares vinho e figos secos,  s para
isso que te serve. At um cego v que andas morto de fome.~>

Ele, com grande admirao nossa, acalmou-se imediatamente e,
rindo, disse para o outro: "Merecia pelo menos ser fuzilada,
que dizes?~> Mas o outro encolheu os ombros e resmungou
qualquer coisa como: "So mulheres, no fac,as caso." Ento
Scimmiczzo baixcu a espingarda e declarou com nfase: <<Por
esta vez ests perdoada, mas fica sabendo que escapaste por
pouco  morte: quem toca na milicia recebe bala." Esta frase
estava escrita nas paredes de Roma e tambm nas de Fondi e
aquele safado tinha-a aprendido de cor. Passado um momento
acrescentou: ~Mas fica entendido que nos mandas a tua filha
para ser criada na sede, em Coccuruzzo.~> Eu respondi: "Bem
podes sonhar com a minha filha. No faltava mais nada seno
mandar-ta." Ele voltou-se ento para Concetta: "Faamos uma
troca, Concetta: ns deixamos de procurar os teus filhos, que
andam por a, e tu sabe-lo muito bem; se os procurs semos a
valer, decerto os encontrvamos. Mas tu, em troca, mandas-nos
a priminha. Estamos entendidos, hem?" Aquela malvada Concetta,
tanto mais exaltada quanto mais criminosas e impossveis eram
as coisas que Ihe propunham, respondeu, at me custa diz-lo,
com calor: "Pois naturalmente, amanh mesmo, de manh, Rosetta
estar l na sede. Acompanho-a eu, fiquem descansados, Rosetta
ser cozinheira, criada de quarto, far tudo o que quiserem.
Sim. amanh de manh eu levo-a." Desta vez, embora sentisse o
sangue a ferver. por prudncia no disse nada. Aqueles dois
safardanas ainda se demoraram um bocado, beberam mais uns
copos de vinho

Papas de f arinha de milho.

47





Ele esvaziou o copo, depois levantou-se e veio at junto de
ns: "Agradas-me, Rosetta. Precisamos na sede duma c riada que
cozinhe e faa as camas. Queres vir connosco?~> E, dizendo
isto, estendeu a mo e pegou-lhe no queixo. Dei Ihe
imediatamerite uma palmada: "Abaixa l as patinhas!~>

Ele olhou-me, abriu mnito os olhos e, fingindo-se admirado:
"Ol, que bicho te mordeu?"

"N o quero que toques na minha filha."

E o malandro tirou a espingarda do ombro e apontou-ma: "Sabes
com quem falas? M os ao alto!"

Eu ento, muito calma, como se, em vez da espingarda, ele me
estendesse a colher para mexer a polenta, afastei o cano um
quase nada e disse-lhe com desprezo: "Qual mos ao alto!
Julgas que me metes medo com a tua espingarda? Sabes para que
ela te serve? Para arranjares vinho e figos secos,  s para
isso que te serve. At um cego v que andas morto de fome."

Ele, com grande admirao nossa, acalmou-se imediatamente e,
rindo, disse para o outro: "Merecia pelo menos ser fuzilada,
que dizes?" Mas o outro encolheu os ombros e resmungou
qualquer coisa como: "So mulheres, no faas caso." Ento
Scimmiozzo baixou a espingarda e declarou com nfase: "Por
esta vez ests perdoada, mas fica sabendo que escapaste por
pouco  morte: quem toca na milicia recebe bala." Esta frase
estava escrita nas paredes de Roma e tambm nas de Fondi e
aquele safado tinha-a aprendido de cor Passado um momento
acrescentou: "Mas fica entendido que nos mandas a tua filha
para ser criada na sede, em Coccuruzzo.>> Eu respondi: "Bem
podes sonhar com a minha filha. No faltava mais nada seno
mandar-taa> Ele voltou-se ento para Concetta: "Faamos uma
troca, Concetta: ns deixamos de procurar os teus filhos, que
andam por ai, e tu sabe lo muito bem; se os procurssemos a
valer, decerto os encontrvamos. Mas tu, em troca, mandas-nos
a priminha. Estamos entendidos, hem?" Aquela malvada Concetta,
tanto mais exaltada quanto mais criminosas e impossveis eram
as coisas que Ihe propunham, respondeu, at me custa dize-lo,
com calor: "Pois naturalmente, amanh mesmo, de manh, Rosetta
estar l na sede. Acompanho-a eu, fiquem descansados, Rosetta
ser cozinheira, criada de quarto, far tudo o que quiserem.
Sim, amanh de manh eu levo-a." Desta vez, embora sentisse o
sangue a ferver, por prudncia no disse nada. Aqueles dois
safardanas ainda se demoraram um bocado, beberam mais uns
copos de vinho

Papas de f arinha de milho.

4,





e depois, um levando a garrafa, o outro o cesto dos figos
secos, foram-se embora pelo carreiro por onde tinham vindo.

Mal desapareceram, disse a Concetta "Tu s doida... Preferia
ver a minha filha morta a mand-la servir de criada aos
fascistas."

No disse isto com mnita energia, pois no fundo julgava que
Concetta tivesse concordado apenas pr-forma, para no
contrariar os dois fascistas e deix los ir embora contentes.
Mas fiquei furiosa ao ver que ela, ao contrrio, no estava
nada indignada como eu supunha: "Bem, no fim de contas,
ningum te comia Rosetta. E os fascistas, comadre, tm de
tudo: vinho, farinha, carne, feijes. Na sede comem todos os
dias bom macarro e boa vitela. Rosetta estaria l como uma
rainha."

"Mas que ests para a a dizer? s doida?"

"No digo nada, digo smente que estamos em guerra e na guerra
o importante  estar ao lado do mais forte. Hoje os fascistas
so os mais fortes, pois bem,  preciso estar com os
fascistas. Amanh sero talvez os Ingleses', estaremos ento
ao lado dos Ingleses.~

"Mas no compreendes que eles querem Rosetta sei l para que?
No viste que esse malandro esteve todo o tempo a com-la com
os olhos ?"

"E que tem isso? Tanto faz um homem como outro, algum h-de
ser o primeiro... Estamos em guerra e as mulheres, j se v,
em tempo de guerra no devem olhar demasiado a delicadezas nem
pretender que as tratem com respeito como em tempo de paz.
Alm disso, comadre, ceo que ladra no morde... Conheco o
Scimmiozzo: s pensa em encher a panca."

Em resumo, era claro como gua que ela tomara mnito a srio a
proposta de Scimmiozzo: ds-me Rosetta e eu deixo os teus
filhos em paz. No digo que do seu ponto de vista no tivesse
razo: se Rosetta fosse para criada dos fascistas, ou para
coisa pior, aqueles dois malandros, que eram seus filhos,
poderiam dormir sossegados em casa e ningum mais os
procurava. Mas essa liberdade dos filhos queria ela pag-la
com a minha filha, e eu, que tambm era me, compreendi que,
por amor dos filhos, ela era capaz de chamar os fascistas no
dia seguinte e entregar-lhes Rosetta. Protestar no servia de
nada, era preciso simplesmente fugir. Por isso mudei de tom e
disse com grande calma: "Bem, vou pensar. E verdade que

' Nesta e noutras passagens, por ~Ingleses, subentenda-se
"Aliados.,     F'
pois era assim que os Italianos geralmente designavam os
Aliados na ltima   T
guerra.

48





Rosetta, ao p dos fascistas, seria, como dizes, uma rainha,
mas no queria..."

"Ora, histrias, comadre.  preciso estar com o mais forte.
Vivemos em guerra."

"Esta noite decidirei."

"Pensa bem No h pressa. Eu conheo os fascistas, direi que
Rosetta ir ter com eles daqui a uns dias. Esperaro... Mas,
depois, podes ter a certeza, no te faltar nada. Os fascistas
tm tudo, azeite, vinho, carne de porco, farinha... junto
deles no se faz outra coisa seno beber e comer. Vo passar
bem e engordar."

"Decerto, decerto."

"Foi a Providncia, Cesira, que mandou c esses fascistas,
pois eu, para faiar verdade, no tinha j possibilidades de as
hospedar.  certo que pagas, mas h a carestia e em tempo de
carestia contam mais as provises do que o dinheiro. E, alm
disso, os meus filhos nfio podiam continuar nesta vida, sempre
fugidos, como ciganos. Assim, deixam-nos tranquilos, j podem
dormir em paz e trabalhar. Sim, foi mesmo a Providncia que
mandou c hoje esses fascistas."

Em suma, ela parecia decidida a sacrificar Rosetta. E eu, por
meu lado, estava decidida a ir-me embora naquela mesma noite.
Comemos os quatro, como de costume: ns as duas, Concetta e
Vincenzo; os filhos tinham ido a Fondi. Assim que chegmos 
cabana de feno, disse a Rosetta: "No julgues que estou de
acordo com Concetta. Fingi, porque com gente desta nunca
fiando... Agora vamos fazer as malas e, mal desponte o dia.
samos daqui."

"Mas para onde vamos, mam?", perguntou ela numa voz chorosa.

"O que  preciso  sair desta casa de malfeitores. Vamos para
onde pudermos."

"Mas para onde?"

Pensara j tantas vezes nesta fuga que tinha as minhas ideias.
Respondi: "Para junto dos teus avs no podemos ir, pois a
aldeia foi evacuada e sabe Deus onde esto a esta hora.
Primeiro que tudo, vamos a casa de Tommasino:  bom homem,
pedimos-lhe conselho. Disse-me muitas vezes que o irmo est
na montanha e est l bem, com toda a famlia. H -de saber
dar qualquer indicao. N o tenhas medo, ests ao p da tua
me, que te quer bem, e temos uns patacos, que so os melhores
amigos e os nicos em quem podemos confiar. Havemos de
encontrar algum stio para onde ir." Em resumo,
tranquilizei-a; ela tambm conhecia Tommasino, meio irmo de
Festa, o proprietrio da herdade cultivada por Vincenzo. Este
Tommasino era comerciante e, embora quase morresse todos os
dias de medo, no se decidia a ir juntar-se aos parentes, na
montanha,

c. - 4

49





por amor ao mercado negro, pods negocieva e vendia de tudo.
estal Morava num casebre ao fundo da plancie, no sop dos
montes; Eu c ganhava bom dinheiro, arriscando a vida e
continuando a negociar se er apesar dos bombardeamentos, das
prepotncias dos fascistas e das escal requisies dos
Alemes. Mas, toda a gente sabe, por dinheiro at os pare~
cobardes se tornam corajosos: Tommasino pertencia a esse
nmero. I e:

Assim,  luz duma candela, metemos dentro das males as poucas
caba coisas que tnhamos tirado de l quando chegmos e
depots, sucec vestidas como estvamos, deitmo-nos em cima do
feno e dormimos favor talvez umas quatro horas. Rosetta,
claro, de boa vontade dormiria `Conct mats, era jovem e tinha
o sono pesado; podia at vir a banda de deseji msica da
aldeia e pr-se a tocar ao p dos seus ouvidos, que no ~ Rome
acordava. Mas eu, mais velha, tinha o sono leve, e desde que
ergui, fugramos, por cause das preocupaes e do nervosismo,
dormia cu e pouco. Quando os galos comearam a canter, era
ainda noise, mas a estrel alvorada j estava pr6xima e os
galos sabem-no teem; primeiro repen maito ao longe, ao fundo
da planicie, depots mais perto, e por fim escur~ mesmo ao
lado, na capoeira de Vincenzo. Levantei-me do feno e fossen
comecei a sacudir Rosetta. Digo "comecei" porque ela no
queria debai' acordar, repetindo, com voz chorosa: "O que , o
que ?", como se com e, tivesse esquecido que estvamos em
Fondi, em case de Concetta, e nunct se julgasse ainda em Roma,
na nossa case, once nunca nos respo levantvamos antes das
sete. Finalmente acordou, muito queixosa, e incriv disse-lhe:
"Preferias talvez dormir at ao meio-dia e ser acordada cresc~
por um homem de camisa negra?" Antes de sair da cabana assomei
 pare

porta e olhei pare a eira: viam-se no cho os figos espalhados
a se- -me c car, uma cadeira na qual Concetta estivera
sentada. um cesto cheio once de milho, a parede cor-de-rosa da
case, toda esfolada e enegrecida, passo mas no se via
ningum. Ento, eu e Rosetta pusemos as males  mau

cabea, tal como tinhamos feito ao chegarmos  estao de
Monte curv San Biagio, samos da cabana e corremos
rpidamente pare o fiea de carreiro que atravessava os
laranjais. uma 

Eu sabia o caminlcto e, uma vez na estrada principal, tomei em
Rosett direco s montanhas que ficam ao norte da planicie de
Fondi. mala

Nascia o dia. lembrei-me da outra alvorada, quando fugira de
mome Roma, e pensei: "Quem sabe quantas outras como esta verei
ainda nuven c~tes de voltar pare case?" Uma luz cinzenta e
false espalhava-se juntan por todo o campo; no cu, dum branco
incerto, uma e outra estrela, fui olh aqui e alm a brilhar,
como se no estivesse pare nascer o dia. mas mnitas sim pare
comear outra noise, menos negra do que a primeira; a avia ~
geada cobria as arvores, tristes e im6veis, e o cascalho da
estrada ali nc mnito frio, gelava-me os ps descalos. Havia
um silnci mim t: inteiriado, mas j no como o silncio
nocturno: distinguiam-se conhe

50
     




ido. estalidos secos, adejos e rumores; lentamente, o campo
acordava.
.tes; Eu caminhava adiante de Rosetta e olhava pare as
montanhas que
ciar se erguiam em volta, tendo por fundo o cu; eram
montanhas nuas,
das escalvadas, com uma ou outra mancha acastanhada aqui e
alm;
 os pareciam desertas. Mas, como sou montanhesa, sabia que,
uma vez
~ro. l em cima, encontraramos terra cultivada, bosques,
matos,
ices cabanas, cases, camponeses e fugitivos. E imaginava o que
iria
tots, suceder-nos nessas montanhas, augurando que a sorte nos
seria
mos favorvel e encontrariamos boa gente, e no criminosos
como
tiria Concetta e a familia. Sobretudo esperava ester l pouco
tempo e
de desejava que os Ingleses chegassem depressa pare poder
voltar a
no Roma, pare a minha case e pare a minha loja. Entretanto, o
Sol
~ue erguia-se no horizonte, por trs da orla dos montes, e os
cumes e o
mia u em volta comearam a ungir-se de vermelho. J no havia
1S a estrelas no cu, que se tornara azul-plido; depots, o
Sol brilhou de
~iro repente, claro como ouro, no fundo dos olivais, por entre
os ramos
fm escuros, e os seus raios espreguiaram-se na estrada, e,
embora
.o e fossem ainda fracos e hesitantes, pareceu-me
imediatamente que
~ria debaixo dos meus ps o saibro j no estava to frio.
Reconfortada
se com esse sol, disse a Rosetta: "Quem diria que h guerra;
no campo
a, e nunca se percebe que h guerra." Rosetta nem teve tempo
de
nos responder; dos lados do mar surgiu um avio a uma
velocidade
a, e incrivel: primeiro apenas lhe senti o ronco medonho,
sempre a
ada crescer, depots vi-o descer do cu, em direco a ns, de
focinho
ei  pare baixo. S tive tempo de agarrar Rosetta por um brao
e deitar
se- -me com ela pare alm da berma da estrada, num campo de
milho
eio once camos de bruos no meio das espigas; o avio, voando
baixo,
da, passou-nos por cima com um barulho de enlouquecer, raivoso
e
.s  mau; parecia mesmo ester enfurecido connosco; depots
chegou 
nte curve da estrada, voltou atrs, empinou-se de repente
sobre uma
a o file de choupos e por fim afastou-se, voando a meia
encosta: parecia
uma mosca a mover-se diante do Sol. Eu estava de bruos, com
em Rosetta achegada a mim, e olhava pare a estrada, once
ficara a
ndi. male pequena, que Rosetta deixara cair no cho quando a
puxei. No
de momento em que o avio p ass ava vi erguerem -se umas peque
ninas
nda nuvens de p que dir-se-ia correrem em direco aos montes
t-se juntamente com ele. Quando tudo sossegou, sa do campo de
milho,
ala, fui olhar e vi a male esburacada em vrios stios. Na
estrada havia
nas muitas bales do comprimento do meu deco minimo. Assim, no
t; a havia dvidas: aquele avio tinha disparado mesmo contra
n6s, pods
.da, ali no havia mais ningum. Pensei: "Malditos sejam!~ E
senti em
ICiO mim um dio feroz contra a guerra: aquele aviador no nos
i-se conhecia, talvez fosse um bom rapaz da idade de Rosetta,
e, s

5/





porque estvamos em guerra, quisera matar-nos, por simples
capricho, tal como um caador que anda no mato  caa com o
seu cfio e atira ao acaso para uma rvore, pensando: "Talvez
mate alguma coisa, nem que seja um pssaro.>> Sim, ns ramos
apenas dois pssaros, a servir de alvos a um caador vadio,
que depois, se os pssaros caem mortos, os deixa no mesmo
stio, pois no lhe servem para nada. "Mam", disse Rosetta,
passado pouco tempo, enquanto caminhvamos, "disseste que no
campo no havia guerra e no entanto aquele tentou matar-nos."
Respondi: "Minha filha, enganei-me. A guerra est em toda a
parte, tanto no campo, como na cidade."

52

-





CAPTULO III

Depois de meia hora de caminho, pouco mais ou menos, chegmos
a uma encruzilhada:  direita havia uma ponte sobre um ribeiro
e, do outro lado, uma casinha branca, onde, como j sabia,
morava Tommasino. Debruando-me na ponte, vi uma mulher que
lavava roupa no rio, ajoelhada nas pedras. Gritei-lhe: "Mora
aqui Tommasino?~> Ela acabou de torcer um pano j lavado e
respondeu: "Sim, mora aqui. Mas no est em casa. Foi a
Fondi.. "E volta?" "Sim, volta." No podamos fazer mais nada
seno esperar, e foi o que fizemos; sentmo-nos num banco de
pedra  entrada da ponte. Durante algum tempo ficmos ali
caladas, ao sol, que a pouco e pouco se tornava nais quente e
luminoso. Rosetta, por fim, perguntou: "Julgas que a Annina me
restituir o Pallino so e salvo quando voltarmos para Roma?"

Eu estava mergulhada em pensamentos to diferentes que no
primeiro instante no compreendi. Depois lembrei-me que Annina
era a porteira do prdio ao lado do nosso, em Roma, e Pallino
o gato pardo de que Rosetta gostava muito e que, por isso
mesmo, antes de partir, confiara a Annina. Tranquilizei-a,
dizendo-lhe que com certeza encontraria o Pallino mais bonito
e mais gordo, quanto mais no fosse porque Annina era irm de
um cortador e, apesar da carestia, a eles nunca faltava carne.
A minha resposta pareceu confort-la e calou-se de novo,
semicerrando os olhos por causa do sol. Menciono aqui esta
pergunta de Rosetta, naquele momento to crtico, para mostrar
que ela, embora tivesse j mais de dezoito anos, era ainda uma
criansa pelo carcter. Revelava-o bem tal preocupao quando
no sabiamos ainda onde dormiriamos naquela noite ou se
teriamos que comer.

Por fim, l apareceu um homem na curva da estrada; caminhava
devagar, sugando uma laranja. Reconheci imediatamente
Tommasino, que era tal e qual um hebreu do ghetto, a cara
comprida, a barba duma semana, o nariz adunco, os olhos  flor
da pele, o passo arrastado, os ps para fora. Ele tambm me
reconheceu, pois era sua freguesa e nessas duas semanas
tinha-lhe comprado mnitas coisas; mas, desconfiado, no
respondeu ao meu cumprimento e continuou a chupar a laranja de
olhos no cho. Quando chegou ao p de mim, disse-lhe:
"Tommasino, ns samos de

53





casa de Concetta. Agora tens de nos ajudar, pois no sabemos
para onde ir." Ele ento apoiou-se ao parapeito da ponte, com
um p contra o muro, deu uma dentada noutra laranja que tirou
do bolso, atirou a casca na minha direco e respondeu: "Isso
 bom de dizer. Mas... nestes tempos cada um trata de si e
Deus de todos. Como queres que te ajude?" Eu disse ento:
"Conheces algum campons na montanha que possa dar-nos
agasalho at chegarem os Ingleses?" E ele: "No conheo
ningum e todas as casas esto cheias de gente, segundo me
disseram. Mas se vais para a montanha, alguma coisa hs-de
encontrar: uma cabana, um palheiro." Respondi: "No, assim 
aventura no vou. Tens l o teu irmo e conheces os
camponeses. Podes dar-me alg~ma indicao." E ele, atirando
fora outra casca:
(<Noteulugartsabesoquefazia?""Quefazias?""VoltavaparaRoma."

Compreendi que no queria ajudar-nos porque nos julgava umas
pobretanas; alis j sabia que ele s pensava no dinheiro e,
enquanto no visse dinheiro, era escusado, no fazia nada por
ningum. Nunca Ihe dissera que tinha comigo um bom peclio,
mas entendi que era chegado o momento de Iho dizer. Nele podia
confiar, ramos os dois da mesma raa: ele tambm tinha uma
mercearia em Fondi e agora fazia mercado negro exactamente
como eu fizera antes: em suma, como o outro que diz: um co
no morde outro co. Assim, sem insistir no assunto, disse:
"Eu para Roma no vou, por causa dos bombardeamentos e da
carestia e tambm porque j no h comboios: alm disso, a
minha Rosetta est ainda impressionada com as bombas. Decidi
ir para a montanha e procurar l alojamento. Pagarei o que for
preciso. Quero tambm levar algumas provises, por exemplo,
azeite, feijo, laranjas, queijo, farinha, um pouco de tudo.
Pagarei  vista, tenho umas economias, quase cem mil liras. Tu
no queres ajudar-me, est bem, dirijo-me a qualquer outro;
no s o nico aqui em Fondi, h o Esposito, o Scalise e
mnitos outros. Vamos, Rosetta."

Falei num tom resoluto: e logo a seguir pus a mala  cabea,
Rosetta fez o mesmo e demos alguns passos na estrada, em
direco ao Monte San Biagio. Quando me ouviu dizer que tinha
cem mil liras, Tommasino arregalou os olhos e ficou, por
momentos, indeciso, com os dentes fincados na laranja que
estava a descascar. Em seguida deitou a laranja fora e correu
atrs de ns. Por causa da mala que levava  cabea, no podia
voltar-me, mas ouvi-o dizer, numa voz rouca e perturbada:
"Pra um momento, que diabo! Ests com uma pressa... Pra...
falemos um pouco..."

Por fim, parei e, depois de me fazer rogada, consenti em
voltar atrs e entrar na casinha dele. Mandou-nos entrar para
um quartito branco e nu, no rs-do-cho, no qual no havia
seno uma cama de

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-





-

ferro com os lenis em desalinho. Sentmo-nos os trs em cima
da cama e ento ele disse, num tom quase amvel: "Bem, vamos
l fazer a lista das provises que precisas. No prometo nada,
porque  uma altura ruim e os camponeses tornaram-se findrios.
Assim, quanto aos preos, deves confiar em mim e no discutir:
no estamos em Roma em tempo de paz, estamos em Fondi em tempo
de guerra. Sobre a casa na montanha, nada prometo. Havia
muitas antes dos bombardeamentos, mas depois alugaram-se
todas. Porm, como vou falar hoje com o meu irmo, vocs as
duas podem vir comigo para cima e alguma coisa se h-de
arranjar, especialmente se ests disposta a pagar bem. Quanto
s provises, ters de esperar pelo menos uma semana.
Entretanto, se arranjares alojamento l em cima, o meu irmo
ou qualquer outro refugiado pode emprestar-te ou vender-te o
que for preciso." Ditas estas palavras em tom prtico e
razovel, tirou do bolso um caderninho todo ensebado e
rasgado, escolheu uma pgina em branco, agarrou num lpis,
molhou o bico na boca e recomecou "Ento dize l: que farinha
precisas7."

Ditei-lhe o rol, cuidadosamente: tanto de farinha de trigo,
tanto de farinha de milho, tanto de azeite, tanto de feijo,
tanto de queijo de ovelha, tanto de banha, tanto de salame,
tanto de laranjas, e assim por diante. Ele escreveu tudo,
depois meteu no bolso o canhenho e saiu do quarto, voltando
dai a pouco com um po e metade dum salame: "Eis um bom
principio... agora comam e fiquem aqui  minha espera...
dentro de uma hora iremos por ai acima. . Entretanto,  melhor
que me pagues j o po e o salame... assim evitam-se
confuses.~\ Tirei logo uma nota de mil liras e deilha e ele,
depois de a ver bem contra a luz, deu-me o troco, uma porc,o
de notas to rotas e sujas como eu nunca vira. So estas as
notas que se encontram no campo, onde h pouco dinheiro e esse
pouco gira e torna a girar dumas mos para outras, nunca se
renovando, pois os camponeses no gostam de entregar o seu
dinheiro ao banco e preferem escond-lo em casa. Ainda Ihe
restitui algumas daquelas notas, por estarem demasiado sujas,
e ele trocou-mas, observando: "Tivesses tu uma carrada delas,
que no me importava de poder troc-las."

Tommasino deixou-nos, avisando-nos de que voltava dai a pouco,
e ns comemos o po e o salame sentadas na cama, sem falar,
mas agora mais tranquilas com a certeza de que em breve no
nos faltaria casa e comida. Apenas disse, a certa altura, no
sei porqu, talvez seguindo o fio dos meus pensamentos: ~Vs
Rosetta, o que vale ter dinheiro?" E ela: "Nossa Senhora
ajudou-nos, mam, eu sei, e h-de ajudar-nos sempre." No
ousei contradiz-la, sabia que era

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religiosa, mesmo muito, e rezava todas as manhs quando se
levantava e  noite ao deitar; eu prpria Ihe dera essa
educao,
como  uso nas nossas aldeias; mas no pude deixar de pensar
que,
a ser verdade, a ajuda de Nossa Senhora me parecia bastante
estranha: o dinheiro convencera Tommasino a auxiliar-nos, mas
esse dinheiro ganhara-o eu no mercado negro, graas  guerra e

carestia. Nossa Senhora teria querido tambm a guerra e a
carestia.
Mas porqu7 Para nos punir dos nossos pecados?
Depois de comermos o po e o salame, estendemo-nos em cima
dos lenis sujos de Tommasino e dormimos a uma meia hora.c~
Estvamos a p desde o nascer do dia e o sono atrasado
turvava-noseJ
a c abea, como o vinho bebido em jejum. Dormamos ainda
quando"C
Tommasino voltou e nos bateu na cara, dizendo, muito alegre:e~
<<Acordem, vamos partir, acordem!" Estava contente, via-se
quesc
antegcJzava j os ganhos que esperava obter connosco.
Levantmo-v'
-nos e seguimo-lo. Em frente da casa, junto  ponte, um
burropl
cinzento, mnito pequeno, daqueles a que chamam burros da
Sardenha, j estava bem ajoujado com uma poro enorme de
pacotes, em cima dos quais Tommasino atara as nossas malas.
Partimos, Tommasino  frente com o burrico pela arreata, uma
vergasta na mo, vestido como um citadino, de chapu preto,
casaco
preto, calas pretas s riscas, mas sem gravata, e nos ps
botas de
soldado, de vitela amarela, todas enlameadas. Ns as duas
seguamos atrs.
Primeiro contornmos, na planicie, o sop duma daquelas
montanhas; depois metemos por um atalho que saa da estrada
principal e ia obliquando encosta acima, cheio de pedras, p6 e
buracos, entre duas sebes de silvas. Comemos a trepar e bem
depressa nos encontrmos num vale apertado e ingreme, entre
dois
montes, que estreitava cada vez mais, como um funil,  medida
que
subiamos, at se tornar em acanhada garganta, l em cima,
perto do
cu, entre dois cumes rochosos. Mas, querem acreditar?, mal
pus os
ps no atalho pedregoso, com excrementos de animais, p e
buracos,
experimentei logo grande alegria. Sou camponesa da montanha e
tinha percorrido tantos atalhos como aquele, para cima e para
baixo, at os dezasseis anos que, ao senti-lo debaixo dos ps,
me
pareceu ter encontrado finalmente qualquer coisa familiar,
como se,
na falta dos meus pais, tornasse a ver ao menos os lugares
onde
tinha sido criada. At aqui, pensei, estivemos na plancie e a
gente
da planicie  falsa, ladra, porca e traioeira; mas agora, com
este
querido atalho cheio de pedras e esterco, poeirento e
escarpado,
encontro a montanha e a minha gente.
No disse nada disto a Tommasino, primeiro porque no me

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-





compreenderia e depois porque tambm ele pertencia  plancie,
com aquela cara de judeu e aquela mania de aforrar dinheiro.
Mas disse baixinho a Rosetta, quando passvamos em frente duma
linda sebe na qual cresciam muitos ciclames: "Colhe aqueles
ciclames, faz um raminlio e pe-o nos cabelos, fica bem~
Lembrou-me de repente que costumava fazer isso quando era
rapariga: colhia os cclames, fazia um raminho, punha-o nos
cabelos por cima duma orelha, e parecia-me que ficava duas
vezes mais bonita. Rosetta seguiu o meu conselho e, no momento
em que parmos para tomar flego, colheu um raminho para ela e
outro para mim e com eles nos enfeitmos. Disse, a rir, a
Tommasino, que nos olhava espantado: "Oueremos entrar bonitas
na nova casa." Mas ele nem sequer sorriu: estava sempre de
olhos fitos no se sabia onde, a fazer clculos sobre o que ia
vender ou comprar e os ganhos ou percas. Um verdadeiro
comerciante do mercado negro e ainda por cima da planicie!

O atalho passou primeiro junto dum grupo de casas, na
embocadura do vale, depois voltou  direita, flanqueando o
monte, por entre o mato. Subia lentamente, aos ziguezagues,
quase plano, de vez em quando com um troo mais ingreme, e eu
sentia que no me cansava, as minhas pernas estavam habituadas
a subir desde nascena, por assim dizer, e subitamente, como
por instinto, reencontravam o se u pass o de montanha, lento e
regular, de tal modo que nem sequer me esfalfava nas maiores
subidas, ao passo que Rosetta, que nascera em Roma, e
Tommasino, que era da planicie, tinham de parar de vez em
quando para tomar flego. Entretanto,  medida que o atalho
subia, ia-se descortinando a natureza do vale, ou, melhor, do
desfiladeiro, pois no se podia chamar vale a garganta to
estreita: era uma escada imensa com degraus mais largos em
baixo e mais estreitos em cima. Nestes degraus estavam as
culturas, espcie de terraos a que nds, montanheses, chamamos
socalcos e que consistem em faixas compridas e estreitas de
terreno frtil, sustidas por murozinhos de pedras soltas.
Sobre essas faixas cresce de tudo: trigo, batatas, milho,
hortalias, linho e at rvores de fruto, plantadas aqui e
alm no meio das culturas. Eu conhecia bem os socalcos; em
rapanga trabalhara, que nem besta de carga, acarretando 
cabea cestos de pedra para erguer os muros de suporte e
habituara-me a andar para cima e para baixo pelos ngremes
carreirinhos e escadinhas que estabelecem comunicao entre um
socalco e outro. Custam muito trabalho estes socalcos; para os
construir, o campons tem de desbravar a encosta da montanha,
arrancar-lhe o mato, tirar todos os calhaus a um e um e levar
para l,  fora de braos, as pedras

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necessrias para os muros e s vezes a prpria terra. Mas,
depois de feitos, asseguram-lhe a vida, dando-lhe tudo quanto
precisa, de modo que, por assim dizer, no tem necessidade de
comprar nada.

Seguimos o atalho no sei por quanto tempo: vagabundo, ora
trepava um bom bocado, montanha acima,  esquerda do vale, ora
passava para o outro lado e comeava a subir  direita. Agora
podamos ver toda a encosta, em declive, e l no alto o cu
onde findava a escadaria gigantesca dos socalcos principiava a
faixa escura do mato; depois o mato rareava e viam-se algumas
rvores espalhadas na vertente nua; por fim, tambm as rvores
cessavam, s se via saibro branco por baixo do cu azul. Mesmo
no cume havia um tufo de verdura, no meio da qual se entreviam
algumas rochas vermelhas. Tommasino disse-nos que entre
aquelas rochas ficava a entrada duma caverna profunda, onde se
escondera, h muitos anos, o famoso pastor de Fondi que
queimara viva a noiva numa cabana e depois fora para o outro
lado da montanha e l casara e tivera filhos e netos; quando
descobriram o seu crime, era j um bom velho, pai, sogro e
av, de barba branca, amado e respeitado por todos. Tommasino
acrescentou que para l desse cume ficavam os montes da
Ciociaria, entre os quais o monte das Fadas. Lembrei-me entao
que o nome daquele monte, em criana, me fazia sempre sonhar,
e muitas vezes perguntara a minha me se nele havia na verdade
fadas; ela respondia-me que no, que o monte se chamava assim
nem sabia porqu; mas nunca acreditei; e mesmo hoje, j mulher
e com uma filha crescida, estive quase tentada a perguntar a
Tommasino porque  que o monte tem esse nome e se alguma vez
as fadas teriam andado por l.

De sbito, numa volta do atalho, no meio da escadaria dos
socalcos, eis que surge um boi branco atrelado  sua charrua e
urn campons a conduzi-lo numa dessas faixas estreitas e
compridas. Imediatamente Tommasino levou as mos  boca e
gritou: ~OI! Paride!" O campons revolveu a terra mais alguns
passos com o arado, depois parou e, sem pressas, veio ao nosso
encontro.

Era um homem no muito alto, mas bem proporcionado, como os de
Ciociaria, de cabeo, a redonda, testa baixa, nariz pequeno e
curvo, em gancho, maxilar pesado e boca grande, cortada a
direito, que parecia no ser feita para sorrir. Tommasino
disse-lhe, indicando-nos: ~Paride, estas duas senhoras so de
Roma e procuram uma casinha aqui nas montanhas... at chegarem
os Ingleses, claro, uma questo de dias." Paride tirou 0
chapu preto e olhou-nos fixamente, sem expressao, como olham,
fascinados e estpidos, os camponeses que passam horas e horas
szinhos com 0 boi, 0 arado e os sulcos; depois disse,
lentamente e de m vontade, que ali j no havia

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-

casas, as poucas que existiam estavam todas alugadas; em
resumo, no via onde pudssemos ficar. Rosetta fez logo uma
cara triste e desolada, mas eu continuei calma, tinha comigo
dinheiro e sabia que com dinheiro tudo se consegue. De facto,
assim que Tommasino Ihe disse, quase rudemente: ~Paride, vamos
ver se nos entendemos... estas senhoras pagam... no pedem
nada a ningum... pagam a pronto", Paride coou a cabea e a
seguir, baixando os olhos, admitiu que tinha uma espcie de
estbulo, um casebre encostado  sua casa, onde instalara o
tear e onde ns, se fosse por poucos dias, poderamos
acomodar-nos. Tommasino observou ento: "Vs como sempre havia
uma casa... A falar  que a gente se entende... Bem, Paride,
volta ao teu trabalho... eu c apresento as senhoras  tua
mulher." Paride pronunciou ainda algumas palavras e depois
voltou  sua charrua e ns retommos a subida.

Agora j faltava pouco. De facto, apenas mais um quarto de
hora de caminho e vimos trs casinhotos dispostos em
semicirculo na planura dum socalco. Eram casas pequenas de
duas divisoes, encostadas  vertente; os camponeses
constroem-nas, por assim dizer. szinhos, as mais das vezes
at sem a ajuda dum mestre-de-obras. Nestas casas s dormem. O
resto do tempo andam a trabalhar nos campos; e quando chove,
ou s horas das refeies, esto numas cabanas, ainda mais
fceis de construir, que podem erguer numa sb noite, com uma
parede de pedras soltas e um telhado de palha. E de facto
havia muitas cabanas espalhadas aqui e alm, em redor das
casas, formando com estas uma espcie de minscula aldeia.
Algumas, com o seu penacho de fumo, indicavam-nos que se
cozinhava l dentro, outras pareciam palheiros ou estbulos
onde  noite se fecham os animais. Ia e vinha gente entre as
casas e as cabanas, no apertado espao do socalco.

Quando, por fm, chegvamos, vimos que aquela gente que ia e
vinha estava a pr uma grande mesa ao ar livre, quase  beira
do socalco,  sombra duma figueira. Tinham colocado j os
pratos e os copos em cima da toalha e agora dispunham em volta
grandes cepos de madeira para servirem de cadeiras. Um dos
homens, logo que nos viu, veio imediatamente ao encontro de
Torhmasino, a gritar: "Chegaste mesmo a tempo de te sentares 
mesa!,

Era Filippo, o irmo de Tommasino, e nunca vi dois irmos to
diferentes. O que um tinha de reservado, silencioso, fechado
consigo e quase taciturno, sempre a calcular os ganhos, a roer
as unhas e a olhar para o cho, tinha o outro de expansivo e
cordial. Filippo era comerciante como Tommasino, mas, enquanto
este tinha uma mercearia, o irmo possuia um verdadeiro
armazm onde vendia de tudo.

5Y





Era um homem atarracado, de pescoo curto, a cabea quase
enterrada nos ombros muito largos, que at parecia um tarro
voltado ao contrrio com a parte mais estreita para cima e a
mais larga para baixo e o nariz exactamente como o bico dos
tarros. Tinha as pernas curtas, o busto amplo, o peito
saliente e um pouco de barriga, de forma que as calas, presas
com o cinto, dir-se-ia irem escorregar e cair ao primeiro
movimento.

Filippo, quando ouviu dizer que ramos refugiadas e amos
morar l em cima com eles, que tnhamos dinheiro e ramos
comerciantes (todas estas coisas lhas disse Tommasino,
taciturno e reticente, como se falasse consigo mesmo), pouco
faltou para nos saltar ao pescoo: "Sentem-se aqui  mesa...
temos massa com feijo... comam connosco... enquanto no
chegam as vossas provises, servem-se das nossas... tanto mais
que os Ingleses esto ai a chegar e trazem de tudo, haver
abundncia... o que  preciso agora  comer e cara alegre ." I
a e vinha, enf`atu ado , em red or da mesa, apresentou-nos a
filha, uma moreninha meiga e um pouco triste, e o filho, um
rapaz baixo, de ombros largos, um tanto encurvado, de tal modo
que quase se pensava que fosse corcunda, mas no era, mnito
moreno, com grossas lentes de mope; era doutor, pelo menos
assim o disse o pai: "Apresento-lhes o meu filho Michele... 
doutor." Depois apresentou-nos tambm a mulher, com cara
espantada, muito branca, olhos pisados e encovados e seios
enormes: so`ria de asma e tambm, segundo penso, de medo;
parecia de facto doente.

Filippo, como disse, assim que soube que eu tinha uma loja em
R oma, tornou-se cordial, ou, melhor, fraternal, e, depois de
me perguntar se eu tinha dinheiro e de saber que sim,
confessou-me que tambm trazia uma grande soma no bolso das
calas, que Ihe chegaria para viver mesmo que os Ingleses
demorassem um ano a chegar. Falava-me num tom confidencial, de
igual para igual, ou, antes, de negociante para negociante, e
senti-me de novo animada. No sabia ainda, e ele tambm no,
que toda aquela importante soma, se a guerra durasse, a pouco
e pouco iria perdendo o seu valor, e por fim o dinheiro que
poderia manter uma famlia durante um ano no chegaria sequer
para um ms. Filippo disse ainda: "Ns ficamos c em cima at
chegarem os Ingleses; comemos e bebemos e nada de
preocupaces... Quando os Ingleses vierem, trazem vinho,
azeite, farinha, feijao, volta a abundncia, e nbs, os
comerciantes, abrimos imediatamente as lojas, como se nada
tivesse acontecido." Objectei, s para dizer alguma coisa, que
podia dar-se 0 caso de os Ingleses no virem e de os Alemes
vencerem a guerra. E ele: "Oue nos importa isso a nds? Alemes
ou Ingleses  a mesma coisa,

f)()

-





-

contanto que venca um.. a ns importa-nos smente o neg6cio."
Disse isto em voz alta, com grande segurana; ento, o filho,
que estava szinho  beira do socalco, contemplando o panorama
de Fondi, voltou-se como uma vbora e afirmou: "Para ti talvez
isso no tenha importancia... mas eu, se os Alemes ganharem a
guerra, suicido-me."

Disse isto num tom to srio e convicto que me admirei e
perguntei: "Mas que mal te fizeram os Alemes?" Ele olhou-me
de esguelha e depois: "A mim, pessoalmente, nenhum mal.. mas
ouve, se algum te dissesse: olha, ponho em tua casa esta
serpente venenosa, trata-a bem, que dirias?" Fiquei pasmada e
respondi: "Bem, eu no queria uma serpente em minha casa." "E
porqu, se essa serpente no te tinha feito mal nenhum?" "Sim,
mas sabe-se que as serpentes venenosas, mais cedo ou mais
tarde, acabam por morder " "Pois  isso mesmo, embora os
Alemes no me tenham feito nenhum mal pessoalmente, sei que
os Alemes, ou, melhor, os nazis, mais cedo ou mais tarde
acabam por morder como as serpentes.~> Naquele momento,
Filippo, que estivera a ouvir-nos com impacincia, ps-se a
gritar: "Para a mesa, para a mesa... nada de alemes nem de
ingleses.. para a mesa, j c esto as sopas!" E o filho,
pensando talvez que, afinal, eu no passava duma pobre
camponesa e no valia a pena gastar palavras comigo,
dirigiu-se para a mesa, como os outros

Que almoco aquele! Lembrar-me-ei sempre dele enquanto viver,
pela estranheza do lugar e pela abundncia, A estranheza do
lugar: uma mesa comprida e estreita, numa faixa de terreno
comprida e estreita; por baixo de n6s, a escadaria gigantesca
dos socalcos, descendo at o vale de Fondi; em volta, a
montanha e por cima, o cu azul, iluminado pelo sol dum
Setembro doce  qente. E, sobre a mesa, a abundncia: pratos
de salame e presunto, queijos da serra, po feito em casa,
quente, a estalar, legumes em conserva, ovos cozidos, manteiga
e sopa de massa com feijo nuns pratos enormes, cheios at
acima, que a filha, a me e a mulher de Filippo traziam, uma
atrs da outra, da cabana onde cozinhavam. Havia tambm vinho
engarrafado e at uma garrafa de conhaque. Enfim, ningum
imaginaria ali que l em baixo, no vale, havia carestia, que
um ovo custava oito liras e em Roma se morria de fome. Filippo
andava em volta da mesa esfregando as mos, o rosto a luzir de
satisfao. Repetia: "Vamos comendo e bebendo... quando
chegarem os Ingleses, chega a abundncia." Onde foi ele buscar
essa ideia de que os Ingleses trariam a abundncia, no o sei
dizer. Mas l em cima todos acreditavam nela e a repetiam
constantemente uns aos outros. Creio que essa

61





convico a tinham colhido atravs da rdio, onde, como me
disseram, um ingls que falava italiano tal qual como um
italiano fazia propaganda, repetindo, todos os dias, que, mal
os Ingleses chegassem, nadariamos em prosperidade e bem-estar.

Uma vez servida a sopa, sentmo-nos  mesa. Quantos ramos?
Estava Filippo com a mulher e os dois filhos; Paride e a sua
mulher, Lusa, loura, pequena, de cabelos encaracolados e
olhos azuis de expresso taciturna, e o filho de ambos,
Donato; estava Tommasino com a mulher, alta, magra, de bigode,
carrancuda, e a filha, que tambm tinha um rosto cavalar como
a me, mas meiga, de olhos negros e bondosos; estavam quatro
ou cinco homens mal vestidos e de barba comprida, gente de
Fondi refugiada na serra, que andavam sempre em volta de
Filippo como se o reconhecessem por chefe. Tinham sido todos
convidados por Filippo para festejar o aniversrio do seu
casamento. Mas isso soube-o mais tarde: naquele momento tive a
impresso de que Filippo dispunha de tantas provises que
podia deit-las pela janela fora, convidando todos os dias
para a sua mesa os habitantes do lugarejo.

Comemos, sem exagero, pelo menos durante trs horas. Primeiro
foi a sopa de massa com feijo; a massa era leve, feita com
ovos, amarela como ouro, e 0 feijo da melhor qualidade,
branco, tenro, grande, desfazendo-se na boca como manteiga.
Todos comeram dois e at trs pratos de sopa, cheios at as
bordas, to boa ela estava. A seguir foi a vez do antepasto:
presunto da serra, um pouco salgado, mas estimulante, salame
feito em casa, ovos cozidos, legumes em conserva. Depois as
mulheres precipitaram-se para a cabana, ali a dois passos, e
voltaram com travessas cheias de grandes bocados de carne
assada, cortados ao acaso, vitela de primeira qualidade, tenra
e clara; tinham abatido um bezerro no dia anterior e Filippo
comprara alguns quilos. A seguir  vitela foi a vez do cabrito
picadinho, tenro e delicado, com molho branco, cido e doce,
muito bom; em seguida comemos queijo de ovelha, duro como
pedra, picante, feito de propbsito para puxar bastante vinho,
e ainda fruta: laranjas, figos, uvas, frutos secos. Houve
tambm doces, sim senhor, feitos no forno, de massa folhada,
polvilhados com acar e baunilha, e, por fim, com 0 conhaque,
comemos alguns biscoitos duma grande caixa que a filha de
Filippo foi buscar  casinha onde moravam. Quanto bebemos?
Pelo menos um litro por cabea, mas houve quem bebesse mais de
um litro e outros menos de um quarto, como, por exemplo,
Rosetta, que nunca bebia. A alegria daquela mesa no se pode
descrever: todos comiam e bebiam e no faziam seno falar em
comidas e bebidas, tanto do que estavam a comer e a beber como
do que tinham comido e bebido em tempos. Para esta

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-





-

gente de Fondi, e o mesmo sucede na minha aldeia, comer e
beber  to importante como em Roma ter autom6vel e um
apartamento em Parioli; para eles, quem come e bebe pouco 
considerado um pobreto; por isso, quem se quer dar ares de
senhor procura comer e beber o mais possvel, sabendo que  a
nica maneira de ser admirado e considerado. Eu estava sentada
ao lado da mulher de Filippo, aquela senhora muito branca, de
peito enorme, que parecia doente. Ela no estava nada alegre,
coitada, e via-se que no se sentia bem; todavia gabava-se da
comida que tinham sempre em casa: "Nunca menos de quarenta
ovos, seis presuntos e outros tantos salames e queijos...
nunca menos de uma dozia de cabeas de porco. Toucinho,
comamos tanto que um dia dei um arroto e um bocado que j me
descera para o estmago tornou a subir e saiu-me pela boca
fora, como uma segunda lngua, mas esta muito branca." Repito
isto porque ela o disse assim, simplesmente, para me
impressionar. Em suma, gente do campo, que no sabe ainda que
os senhores da cidade comem pouco, ou, melhor, pouqussimo, em
especial as mulheres, e gastam toda a sua riqueza na casa, nas
jbias e nos vestidos. Aqui, ao contrrio, andam vestidas como
mendigas, mas tm tanto orgulho nos seus ovos e no seu
toucinho como as damas de Roma nos seus vestidos de noite.

Filippo bebia mais do que todos os outros, no s6 porque, como
nos anunciou a certa, altura, era o dia do aniversrio do seu
casamento, mas tambm por ter esse viciozinho; vrias vezes o
vi, mais tarde, de olhos brilhantes e nariz vermelho, a todas
as horas do dia. mesmo s nove da manh. Assim, talvez porque
estivesse bbedo, a meio do jantar ps-se a fazer
confidncias: "Eu digo-lhes isto., comeou de sbito, com o
copo na mo, "a guerra  ruim smente para os parvos... para
os outros, no. Sabem o que eu gostava de escrever na minha
loja, por cima da caixa? 'Aqui no h papalvos.'  o que dizem
em Npoles, mas nds tambm o dizemos, e  a pura verdade. No
sou papalvo e nunca o serei; porque neste mundo s6 h duas
categorias de pessoas: os parvos e os espertos; e ningum que
eu saiba quer pertencer  primeira. O importante  saber
certas coisas e ter os olhos bem abertos. Os parvos so os que
acreditam nas mentirolas dos jornais e pagam as contribuies
e vo para a guerra e talvez l deixem a pele. Os espertos,
ah, ah, os espertos so o contrrio, eis tudo. E, nos tempos
que correm, quem  parvo perde-se e quem  esperto salva-se;
os parvos no podem deixar de ser parvos como antes, mas quem
 esperto tem de tornar-se espertssimo. Ah! Sabem o
provrbio:  melhor um burro vivo do que um doutor morto. Ou
este outro:  melhor um pssar4na mo do que dois a voar. Ou
ainda este: prometer e manter  prdprio do

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homem mesquinho. Digo mais: daqui para o futuro, j no h
lugar no mundo para os parvos, ningum pode dar-se ao luxo de
ser parvo, nem um s dia; doravante  preciso ser-se esperto,
muito esperto, porque vivemos tempos perigosssimos e, se
damos um dedo, tomam-nos logo a mo; vejam o que sucedeu a
esse pobre Mussolini, que julgava ir fazer uma guerrazinha 
Frana e ficou contra o mundo inteiro e agora tem de fazer
figura de parvo  fora, ele que quis sempre armar em
esperto... Escutem bem, os governos vo e vm e fazem as
guerras com a pele da gente pobre e depois fazem a paz e tudo
o que lhes apetece, mas para nds a nica coisa que conta e
nunca muda  o comrcio. Que venham os Alemes, que venham os
Ingleses, que venham os Russos, o importante para ns,
negociantes,  sobretudo e sempre o neg6cio; se o neg6cio
corre bem, tudo corre bem."

Este discursozinho custou-lhe sem dvida um esioro
extraordinrio, porque no fim j suava na testa e nas fontes
e, depois de esvaziar o copo dum s trago, limpou a cara com o
leno. Os refugiados, que, como disse, formavam o seu bando
aplaudiram-no b~go, calorosamente, tanto mais que estavam a
comer  sua custa e queriam agradecer-lhe; de resto, no
pascavam duns esfomeados e aduladores. <<Viva Filippo e viva o
comrcio!" gritou um. Outro observou a rir: "Tu podes bem
dizer que o neg6cio no muda, pois, apesar de mnitas coisas
terem acontecido, continuas a fazer bons negcios..." Um
terceiro, um pouco hesitante, mas sabicho, ops: "Que venham
os Alemes ou os Ingleses, de acordo; mas nfio digas que
venham os Russos, Filippo." "E porqu?" perguntou ele, que
tinha bebido j tanto vinho que naturalmente nem entendia o
que Ihe diziam. "Porque os Russos nfio te deixariam negociar,
Filippo... nfio sabes? Os Russos sfio sobretudo contra os
negociantes." "Chavelhudos!", exclamou Filippo, baixo e
sentenciosamente, deitando mais vinho no copo e observando-o
amorosamente enquanto o via subir. Por fim, um quarto gritou:
"Filippo, tens razfio, aqui ningum  parvo; disseste a pura
verdade."

Nesta altura, enquanto todos riam com frase tfio sincera, eis
que, de repente, o filho de Filippo se levanta e diz com
expresso sombria: "Aqui ningum  parvo, excepto eu, que sou
um imbecil." Houve um silncio depois desta interveno
inesperada e todos olhmos uns para os outros, espantados. O
filho de Filippo continuou, passado um momento: "E, como os
parvos nfio estfio bem na companhia dos espertos,
desculpem-me, mas vou dar uma volta." Dito isto, enquanto
alguns se apressavam a gritar-lhe: "Eh! vamos, porque te
ofendeste? Ningum te chamou parvo...", ele afastou a cadeira
e canlinhou lentamente ao longo do socalco.

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-

Todos se voltaram para o ver distanciar-se; mas Filippo estava
demasiado bbedo para levar aquilo a mal. Ergueu o copo na
direco do filho e disse: " tua sade... um parvo, a menos,
em cada familia  preciso, nfio estraga." Todos riram ao ver o
pai, que se julgava esperto, beber  sade do filho, que se
proclamava parvo, e riram ainda mais quando Filippo,
levantando a voz, gritou: "Tu podes fazer de parvo porque em
casa c estou eu para ser esperto.~> Algum observou: "E  bem
verdade: Filippo trabalha e arranja os cobres, e entretanto o
filho passa o tempo a ler livros e a dar-se ares." Mas
Filippo, que, no fundo, parecia ter orgulho que o filho fosse
diferente dele e tfio instrudo, acrescentou, passado um
momento, tirando a ponta do nariz de dentro do copo:
"Entendamo

nos: o meu filho, verdadeiramente,  um idealista... mas,
nestes tempos, o que  um idealista? Um parvo. Talvez no por
culpa dele, talvez por culpa das circunstfincias, mas mesmo
assim um parvo."

Entretanto caa a tarde, o Sol escondera-se por trs das
montanhas e, por fim, uns de um lado, outros do outro, todos
se levantaram da mesa. Os homens foram jogar as cartas em casa
de Filippo, os camponeses voltaram para o trabalho e ns, as
mniheres, comemos a levantar a mesa. Lavmos a loia numa
celha cheia de gua, ao p do poo, e depois fizemos uma pilha
de pratos, que eu levei para os aposentos que Filippo e a
familia ocupavam na casinha do meio. Era uma casa de dois
pisos; para o segundo piso subia-se por uma escada exterior.
Fiquei surpreendida quando entrei: Filippo e os amigos estavam
sentados no cho, no meio da sala, de chapu na cabea e
cartas na mo: jogavam o scopone. Em toda a volta no havia
mveis, mas sim colches enrolados e arrumados aos cantos e
muitos sacos. No sei quantos seriam, mas devo reconhecer que,
pelo menos em relao s provises, Filippo aplicara as suas
ideias e procedera como esperto, e no como parvo. Havia ali
sacos de farinha de trigo, empoeirados de branco, sacos de
farinha de milho, estes empoeirados de amarelo, uns sacos mais
pequenos que deviam conter feijo, gro-de-bico, lentilhas,
ervilhas. Havia tambm vrias caixas, sobretudo com conserva
de tomate; na janela estavam dependurados dois presuntos e em
cima dos sacos viam-se alguns queijos. Vi tambm numerosos
boies com banha e tapados com papel, garrafes de azeite,
dois garrafes de vinho e, pendentes do tecto, muitas
salsichas caseiras. Em resumo, havia ali dentro o essencial
para fazer comida, porque, quando h farinha, gordura e
tomate, por muito mal que corram as coisas, pode-se arranjar
sempre um prato de massa. Como disse, Filippo e os amigos
jogavam o scopone no meio da sala; a mulher e a filha, uma ao
p da outra, estavam em cima dum colcho, recostadas, meio
despidas, tontas

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com o calor e a digesto. Filippo, assim que me viu entrar,
disse, sem levantar os olhos das cartas: "Vs, Cesira, estamos
bem instalados c em cima... vai pedir a Paride que te mostre
o teu quartito... vers que ficas l como uma abadessa." No
respondi, pousei os pratos no cho e sa em busca de Paride
para resolver o problema do aloj amento.

Encontrei-o a partir lenha junto da cabana e disse-lhe que
desejava ver o quartito que me prometera. Ele' apoiando num
cepo de madeira o p calc, ado com um tamanco e tendo na mo o
machado, ouvia-me por baixo da aba do chapu preto. Depois
pronunciou: "Bem, Tommasino fala como se fosse o dono, mas o
verdadeiro dono aqui sou eu... primeiro disse-te que sim, mas
agora, pensando bem, tenho receio de no poder dispensar-te
aquele quarto... a Lusa trabalha l todo o dia no tear... o
que vo fazer vocs durante esse tempo?... Naturalmente no
podem andar pelos campos. ..i)

Compreendi que ele no se fiava mnito em ns, como autntico
campons; ento tirei da bolsa uma nota de 500 liras e
entregueilha, dizendo: "Tens medo que no te pague?... Esto
aqui 500 liras, dou-tas j por conta; quando me for embora,
pagarei o resto." Ele calou-se e agarrou no dinheiro; mas
agarrou-o duma maneira especial, que vou descrever, porque tem
importancia para se compreender a mentalidade dos camponeses
da montanha. Pegou na nota, aproximou-a do ventre com as duas
mos e ficou a olh-la com uma admirao profunda e
embarac,ada, como se fosse um objecto estranho, voltando-a de
um lado e outro. Mais tarde vi-lhe fazer os mesmos gestos
sempre que lhe chegava dinheiro s mos e compreendi porqu.
Eles quase nunca vem dinheiro, pois fazem em casa tudo 0 que
precisam, mesmo 0 vesturio, e 0 pouco dinheiro de que dispem
obtm-no com a venda dos molhos de lenha que levam ao vale, 
cidade, durante o Inverno; assim, o dinheiro para eles  uma
coisa rara e preciosa, mais que dinheiro, quase um deus. Na
realidade, estes camponeses da montanha, junto dos quais
passei tanto tempo, no so religiosos nem sequer
supersticiosos e para eles a coisa mais importante do mundo 
0 dinheiro: um pouco porque nunca 0 tm e nunca 0 vem, e um
pouco tambm porque com 0 dinheiro, pelo menos assim julgam,
se obtm tudo quanto  bom.  o que pensam e eu, como
comerciante, no posso deixar de lhes dar razo.

Por fim, depois de ter contemplado bem a minha nota, declarou:
"Se no te importas com o barulho do tear, podes ficar no
quartito." Segui-o at  casa dele, que ficava  esquerda do
lugarejo, encostada, como todas as outras, ao muro de suporte
do socalco. Ao

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lado da casita de dois pisos havia uma pequena construo,
apoiada  parede rochosa, com o telhado de telhas, uma
portinha e uma janela sem vidros. Entrmos e vi que, como ele
me avisara, metade do quarto estava ocupada pelo tear, um tear
antigo, todo de madeira. Na outra metade, uma espcie de
tarimba, quero dizer, dois cavaletes de ferro sustentando
algumas tbuas postas ao comprido e em cima um saco de tecido
grosseiro cheio de palha de milho. L dentro, a custo se podia
andar direito sob o tecto inclinado: a parede do fundo era a
rocha nua e as outras tinham vrias teias de aranha e manchas
de humidade. Baixei os olhos para o cho. No havia tijolos
nem pedras, s terra, tal qual como um estbulo. Paride disse,
coando a cabea: " este o quarto... v se podes
instalar-te." Rosetta, que nos seguia, perguntou em tom de
espanto: "Mam, vamos dormir aqui?" Mas eu mandei-a calar,
respondendo: "Em tempo de guerra no se limpam armas." Depois,
voltando-me para Paride: "No tenho lenis, ds-mos?>
Comemos a discutir, ele no queria dar os lenis, que
pertenciam ao enxoval da mulher, mas por fim combinmos que
lhe pagaria um tanto pelo aluguer dos lenis. No tinha
cobertores, mas prometeu

me, em vez dum cobertor, o seu capote preto, pagando eu o
aluguer, claro. E foi assim para tudo o mais: a bacia de cobre
da gua para nos lavarmos, as toalhas de mos, as louas, at
uma cadeira em que pudssemos sentar-nos, uma de cada vez,
tudo foi arrancado com unhas e dentes e tudo foi obtido
smente depois de Ihe prometer o pagamento do aluguer de cada
objecto. Por fim perguntei lhe onde podiamos cozinhar e
respondeu me que na cabana, onde eles tambm cozinhavam.
Disse-lhe ento: "Bem, vamos l ver essa cabana, para fazer
uma ideia."

A ideia fui-a fazendo logo, enquanto seguia a caminho da
cabana, situada um pouco mais abaixo, no socalco imediato. Era
uma cabana com cho de pedra solta e telhado de palha em forma
de barco virado ao contrrio, de quilha para cima. Eu conhecia
estas cabanas; na minha aldeia metem-se nelas as alfaias e os
animais; podem construir-se num s dia se se trabalhar com
vontade. Primeiro faz-se a parede, colocando-se as pedras umas
sobre as outras, ajustando-as bem, sem cal. Depois erguem-se
nas duas extremidades do recinto, que tem forma oval, dois
ramos bifurcados. Sobre eles coloca-se horizontalmente um pau
comprido. Por fim, em camadas sobrepostas, poe-se palha dos
dois lados, em feixes unidos por vimes, at se obter uma
espessura suficiente. Nada de janelas, e a porta  constituda
por duas pedras direitas, os umbrais, e uma horizontal, a
arquitrave, e  sempre bastante baixa, o que obriga as pessoas
a dobrarem a espinha para a transpor. A

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cabana de Paride era semelhante em tudo s da minha aldeia.
Perto da porta, e pendurado num prego, estava um balde cheio
de gua com uma cucharra. Antes de entrar, Paride pegou na
cucharra, bebeu e depois deu-ma para eu beber tambm.
Entrmos. Durante um momento foi como se estivesse cega,
porque no havia janelas e Paride fechara a nica porta atrs
de si. Depois ele acendeu uma lamparina de azeite e ento, a
pouco e pouco, comecei a ver. O cho parecia de terra batida,
no meio havia uma fogueira moribunda e um trip de ferro sobre
o qual estava pousada uma panela toda negra. Levantei os
olhos: em cima, no escuro, pendiam fieiras de salsichas e
chourios de sangue postos ali a curar e tambm numerosos
penduricalhos de fuligem, negros e leves, que faziam lembrar
as decoraes duma rvore de Natal, mas uma rvore de Natal
ornamentada de luto. Em volta do fogo havia alguns cepos
dispostos em circulo e, sentada num deles, admirei-me de ver
uma velha mnito velha, de rosto parecido com a lua minguante,
s nariz e queixo, a fiar no seu fuso, completamente s
escuras. Era a me de Paride e acolheu-me com estas palavras:
"Muito bem, senta-te, disseram-me que s uma senhora de
Roma... isto no  um salo de Roma, mas uma cabana... tens de
contentar-te, por agora... vem c, senta-te aqui..." Eu, para
dizer a verdade, no tinha vontade nenhuma de me sentar num
daqueles cepos estreitos e pouco faltou para perguntar onde
estavam as cadeiras; mas contive-me a tempo. Mais tarde
descobri que nunca h cadeiras nas cabanas; tem-nas em casa,
consideram-nas um luxo que s6 se usa nas festas e nos
acontecimentos solenes, como casamentos, funerais ou outros
semelhantes; para no se estragarem, penduram-nas no tecto,
viradas ao contrrio, como se fossem presuntos. Um dia em que
entrei na casa de Paride bati com a nabea numa cadeira e
pensei c com os meus botes que me encontrava numa terra
deveras atrasada.

A cabana estava agora toda iluminada e eu podia ver que era
mesmo um lugar prdprio para animais: fria e escura, com o cho
lamacento e as pedras da parede e a palha do tecto
completamente negras e pegajosas da fuligem. O ar estava
saturado do fumo daquele lume moribundo, naturalmente porque a
lenha era verde; e o fumo,  falta de janelas, acumulava-se l
dentro, s saindo a muito custo pelas frinchas do tecto;
passado pouco tempo, R osetta e eu comemos a tossir e a
lacrimejar. Nessa altura descobri, deitados e quase escondidos
na ampla saia da velha, um feio co mestio e um velho gato j
sem plo, os quais, at parece impossvel, tarnbm choravam,
coitadinhos, como se fossem cristos, por causa daquele fumo
to

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-

acre e pungente: mas choravam sem se mexer, de olhos abertos,
sinal de que estavam habituados.

Eu no gosto nada da porcaria e a minha casa em Roma, embora
modesta, quanto a limpeza era um verdadeiro espelho. Por isso,
vendo aquela cabana, o corao confrangeu-se-me ao pensar que,
dali em diante, Rosetta e eu tnhamos de cozinhar, comer e
viver ali dentro, como duas cabras ou duas ovelhas. Disse,
como se pensasse em voz alta: "Ainda  uma sorte ser por
poucos dias, s6 enquanto no chegam os Ingleses..." E Paride:
"Porqu, a cabana no te agrada?" Respondi: "Na minha aldeia
metem-se os animais nestas cabanas." Paride era um tipo
curioso, como descobri em seguida, insensvel e sem
amor-prprio, por assim dizer. Retorquiu, esboando um sorriso
estranho: "E aqui vivem os cristos." A velha disse, na sua
voz estridula de cigarra: "No te agrada a cabana, hem... Mas
sempre  melhor do que estar no meio dum prado. Sabes l
quantos desses pobres soldados que esto na Rssia, maridos
das mulheres daqui, no se importariam de voltar para viver
toda a vida numa cabana como esta... Mas no voltam, matam-nos
a todos, e nem Ihes do sepultura de cristos, porque na
Rssia j no conhecem Cristo nem a Virgem." Fiquei
surpreendida com previses to sombrias; Paride esboou um
sorriso e disse: ~A minha me v tudo pelo pior porque 
velha, est aqui szinha todo o dia e ainda por cima  surda."
Depois, levantando a voz: "Mas quem te disse que no voltam?
Voltam, com certeza, agora  uma questo de dias." A velha
resmungou: "No s6 eles no voltam, mas tambm nos matam a
nds, com os avies." De novo Paride sorriu, como se o caso
fosse para rir; mas eu, assustada com tanto pessimismo, disse
 pressa: "Bem, havemos de nos tornar a ver... adeus." E ela,
com a sua voz de mau agouro: "Tornaremos a ver-nos, no tenhas
medo, pois no voltas para Roma to depressa e talvez mesmo
nunca mais l tornes..." Com este remate, Paride riu ento a
valer, mas eu pensei que aquilo no tinha graa nenhuma e
mentalmente fui fazendo esconjuros contra o mau-olhado.

Aquela tarde passei-a a limpar o casebre onde estava a nossa
cama e onde no imaginava que tivssemos de viver muito tempo.
Varri o cho, raspando da terra nua a porcaria acumulada
durante anos e anos, dei a Paride, para os pr noutro sitio,
no sei quantos sachos e euxadas amontoados nos cantos, tirei
as teias de aranha das paredes. A seguir, arrumei a cama a um
canto, contra a parede de rocha, ajustei as tbuas nos
cavaletes, dei uma sacudidela ao saco de palha de milho, pus
os lenis, muito lindos, de linho forte tecido  mo, brancos
da barrela, em cima dos quais estendi como cobertor o capote
nreto.





A mulher de Paride, Lusa, aquela loura que j descrevi, de
rosto fechado, olhos azuis e cabelos ondulados, sentara-se ao
fundo, em frente do tear, e manobrava-o para cima e para
baixo, com bracos fortes e musculosos, sem parar, fazendo um
barulho incrvel que me obrigou a dizer-lhe: "Mas o qu,
estars sempre aqui dentro a fazer esse banz?" Ela respondeu,
rindo: "Sei l quanto tempo aqui estarei... tenho de tecer
pano para fazer calas a Paride e aos rapazes." Exclamei:
"Pobres de ns, vamos ficar surdas." E ela: "Eu ainda no
estou surda... vers que te habituas." Enfim, esteve ali cerca
de duas horas, sempre a manobrar o tear, para cima e para
baixo, com aquele barulho seco e sonoro de madeira a bater uma
na outra; ns as duas, depois de arrumarmos tudo, sentmo-nos.
Rosetta na cadeira que eu alugara a Paride e eu sobre a cama,
e assim ficmos, a ver Lusa tecer, como duas palermas, de
boca aberta, sem fazer nada.

Lusa no era faladora, mas respondeu de boa vontade s nossas
perguntas. Assim, soubemos que de tantos homens que havia na
aldeia antes da guerra, Paride foi o nico que ficou, por ter
dois dedos a menos na mo direita. Os outros andavam longe,
quase todos na Rssia. "A no ser eu", disse Lusa com um
sorriso ambguo, num tom quase de regozijo, "todas as mulheres
daqui  como se fossem j vivas." Admirei-me e, supondo que
Lusa fosse to pessimista como a sogra, opus: "Mas porque
ho-de morrer todos? Estou certa de que alguns voltam." Lusa
abanou a cabea, sorrindo: "No me compreendeste. Se no
acredito que voltem, no  porque os matem a todos, mas sim
porque s mulheres russas agradam os nossos homens. O
estrangeiro agrada sempre, j se sabe... Quando a guerra
acabar, essas mulheres so capazes de os convencer a ficar por
l, e ento ningum mais os v." Em suma, ela encarava a
guerra como uma questo entre fmeas e machos; e via-se que
estava mnito satisfeita por conservar 0 seu macho graas
queles dois dedos a menos, enquanto as outras, por causa das
fmeas russas, os perdiam. Falmos tambm dos Festas e
disse-me que Filippo conseguira que o filho no fosse para a
guerra  custa de recomendaes e favores: mas os camponeses,
como no tm dinheiro nem conhecimentos, tiveram de marchar e
talvez deixassem l a pele. Recordei ento as palavras de
Filippo sobre as duas categorias em que se dividia o mundo,
parvos e espertos, e compreendi que tambm neste caso se
comportara como esperto.

Quando Deus quis, veio a noite e Lusa parou com aquele
barulho do tear e foi preparar a ceia. Ns as duas estvamos
to cansadas que ficmos no mesmo sitio durante uma hora, sem
nos movermos, sem falarmos, eu sentada na cama e Rosetta na
cadeira, junto da

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cabeceira. A candeia de azeite dava uma luz fraca e com essa
luz o quartito parecia mesmo uma espelunca: eu olhava para
Rosetta. Rosetta olhavu para mim, e os nossos olhares
exprimiam ~empre coisas diferentes e no falvamos porque nos
compreendamos muitissimo bem s com o olhar e sabamos que as
palavras eram suprfluas e nada podiam acrescentar ao que os
nossos olhos diziam. Os de Rosetta significavam: "Mam, o que
vamos fazer?... Tenho medo... Onde viemos ns parar?...", e
assim por diante. Os meus respondiam: "Fiiha da minha alma,
est tranquila, tens-me aqui ao teu lado, no tenhas medo...",
e outras coisas parecidas. Assim, em silncio, trocmos mnitas
e muitas reflexes; por fim, a concluir esta desesperada
conversa, Rosetta encostou a cadeira  cama e ps a cabea no
meu regao, abraando-me os joelhos; eu, sempre em silncio,
comecei a acariciar-lhe os cabelos devagarinho. Ficmos assim
talvez meia hora; depois a porta abriu-se, algum a empurrava,
e logo, mnito em baixo, apareceu a cabea dum rapazinho, era
Donato, o filho de Paride, "O pai manda perguntar se querem
comer connoscoa'No tinhamos mnita fome depois de toda aquela
comezaina do almoo,  mesa de Filippo; mas aceitei o convite
porque me sentia de facto cansada e deprimida e no me
agradava nada a ideia de passar o sero szinha com Rosetta,
naquele casebre to triste.

Seguimos portanto Donato, que nos precedia quase a correr,
como se visse no escuro, tal qual os gatos, e chegmos 
cabana situada no socalco mais abaixo. Encontrmos Paride
rodeado de quatro mulheres: a me, a mulher, a irm e a
cunhada. Estas ltimas tinham cada uma trs filhos, mas os
maridos estavam ausentes, eram soldados e tinham-nos mandado
para a Rssia. A irm de Paride chamava-se Giacinta; era
tambm morena e tinha uns olhos desvairados, de brilho
intenso, e rosto largo, de expresso dura: parecia possessa e
s falava com aspereza, sempre para repreender os trs filhos,
que se lhe agarravam s saias, como cezinhos em roda duma
cadela, e no faziam seno choramingar; algumas vezes nem lhes
falava, limitava-se a bater-lhes em silncio. duramente, de
punho fechado, na cabea. A cunhada chamava-se Anita e era
mulher dum irmo de Paride que, em tempo de paz, morava para
os lados de Cisterna; era morena e plida, magra, de nariz
aquilirNo, olhos serenos, expresso calma e meditativa. Ao
contrrio de Giacinta, que quase metia medo, Anita dava uma
impresso de tranquilidade e doura. Tambm tinha os filhos em
sua volta, no agarrados s saias, mas sentados nos bancos,
com mnito prop6sito e educao, espera.~do em silncio e sem
impacincia que lhes dessem de comer.

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Quando entrmos, Paride disse-nos, com aquele seu sorriso
estranho, meio embaraado e meio sorna: cPensmos que estavam
szinhas e talvez quisessem jantar connosco..." Acrescentou,
passado um momento: "Enquanto no chegarem as vossas
provisoes, podem comer na nossa companhia: depois faremos
contas." Em suma, dava-nos a entender que no era de graa,
mas eu fiquei-lhe igualmente agradecida, pois sabia que eram
pobres e havia carestia. J representava mnito que quisessem
dar-nos de comer a troco de dinheiro, pois, em tempos de
escassez, quem tem algumas provises guarda-as para si e no
as reparte com outros por dinheiro nenhum.

Enfim, l nos acomodmos e Paride acendeu um candeeiro de
acetilene; uma linda luz branca iluminou-nos a todos, sentados
nos bancos e nos cepos em volta do trip, em cima do qual
fervia uma pequena panela. ramos s6 mulheres e crianas 
excepo de Paride, o nico homem. Anita, a cunhada, no sem
melancolia, pois, como j disse, tinha o marido na Rssia,
brincou, a propsito: "Deves estar contente, Paride, rodeado
de tantas mulheres: s um felizardo." Pande respondeu com um
melo sorriso: "Fortuna que dura pouco." Mas a velha me,
sempre pessimista, imediatamente o rebateu: "Pouco7 Ns ainda
acabamos primeiro do que a guerra." Entretanto Lusa ps em
cima da mesa bamboleante uma terrina de barro; depois pegou
num po e, encostando-o ao peito, rpidamente, com uma faca
afiada, comeou a cortar fatias delgadas at a terrina ficar
completamente cheia. Ento, tirou do fogo a panela e deitou 0
contedo por cima das fatias sobrepostas: era a sopa que
costumvamos comer em casa de Concetta, isto , uma papa de
po com caldo de feijes.

Enquanto espervamos que 0 po aboborasse bem, Lusa ps no
cho, no meio da cabana, um grande alguidar e nele deitou a
gua duma caldeira que estava a aquecer no borralho, junto do
trip. Ento, todos comearam a tirar os tamancos, sem pressas
e com certa gravidade, como se executassem um rito, que se
repetia todas as noites e sempre da mesma forma. Eu, ao
princpio, no compreendi, mas depois, quando vi Paride, que
foi o primeiro a meter o p nu, todo negro de terra entre os
dedos e em volta do calcanhar, na gua do alguidar, percebi:
ns, na cidade, antes de comer lavamos as mos; eles,
coitados, como andam 0 dia inteiro na lama dos campos, lavam
os ps. Mas, como todos se lavam no mesmo alguidar, sem mudar
a gua, pode imaginar-se como ficou aquela gua, depois de
mergulharem nela tantos ps, incluindo os das crianas: da cor
do chocolate. S ns as duas no nos lavmos e um dos meninos
perguntou ingnuamente: "Porque no se lavam7"

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-

Ao que a velha, que tambm no se lavara, respondeu,
taciturna: "So senhoras de Roma. No trabalham a terra como
ns."

Entretanto a sopa j estava pronta; Luisa levou dali o
alguidar cheio de gua suja e ps no meio a mesa com a
terrina. Comemos a comer todos juntos, cada qual metendo a
sua colher na sopa. Creio que Rosetta e eu no comemos mais do
que duas ou trs colheradas cada uma; mas os outros deram-lhe
com tanta gana, especialmente as crianas, que da a pouco a
terrina estava vazia e compreendi, pelas caras um pouco
desiludidas e ainda vidas, que muitos tinham ficado com fome.
Paride distribuiu a seguir uma mancheia de figos secos a cada
um: em seguida tirou dum buraco da parede da cabana uma
garrafa de vinho e serviu todos, at as crianas, sempre pelo
mesmo copo, Um aps outro, iamos bebendo e de cada vez Paride
limpava o rebordo do copo  manga, enchia-o de vinho com
cuidado e oferecia-o, pronunciando em voz baixa o nome da
pessoa a quem se destinava: parecia que estvamos na igreja. O
vinho era spero, quase vinagre, vinho da serra, claro, mas
vinho de uvas, l disso podamos ter a certeza. Terminada a
refeio, que decorreu em silncio, as mulheres retomaram a
roca e o fuso e Paride,  luz do acetilene, comeou a rever o
exercicio de aritmtica do filho Donato. Paride era
analfabeto, mas sabia um pouco de contas e queria que o filho
as aprendesse tambm. Parece-me, porm, que Donato, um garoto
de cabea grande e cara simples e sem expresso, era bastante
estpido, porque depois de vrias vezes ter tentado em vo
ensinar-lhe no sei que problema, Paride zangou-se e deu-Ihe
um forte murro na cabeca, dizendo: "Parvalho!" O punho
ressoou como se a cabea fosse de madeira, mas o garoto no
deu mostras de contundido e comeou, mnito calado, a brincar
no cho com o gato. Perguntei ento a Paride por que razo
tomava tanto a p~ito que o filho aprendesse aritmtica, se,
tal como ele, no sabia ler nem escrever. E compreeiidi que,
em sua opinio, os nmeros eram importantes e as letras no,
pois os nmeros serviam ao menos para se contar o dinheiro,
enquanto as letras no serviam para nada.

Quis descrever este nosso primeiro sero com os Morrone (assim
se chamava a familial, porque, uma vez descrito o primeiro,
ficam descritos todos os que se seguiram, rigorosamente
iguais, e tambm porque naquele dia comi de manh com os
refugiados e  noite com os camponeses, ficando assim em
condies de notar as diferenas entre ambos os grupos. Digo a
verdade: os refugiados eram mais ricos, pelo menos alguns; com
eles comia-se melhor; sabiam ler e escrever; no traziam
tamancos nos ps e as mulheres andavam

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vestidas como mulheres da cidade. No entanto, desde esse
primeiro dia. e depois cada vez mais, preferi sempre os
camponeses aos refugiados. Esta preferncia devia-se no s6 ao
facto de eu ter sido camponesa antes de ser comerciante, mas
sobretudo  estranha sensao que experimentava junto dos
refugiados, em especial se os comparava aos camponeses: era
gente a quem a instruo s servira para os tornar piores. Um
pouco como acontece com certos rapazes turbulentos que, mal
entram na escola e aprendem a escrever, a primeira coisa que
fazem  cobrir as paredes de palavres. Enfim, em minha
opinio, no basta instruir,  preciso sobretudo ensinar a
fazer bom uso da instruo.

Quando todos cabeceavam com sono e algumas crianas tinham
mesmo adormecido, Paride levantou-se e anunciou que iam
deitar-se. Saimos da cabana e despedimo-nos, desejando uns aos
outros boa noite; depois, Rosetta e eu ficmos szinhas, na
beira do socalco, contemplando no escuro o ponto onde sabamos
que ficava Fondi. No se via nenhuma luz; tudo era negrume e
silncio; como nicas coisas vivas, as estrelas a brilhar l
no alto, num cu completamente negro, como outros tantos olhos
de ouro que nos olhassem e soubessem tudo a nosso respeito,
enquanto ns no sabamos nada delas. Rosetta disse-me
baixinho: "Que linda noite mama!" Perguntei-lhe se estava
contente por ter vindo para ali e el respondeu que se sentia
sempre contente ao p de mim. Estivemos ainda alguns momentos
a contemplar a noite, depois ela puxou-me pela manga e
murmurou que queria rezar e agradecer  Virgem por termos
chegado l acima ss e salvas. Disse-o baixinho, como se
receasse ser ouvida, e eu admirei-me e perguntei: "Aqui?" Ela
acenou que sim com a cabea e depois deixcu-se cair de joelhos
na beira do socalco, sobre a erva, obrigando-me a fazer o
mesmo. No me desagradou aquela iniciativa; Rosetta, por assim
dizer, interpretava o meu sentimento nessa noite to
silenciosa e tranquila, depois de tantos trabalhos e fadigas:
um sentimento de gratidso por algum ou alguma coisa que nos
auxiliara e protegera. Assim, obedeci-lhe de boa vontade,
juntei tambm as mos e, movendo rpidamente os lbios,
recitei a orao que  costume recitar antes de ir para a
cama. H tempos j que no rezava, no o fazia desde que me
entregara a Giovanni, e se no rezara mais desde esse dia 
porque me considerava em pecado; mas, por outro lado, no sei
porquQ, no me sentia inclinada a reconhecQ-lo. Assim, em
primeiro lugar, pedi perdo a Jesus pelo que tinha feito com
Giovanni e prometi nunca mais o fazer. Em seguida, talvez
sugestionada por aquela noite to vasta e to negra, que
encerrava tantas vidas e tantas coisas sem se ver nada, rezei
por todos. por mim e por

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am arros do ~va ~mo cu nos o ite, ela

nos I

me por se Ela na 'o erila, ~or m, do tes ;de a  sei iro i e
or , e or

Rosetta, pela familia de Festa e pela de Paride, e ainda pela
gente que estava espalhada pelas montanhas naquele instante,
pelos Ingleses, que viriam libertar-nos, e por ns, Italianos,
que sofriamos, e ainda pelos Alemes e pelos fascistas, que
nos faziam sofrer, mas que tambm eram cristos. Confesso: 
medida que, quase contra a minha vontade, a orao se
alongava, sentia-me comovida e tinha os olhos rasos de
lgrimas, e, embora pensasse que isso talvez fosse por efeito
do cansao, dizia de mim para mim que era bom um tal
sentimento e ainda bem que o experimentava. Rosetta rezava de
cabea inclinada; depois, subitamente, apertou-me um brao e
exclamou: "Olha, olha." Olhei e vi, no fundo da noite, subir
no espao um risco luminoso, que, ao atingir grande altura, se
transformou numa flor verde e caiu em seguida, lentamente,
iluminando por instantes os montes em volta, os bosques e at,
parece-me, as casas de Fondi. Soube mais tarde que aquelas
luzes verdes to lindas eram foguetes e serviam para iluminar
na noite a frente de batalha e descobrir no escuro os pontos
que deviam ser atingidos pelos tiros dos canhes e as bombas
dos avies. Naquele momento, porm, pareceu-me um bom augrio,
como que um sinal da Virgem a dar-me a entender que ouvira a
minha prece e estava disposta a atend-la.

Quis falar desta orao, sobretudo, para dar uma ideia do
carcter de Rosetta, que at agora no descrevi. Mais tarde,
devido  guerra, esse carcter ficou diferente como o dia da
noite, e por isso quero dizer como era Rosetta nessa altura,
no momento em que chegmos ao cimo daquele monte, pelo menos
como at ento me parecia que fosse. As mes, j se sabe,
nunca conhecem os filhos; mas esta  a ideia que eu fazia de
Rosetta e mesmo hoje, que ela, como disse, mudou do branco
para o negro, penso que essa ideia no estava errada.

Eu educara Rosetta com todo o cuidado, como filha de gente
rica, procurando mant-la na ignorancia de todas as ruindades
do mundo e, tanto quanto me era possvel, afastando-a delas.
No sou o que se chama uma mulher muito religiosa, embora seja
praticante: em mim a religio sobe e desce e d voltas; por
exemplo, naquela noite, no socalco, pareceu-me acreditar
sinceramente, ao passo que noutras ocasies, como nos dias em
que tivemos de fugir de Roma, no acredito mesmo nada. Mas,
seja como for, a religio no me faz perder de vista a
realidade, que  o que  e, por mais que os padres se esforcem
em explic-la, mnitas vezes contradiz, ponto por ponto, as
suas afirmaces. Mas com Rosetta as coisas passavam-se doutro
modo. No sei se pelo facto de a ter confiado s freiras, como
semi-interna, at os doze anos, ou por sua natural tendncia,
o certo  que

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Rosetta era profundamente religiosa, duma maneira absolute,
sem hesitaes nem dvidas, to segura e convencida, por assim
dizer, que nunca falava no assunto e talvez nem sequer
pensasse nele: pare ela a religio era como o ar que se
respire, que entra e sai dos pulmes sem darmos sequer por
isso.

 dificil pare mim explicar agora, depots de tudo quanto se
passou, o que era Rosetta no tempo da nossa fuga de Roma.
Limitar-me-ei a dizer que de vez em quando me sucedia pensar
que ela era perfeita. Era de facto um desses seres a quem nem
mesmo os mais maldizentes conseguem atribuir qualquer defeito.
Rosetta era boa, franca, sincere, desinteressada. Eu tenho
mudanas bruscas de humor, sou capaz de me enraivecer, de
gritar, at de baser, pods s vezes perco a cabea. Mas
Rosetta nunca me respondeu mal, nunca me guardou rancor,
mostrou-se sempre, em suma, uma filha perfeita. A sue
perfeio, porm, no residia apenas em no ter defeitos:
manifestava-se tambm no facto de fazer e dizer sempre o que
era justo, o que devia fazer e dizer. Muitas vezes quase me
assustava e dizia tenho uma filha santa! E na verdade havia
razo pare pensar que fosse santa. Comportar-se to teem e de
forma to perfeita, no tendo nenhuma experincia da vida e
sendo, no fundo, uma criana,  s prdprio dos santos. Ela no
fizera ainda mais nada na vida seno viver comigo; depots de
educada no pensionato, ajudava-me no arranjo da case e algumas
vezes tambm na loja; mas comportava-se como se tivesse feito
tudo e conhecesse tudo. Agora penso, porm, que aquela
perfeio, que me parecia quase incrivel, resultava da
inexperincia e da educao que lhe tinham dado as freiras.
Inexperincia e religio, fundidas, formavam uma perfeio que
eu julgava s61ida como uma torre e, ao contrrio, era frgil
como um castelo de cartes. Em suma, no levava em conta que a
verdadeira santidade  feita de conhecimento e de experincia,
mnito embora dum gnero particular, e no pode resultar da
candura e da ignorancia, como era 0 cave de Rosetta. Mas que
culpa tive eu? Criei-a com amor; e, como sodas as mes deste
mundo, tive o cuidado de lhe ocultar as coisas ruins da vida;
pensava que, quando sasse de case, quando casasse, essas
coisas as conheceria at depressa de mats. No contei com a
guerra, que nos obriga a conhecer tudo, ainda que no
queiramos, e nos fora a ter experincia antes do tempo, duma
maneira que no  natural, mas cruel. Assim, a perfeio de
Rosetta era prdpria pare tempos de paz, corm a loja a marcher
teem, eu a juntar uns cobres pare 0 seu dote e um rapaz
ajuizado que gostasse dela, com quem casasse e de quem tivesse
filhos; e assim, depots de ter sido uma criana perfeita e uma
rapariga perfeita, seria tambm uma mulher perfeita. Mas no 

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-

este gnero de perfeio que se requer na guerra, a qual exige
outras qualidades, no sei quads, mas no as de Rosetta.

Mas, adiante. Por fim, levantmo-nos e caminhmos ao longo do
socalco, no escuro, pare a nossa cabana. Passmos por baixo da
janela de Paride e ouvi que Paride e os seus no tinham ainda
adormecido, mexiam e falavam l dentro em voz baixa, como as
galinhas no poleiro que se agitam antes de dormir. Depois, eis
o nosso casebre encostado  case e ao socalco, com a portinha
de tbuas, o telhado inclinado e o janelico sem vidros.
Empurrei a porta e encontrmo-nos no escuro. Mas tinha comigo
f6sforos e acendi primeiramente um coto de vela; em seguida,
com uma tire de pano rasgada dum leno, fiz uma torcida que
pus na candela de azeite. A esta luz clara, mas triste,
sentmo-nos as duas na came e eu disse a Rosetta: "Tiremos
apenas a saia e a blusa. S6 temos os lenis e este capote de
Paride; se nos despirmos, naturalmente teremos frio." E assim
fizemos. Em saia de baixo, uma aps outra, metemo-nos na came.
Os lenis, de linho tecido  mo, pesados e frescos, eram a
nica coisa normal naquela came que verdadeiramente no era
came. Mal me mexia, sentia logo as folhas de milho rangerem
debaixo de mim, abrirem-se em dois montinhos separados, e,
atraves do pano fino do saco, os meus ossos tocarem nas tbuas
auras. Nunca na minha vida dormira num leito assim, nem em
criana, na aldeia, once havia leitos normals, com colcho e
euxergo. A certa altura fiz qualquer movimento e no s6 as
folhas se abliram, mas tambm as tbnas e l vou eu por ali
abaixo baser com os costados no cho. No escuro, levantei-me,
pus no seu luger as tbnas e o saco de palha e tornei a
deitar-me, abraando-me muito a Rosetta, que me virara as
costas e estava toda enrolada, junto  parede.

Mas foi uma noise bastante agitada. No sei a que horas,
talvez

| depots da meia-noite, acordei e ouvi um pier muito fraco,
ainda mais leve que o dos pssaros. Vinha de baixo da came e,
por isso, da a

j pouco, acordei Rosetta e perguntei-lhe se tambm ouvia. Ela
respondeu-me que sim. Ento, acendi a candela e espreitei. Vi
logo que o que quer que fosse estava metido numa pequena caixa
que parecia confer apenas alguns ramos de camomile e hortel.
Mas, reparando melhor, descobrimos, entre a camomile, um ninho
feito de palha e de plos e dentro dele oito ou dez ratos
recm-nascidos, mais ou menos do tamanho do meu deco minimo,
cor-de-rosa,

. nurinhos, quase transparentes. Rosetta disse logo que no os
deviamos mater, era a primeira noise que passvamos l em cima
e mat-los podia trazer-nos desgraa. Tornmos pods a
meter-nos na came e, mal ou teem, l adormecemos novamente.
Mas eis que,





passada uma hora, no escuro, comeou a passear por cima da
minha cara e do meu peito no sei o qu macio e pesado. Dei um
grande grito de medo; Rosetta acordou de novo; acendemos a
candeia e, por coinf idncia, depois dos ratos um gato. De
facto, vimos um bonito gato preto, de olhos verdes, magro, mas
novo e lustroso, sentado aos ps da cama, a olhar-nos
fixamente, pronto a saltar pelo janelico por onde entrara.
Rosetta, porm, chamou-o a seu modo-tinha a paixo dos gatos e
sabia tratar com eles e o gato aproximou-se, muito confiado;
enfim, pouco depois estava tambm debaixo dos lenis, a fazer
ronrom. Este gato dormiu connosco todo o tempo que estivemos
em Santa Eufmia e chamava-se Gigi. Tinha os seus hbitos,
chegava sempre depois da meia-noite, metia-se debaixo dos
lenis, entre nds as duas, e ficava ali at de madrugada. Era
meigo e afeioado a Rosetta; mas se, durante o sono, uma de
n6s ousava fazer qualquer movimento, imediatamente sentamos o
Gigi eriar

se todo no escuro, como para nos dizer: "Ol, no se pode
dormir tranquilo?!"

Naquela noite, depois de acordar por causa dos ratos e do
gato, acordei ainda mais vezes e tive sempre dificuldade em
reconhecer onde estava. Uma vez ouvi um avio que voava baixo,
mnito lento, com um rumor regular, grave e doce, como se
andasse na gua e no no ar, e pareceu-me que esse rumor me
falava e dizia coisas tranquilizadoras. M ais tarde
explicaram-me que esses avies se chamam cegonhas e andam de
noite em observao, por isso voarn to baixo; por fim
habituei-me a eles, de tal modo que s vezes estava acordada
de propsito s para os ouvir e, se no os ouvia, ficava
desiludida. Essas cegonhas eram avies ingleses e eu sabia que
os Ingleses haviam de chegar um dia para nos libertar e
permitir que regressssemos a casa.

78





CAPTULO IV

E assim comecou a vida em Santa Eufmia, que era o nome
daquele lugarejo. Comeou como se fosse provis6ria, apenas
pare durar algumas semanas; mas, na realidade, prolongou-se
por nove meses. De manh dormiamos at to tarde quanto
podamos, pods no havia nada que fazer; alm disso, estvamos
exaustas com as privaoes e angstias que passramos em Roma
e, portanto, na primeira semana dormamos s vezes doze e
catorze horas seguidas. Vamos para a came cedo, acordvamos
durante a noise, depots tornvamos a adormecer e acordvamos
novamente de madrugada, ferrvamos outra vez no sono e, quando
j era dia. voltvamo-nos pare a rocha do socalco, de costas
viradas pare a luz que entrava pela janela e dormamos at
manh alta. Nunca dormi tanto na minha vida e era um sono bom,
profundo, saboroso como o po feito em case, sem sonhos nem
inquietaes, um sono verdadeiramente repousante, de tal modo
que de die pare die readquiriamos as foras que tnhamos
perdido em Roma e em case de Concetta. Aquele sono longo e
pesado fazia-nos mesmo teem; de facto, ao fim duma semana,
estvamos as duas transformadas, os olhos vivos, sem olheiras,
as faces cheias e coradas, a pele macia e lisa, a cabea
desanuviada. Nesse sono parecia-me que a terra em que nascera
e que abandonara h tanto tempo me retomava no seu seio e me
comunicava a sue fora, um pouco como sucede s plantas
arrancadas e depots replantadas, que imediatamente readquirem
vigor e comeam a afar folhas e flores. Oh, sim, somos plantas
e no seres humanos, ou, melhor, mais plantas do que seres
humanos, e  da terra once nascemos que vem toda a nossa
fora; se a abandonamos, no somos uma coisa nem outra, nem
plantas nem seres humanos, apenas leves farrapos que a vida
atira pare aqui e pare all, ao sabor do vento das
circunstncias.

Dormiamos tanto e com tanto gosto que sodas as durezas da vida
l em cima nos pareciam leves e as enfrentvamos alegremente,
quase sem darmos por eras, assim um pouco como um macho
folgado e teem alimentado que puxa dum s flego o seu carro
por uma ladeira acima e, ao chegar ao fim, tem ainda foras
pare um bom trote, como se nada fosse com ele. Mas, como j
disse, a vida l em cima era aura, em breve o percebemos.
Comeava logo de

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manh com as limpezas: era preciso, ao sair da cama, ter todo
o cuidado para no sujar os ps; por isso coloquei aqui e alm
algumas pedras lisas, para no nos enlamearmos nos dias de
chuva, quando o cho era um perfeito lamaal. Depois tinhamos
de ir tirar gua do poo que ficava em frente do nosso
casinhoto. Enquanto durou o Outono, isso no foi difcil; mas
no Inverno, como estvamos a quase mil metros de altitude, a
gua gelava no fundo do poo, e todas as manhs, quando
deitava l para dentro o balde, as mos se me inteiriavam e a
gua que conseguia tirar era to fria que at fazia parar a
respirao. Eu sou friorenta e por isso me limitava a lavar as
mos e a cara; mas Rosetta, que preferia o frio  porcaria,
punha-se nua no meio do quarto e despejava por cima da cabea
o balde cheio de gua gelada. Era to robusta e sadia a minha
Rosetta que a gua lhe escorria pelo corpo como se a sua pele
tivesse leo e no ficavam seno algumas gotas nos seios, nos
ombros, no ventre e nas ndegas. Depois de vestidas, saiamos e
comevamos os trabalhos da cozinha. Tambm aqui, enquanto
durou o Outono e o bom tempo, as coisas no correram mal de
todo; as dificuldades comearam verdadeiramente no Inverno.
Tinhamos de ir ao mato mesmo debaixo de chuva, para cortarmos,
com o auxilio de podes, alguns canios e arbustos. Depois
amos para a cabana e comeava a loucura do fogo. A lenha
verde e molhada no ardia, os canios faziam um fumo negro e
denso, tnhamos de nos dobrar em duas, pr a cara na lama do
cho e soprar, soprar, at que o fogo pegasse. Ficvamos
enlameadas, com os olhos a arder, cheios de lgrimas, exaustas
e nervosas, e tudo isto para cozer, numa pequena panela, uma
mancheia de feijes e um ovo...

Comiamos como os camponeses, isto , uma primeira refeio
mnito ligeira, ai pelas onze horas, e mais tarde o verdadeiro
jantar, a pelas sete. De manh comamos umas papas de farinha
de milho temperadas com unto de salsicha ou ento
contentvamo-nos com uma cebola e um bocado de po ou uma
mancheia de alfarrobas;  noite comlamos a sopa que j
descrevi e um pedacinho de carne, quase sempre de cabra, nas
suas trs variedades: cabra, bode e cabrito. Depois da
refeio da manh, no havia mais nada a fazer seno esperar
pela refeio da tarde. Se estava bom tempo, amos dar um
passeio; contornvamos a montanha, caminhando sempre no mesmo
socalco, e chegvamos por fim ao bosque; a escolhiamos; um
stio bom e com sombra, debaixo duma rvore, estendamo-nos,
na erva, e la ficvamos toda a tarde diante do imenso
panorama. Mas com o mau tempo, que naquele Inverno durou meses
inteiros, no saiamos do quartito, eu sentada na cama e
Rosetta na cadeira, sem fazermos nada, enquanto Lusa, como de
costume, tecia no tear,

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com esse barulho de enlouquecer de que atrs falei. As horas
que ai passei com mau tempo, hei-de lembr-las toda a vida. A
chuva no parava, compacta e regular, eu sentia-a crepitar nas
telhas, gorgolhar no cano da goteira antes de cair no poo; no
quartito, para pouparmos o azeite, pois no tinhamos muito,
estvamos quase s escuras, apenas com aquela luz, velada pela
chuva, que entrava pela janelinha, ou, melhor, devo antes
chamar-lhe gateira, to pequena era; e ns caladas, pois no
tinhamos coragem de falar nos assuntos habituais, que eram s6
dois: a carestia e a chegada dos

~, Ingleses. Assim passavam as horas, naquele entorpecimento;
eu tinha perdido j a noo do tempo e no sabia em que ms
nem em que dia estvamos; parecia-me at que ia ficando
estpida, j que

I no fazia uso da cabea, pois no havia nada em que pensar;
sentiaj -me s vezes quase enlouquecer e, se no fosse
Rosetta, a quem, como me, tinha de dar o exemplo, nem sei o
que faria, talvez saisse para o campo a gritar, ou talvez
esbofeteasse Luisa, que parecia fazer todo aquele barulho com
o tear de propsito para nos

I entontecer e tinha sempre no sei que sorriso malvolo
estampado na cara, como a dizer-nos: "Esta  a vida que nds,
os camponeses, fazemos habitualmente... agora tambm a tm de
fazer vocs, belas damas de Roma... O que dizem a isto?
Agrada-lhes?"

Outra coisa me fez quase perder o juzo durante todo o tempo
que ali estive: a estreiteza do lugar em que vivamos,
especialmente comparado com a vastido do panorama de Fondi.
De Santa Eufmia viamos muito bem todo o vale, sombreado por
escuros laranjais, aqui e alm salpicados pelas manchas
brancas das casas. A direita, para os lados de Sperlonga,
avistava-se uma nesga do mar e nesse mar havia a ilha de
Ponza, que com tempo claro viamos algumas vezes. Sabamos que
em Ponza estavam os Ingleses, por isso essa ilha era para nds
o smbolo da liberdade. Entretanto, no obstante aquela
vastido da paisagem, continuvamos a viver e a mover-nos e a
esperar sobre aquele socalco comprido e estreito, to estreito
que, mal se davam quatro passos em frente, nos arriscvamos a
cair noutro socalco igual. Estvamos l em cima como pssaros
empoleirados num ramo durante uma inundao,  espera do
momento favorvel de levantar voo para lugares enxutos. Mas
esse momento nunca mais chegava...

Depois daquele primeiro convite no dia da nossa chegada, os
Festas convidaram-nos ainda algumas vezes, mas muito mais
friamente, at que, por fim, deixaram de nos convidar, pois,
como disse Filippo, ele tinha famlia, e, quando se trata de
comida, deve-se pensar primeiro na famlia. Por sorte,
passados poucos dias, Tommasino chegou do vale, puxando pela
rdea o seu burrico,

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carregado,  caso para dizer, como um burro, com grande
quantidade de embrulhos e malas. Eram as nossas provisoes, que
ele mercadejara aqui e alm, por todo o vale de Fondi,
conforme a lista que juntos elaborramos. Quem nunca se
encontrou em condies semelhantes, com dinheiro que
prticamente no valia nada, estranho entre estranhos, no cimo
duma montanha, e no sabe o que quer dizer a falta de comida
em tempo de guerra, no poder compreender a alegria com que
acolhemos Tommasino. So coisas que  difcil explicar:
normalmente, quem vive na cidade, onde h armazns cheios de
tudo, no acumula em casa abastecimentos, pois sabe que em
qualquer altura que precise vai s lojas e as encontra bem
fornecidas. Assim, convence-se de que comprar nas lojas o que
lhe faz falta  uma coisa absolutamente natural, tal como as
estaoes do ano, a chuva e o Sol, a noite e o dia. Lrias. As
coisas podem faltar de repente, como faltaram de facto naquele
ano, e ento todos os milhoes do mundo no chegam para comprar
um pedao de po, e sem po morre-se de fome.

Tommasino chegou, todo ofegante, puxando pela cabeada o
jerico, que quase no podia mais, e disse-me: "Comadre, tem
aqui que comer pelo menos para seis meses." Em seguida fez-me
entrega de tudo, verificando as coisas pelo que estava escrito
no papel amarelo onde eu fizera o rol.

Lembro-me bem desse rol e cito-o aqui para se fazer uma ideia
do que era a vida nesse Outono de 1943. A nossa vida, a minha
e a de Rosetta, estava confiada a um saco duns cinquenta
quilos de farinha de trigo para fazer o po e a massa, a um
outro saco mais pequeno de farinha de milho para fazer papas,
a um saquito duns vinte quilos de feijo da pior qualidade, a
alguns quilos de gro-de-bico, ervilhas e lentilhas, a
cinquenta quilos de laranjas, a um boio de banha com o peso
de dois quilos e a dois quilos de salsichas. Tommasino
trouxera tambm um saquito de frutos secos: figos, nozes e
amndoas, e uma boa quantidade de alfarrobas, que
habitualmente se do aos cavalos, mas agora, como j indiquei,
eram mnito boas tambm para ns.

Metemos tudo isso no casinhoto, a maior parte das coisas
debaixo da cama, e depois fiz as contas com Tommasino. Vi que
os preos, numa s semana, tinham subido quase trinta por
cento. Muitos pensariam que Tommasino os fizera subir, pois
ele, para arranjar dinheiro, era at capaz de fazer moeda
falsa, mas eu, que sou comerciante, quando lhe ouvi dizer que
os preos tinham subido, acreditei-o logo, pois sabia por
experincia prdpria que no podia deixar de ser assim. E, se
as coisas continuassem a correr como corriam, isto , os
Ingleses parados em Garigliano e os Alemes a

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arrebanharem tudo, a meterem medo a toda a gente, impedindo-a
de trabalhar, os preos subiriam ainda mais e talvez
atingissem as estrelas. Sucede assim em tempo de carestia:
todos os dias os produtos se tornam mais raros, todos os dias,
no mercado, diminui o nmero de pessoas que tm dinheiro
suficiente para comprar e, por fim, pode suceder at que
ningum mais venda e ningum mais compre e todos, com dinheiro
ou sem ele, morram de fome. Acreditei em Tommasino quando ele
me disse que os preos tinham subido e paguei sem protestar;
alm disso, tambm pensei que um homem como ele, vido
bastante para afrontar os perigos da guerra na ansia da
ganhua, era um verdadeiro tesouro nos tempos que corriam e
era preciso estim-lo. Paguei e, ao pagar, mostrei-lhe o mao
de notas de mil liras que tinha na bolsa por baixo da saia;
ele, quando viu o dinheiro, deitou-lhe uns olhos como um
milhafre deita a um frango e disse-me que ns os dois framos
feitos para nos entendermos, que, quando quisesse, me
arranjaria mais coisas, sempre ao preo corrente, nem um
tosto a menos nem um tosto a mais.

Naquela ocasio pude observar, mais uma vez, a considerao
que o dinheiro nos d, ou, neste caso, a comida. Os Festas,
nos dltimos dias, como vissem que as nossas provises nunca
mais chegavam -para comermos, socorriamo-nos de Paride, que,
embora de m catadura, nos sentava  sua mesa, pagando ns,
bem entendido-, evitavam estar connosco e, quando chegava a
hora das refeies, iam-se embora sorrateiramente, quase
envergonhados. Mas, logo que Tommasino chegou com o burrico, a
sua atitude mudou como do dia para a noite. Sorrisos,
saudaes, caricias, conversas e at, embora j no
precisssemos, convites para jantar. Vieram mesmo ver os
nossos abastecimentos e, nessa altura, Filippo disse-me, com
sincero regozijo, pois tinha simpatia por mim, no tanta que
me desse de comer, mas a suficiente para ficar satisfeito por
me ver bem fornecida: "Tu e eu, Cesira, somos os nicos aqui
em cima que podemos olhar o futuro com tranquilidade, pois
somos os nicos que temos dinheiro." O filho Michele, ao ouvir
estas palavras, tornou-se mais sombrio do que o costume e
pronunciou entre dentes: xEsts certo disso?" O pai soltou uma
gargalhada e deu-lhe uma palmada no ombro: "Se estou certo?! 
a nica coisa de que tenho a certeza... No sabes que o
dinheiro  o melhor arnigo, o mais fiel, o mais constante que
um homem pode ter?. Eu ouvi e no disse nada. Mas pensava de
mim para mim que aquilo no era to verdade como parecia.
Nesse mesmo dia. o tal amigo to fel tinha-me feito a partida
de baixar trinta por cento o seu poder de compra. E hoje, que
cem liras s chegam para comprar um bocado de po, ao passo
que

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antes da guerra chegavam para se viver durante meio ms, posso
afirmar que no h amigos fiis em tempo de guerra, nem
homens, nem dinheiro, nem nada. A guerra revolve tudo e,
juntamente com as coisas que vemos, destrdi muitas outras que
no vemos e no entanto existem.

Desde o dia em que chegaram as provises, comecou a nossa vida
normal em Santa Eufmia. Dormiamos, levantvamo-nos,
vestamo-nos, apanhvamos os tojos e a lenha para o lume,
acendamo-lo na cabana, depois passevamos um pouco,
conversando sobre isto e aquilo com os outros refugiados,
comamos, passevamos de novo, tornvamos a cozinhar e
comiamos segunda vez e, por fim, para economizar o azeite da
candeia, iamos para a cama com as galinhas.

O tempo estava lindo, ameno e calmo, sem vento e sem nuvens,
um Outono mesmo magnfico, com todos os bosques em volta, nas
encostas das montanhas, salpicados de vermelho e amarelo.
Dizia-se que este era o tempo ideal para os Aliados fazerem um
avano rpido e decisivo e chegarem pelo menos at Roma e
ningum se convencia de que no o fizessem e ficassem por
alturas de Npoles ou um pouco mais acima. Esta, de resto, era
a conversa mais frequente em Santa Eufmia, ou, melhor, a
nica conversa. S6 falvamos dos Aliados, quando vinham,
porque no vinham, como e de que maneira viriam. Falavam nisso
sobretudo os refugiados, pois tinham um nico desejo: voltar
depressa a Fondi e retomar a sua vida normal; os camponeses
falavam menos, um pouco porque, no fundo, a guerra era para
eles um bom negcio, alugavam as casotas e obtinham ainda
mnitos outros pequenos lucros com os refugiados; alm disso,
continuavam a fazer a mesma vida que faziam em tempo de paz e
a chegada dos Aliados pouco ou nada mudaria o seu viver.

O que eu falei dos Aliados, a andar para cima e para baixo no
socalco, contemplando o panorama de Fondi e o mar azul l ao
longe; ou  noite, na cabana de Paride, quase no escuro, com o
fumo a fazer-me chorar, diante do lume melo apagado; ou ainda
na cama, abracada a Rosetta, antes de adormecer!... Falei
tanto e tanto que a pouco e pouco esses Aliados se tornaram
quase como os santos da aldeia que fazem milagres e trazem a
chuva e o bom tempo: um reza-lhes e outro insulta-os, mas
todos esperam qualquer coisa deles. Todos esperavam coisas
extraordinrias desses Aliados, precisamente como dos santos,
e todos estavam certos de que, com a sua chegada, a vida no
s se tornaria normal, mas at muito melhor do que o normal.
Valia a pena ouvir, sobretudo, Filippo. Suponho que ele
imaginava o exrcito dos Aliados como uma coluna sem fim de
camies cheios de todos os bens que nos d Deus, com

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soldados encarrapitados em cima e encarregados de os
distribuir de graa a ns, Italianos. E era um homem
experiente, um comerciante que se gabava de pertencer 
categoria dos espertos, que assim falava, pensando que os
Aliados eram uns parvos e s nos queriam fazer bem, a ns,
Italianos, que Ihes tnhamos feito guerra, matando-lhes os
filhos e obrigando-os a gastar milhes!

Poucas noticias certas nos chegavam desses benditos Aliados,
ou, melhor, quase nenhumas. s vezes, Tommasino aparecia em
Santa Eufmia. Vinha do vale, mas, como s se interessava pelo
dinheiro e pelo mercado negro, era difcil arrancar-lhe mais
do que algumas frases incompletas; se aparecia l em cima
algum aldeo, como era campons, s dizia coisas sem ps nem
cabea. Outras vezes chegavam rapazes de Pontecorvo, com sacos
s costas, para vender sal e tabaco, de que havia grande
escassez. O tabaco era em folhas, hmido e amargo, e os
refugiados picavam-no e faziam cigarros, enrolando-o em papel
de jornal; o sal era de pssima qualidade, daquele que se d
aos animais. Estes rapazes tambm nos traziam noticias, mas a
maior parte delas eram fantsticas. Primeiro acreditvamos,
mas, quando as examinvamos com vagar, viamos que se pareciam
ao sal que vendiam, que pesava o dobro por causa da gua que
continha: tambm as notcias eram misturadas com fantasias que
pesavam como verdades; depois, ao calor do exame, a fantasia
evaporava-se e qualquer um compreendia que da verdade restava
pouco. Diziam que estava em curso uma grande batalha: ao norte
de Npoles, afirmavam uns; para os lados de Caserta, garantiam
outros; para as bandas de Cassino e ali pertssimo, em Itri,
declaravam alguns ainda. Tudo mentiras. Na realidade, o que
Ihes interessava era vender o sal e o tabaco e, quanto s
noticias, diziam apenas o que supunham agradar aos que os
interrogavam.

O nico acontecimento daqueles primeiros dias que nos lembrou
que estvamos em guerra foi ouvirmos uma manh no sei quantas
exploses dos lados do mar, na direco de Sperlonga.
Ouviram-se distintamente essas exploses e uma mulher que
apareceu l em cima a vender laranjas disse-nos que os Alemes
estavam a destruir os diques dos pntanos e canais de
escoamento para retardarem o avano dos Ingleses. No tardaria
que tudo ficasse inundado,

I debaixo de gua, e muita gente que trabalhara a vida inteira
a

| cultivar esses campos ficaria arruinada, porque, j se sabe,
a gua

I destri as culturas e depois so precisos anos e anos para
secar e tornar a terra de novo cultivvel. Essas exploses
sucediam-se, como os disparos dos morteiros numa festa de
aldeia, e produziam-me um efeito estranho, porque tinham
qualquer coisa de festivo, e, no entanto, eu sabia que
significavam misria e desespero para os

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que moravam l em baixo, nas terras enxutas. Estava um dia
lindissimo, sereno, calmo, o cu sem uma nuvem, e toda a
planicie de Fondi, verde e prdspera, alongando-se at a linha
vaporosa do mar, to bela, assim azul e sorridente. E mais uma
vez, ouvindo aqueles estrondos e olhando aquela paisagem,
pensei que os homens andam para um lado e a natureza para
outro e, quando a natureza desencadeia um temporal de troves,
raios e chuva, muitas vezes os homens so felizes em suas
casas, ao passo que, quando a natureza sorri e parece querer
prometer uma felicidade eterna, os homens se desesperam e
desejam a morte.

Passaram assim alguns dias e as notcias da guerra eram sempre
incertas; os habitantes do vale que subiam a Santa Eufmia
continuavam a dizer que um grande exrcito ingls ia a caminho
de Roma. Mas naturalmente esse grande exrcito avanava a
passo de tartaruga, pois, mesmo que caminhasse a p e parasse
de vez em quando para tomar flego, j devia ter chegado e
ainda no se via. Eu, entretanto, no podia ouvir falar mais
dos Ingleses, nem de quando chegariam, nem da abundncia que
trariam consigo; por isso procurei ocupar o tempo de qualquer
maneira, por exemplo a fazer malha. Comprei a Paride certa
quantidade de l e fazia malha com agulhas, pois parecia-me
que teriamos de ficar l em cima mais tempo do que supunha e
pensava no frio que no tardaria a chegar e ns as duas no
tnhamos nada que vestir. Era uma l gordurosa e escura,
cheirando a estbulo, l das poucas ovelhas que Paride
possua; tosquiavam-nas todos os anos e fiavam depois a l com
a roca e o fuso,  moda antiga, fazendo com ela meias e
camisolas. De resto, l em cima todos andavam assim vestidos,
como no tempo em que Berta fiava.

A familia de Paride tinha tudo o que precisava, no s para
comer, mas tambm para vestir, isto , linho, l e couro, o
que era um bem para eles, pois, como j disse, quase no viam
a cor do dinheiro e, se no se arranjassem desta forma, teriam
de andar nus. Cultivavam o linho, das ovelhas tiravam a l e,
quando matavam as vacas, aproveitavam o couro para o calado e
as jaquetas. A l e o linho, depois de fiados, como disse,
teciam-nos no tear, no nosso quarto, ora Lusa, ora a irm,
ora a cunhada de Paride; mas devo dizer que as trs juntas no
prestavam para nada e que, apesar de todo aquele trabalho de
fuso, roca e tear, ficava tudo mal feito. O tecido que
fabricavam, tingiam-no depois de azul-claro, mal, com tintas
pssimas, e por fim cortavam-no para fazer calas e casacos
(nunca vi roupa mais mal talhada, parecia feita a machado);
mas, passada uma semana, rompia-se logo nos joelhos e nos
cotovelos; as mulheres punham ento remendos nos buracos, e,
assim, quir.ze

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dias depois de terem estreado os fatos novos, a famflia j
andava remendada e maltrapilha.  verdade que faziam tudo
quanto precisavam, e no tinham de comprar nada, mas faziam-no
mal e porcamente. Michele, o filho de Filippo, a quem
comuniquei as minhas observaes, respondeu-me, mnito a srio,
abanando a cabea: "Mas quem trabalha hoje  mo, quando
existem m quinas?! S miserveis como estes, s os camponeses
de um pas atrasado e pobre como  a Itlia..." No se julgue,
porm, por estas palavras, que Michele desprezava os
camponeses, antes pelo contrrio.  que se exprimia sempre
assim, duro e peremptrio, com a mxima aspereza, mas, ao
mesmo tempo, e era o que me fazia impresso, sem qualquer
violncia na voz, num tom tranquilo, como se dissesse coisas
evidentes e indiscutveis, com as quais j no perdia tempo,
limitando-se a enunci-las como outro qualquer diria que o Sol
brilha no cu ou est a chover.

Era um tipo curioso, este Michele; e, como depois nos tornmos
amigos e me afeioei a ele como a um filho, quero descrev-lo,
quanto mais no seja, para o ter uma ltima vez diante dos
olhos. No era alto, antes um pouco baixo, ombros largos,
cabea grande e testa ampla. Usava culos e tinha um andar
firme, um porte altivo e soberbo, como quem no se deixa
intimidar nem submeter por ningum. Era muito culto, e ouvi o
pai dizer que nesse mesmo ano devia licenciar-se ou se
licenciara, j no me recordo. Em suma, tinha uns vinte e
cinco anos, embora, por causa dos culos e tambm pelo seu ar
sempre muito srio, aparentasse ter pelo menos trinta. Mas
sobretudo o seu carcter era invulgar, diferente do dos outros
refugiados e igualmente diferente do de todas as pessoas que
eu at ento conhecera. Como disse, exprimia-se com absoluta
segurana, como quem est convencido de ser o nico a conhecer
e a dizer a verdade. Desta convico derivava, a meu ver,
aquele facto curioso que j notei, mesmo quando dizia coisas
duras ou violentas: no se encolerizava, pronunciava-as num
tom calmo e razovel, por assim dizer quase casual e sem
relevo, como se se tratasse de coisas velhas, sobre as quais
todos j estavam de acordo h mnito tempo. E, no entanto, isso
nao era verdade, pelo menos em relao a mim, pois, ao ouvi-lo
falar, por exemplo, do fascismo e dos fascistas, experimentava
sempre uma sensao de espanto. Durante vinte anos, isto ,
desde que comeara a raciocinar, s tinha ouvido dizer bem do
Governo e, embora de vez em quando encontrasse isto ou aquilo
a criticar, sobretudo em coisas que diziam respeito  minha
loja, pois tambm nunca me preocupei com a poltica, pensava
no fundo que, se os jornais aplaudiam sempre o Governo,

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~apeplensepsazedelso~nososopolomoD sopulsasonamudsnas
soelazTgyliel~me~e moDIpno~ maopeuD apeplensepeoeoIpuoD ensep
suaAorso sopoles,epe apaDnsomoD'salueDI~uRlsm omsam sessa a
'selDuawadxa sens se sepellmq olm m mela anb 'oDnod aoDnod
e'am-neauaAuoDalaqDT~ mooolArAuoDo'oeuse~ ope~a opnlilem
opn1`olSanopn~laAe'lezqelaneaeopeAal,aos'soulaAoa saloqlam so
moDomsam lapaDnsapod osslaieDIlsnEm no oesn~sap anblenb al~os
as opuenb anb oplqes ,a 'selDua~adxa seSleme semnYIe
ela^Il'mTsse lele~eled'alaqDl~ anb lodns y-as-lapoa

enauemlelapeuele~onualaqDl~
smloleMnoap'e~aDeAelsaonuanbesmDlanblenbelAeqoeDeDnpa
elanbeu anb lesuad ap lexlap apnd onu na ~ omslose~ o el~uoD
opeal~uasapomsam elaielsTDse~oeaeDnpaenseepol moDialaq

iouelluoD oe 'se ~ oeDDIAuoD mas a ZOA elam e sem iomslase~ 0
meAeDIluDanb~solueleloSe elAeq omoDisalanbep mnisouam olad ino
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fora balilla e vanguardista. Depois inscrevera-se
naUniversidade de Roma e em Roma estudou e viveu alguns anos
em casa dum tio magistrado. E era tudo. Nunca tinha ido ao
estrangeiro; e da Itlia, alm de Fondi e de Roma, conhecia
apenas as cidades mais importantes. Em suma, nunca Ihe
aconteceu nada de extraordinrio, ou, se Ihe aconteceu, eram
dessas coisas que se passam s no pensamento, no na vida.

Por exemplo, quanto a mulheres, a meu ver, nunca tivera
qualquer experincia amorosa, que, em certos casos,  falta de
melhor, ajuda a abrir os olhos para a vida. Ele prprio nos
confessou vrias vezes que nunca tinha estado apaixonado, nem
noivo, nem fizera a corte a nenhuma mulher. Quando muito,
pareceu-me compreender, ter-se-ia aproximado de alguma
prostituta, como fazem os rapazes como ele que no tm
dinheiro nem conhecimentos. Assim, cheguei  conclusao de que
aquelas convicoes to arreigadas as adquirira, por assim
dizer, sem dar por isso, talvez s por espirito de
contradio. Durante vinte anos os fascistas tinham-se
esfalfado a proclamar que Mussolini era um gnio e todos os
seus ministros grandes homens; e ele, mal comeou a
raciocinar, pensou precisamente o contrrio daquilo que os
fascistas proclamavam, to naturalmente como uma planta
estende os seus ramos para o lado donde recebe o sol. So
coisas misteriosas, bem sei, e, como sou uma pobre ignorante,
no pretendo compreend-las nem explic-las. Mas tenho
observado que s vezes as crianas fazem precisamente o
contrrio do que os pais Ihes dizem para fazer ou do que eles
prprios fazem, no por entenderem verdadeiramente que os pais
procedem mal, mas pela nica e boa razo de que so crianas,
e os pais so pais, e eles querem ter tambm a sua pr6pria
vida, tal como os pais tiveram antes a deles. Penso que
sucedeu o mesmo a Michele. Foi educado pelos fascistas para
ser fascista; mas, porque queria viver e pensar a seu modo,
tornou-se antifascista.

Michele, naqueles primeiros tempos, passava connosco quase
todo o dia. N o sei o que o atraia em nds, pois ramos duas
mulheres simples, pouco diferentes de sua me e de sua irm;
por outro lado, como direi adiante, no mostrava por Rosetta
uma atraco particular. Provvelmente, preferia-nos  famflia
e aos refugiados porque ramos de Roma e no falvamos em
dialecto, nem conversvamos, como os outros, das coisas de
Fondi, que, dizia ele muitas vezes, no lhe interessavam e at
o aborreciam. Aparecia logo de manh, mal nos levantvamos, e
s6 nos deixava  hora das refeies, estando assim connosco
prticamente o dia inteiro. Parece-me que ainda o estou a ver
quando espreitava  porta da

89





yO

cabana, onde ns estvamos sem fazer nada, eu deitada na cama,
Rosetta sentada na cadeira, e nos perguntava com voz jovial:
"Ento que me dizem a um bom passeio?" Aceitvamos, embora
esses seus bons passeios fossem sempre iguais: seguamos o
socalco que contornava a montanha, caminhando sempre a
direito, a meio da encosta, e amos ter a outro vale ao lado,
em tudo semelhante ao de Santa Eufmia; ou ento trepvamos,
at l acima, por entre penedos e carvalhedos; ou, ainda,
descamos em qualquer ponto da encosta. Mas escolhamos quase
sempre o caminho plano, para no nos fatigarmos muito, e,
caminhando pelo socalco, atingamos o esporo do monte da
esquerda, que descia a pique sobre o vale. Ali havia uma
grande alfarrobeira e em volta o mato muito verde e cheio de
sol; no cho, o musgo macio servia-nos de almofada.
Sentvamo-nos quase na ponta do esporo, no longe duma rocha
azulada donde se abrangia todo o panorama de Fondi, l em
baixo; ali ficvamos horas sem fim. O que fazamos? Agora, que
penso nisso, no sei diz-lo. Rosetta algumas vezes andava
pelo mato, juntamente com Michele, e colhiam cclames, que
naquela poca cresciam densos, lindos e grandes, com as suas
corolas dum cor-de-rosa vivo, muito direitos no meio da
folhagem escura onde quer que houvesse um pouco de
borraccina'. Ela fazia um grande ramo e trazia-mo, e eu, mais
tarde, punha-o num copo em cima da mesa do nosso cubculo. Ou
ento ficvamos ali sentados e no fazamos nada: olhvamos o
cu, o mar, o vale, as montanhas... Daqueles passeios, para
dizer a verdade, de pouco me recordo, a no ser das conversas
de Michele. Destas, sim, lembro-me bem, como me lembro dele,
porque eram conversas novas para mim, e ele prprio um tipo
novo, como nunca encontrara outro igual at ento.

Ns ramos duas mulheres ignorantes e ele um homem que lera
muitos livros e sabia muitas coisas. Mas eu possuia uma
experincia da vida que ele no tinha; e hoje penso que, com
todos os livros que lera e todas as coisas que sabia, Michele
era, no fundo, um ingnuo, no conhecia nada da vida e sobre
muitos assuntos fazia uma ideia errada. Lembro-me, por
exemplo, duma conversa nos primeiros dias: "Tu ltratava-nos
por tu e nds tratvamo-lo da mesma forma), tu, Cesira, 
verdade que s comerciante e no pensas seno no neg6cio, mas
nem por isso ests estragada; por sorte tua, continuas a ser o
que eras em crianc,a." Perguntei: "Continuo a ser o qu?" E
ele: "Uma camponesa." Respondi-lhe: "No me lisonjeias com
isso... Os camponeses, fora a terra, no conhecem mais nada,
no sabem

Espcie de musgo.





seja o que for, vivem como animais." Michele riu, retorquindo:
"No era um elogio aqui h algum tempo... mas hoje ... hoje
os que lem, escrevem e vivem na cidade, os senhores, sfio os
verdadeiros ignorantes, os verdadeiros incultos, os
verdadeiros selvagens... com eles no h nada a fazer... mas
com vocs, os camponeses, pode comear-se do princpio." Eu
no compreendia bem o que ele queria dizer e insisti: "O que
significa isso de comear do princpio?" E ele: ~Bem, fazer
deles homens novos." Exclamei: "V-se logo que no conheces os
camponeses, meu caro... com os camponeses no h nada a
fazer... o que julgas que so? Mais atrasados no h outros.
So exactamente o contrrio de homens novos... j eram
camponeses antes de haver gente na cidade. So camponeses e
continuaro a s-lo sempre..." Michele abanou a cabea com
compaixo e no disse nada. E eu tive a impresso de que ele
via os camponeses como eles no eram nem nunca seriam; ou,
antes, que, por motivos particulares, os via como desejava que
eles fossem, e no como eram na realidade.

Michele s6 falava bem dos camponeses e dos operrios; mas, a
meu ver, no conhecia uns nem outros. Um dia disse-lhe:
"Michele, falas dos operrios, mas no os conheces." Ele
perguntou-me: "E tu, conhece-los?" Respondi: "Compreende-se
que os conhea, iam muitos  minha loja, moram ali perto."
"Que espcie de operrios?~ "Oh! artifices, funileiros,
pedreiros, electricistas, carpinteiros... gente que
trabalha... de tudo um pouco..." "E como te parece que sejam
os operrios?", perguntou ele nesta altura, com ar trocista,
preparado para ouvir asneiras. Respondi-lhe: "Meu caro, no
sei como so... para mim essas diferenas no existem... so
homens como os outros... h bons e maus... uns preguiosos,
outros trabalhadores... alguns gostam das suas mulheres,
outros andam atrs das prostitutas... alguns bebem, outros
jogam... Em suma, h de tudo, como em toda a parte, como entre
os burgueses, os camponeses, os funcionrios e todos os mais."
Ele disse ento: ~Talvez tenhas razo... olhas para eles como
homens iguais aos outros e assim devia ser... Se todos os
vissem como tu, isto , como homens iguais aos outros, e os
tratassem em conformidade, no sucederiam certas coisas e
talvez no estivssemos c em cima e~ Santa Eufmia." Eu
perguntei: "Ento como os vem?" E ele: "No simplesmente como
homens, mas apenas como operrios." "E tu como os vs?" "Eu
tambm os vejo s6 como operrios." "Ento", disse-lhe, "tambm
tens culpa de estarmos c em cima... Bem entendido, estou a
repetir o que disseste, embora no compreenda porque os
consideras apenas como operrios, e no como homens iguais aos
outros." E ele: "Compreende-me, Cesira...  certo que s

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os considero como operrios... mas  necessrio ver porqu...
Para alguns  cmodo consider-los assim para os explorar
melhor... quanto a mim,  cmodo, mas para os defender." "Em
suma", disse-Ihe de repente, "s um subversivo." Michele ficou
desconcertado e perguntou: "Porque dizes isso?" Volvi: "Ouvi-o
dizer a um sargento da polcia que ia  minha loja... estes
subversivos provocam a agitao entre os operrios." Michele
respondeu, passado um momento: "Pois admitamos que eu seja um
subversivo." Eu insisti: "Mas j fizeste agitao entre os
operrios?" Ele encolheu os ombros e declarou por fim, de m
vontade, que no tinha feito. Disse-lhe ento: "Vs que no os
conheces?" Desta vez no me respondeu.

Apesar destas conversas difceis, que nem sempre
compreendamos, Rosetta e eu preferiamos a sua companhia  dos
outros homens que estavam l em cima. Ele era o mais delicado
e, alm disso, o nico que no pensava no neg6cio e no
dinheiro, e isso tornava-o menos aborrecido do que os outros,
porque o negcio e o dinheiro so certamente coisas
importantes, mas ouvir falar sempre no mesmo acaba por causar
uma sensao opressiva. Filippo e os outros refugiados no
falavam seno nisso, isto , do que vendiam e do que
compravam, dos preos e dos lucros, de quanto as coisas
custavam antes da guerra e de quanto custariam depois. Quando
no falavam de negcios, jogavam as cartas: reunidos na
pequena habitao de Filippo, sentados no cho, de pernas
cruzadas, encostados aos sacos de farinha e de fe0o, o chapu
na cabea e o cigarro na boca, numa atmosfera empestada de mau
cheiro e de fumo, ali passavam horas e horas a bater as
cartas, com gritos e vociferaes que parecia que se matavam.
Em volta dos quatro que jogavam havia sempre, pelo menos,
outros quatro que olhavam, como sucede nas tabernas de aldeia.
Eu, que nunca suportei o jogo, no compreendia como eles
podiam passar dias inteiros naquela jogatina, com umas cartas
porcas e sebentas, em que j nem se conheciam as figuras, to
sujas estavam. Mas era ainda pior quando, em vez de falarem de
negcios ou de jogarem, Filippo e os companheiros se punham a
conversar. Eu sou uma ignorante e no entendo seno da minha
loja e do campo, mas percebia perfeitamente que aqueles homens
com barba, adultos, quando no falavam do comrcio, s diziam
asneiras. E isto tornava-se para mim ainda mais evidente
porque estabelecia o confronto com Michele, que no era
ignorante como eles, e o que dizia, embora muitas vezes no o
compreendesse, percebia que eram coisas acertadas. Estes
homens, repito, raciocinavam como estpidos, ou, pior, como
animais, se os animais pudessem raciocinar: quando no diziam
tolices, diziam coisas que ofendiam pela crueza e

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brutalidade. Lembro-me, por exemplo, dum certo Ant6nio que era
padeiro, homem franzino, muito trigueiro, com um defeito numa
vista: tinha um olho mais pequeno do que o outro e sempre a
abrir e a fechar, como se tivesse l dentro uma palhinha. Um
dia. no sei como, quatro ou cinco refugiados, entre eles esse
Antnio, estavam a falar da guerra e do que nessas alturas se
fez e acontece, todos sentados nas pedras do socalco; Rosetta
e eu escutvamos.

Este Antnio estivera na guerra da Libia quando tinha vinte
anos e gostava de falar dessa guerra, pods fore pare ele muito
importante: entre outras coisas, perdera l o olho. Em certa
altura, Rosetta e eu ouvimo-lo dizer: "Mataram trs dos
nossos... mas mater  dizer pouco... tinham-lhes tirado os
olhos, cortado a lngua, arrancado as unhas... Ento decidimos
exercer represlias... de manh ced

fomos a uma das aldeias, queimmos as cabanas e matmos todos
os homers, mulheres e crianas... s raparigas, as filhas duma
cabra, enfimos-lhes as baionetas pela barriga acima e
atirmo-las pare o monte... ficaram sem vontade de fazer mais
atrocidades." Nesta altura, um deles tossiu um pouco, a avisar
que ns as duas estvamos presentes, pods Antnio talvez no
nos visse, encobertas atrs de uma rvore. Ouvi Antnio
desculpar-se, dizendo: "Bem, na guerra sucede isto e ainda
pior." Corri atrs de Rosetta, que se afastara deli
imediatamente. Caminhava de cabea baixa; por fim parou e
vi-line os olhos marejados de lgrimas. Estava extremamente
plida. Perguntei-lhe o que tinha. Respondeu-me: ~Ouviste o
que disse o Antnio..." Tambm no encontrei nada melhor pare
Ihe dizer: "Na guerra, infelizmente, sucedem estas e outras
coisas, minha filha." Ela ficou calada um momento e depots
proferiu, como se falasse consigo mesma: "Hei-de preferir
sempre eFtar entre os que morrem a ester entre os que matam."
Desde esse die afastmo-nos ainda mais do grupo dos
refugiados, porque Rosetta no queria de maneira nenhuma
encontrar-se com Antnio nem falar-lhe.

Com Michele, tambm Rosetta s estava de acordo at certo
ponto; no captulo da religio, o desacordo entre os dois era
absoluto. Michele detestava particularmente os fascistas, como
j disse, e logo a seguir os padres; e no se percebia teem se
odiava mais uns do que outros; muitas vezes, a brincar, ele
dizia que fascistas e padres eram uma e a mesma coisa, a nica
diferena  que os fascistas tinham cortado a sotaina,
transformando-a em camisa negra, enquanto os padres a
conservavam inteira at os ps. A mim, as sues frias contra a
religio, ou, melhor, contra os padres, no me aqueciam nem
arrefeciam: pensei sempre que nestas coisas cada um deve
regular-se por si e como melhor Ihe

93





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'selaleme a smze 'saplaA seqDuem ap se~Taqoo sepua1 sens se a
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orem e'sopelso sopollod sa~emale sopeplos elAeq anb elzlp aleA
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lodmT,lalanb ap oluod oe o~eu sem 'm,Ts 'eso,T8qal nos :aDaled





Eufmia. Depois aconteceu qualquer coisa que nos ps em
contacto com os Alemes e nos fez compreender que raa de
gente  essa. Conto-o porque desde esse dia pode dizer-se que
as coisas mudaram; e, de certo modo, foi ento que a guerra
apareceu l em cima pela primeira vez, para nunca mais se ir
embora.

Entre os refugiados que jogavam as cartas com Filippo havia um
alfaiate chamado Severino, o mais novo de todos, um homem
pequeno e magro, de cara amarela e bigode preto e que parecia
estar sempre a dar piscadelas de olho de entendimento; este
hbito vinha-Ihe do seu ofcio, pois, enquanto cosia na loja,
agachado numa cadeira, tinha sempre um olho meio fechado e
outro aberto. Severino fugira de Fondi, como os outros, logo
aps os primeiros bombardeamentos e estava alojado numa casota
pouco distante da nossa, com uma filha e a mulher, pequena e
modesta como ele. Severino era o mais inquieto de todos os que
estavam l em cima porque, durante a guerra, aplicara todo o
seu dinheiro numa quantidade de fazendas inglesas e italianas
e escondera-as num lugar seguro, mas na realidade no to
seguro que no estivesse sempre em nsias pelo destino do seu
pequeno patrimnio. Severino, no entanto, passava da ansiedade
 esperana, quando no pensava no presente, nos Alemes, nos
fascistas, na guerra e nos bombardeamentos, e falava do
futuro. Para quem queria ouvi-lo, expunha um plano que, em sua
opinio, mal acabasse a guerra, o tornaria riqussimo. Esse
plano consistia em aproveitar o periodo, talvez seis meses,
talvez um ano, entre o fim da guerra e o regresso 
normalidade. Nesses seis meses, ou nesse ano, faltaria tudo,
porque no estariam regularizados os transportes, as trocas e
o comrcio, e na Itlia, ocupada pelos militares, os negcios
seriam difceis, para no dizer impossveis. Ento, durante
esses seis meses ou esse ano, Severino meteria as suas
fazendas num camio, iria para Roma e ai, pea por pea, com
os preos mais altos do que as estrelas, devido  escassez,
ficaria rico, vendendo a retalho as fazendas que comprara por
junto. Era um plano acertado, como se v, e demonstrava que
Severino, talvez o nico entre todos os que estavam l em
cima, compreendera bem o mecanismo dos preos, que iam subindo
 medida que as coisas faltavam e os Alemes, os Aliados e os
Italianos emitiam papel-moeda sem nenhum valor. Era um plano
acertado, repito, mas infelizmente os planos acertados so
sempre aqueles que no vingam, sobretudo em tempo de guerra.

Resumindo, numa daquelas manhs chegou da planicie, todo
ofegante, um rapazinho que fora empregado de Severino; ainda
antes de atingir o socalco, gritou l de baixo para o
alfaiate, que, muito nervoso, o esperava na beira do muro:
"Severino, roubaram

95





96

'enapeD emnu opTqloDua 'opnm noDU qe eled 'sapDeDqdxa selsa
sepea apepm eu meAenmluoD anb seossad selel se opTTe8oTTalTTI
Ismde elapud anb oonod olad 'selslDse,~ so 'salue 'no
isouelleli SO OpTS massaAll anb equndus sem ~soueqelI so omoD
seemal~ so opls lal melpod olue1 anb eAe81nC :opeuTn'Te eAelsa
elo8e a opn1 opeAal ayl-meqml :olzeA o~gTapuoDsa o a epsoemqsa
apaled e elelluoDua a apeplo ~e elo~ anb assTa opesueD a
a~sT,T1 isoqlo so ,ale gd ap o~TaqoD ialeA op nolloA omTaAaS
allou emsam elanbeN

enAaos oDnod ap a osTAealqos ap ol-gd sleluam~Tadxa m,anSle
,eE anb sTem olueL selladsus moD mnnsuoD o ocu eled 'epeu
asslp oe-N aDTIol opnl ap lesade sem 'eDped -IUTS eplApp mas
'aollol emn omsam ela anb am-eloaled ozuaDmA a el~aDuoD e
oeaelal una salpedmoD ap sel~glsT,q ma aellpaloe anblod ~oA~ed
ap emal; Jaze,; emlle epep ma a 'las eAeSlnE ala omoD 'olladsa
olmm las apod as anb imT,sse lele,~ ol-lAno oe ~oelua lasuaa
";,setTeDeqiaA ,eq oeu salpedmoD allua anb saqes oeu eppJ e
am-nozlldeq ala a oqpJ o aql-lazlldeq onaam nanu op alpedmoD
nos" :opelJuoD ~eauemSas moD eDaqeD e noueqe odd~ se~q eplleqe
las eTpOd OlUamOm O OpO) e apaled e ~oezel equll opelan,~al
alanbe anb lasuad a ozuaDmA a ellaDuoD ap seslaAuoD sep
am-lalqmaq " omsam o ealuooe a1 o,eu 'opep,mD emol 'onsam na;
op apalsd eu sesloD senl se alsapnoDsa nL" :sapaneDald
salualoIgns opemo1 la1 oeu od omTaAaS eAemsuaD a oplpaDns o
leluamoD e eAeC?oelqsa s, l ~nn so anb op sTem 'anb 'odd~,~ e
ass,Tp m,an8FV lelem e melle` Tuu: elp lanblenb 'meAeqnol
elo8e as ia elDualosuoD elAeq oeu eL slod 'eAelold ,ale
omoD'eAenmlTToD gs oeu e~Tan8 e anb lazTp ela ellanb :eTIOD
BlSa mOD SOpCUOTSSOld=T O),TTlm SOpO1 SO=,PDI] 'nODOlEdeSOp a
oxreqe alua~TaA elad et-Ta'ToD ma as-noDuel sTodap 'n,aD op
oT~xne o TeDoAuT assasTnb as OmOD 'le ou oem e moD oladsasap
ap o~saS nm za,} 'olST J,TAno oe 'oTILTaAas " o,TzeA
oFpTapuoosa 0 a epeaemqsa apa-Ted e 'soglo snam so moD 'na
tA"'ZedEl O alUGmBnUG~8TIT nGAIOA '"oleoq len~D" " olsoq
seuade las apod salTDxa a1 oeN" :opuaz,Tp 'ol-ymleDe eAemDold
odd,TI,T,~ :solaqeD so eAeDue~Te a eDaqeD ~e soem se eAelT,ap
'soqlo so eAen,Aal 'oDnol ap solsaS eT,ze,~ OtTT, TaAaS alap
elloA ma meAelsa a Op,t~TODe meT~T' sopeT8n,~al so sopo,L
zedel o napuodsal '" ,el ,tas n:~" "noqnol so manb ~ las apod
oe N 6sopeqno~ 6sop,TDa1 snam so 6soplDa1 so 6n1 sazTp anb las
apod oeN" :sopepleSnqsa soglo ap ~opueTDnqlsq ~olTue olmm
iesTmeD ep oq~,Tad olad o-no~TeSe ala :ODIeDos oe noSaqD
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diante da porta da case de Filippo, mais amarelo e mais escuro
do que o costume, abraando o espaldar e olhando s com um
olho pare Fondi, once o tinham roubado, enquanto o outro
parecia fechar-se em piscadelas de entendimento, e isto era
talvez o mais triste, porque s se pisca o olho quando se est
satisfeito e a ele pouco faltava pare se mater de desespero.
De vez em quando abanava a cabea e repetia em voz baixa: "Os
meus tecidos... no tenho nada... levaram-me tudo..." Depois
passava a mo na testa, como se no pudesse convencer-se. Por
fim, disse: "Fiquei velho num s dia..." E desandou pare a sue
casita, sem aceitar a ceia de Filippo, que procurava
consol-lo e acalm-lo.

No die seguinte via-se que ele continuava a pensar nos seus
tecidos e meditava na maneira de os reaver. Estava convencido
de que quem lhos roubara era gente da terra, provvelmente
fascistas, ou, melhor, esses que se intitulavam agora
fascistas e antes da queda de Mussolini eram conhecidos no
vale como vagabundos e pedintes. Esses vagabundos, mal o
fascismo voltou, inscreveram-se imediatamente na Milicia, com
o nico fito de comer e gozar  custa da populao, que,
devido  guerra e  ausncia das autoridades, se encontrava
completamente abandonada, entregue a si prpria. Severino,
firmemente resolvido a reaver os seus tecidos, pode dizer-se
que ia todos os dies ao vale, voltando  noise cansado,
coberto de p e de mos vazias, mas mais decidido do que
nunca. Essa firme resoluo revelava-se at na sue atitude:
sempre calado, os olhos cintilantes, fixos, um nervo
constantemente a tremer sob a pele esticada do maxilar. Se
algum lhe perguntava o que ia fazer todos os dies a Fondi,
limitava-se a responder: "Vou  caa", dando a emender que ia
 caa dos seus tecidos e de quem Ihos roubara.

A pouco e pouco, das converses de Severino com Filippo
depreendi que esses fascistas de quem ele desconfiava estavam
entrincheirados num barraco duma quinta chamada do Uomo
Morto. Eram uns doze e tinham transportado pare esse refgio
grande quantidade de provises, arrancadas  fora aos
camponeses, e l comiam e bebiam e gozavam, servidos por
algumas rameiras que tinham sido antes criadas de servir ou
operrias.  noise saam e andavam pela cidade, entravam nas
cases abandonadas pelos refugiados, revistavam-nas uma por
uma, roubavam o que l ficara e batiam com as espingardas em
sodas as paredes e pavimentos pare ver se havia algum
esconderijo. Estes fascistas andavam todos armados com
metralhadoras, bombas e punhais e sentiam-se em segurana
porque em todo o vale, como j disse, no havia agora
carabineiros, pods todos tinham fugido ou sido presos pelos
Alemes, nem polcia nem outra qualquer

C. - 7

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autoridade. Ficara,  certo, um guarda municipal, mas era um
pobre homem, carregado de famlia, que andava de quinta em
quinta, roto e esfomeado, a pedir aos camponeses que lhe
dessem, por amor de Deus, um bocado de po ou um ovo. Em suma,
no havia lei e os gendarmes do exrcito alemo, que se
distinguiam dos outros soldados porque traziam ao peito uma
espcie de colar, eram os nicos que a faziam respeitar; mas
era a lei deles, no a dos Italianos, e era uma lei que, por
assim dizer, nos parecia feita de prop6sito para lhes permitir
arrebanhar os homens, roubar as coisas e fazer toda a espcie
de exigncias.

Para dar uma plida ideia de tudo quanto sucedia naqueles
tempos, basta afirmar que um campons duma localidade perto de
Santa Eufmia, uma manh, no sei por que razo, deu uma
navalhada num sobrinho, um rapaz de dezoito anos, deixando-o
na vinha a esvair-se em sangue at morrer. Isto sucedeu s dez
horas da manh. s cinco horas do mesmo dia. o assassino foi
ao talho clandestino comprar meio quilo de carne. O crime j
era conhecido de toda a gente, mas ningum se atreveu a
dizer-lhe nada: eram coisas l entre eles e todos tinham medo
de intervir. S6 uma mulher teve a coragem de lhe observar:
"Mas que corao  o teu... mataste o sobrinho e vens a moito
sossegado comprar carne?" E ele retorquiu: "Toca a quem
toca... ningum me prende, pois agora j no h lei e cada
qual faz o que lhe apetece..." E tinha razo; no o prenderam
e ele enterrou o sobrinho debaixo duma figueira e continuou a
viver sem ningum o incomodar.

Severino, ento, meteu-se-lhe em cabea fazer justia por suas
prdprias mos, visto j no haver justia oficial. No sei o
que combinou nesses passeios a Fondi, mas uma manh chegou l
acima um rapazito do campo, com um palmo de lingua de fora por
subir a encosta a correr, e gritou que Severino vinha a com
os alemes, que tinha os alemes do seu lado e que eles o iam
ajudar a recuperar as fazendas, porque tinham chegado a
acordo. Todos os refugiados saram dos casinhotos e nds as
duas tambm. Seramos umas vinte pessoas no socalco, a vigiar
o carreiro,  espera de ver surgir Severino e os alemes.
Entretanto todos diziam que Severino fora inteligente e
sensato, pois a verdade  que a autoridade estava agora na mo
dos Alemes e estes no eram vagabundos nem delinquentes como
os fascistas e no s6 Ihe restituiriam os tecidos, como
castigariam os culpados. Filippo era o que mais falava a favor
dos Alemes: " gente sria, que faz tudo a srio: a guerra, a
paz e o neg6cio... Severino fez bem em recorrer a eles... Os
Alemes no so como nds, Italianos, anrquicos e
indisciplinados... tm disciplina e em tempo de guerra roubar
 um acto contrrio  disciplina... Estou

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certo de que vo restituir as fazendas ao Severino e punir
esses malandros fascistas... Valente Severino, fez o que devia
fazer: quem tem hoje autoridade na Itlia? Os Alemes. Ento 
necessrio recorrer aos Alemes..." Filippo pensava em voz
alta, pavoneando-se e cofiando o bigode.  claro, pensava nas
suas coisas escondidas em casa do meeiro; ficaria contente se
Severino recuperasse as fazendas e se os ladres fossem
castigados, pois tambm tinha bens escondidos e tambem receava
que Ihos roubassem.

Olhvamos para o carreiro, onde por fim assomou Severino, mas,
em vez dos alemes que julgvamos que subissem com ele em
patrulha armada, vimos s um alemo e, ainda por cima, simples
soldado, nem sequer era da polcia militar. Quando chegaram l
acima ao socalco, Severino, altivo e satisfeito, apresentou-o
com o nome de Hans, que em alemo quer dizer Joo, e todos o
rodearam, de mos estendidas, mas Hans no apertou nenhuma e
limitou-se a fazer a saudao militar, batendo os calcanhares
e levando a mo  pala do bon, como para pr uma distancia
entre ele e os refugiados. Este Hans era um homem baixinho,
lourinho, de ancas largas como uma mulher, cara branca e um
pouco cheia. Tinha duas ou trs grandes cicatrizes na face e,
quando lhe perguntaram onde as recebera, respondeu secamente:
"Estalinegrado." Por causa daquelas cicatrizes, a sua cara
mole e no muito redonda, como que amolgada, parecia mesmo um
pssego ou uma ma cados da rvore e que, ao carem, se
racham e amachucam e depois, quando se partem, esto por
dentro meio podres. Tinha olhos azuis, mas no bonitos, dum
azul deslavado, inexpressivo, mnito claro, como que de vidro.
Severino, entretanto, muito orgulhoso, explicava-nos que se
tornara amigo daquele Hans porque, por coincidncia, Hans, na
sua terra, em tempo de paz, era tambm alfaiate. Assim, entre
alfaiates, tinham-se entendido, e ele contara-lhe o roubo e
Hans prometera-lhe recuperar os tecidos, pois, precisamente
porque era alfaiate, podia compreender melhor do que qualquer
outro as suas preocupaes. Resumindo, o alemo no era da
polcia, no eram mnitos alemes, mas um s, no se tratava
duma coisa oficial, mas particular, entre amigos do mesmo
ofcio, ambos alfaiates. Mas o alemo estava fardado, tinha a
espingarda-metralhadora a tiracolo e comportava-se como
verdadeiro soldado; logo, todos ao clesafio, lhe mostraram boa
cara. Um perguntava-lhe quanto tempo duraria a guerra, outro
interrogava-o sobre a Rssia, onde ele tinha estado. outro
queria saber se os Ingleses dariam batalha ou se seriam os
Alemes a tomar a ofensiva. Hans, quanto mais perguntas lhe
faziam, mais inchava de importncia, como um balo vazio que
algum assopra. Disse que a guerra ia durar pouco porque os

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Alemes possuiam armas secretas... que os Russos combatiam
bem, mas os Alemes combatiam melhor... que em breve os
Alemes desencadeariam a ofensiva e lanariam os Ingleses ao
mar. Em suma, incutia respeito; Filippo, por fim, convidou-o
para almoar com Severino em sua casa.

Eu tambm assisti ao almoo; j tinha almoado, mas estava com
curiosidade de ver aquele alemo, o primeiro que aparecia l
em cima. Quando cheguei, iam na fruta. Toda a familia de
Filippo estava presente, menos Michele, que odiava os Alemes
e pouco antes, quando Hans falava com bazfia da grande
vitria que em breve iriam alcanar sobre os Ingleses, o
olhara, sombrio e ameaador, como se quisesse saltar-lhe em
cima e dar cabo dele aos murros. Agora, graas ao vinho que
bebera. o alerno ganhara mais confiana. No fazia seno
bater no ombro de Severino. repetindo que os dois eram
alfaiates e amigos at  morte e iria fazer com que Ihe
restituissem as fazendas. Depois tirou do bolso a carteira e
mostrou a fotografia duma mulher alta e gorda, fazia dois
dele, de cara bonacheirona; disse que era sua mulher. Voltaram
a falar da guerra e Hans repetiu: "Ns fazer ofensiva e lancar
ao mar Ingleses." Filippo, que queria amans-lo, lisonjeando
o. reforou: "Pois claro, claro... deitam-nos ao mar, a
todos... esses assassinos." Mas o alemo respondeu: "No,
assassinos no, bravos soldados." E Filippo: "Sao bravos
soldados, decerto, sabe-se, so bravos soldados." Mas o alemo
volveu: "Tu admiras soldados ingleses... tu traidor." E
Filippo, assustado: "Quem os admira?... Se disse que so
assassinos." Mas o alemo estava implicativo "No assassinos,
bravos soldados... mas traidores como tu. que admiram
Ingleses, kaputt", e fazia o gesto de cortar o pescoo.

Em suma, no gostava duma coisa nem doutra, nunca estava
satisfeito, e todos ficmos cheios de medo porque de repente
ele pareceu transtornado. Disse a Severino: "Porque no ests
na frente de batalha?... Ns, Alemes, combatemos e vocs.
Italianos, esto aqui... tu para a frente." Severino
assustou-se e respondeu "Fui licenciado... fraco do peito." E
bateu no peito e era verdade, estivera muito doente e diziam
at que tinha s um pulmo. O alemo, porm, zangado,
agarrou-o por um brao, dizendo! "Agora vens j comigo para a
frente," Levantou-se e comesou a pux-lo. Severino ficou
branco e esforava-se em vo por sorrir, e todos estavam
consternados e eu tive tanto medo que o coraco parecia querer
saltar-me do peito. O alemo puxava pelo brao de Severino e
este procurava resistir, agarrando se a Filippo, que tambm
parecia assustado. Ento, de repente, o alemo soltou uma
risada e disse: "Amigos,.. amigos... tu alfaiate e eu
alfaiate... tu recuperar os tecidos

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e ficar rico... eu ir  frente, azer a guerra e morrer." E,
sempre a rir, tornou a baser Ihe com a mo no ombro.

A mim esta cena causou-me uma impresso estranha, a impresso
de me encontrar, nao diante de um homem, mas de um animal
selvagem que ore ronrona ore mostra os dentes e no se sabe
que intenes tem nem como se h de lidar com ele. Parecia-me
que Severino se iludia, tal como os que costumam dizer: "Este
animal conhece me... a rnim nunca me morde." E, como se
provou, a sue confiana nao tinha razao de ser.

Depois desta cena, o alemo tornou-se amvel, bebeu mais
vinho, bateu ainda no sei quantas vezes no ombro de Severino,
de tal modo que ao alfaiate Ihe passou de todo o medo e, num
momento em que o alemo estava distrado, disse a Filippo:
"Hoje mesmo terei as minhas fazendas... vers." Dali a pouco o
alemao levantou se da mesa, tornou a pr o cinturo, que
tirara ao sentar-se, dizendo a rir que tinha de alargar um
furo por ter comido mnito. Depois voltou-se pare Severino:
"Ns ir l abaixo e logo tu tornar aqui com os teus tecidos.~'
Severino ergueu-se tambm, o alemo fez a saudao militar,
batendo os calcanhares, e l foi, mnito empertigado, na
companhia de Severino, pelo carreiro abaixo. de socalco em
socalco, a caminho do vale. Filippo, que saira com os outros
pare os ver abalar, disse por im, exprimindo o sentimento
geral: "Severing conga muito naquele alemao... mas eu. no seu
luger, nao confiava tanto .~!

Espermos toda aquela tarde e parse da noise e Severino no
voltou. No die seguinte fomos  casita once ele morava com a
familia e encontrmos a mulher a chorar no escuro, com a filha
ao colo. Estava com ela uma velha camponesa, que fiava l na
sue roca e repetia de vez ern quando, ao puxar o fio: "No
chores, mulher... Severino h-de voltar, est descansada..."
Mas ela abanava a cabea e respondia: "Sinto que ele no volta
mais... senti o logo uma hora depots de o ver parting"
Procurmos confort -l a, mas ela no fazia seno chorar,
dizendo que era a culpada, pods o rnarido fizera tudo aquilo
por sue cause e por cause da filha, pare terem boa vida, pare
serem rices, e ela devia t-lo impedido de comprar essas
malditas fazendas. N ao havia nada a dizer; a verdade  que
Severino no voltava e contra um facto nada valem sodas as
boas palavras deste mundo. Estivemos a acompanh-la o die
inteiro, ore dizendo uma coisa ore outra, fazendo sodas as
suposies possiveis sobre o desaparecimento de Severino, mas
ela continuava a chorar e a repetir que o marido no voltaria
mats. No die seguinte tornmos  casita, mas j no a
encontrmos: de madrugada pegara na filha ao colo e descera ao
vale, pare saber o que tinha acontecido.

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Depois, durante alguns dias no soubemos mais nada de Severino
I nem da mulher. Por fim, Filippo, que, a seu modo, gostava de
! Severino, decidiu apurar o que se passava e mandou chamar
Nicola, um velho campons que j no trabalhava no campo e
passava os dias com os garotos para cima e para baixo, nos
socalcos. Disse-Ihe o que queria: que fosse saber o que era
feito de Severino, recomendando-lhe que devia ir ao lugar do
Uomo Morto, precisamente onde estavam instalados os fascistas
que tinham roubado os tecidos. O velho, ao princpio, no
queria ir, mas Filippo prometeu-lhe trezentas liras e, como
Nicola, por dinheiro, era capaz at de entrar num forno aceso,
no disse mais nada e foi preparar o burro. Declarou que
voltaria no dia seguinte, que dormiria em casa duns parentes,
no campo, e ps no alforge um po e um bocado de queijo.
Despedimo-nos dele e vimo-lo partir, muito direito em cima da
albarda, o chapnzinho preto na cabea, o cachimbo na boca,
escarranchado no burro, uma perna para cada lado, os tamancos
com atilhos brancos. Filippo recomendou-lhe que procurasse
entre os fascistas um tal Tonto, que era o menos mau de todos,
e o velho disse que assim faria e l foi.

Passou aquele dia e passou metade do dia seguinte. Ao
entardecer, eis que aparece no socalco o burro, que o velho
conduzia pela arreata, e, em cima da albarda, o Tonto.
Chegaram e o Tonto desmontou: era um homem de cara escura e
magra, barba crescida, olhos melanclicos e encovados e nariz
comprido e curvo. Todos o rodearam logo e o Tonto parecia
embaraado, calava-se. O velho Nicola, pegando na cabeada do
burro, disse nos ento: "O alemo ficou com as fazendas e
mandou o Severino trabalhar para as fortificaes, na frente
de batalha, foi o que aconteceu." Depois de dizer isto,
afastou-se e foi dar de comer ao animal.

Ficmos todos varados... O Tonto estava  parte, um pouco
confundido: Filippo, irritado, disse-lhe: "E tu que vieste
fazer c acima?n O Tonto avanou um passo e, muito humilde,
volveu: ~Filippo, no me julgue mal.., vim c para lhe ser
agradveh Quero contar-lhe como as coisas se passaram para no
supor que fomos ns." Todos o olharam com antipatia, mas todos
queriam saber o que sucedera; por fim, Filippo, embora de m
vontade, convidou-o a beber um copo em sua casa. O Tonto
aceitou e l foram, e ns atrs, em procisso. No quarto, 0
Tonto sentou-se em cima dum saco de feijo e Filippo deu-lhe o
vinho, ficando em p diante dele; ns reunimo-nos na soleira
da porta, tambm de p. O Tonto bebeu com calma e depois
disse: << intil negar: fomos ns que levmos as fazendas...
Nestes tempos, Filippo, cada um por si e Deus por todos,,,
Severino julgava que tinha escondido bem as fazendas, mas
ramos

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muitos a saber onde estavam e ento pensmos: se no formos
ns, sero os alemes, uma denncia depressa se faz,  melhor
portanto ficarmos com elas. E que mal havia nisso, Filippo?~>,
juntou as mos e olhou para ns. "Tambm temos familia e, nos
tempos que correm, todos pensamos em primeiro lugar na famlia
e depois no resto. No digo que tivssemos feito bem, mas sim
que o fizemos por necessidade. Voc, Filippo,  comerciante,
Severino  alfaiate e ns... ns c nos arranjamos... Mas
Severino fez mal em recorrer aos alemes, que no tinham nada
com o assunto, Que diabo, Filippo, se Severino no quisesse
ser malandro, podamos chegar a um acordo, por exemplo,
vendermos as fazendas e dividirmos os lucros... ou ento
dvamos-lhe um presente... entre conterrneos, sempre se
chegaria a acordo,.. Mas Severino quis fazer-nos mal e sucedeu
o que sucedeu. Veio aquele alemo duma figa e Severino
disse-nos uma poro de ofensas e palavroes e logo o alemo
nos apontou a metralhadora, afirmando que tinha de fazer uma
busca. Ns, que, em certo sentido, dependemos dos Alemes, no
pudemos opor-nos, Os tecidos apareceram e o alemo carregou-os
no camio em que tinham vindo ambos e l se foi embora com
Severino, que, ao partir, ainda nos gritou: H finalmente
justia neste mundo! Sim, bonita justia. Sabem o que fez o
alemo? Dali a poucos quilmetros encontrou outro camio cheio
de italianos recrutados para irem trabalhar nas fortificaes,
na frente de combate. Ento parou o camio e apontando-lhe a
metralhadora mandou descer o Severino e meteu-o no camio dos
recrutados. E assim Severino, em vez de recuperar as fazendas,
foi mandado para a frente e o alemo, que  alfaiate, vai
enviar agora a pouco e pouco os tecidos para a Alemanha, onde
abrir com eles uma alfaiataria, rindo-se do Severino e de ns
todos, Agora pergunto eu, Filippo: para que meteu ele nisto os
alemes? Entre dois litigantes, o terceiro  que aproveita...
e foi o que sucedeu, juro que  verdade.,>

Filippo e todos ns, depois deste discurso do Tonto, ficmos
silenciosos; tambm porque, entre tudo quanto o Tonto dissera,
havia aquele pormenor do recrutamento, de que ouviramos falar,
 certo, mas nunca to clara e tranquilamente, como duma coisa
normal. Por ;m, Filippo ganhou coragem e perguntou o que era
isso do recrutamento. O Tonto respondeu com indiferena: "Os
alemes andam por a~ com um camiao e levam todos os homens que
encontram aptos para o trabalho e mandam-nos para a frente,
para os lados de Cassino ou Gaeta, a fortificar as linhas.>>
"E como os tratam?" Tonto encolheu os ombros: "Hum! Muito
trabalho. barracas e pouca comida. J se sabe como os Alemes
tratam os que no sao alemes..a> Ficmos de novo em silncio;
mas Filippo

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insistiu "Mas prendem os homens da planicie... os refugiados
que esto nas montanhas. no os prendem, pois nao?" Tonto
encolheu de novo os ombros: "E melhor nao confiar muito nos
Alemes... fazem como s alcachofras: comem as folhas a uma e
uma... Agora toca aos da plancie. depois tocar aos da
montanha." Ningum pensava j em Severino: todos tinham medo e
cada qual pensava em si prprio. Filippo perguntou: "Mas como
sabes tu essas coisas?" Tonto respondeu: <<Sei-as porque tenho
de tratar todos os dias com os alemes... Ora prestem-me
atenco: ou se alistam na Milcia, como ns, ou aconselho os a
esconderem se bem... mas mnito bem... doutro modo os a]emaes
apanham-nos uns a seguir aos outros." Depois deu algumas
explicaes: os alemes faziam primeiro a razia na planicie,
arrebanhando todos os homens aptos para o trabalho; em seguida
passavam s montanhas e agiam da seguinte forma: de manh
cedinho, ainda escuro, uma companhia de soldados subia ao cimo
dum monte; depois, chegado o momento, por volta do meiodia,
descia para o vale, espalhando-se em leque por toda a vertente
de maneira que os que estavam, suponhamos, a meia encosta,
como r~s, ficavam presos como os peixes numa grande rede.
<Eles pensam em tudo!", observou nessa altura um, com voz
apavorada. Tonto agora estava j senhor de si e quase se
tornava descarado. Tentou, por isso, a lria das recomendaces
com Filippo, que sabia ser o mais endinheirado: "Mas, se
chegarmos os dois a acordo, posso dar uma palavrinha, a favor
do teu filho, ao capito alemo, que conheco mnito bem..."
Talvez Filippo, deveras receoso, aceitasse discutir o caso.
Mas, inesperadamente, Michele avancou para ele e disse-lhe com
dureza: "Porque esperas para te ires embora?" Todos
emudeceram, surpreendidos, tanto mais que Tonto estava armado
com bombas e espingarda e Michele no tinha qualquer arma.
Mas, no sei porqu, o Tonto ficou subjugado com aquele tom.
Disse, relutante: "Bem, se  assim. arranjem-se como
puderem... eu vou indo." Depois levantou-se e saiu. Todos o
seguiram e Michele. antes de ele desaparecer, gritou-lhe do
alto do socalco: <<Em vez de andares a oferecer os teus
servicos. pensa em ti... os alemes qualquer dia tiram-te a
espingarda e mandam-te trabalhar, como ao Severino." O Tonto
voltou se e ez-lhe uma figa. Nunca mais o vimos.

Depois de o Tonto se ter ido embora, fomos com Michele para o
nosso casinhoto. Rosetta e eu comentvamos o caso, lamentando
o pobre Severino, que perdera primeiro as fazendas e a seguir
a liberdade. Michele. com ar sombrio. estava calado. de cabea
baixa, mas de repente encolheu os ombros e disse: "Foi bem
feito!" Protestei: "Como podes dizer uma coisa dessas? Aquele
pobre ficou arruinado e agora talvez deixe l a pele." Ele no
respondeu logo e

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s passado um momento gritou: <<Enquanto nao Perderem tudo.
no compreenderao nada... Tm de perder tudo e sorer e chorar
lgrimas de sangue... s ento estarao maduros. ." Objectei:
"Mas o Severino nem sequer fez aquilo por interesse, t` lo
por causa da famlia...~> Michele ps-se a rir, mesrno com
maldade: "A familia!... A grande desculpa para todas as
pati'arias neste pas... Pois bem, tanto pior para a
famlia."

Michele, j que estou a falar dele. tinha na verdade um
carcter curioso. Dois dias depois do desaparecimento
definitivo de Severino. falando ns disto ou daquilo, veio a
propsito eu dizer que, como era Inverno e anoitecia cedo. no
sabia o que fazer para passar o tempo. Michele lembrou ento
que, se quisssemos, nos podia ler qualquer coisa em voz alta.
Aceitmos, satisfeitas. embora estivssemos pouco habituadas a
leituras, como me parece que j o dei a entender. Mas naquela
situao at os livros podiam servir para nos distrairmos. Eu,
julgando que ele pretendia ler-nos algum romance, recordo-me
de Ihe ter perguntado: "O que ? Uma histria de amor?"
Michele respondeu, com um sorriso: "Muito bem, acertaste, 
mesmo uma histria de amor." Ficou combinado que Michele nos
leria um livro em voz alta, nessa noite, depois da ceia, que
comamos sempre dentro da cabana, a uma hora em que no sa
biamos como matar o tempo.

Lembro-me muito bem dessa noite, que ficou gravada na minha
memria, no sei porqu, talvez porque Michele revelou ento
uma particularidade do seu carcter que eu no conhecia.
Revejo a cena, ns as duas e a familia de Paride, todos
sentados sobre cepos e bancos em volta do fogo meio apagado,
quase no escuro, a lamparina de azeite pendurada atrs de
Michele para ele poder ler. A cabana era mesmo tenebrosa: do
tecto de ramos secos pendiam farripas negras de fuligem, que
baloiavam ao mais leve sopro; ao fundo, quase submersa na
escurido, estava sentada a mae de Paride, at parecia a bruxa
de Benevento, tao velha e enrugada era, sempre a fiar l com a
roca e o fuso. Rosetta e eu estvamos contentes por causa da
leitura; mas Paride e a famlia no tanto, pois, aps um dia
inteiro de trabalho. mal chegava a noite ficavam a cabecear
com sono e s vezes iam logo para a cama. As crianas dormiam
j, aninhadas ao p das maes.

Michele disse-me, antes de comecar, tirando um livrinho do
bolso: "Cesira, querias uma histria de amor e vou ler
precisamente uma histria de amor." Uma das mulheres, mais por
cortesia do que por curiosidade, perguntou se era uma histria
verdadeira ou inventada e ele entao respondeu que talvez fosse
inventada, mas era como se realmente tivesse acontecido.
Entretanto abria o livrinho e

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ajeitava os culos no nariz. Por fim anunciou que ia ler
alguns episdios da vida de Jesus, no Evangelho. Ficmos todos
pouco  vontade, porque espervamos um verdadeiro romance;
alm disso, tudo o que trata de religio parece sempre
aborrecido, talvez porque as coisas da religio as fazemos
mais por dever do que por prazer. Paride, interpretando o
sentimento geral, observou que todos conheciamos a vida de
Jesus e por isso a leitura no nos daria novidades. Rosetta
no disse nada; mais tarde, porm, quando estvamos no nosso
casinhoto, szinhas, comentou: "Se ele no acredita em Jesus,
porque no o deixa em sossego?", quase aborrecida, mas no
hostil, pois simpatizava com Michele, muito embora no o
compreendesse verdadeiramente, como alis ningum l em cima.

Michele, s palavras de Paride, limitou-se a responder com um
sorriso: "Tens a certeza?" Depois anunciou que ia ler o
episdio de Lzaro, acrescentando: "Lembram-se quem era?" Ora
todos ns j ouvramos falar deste Lzaro, mas  pergunta de
Michele apercebemo-nos de que no sabiamos bem quem era nem o
que tinha feito. Talvez Rosetta soubesse, mas tambm desta vez
ficou calada. "VQem>>, disse Michele com tranquilo ar de
trionfo, "dizem que conhecem a vida de Jesus e nem sequer
sabem quem foi Lzaro... No entanto. este episdio est
pintado, como mnitos outros, nos quadros da Paixo que h nas
igrejas... at na igreja de Fondi, l em baixo..." Paride,
pensando talvez que estas palavras envolviam para ele uma
censura, observou: "Mas sabes que para ir  igreja, l em
baixo no vale,  preciso perder um dia?... Ns temos de
trabalhar e no podemos desperdicar um dia. nem mesmo para ir
 igreja." Michele no lhe respondeu e comeou a ler.

Como estou certa de que o episdio de Lzaro  conhecido de
todos os que lerem as minhas recordaes, no 0 transcrevo
aqui, tanto mais que Michele o leu sem fazer comentrios: os
que o no conhecem, podem l-lo no Evangelho. Limitar-me ei a
observar que,  medida que a leitura prosseguia, em volta de
Michele as caras dos camponeses exprimiam, cada vez mais, se
no aborrecimento, pelo menos indiferena e desiluso.
Esperavam uma bonita histria de amor e, em vez disso, ele
lia-lhes a histria dum milagre, no qual, ainda por cima, pelo
menos assim me pareceu, no acreditavam, como de resto no
acreditava 0 prprio Michele. Mas havia uma certa diferena
enquanto os ouvintes se aborreciam, tanto que duas mulheres
tinham comeado a cochichar, rindo baixinho, uma terceira no
fazia seno bocejar e 0 prprio Paride, sem dvida o mais
atento, mostrava, curvado para a frente, uma cara
absolutamente obtusa e insensvel, Michele, por seu lado, 
medida

06
     




que avanava na leitura, parecia comover-se com aquele milagre
em que no acreditava. Quando chegou  frase: "E Jesus disse:
eu sou a ressurreio e a vida>>, interrompeu-se um momento e
todos pudemos ver que parara porque no podia continuer a ler
com os olhos raves de lgrimas. Compreendi que ele chorava por
cause do que lie, pois, como logo a seguir se tornou claro, o
relacionava dalqum modo com a nossa presente situaco; mas uma
daquelas mulheres que se aborreciam a ouvi-lo estava to longe
de pensar que o episdio de Lzaro lhe pudesse provocar
aquelas lgrimas que observou, solcita: "Incomoda-te o fumo,
Michele?... Aqui h sempre mnito fumo... Bem, j se sabe,
estamos numa cabana..." Para compreender teem esta frase 
preciso ter presente, e parece-me que j aludi a isso, que o
fumo do braseiro no saa pela abertura da chamin, que no
existia, mas sim, muito devagar, atravs dos ramos secos do
telhado, estagnando durante bastante tempo dentro da cabana.
Por isso, muitas vezes acontecia chorarem todos os que l se
encontravam, incluindo os dois ces e a gate e os gatinhos.
Aquela mulher pretendera desculpar-se do fumo, por
amabilidade, mas Michele, de repente, limpou as lgrimas e
comeou a gritar duma forma

I imprevista: "Qual fumo nem qual cabana... eu no leio mais
porque vocs no compreendem... e  intil tentar fazer com
preender quem nunca o conseguir. Porm, lembrem~se disto:
cada um de vocs  Lzaro... e eu, ao ler a histria de
Lzaro, li a

I vossa histria, a histria de todos... de ti Paride, de ti
Luisa, de ti Cesira, de ti Rosetta e tambm a de mim prprio,
e a de meu pai, e a

| daquele patife do Tonto, e a do pobre Severino com as sues
fazendas, e a dos refugiados, que esto c em cima, e a dos
alemes e fascistas que esto no vale, em suma, a de todos...
todos esto mortos, estamos todos mortos e julgamos ester
vivos... Enquanto nos julgarmos vivos porque temos as nossas
fazendas, o nosso medo, as nossas preocupaes, as nossas
familias, os nossos filhos, estaremos mortos... S no die em
que nos apercebermos de que estamos mortos, mais do que
mortos, putrefactos, decompostos, cheirando a cadver a uma
lgua de distncia, smente ento comearemos a viver... Boa
noise." Dito isto, levantou-se, atirando ao cho a lamparina
de azeite, que se apagou, e saiu batendo com a porta, Ficmos
todos no escuro, estupefactos. Por fim, Paride, depots de
muito procurer, l conseguiu encontrar a lamparina e
acendeu-a, Mas ningum sentiu vontade de comentar aquela fria
de Michele; Paride disse smente, com o ar embaraado e sorna
de campons que julga saber tudo: "Michele fala teem e
depressa...  filho de burgueses, no  campons...~, Suponho
que tambm as mulheres

107





pensavam o mesmo: tudo aquilo eram coisas de senhores que no
cavam nem ganham a vida com o suor do seu rosto. Concluindo,
demos as boas-noites e fomos para a cama. Michele, no dia
seguinte, fingiu no se recordar j da cena, mas nunca mais se
oereceu para nos ler em voz alta.

Nessa ocasio, porm, confirmei a opinio que formara de
Michele no dia em que ele nos disse que, em rapaz, pensara a
srio em ser padre. Na realidade, como ento pensei, apesar de
todos os seus discursos contra a religiao, Michele assemelhava
se mais aos padres do que aos homens vulgares, como Filippo e
os outros refugiados. Por exemplo. aquela sua fria quando se
deu conta, ao ler o episdio de Lzaro, de que os camponeses
no o compreendiam, no o escutavam e se aborreciam, com uma
pequena troca de palavras poderia t-la qualquer proco de
aldeia durante a prdica do domingo, ao aperceber-se, enquanto
gesticulava no plpito, de que os paroquianos, na igreja,
estavam distrados e no lhe prestavam ateno. Era, no fim de
contas, a fria dum padre que considera todos os outros
mortais como pecadores que  necessrio instruir e levar ao
bom caminho, e no a de um homem que se julga semelhante aos
outros homens.

Para terrninar as minhas observaes sobre o carcter de
Michele, quero contar outro pequeno episdio que confirma tudo
quanto acabo de dizer. Como j mencionei, ele nunca falava de
mulheres nem de amor e parecia no ter nenhuma experincia a
esse respeito. No apenas por falta de ocasiao, mas, como se
compreender pelo que vou contar, principalmente por ser.
neste captulo, muito diferente dos rapazes da sua idade. O
caso foi o seguinte: Rosetta adquirira o costume de todas as
manhas, mal saltava da cama, tirar a roupa e lavar se
completamente nua. Eu ia buscar ao poo um balde cheio de gua
e dava-lho; ela deitava metade dessa gua por cima da cabea,
em seguida ensabouva o corpo todo e por fim despejava a outra
metade. Rosetta era mnito asseada e a primeira coisa que quis
que eu comprasse aos camponeses, mal chegmos a Santa Eufmia,
foi o sabo que eles faziam em casa, e continuou a lavar se
assim, mesmo no pino do Inverno, quando l em cima fazia um
frio prprio de montanha e de manh a gua do poo estava tao
gelada que 0 balde saltava no gelo antes de o partir e a corda
quase me cortava as mos. Esse balde cheio de gua, despejado
por cima da cabea, verifiquei-o nas poucas vezes que quis
imitar Rosetta, tirava-me a respirao e faziame estar de boca
aberta um minuto, sem falar. Pois numa dessas

IUS





manhs Rosetta tinha-se lavado, como era seu costume, e estava
a esfregar-se fortemente com a toalha, perto da cama, com os
ps em cima duma tbuazinha para os no sujar na lama do cho.
A minha filha tinha um corpo robusto, como mal se podia
imaginar peLo seu rosto meigo e delicado, de olhos grandes,
nariz um pouco comprido e boca carnuda a sobressair do queixo
'ugidio que a fazia parecer uma cordeirinha. Tinha o peito
no muito grande mas desenvolvido como uma mulher feita que j
tivesse sido me, os seios cheios e brancos, como se tivessem
leite, os biquitos escuros mnito arrebitados. como que a
procurar a boca dum nen acabado de dar  R~z. O ventre, ao
contrrio, era mesmo o duma rapariga virgem: liso, plann quase
encovado. Pelas costas, ento, era verdadeiramente bela,
parecia uma esttua, daquelas de mrmore branco que se vem
nos jardins pblicos de Roma espduas cheias e redondas, dorso
longo e ao fundo uma pronunciada curva, como a duma gua
jovem, a dar relevo s ndegas brancas, redondas e musculosas,
to bonitas e

|    asseadas que me dava vontade de as comer com beijos, como

quando ela tinha dois anos. Sempre pensei que um homem, ao ver
a

~minha Rosetta nua, de p, a esfregar com uma toalha a curva
dos
I    rins, fazendo tremer um pouco, a cada movimento, o lindo
peito

slido e alto, devia ao menos perturbar se, ficar vermelho ou
plido,

I    conforme o temperamento. E isto porque se pode ter o
pensainento
|    noutra coisa, mas, no momento em que uma mulher se
apresenta

nua, todos os pensamentos voam como passarinllos duma rvore
quando se dispara um tiro: e no fica senao a perturbaao do
macho
diante da fmea. Ora Michele, no sei como, numa dessas manhs
em que Rosetta estava, como disse, a limpar-se. toda nua, a um

I    canto do casinhoto, veio procurar nos e, sem bater,
empurrou a

porta, entreabrindo a. Eu estava sentada logo  entrada e
poderia
avis-lo, gritando lhe: `<No entres, Rosetta est a
lavar-se!" No

I    entanto, confesso, quase no me desagradou que ele
entrasse, assim

de improviso, e isto porque uma me tem sempre orgulho da
filha e,

I    nesse momento, mais forte do que a surpresa, e mesTno do
que a

reprovao, foi a minha vaidade de me. Pensei: "Vai v-la
nua..,
pouco mal faz, tanto mais que nao  de propsito.,. ver como
a
minha Rosetta  bonita!~> Com este pensamento na cabea,
fiquei
calada; e ele, iludido pelo meu silncio abi iu a porta de par
em par
e ficou em 'rente de Rosetta, que entretanto procurava em vo
cobrir se coin a toalha. Eu observava-o: vi o um momento
indeciso,

!    quase aborrecido por ver Rosetta assim nua: depois
voitou-se para

mim, dizendo  pressa que o desculpasse, talvez fosse ainda
muito
cedo, mas de qualquer forma queria dar-nos a grande novidade
que
ouvira nesse mesmo instante a um rapaz de Pontecorvo que
andava

109





na montanha a vender tabaco: os Russos tinham desencadeado uma
grande ofensiva contra os Alemes e estes retiravam em toda a
frente. Acrescentou que tinha que fazer, ver-nos ia mais tarde
e foi -se. Nesse mesmo dia encontrei maneira de lhe falar a
ss e disse-lhe a sorrir: "Tu, Michele, verdadeiramente no s
como os outros rapazes da tua idade..." Ele toldou-se um pouco
e perguntou: "Porqu?" E eu: "Tiveste diante dos olhos uma
bonita rapariga como Rosetta, toda nua, e s pensaste nos
Russos e nos Alemes e na guerra: pode dizer-se que nem sequer
a viste." Ele ficou de mau humor, ou, antes, quase se zangou,
e disse: "Que tolice  essa? Admiro-me que sejas tu, a me
dela, a falar dessa maneira." Eu volvi-lhe ento: "Tambm o
escaravelho  bonito para a me, no sabias, Michele? E que
tem isso? Por acaso te disse que viesses c esta manh e
entrasses sem bater? Mas, como entraste, talvez me zangasse se
tivesses olhado Rosetta com demasiada insistncia, mas, no
fundo, porque sou me, no me desagradaria de todo. Em vez
disso, nada, nem sequer a viste..." Michel sorriu, um sorriso
forado, depois afirmou: "Para mim essas coisas no existem.~>
E foi esta a primeira e a ltima vez que falmos em tal
assunto.


     




CAPTULO V

Depois da visita do Tonto e das sues ameaadoras previses de
recrutamentos, comeou a chover. Durante todo o ms de Outubro
estivera um tempo lindssimo, cu sereno e ar fresco, limpo e
sem vento. Com esse tempo, naqueles dies sem fim que
passvamos l em cima, havia ao menos a distraco dum passeio
qualquer ou, simplesmente, ester ao ar livre a contemplar o
panorama de Fondi. Mas numa daquelas manhs o tempo mudou de
repente: quando nos levantmos, fazia calor, e ao olharmos
pare o lado do mar, vimos tudo enevoado e muitas nuvens
enormes e negras suspensas sobre o

| mar cinzento como por cima duma panela a ferver. Essas
nuvens no tardaram a invadir todo o cu ainda no decorrer da
manh, empurradas por vento fraco e hmido, soprando tambm do
mar. Os

I refugiados, entendidos em tads mudansas, pods tinham nascido
pare aqueles [ados, disseram-nos que essas nuvens significavam
que a chuva duraria enquanto o siroco, vento que sopra do mar,
no fosse substitudo pela tramontana. E de facto assim foi:
por volta do meio-dia comearam a cair as primeiras gotas e
ns encafumo-nos na casota  espera de que a chuva parasse.
Sim,  o pares... Choveu todo aquele die e toda a noise e no
die seguinte o mar estava mais sujo do que nunca e o cu era
todo ele um novelo de nuvens escuras que encarapuavam as
montanhas, e subiam do vale, com as rajadas de vento hmido,
mais nuvens prenhes de chuva. Depois duma breve interrupo,
tornou a chover, e desde ento, no sei quantos dies, talvez
mais dum ms, choveu sempre die e noise.

Para quem more na cidade, a chuva no tem importancia. Se sad,
caminha no p asseio ou no asfalto , debaixo dum guard a-c huva
; se est em case, anda em pavimentos de madeira ou de
mrmore. Mas l em cima em Santa Eufmia, no socalco e nas
cabanas, a chuva era um verdadeiro castigo de Deus. Estvamos
todo o die em case, naquela toca escura de tecto inclinado,
com a porta aberta porque no havia janelas, a olhar pare a
chuva que caa e formava diante da porta um vu hmido e
fumegante. E ali ficvamos, eu sentada na came e Rosetta na
cadeira que me dispensara Paride (pagando-lhe eu um tanto pelo
aluguer,  claro), a olhar pare fore, aparvalhadas, sem dizer
nada; se falvamos, era da chuva e dos seus inconvenientes.
Sair, nem pensar nisso. S deixvamos o





casimloto em ltim caso, por exemplo, para ir buscar lenha ou
satisfazer as necessidades naturais E a este respeito, embora
o assunto nao seja nZuito simptico, devo dizer que quem nunca
fez esta vida e mora na ciclade, onde todas as habitaces tm
uma retrete e at uma casa cle bamZo, no imag~irla o que se
ja viver nur

lugar otlde no h nada disso. Du ZS ou trs vezes pGr dia.
pelo menos, as duas tmharllos de ir l R'ra, ao socalco,
procurar- uma sebe, atrs da qual levarZtvamos as saias e nos
pnharllos de ccoras; assim mesrno, como os animais Papel
higirZico no havia, naturalmente, nem sequer jornais ou
coisa parecida; assim, adquirramos o hbito de arrancar as
folhas duma figueira que ficava mesmo ao lado da casota e
limpvamo-nos com elas, Com a c huva, naturalmente, tudo isto
se tornou muito mais dif'cil e clesagradvel andar no campo,
afundando os ps na lama at ao tornozelo, e depois, debaixo
de chuva, levantar as saias e sentir a gua fria e incmoda
bater na carne nua, e ter de se limpar em seguida a uma folha
da figueira toda molhada e viscosa,,, tudo isto so coisas que
no desejo a ningum, nem ao meu maior inimigo, Acrescente-se
que a chuva era to aborrecida l fora como dentro de casa;
como no havia pavimento no casinhoto, a lama era tanta que,
de manh, ao sairmos da cama, tinhamos de saltar corno rs
daqui para alm, por cima dumas pedras colocadas de propsito
no cho, pois doutro modo ficaramos com os peg
ernporcalhados, da cor do chocolate. Em suma, a chuva
penetrava em toda a parte, deixando uma humidade impossvel de
descrever: qualquer coisa que fizssemos, mesmo o mais pequeno
movimento, descobriamos logo que estvamos salpicadas de lama,
nas saias, nas pernas e no sei onde mais. Lama no cho e
chuva no ccu; Paride e a famlia estavam habituados e
consolavam-se dizendo que essa chuva era normal e necessria e
todos os anos vinha e no havia nada a fazer seno esperar que
parasse. Mas para ns as duas era mesmo um tormento, pior do
que tudo quanto tnhamos sofrido at ento.

Mas ainda o maior de todos os males  que os Ingleses, devido
ao mau tempo, pararam em Garigliano e j no falavam em
avancar. Naturalmente, mal os Ingleses renunciaram a avancar,
os Alemes, como depois soubemos, decidiram no retirar e
entrincheiraram-se onde estavam.

No compreendo nada de guerras nem de batalhas; sei smente
que, numa daquelas manhs de chuva, chegou l acima um
campons, todo ofegante, com uma grande folha de papel
impressa: era uma ordem que os Alemes tinham afLxado em todas
as localidades habitadas, Michele leu a e explicou-nos o que
continha: o comando alemo decidira tnandar evacuar toda a
zona entre o

1 1 2





mar e a montanha, incluindo a terreola onde nos encontrvamos
e que de facto vnha mencionada no papel, Para cada localidade
indicava o dia em que devia realizar-se a mudana. Ningum
podia levar consigo malas nem sacos, mas apenas alguma coisa
de comer, Em resumo, todos tinham de abandonar casas, cabanas,
animais, alfaias, mveis e outros haveres, pegar nos filhos ao
colo e caminhar pelos montes, por carreiros impossveis,
debaixo de chuva, recuando sempre em direcao a Roma, E
naturalmente esses safados dos Alemes, esses filhos duma
cabra, ameacavam com as penas do

I costume quem no obedecesse: priso, confiscao,
deportao,

| fuzilamento. A nossa terreola estava indicada para ser
completamente evacuada dentro de quarenta e oito horas. Da a
quatro dias toda a regiao devia estar desabitada para Alemes
e Ingleses terem espaco suficiente para poderem matar-se uns
aos outros mais  vontade.

Filippo e os restantes refugiados, tal como os camponeses,
tinham-se habituado j a considerar os Alemes como a nica
autoridade que existia agora na Itlia; assim, a sua primeira
reacao foi mais de desespero do que de revolta, Os Alemes
queriam qualquer coisa impossvel, mas eram eles a autoridade
e, como no havia outra, tinham de obedecer, ou ento,,. ou
ento no sabiam o que fazer,,,

Os refugiados, que j tinham abandonado as suas casas de
Fondi, sabiam o que significa fugir e, ante a perspectiva de
andarem de novo pelos carreiros das montanhas, naquela estao
gelada, com a chuva que no parava de cair de manh at 
noite, com a lama que tornava impossivel caminhar, no s at
Roma, mas mesmo at o fundo do socalco, sem destino, sem guia,
sem lugar certo para onde ir, entregaram-se ao desespero, As
mulheres choravam e os homens praguejavam e diziam palavres
ou ficavam abatidos e calados, Os camponeses como Paride e as
outras familias, pelo seu lado, tudo gente que penara uma vida
inteira a construir com as prprias mos aqueles socalcos, a
cultiv-los, a erguer as casas e as cabanas, mais do que
desesperados, estavam, sim, estupefactos: quase no
acreditavam. Um repetia: "E para onde vamos?~ Outro queria que
Ihe lessem novamente o edital, palavra por palavra, Outro
dizia, depois de Iho terem lido: "No pode ser. 
impossvel!~> Pobrezinhos, no compreendiam que para os
Alemes o impossvel no existia, tanto mais que se tratava do
mal dos outros, A cunhada de Paride, a Anita, cujo marido
estava na Rssia e tinha trs filhos pequeninos, exprimiu o
sentimento geral declarando de repente, sem nfase, antes com
calma: "Eu, em vez de me ir embora, mato primeiro os filhos e
dou cabo de mim em seguida.~> E percebi que ela nn dizia

C, -





aquilo por desespero, mas sim porque compreendia que andar com
trs f`ilhos pequeninos, em pleno Inverno, pelos carreiros da
montanha significava conden-los  morte: mais valia portanto
mat-los logo, sofriam menos.

O nico que nao perdeu a cabeca nessa ocasio foi Michele e
creio que isso se devia ao facto de ele nao reconhecer a
autoridade dos Alemes, considerando-os. como dizia mnitas
vezes, bandidos, malfeitores e delinquentes, que
provisriamente eram os mais fortes porque tinham armas e se
serviam delas. Depois de ler a proclamao do comando alemo,
limitou-se a dizer, com um riso sarcstico: "Quem dizia que os
Ingleses e os Alemes so a mesma coisa e tanto valem uns como
outros d um passo em frente." Ningum tugiu nem mugiu, e
menos ainda Filippo, o pai dele, a quem essas palavras eram
dirigidas. Estvamos todos reunidos na cabana, em volta do
fogo, e Paride observou-lhe: "Tu troas de tudo, Michele, mas
para ns isto significa a morte... temos aqui as casas, os
animais, as alfaias, temos aqui tudo... se nos vamos embora, o
que vai ser de tudo isto?~> Michele, como j tive ocasio de
dizer, era um tipo curioso, bom e ao mesmo tempo duro,
generoso, se quisermos, mas tambm cruel. Ps-se a rir de novo
e disse: "Bem, perdem tudo quanto tm e depois morrem... o que
h nisso de extraordinrio?... Nao perderam tudo e no
morreram os Polacos, os Franceses, os Checoslovacos, em suma,
todos os que sofreram a ocupacao alem?... Agora toca nos a
ns, Italianos... Enquanto isso sucedia aos outros, ningum
abriu o bico... Agora toca-nos a ns... hoje a mim, amanh a
ti..." Todos ficaram consternados ao ouvir estas palavras e
Filippo mais do que nenhum outro, pois, via-se bem, todo ele
tremia de medo. Disse ao filho: <<Ests sempre a brincar...
mas bem vs que no  momento prprio para brincadeiras." E
Michele: cMas que te importa? No disseste que para ti Alemes
e Ingleses eram a mesma coisa?" Filippo ento perguntou: <<Em
resumo, o que vamos fazer?" E, pela primeira vez, vi que toda
a sua sabedoria, baseada na frase "aqui ningum  tolo>>, no
valia 0 fumo dum cigarro, no s para ns, mas para ele
tambm. Michele encolheu os ombros: "Os Alemaes no so os
senhores? Pois vo ter com eles e perguntem-lhes o que devem
fazer... Claro, eles diro que cumpram o que est escrito no
papel.>> Paride nessa altura pronunciou uma frase mais ou
menos como a de Anita sobre os f'ilhos: <<Eu agarro a
espingarda e, assim que vir o primeiro a emo, mato-o...
depois, eles matam-me tambm, mas paciencia... ao menos no
vou szinho para o outro mundo..." Michele riu e comentou:
"Bravo, comeas a raciocinar como deve ser."

Ficmos todos indecisos, enquanto Michele continuava a tro

1 1 4
     




ar e os outros olhavam aparvalhados para o fogo que se
apagava. Por fim Michele ps-se srio e disse: "Querem saber o
que tm a fazer?" Todos o olharam cheios de esperana. Michele
prosseguiu: "No devem fazer nada, eis tudo. Faam de conta
que no viram este edital. Fiquem onde esto, continuem a vida
do costume, ignorem os Alemes e as suas proclamaes e as
suas ameaas. Se eles quiserem evacuar esta regio, terao de o
fazer  fora, e no com bocados de papel, que

I    no valem nada. Os Ingleses tambm tm fora; porm, por
causa

do mau tempo, no podem empreg-la e pararam. O mesmo
acontece aos Alemes. Se ningum se mexer donde est, ho-de
pensar duas vezes antes de mandar os soldados c acima, por
esses
carreiros fora. E, se vierem, tero de nos levar em charola.
Faam
-se surdos. Depois veremos. No sabem que os Alemes e os
fascis
tas pem editais por toda a parte, ameaando sempre com a pena
de morte quem lhes no obedecer? Eu prprio estava mobilizado
em
25 de Julho e desertei; depois eles fizeram uma proclamao
ordenando, sob pena de morte, que nos apresentssemos na
repartio respectiva. E eu, em vez de ir apresentar-me, vim
para
aqui. Faam pois como eu fiz, no se mexam.,>
Era o mais simples, o pensamento mais justo naquela ocasio;

I    mas a ningum lhe passara tal ideia pela cabea, pois,
como j disse,
I    todos consideravam os Alemes a nica autoridade e todos
tinham

necessidade duma autoridade, fosse ela qual fosse; alm disso,
quando uma coisa est impressa no papel, ningum se atreve a
fazer-lhe a mais pequena objecco.

~Mas foram para a cama nessa noite j quase sossegados, pelo
I    menos com mais confranca do que quando se levantaram de
manh,

e no dia seguinte, como que por milagre, no se tornou a ouvir
falar
dos Alemes nem do edital. Foi como se todos tivessem passado
palavra uns aos outros para no falarem no assunto,
continuando a
vida como se nada tivesse acontecido. Passaram os dias e
viu-se que
Michele tinha razao, hois ningum se mexeu em Santa Eufmia
nem, segundo soubemos, nos outros lugares das proximidades; os
Alemaes mudaram de ideias, renunciando  evacuao, pois no

I    ouvimos falar mais dos editais.
I    Quantos dias choveu? Eu digo que choveu pelo menos
durante

quarenta dias, como no dilvio universal. E, alm da chuva,
fazia
tambm frio, pois estvamos no Inverno e aquele vento, que
vinha
do mar em rajadas cheias de humidade e nevoeiro, era gelado e
a
gua que as nuvens descarregavam todos os dias na montanha
parecia uma mistura de neve e gelo e feria a cara como se a

i    picassem com alfinetes. Para nos aquecermos no quartito
no

1 1 5





tnhamos seno uma braseira cheia de carvo mido que pnhamos
ao p dos joelhos, mas a maior parte do tempo estvamos
metidas na cama, enroscadas uma na outra, ou ento na cabana,
no escuro, diante do fogo sempre aceso. Chovia toda a manh;
por volta do meio-dia havia uma aberta, mas insuficiente, com
todas aquelas nuvens franjadas e rasgadas suspensas no cu
como que para tomarem flego e o mar mais sujo e mais nebuloso
do que nunca;  tarde continuava a chover e chovia at  noite
e depois durante toda a noite. Ns as duas estvamos sempre
com Michele, ele falava e ns ouviamos. Do que falava? De tudo
um pouco, gostava de falar, tinha o ar dum professor ou dum
pregador e muitas vezes Ihe disse: " pena que no tenhas
estudado para padre, Michele... Que lindas prdicas farias aos
domingos." Com isto no quero dizer que fosse um palrador;
dizia sempre alquma coisa que interessava, ao passo que os
palradores se tornam aborrecidos e s duas por trs j ningum
os ouve; a ele dava-nos sempre vontade de o escutar e por
vezes at me sucedia suspender o trabalho de malha para ouvir
melhor alguns dos seus raciocnios. Quando falava, no dava
ateno a mais nada, nem ao tempo que passava, nem  lfimpada
que se extinguia, nem ao facto de eu e Rosetta podermos querer
estar szinhas por qualquer motivo particular. Prosseguia,
entusiasmado, montono, cheio de boa-f, e quando o
interrompia, dizendo: "Bem, so horas de jantar", ficava mal
disposto, desconcertado, com um modo sombrio que parecia
significar: "Eis para que serve falar com mulheres ignorantes
e fteis... S para perder tempo..."

Durante aqueles quarenta dias de chuva no sucedeu nada de
notvel, a no ser o caso que vou contar e diz respeito a
Filippo e ao seu meeiro Vincenzo. Numa daquelas manhs de
chuviscos em que o cu, como de costume, era todo um novelo de
nuvens escuras que subiam sem cessar do panelo do mar, eu e
Rosetta fomos assistir  matana duma cabra que Filippo
comprara a Paride e tencionava vender-nos a retalho, depois de
ficar com uma parte para ele. A cabra, branca e preta, estava
amarrada a um pau e os refugiados, como no tinham nada que
fazer, observavam-na, calculando-lhe o peso e quanta carne
ficaria depois de Ihe tirarem a pele e a limparem. Rosetta,
enquanto estvamos ali de p debaixo da chuva fina, com os
sapatos na lama, disse-me baixinho: /<Mam, aquela pobre cabra
faz-me pena... agora est nva, mas daqui a pouco matam-na...
se dependesse de mim, no a matariam." Respondi-lhe: "E que
comerias depois?" Ela volveu: "Po e hortalia... que
necessidade h de comer carne? Eu tambm sou feita de carne e
a minha carne no , no fundo, muito diferente da carne desta

1 1 6





-

cabra... Que culpa tem ela de ser um animal e no poder
raciocinar nem defender-se?" Cito por completo as palavras de
Rosetta sobretudo para dar uma ideia de como ela raciocinava e
pensava ainda naquele tempo, em plena guerra e com a carestia.
Talvez paream palavras um pouco ingnuas ou tolas, mas
testemunham a perfeio a que j aludi, mnito sua, na qual no
se conseguia descobrir nenhum defeito, tal qual como uma
santa, e que talvez resultasse da sua inexperincia e
ignorncia, mas, em qualquer dos casos, sincera e do corao.
Mais tarde, como j disse, percebi que essa perfeio era
frgil e quase artificial, como a duma flor crescida numa
estufa, que, uma vez levada para o ar livre, imediatamente
murcha e morre; mas naquele momento no pude deixar de me
enternecer e de pensar que tinha uma filha muito boa e
sensvel e que no fizera nada para a merecer.

Entretanto, o aougueiro, um tal Ignazio, de quem se podia
julgar tudo menos que tivesse aquele oficio, um tipo
melanclico e indolente, com uma madeixa de cabelos grisalhos
cada para a testa, bigodes compridos e olhos azuis encovados,
tirara o casaco, ficando em mangas de camisa. Numa mesinha
junto do pau onde a cabra estava amarrada tinham-lhe posto
duas facas e uma tigela. mesmo como nos hospitais quando se
faz uma operao. Ignazio pegou numa das facas, experimentou o
fio na palma da mo, depois aproximou-se da cabra e agarrou-a
pelos chifres, puxando-Ihe a cabea para trs. A cabra
revirava os olhos, at parecia irem-Ihe sair das rbitas,
cheia de medo, dir-se ia compreender tudo, e soltava balidos
que soavam mesmo como lamentos. Parecia dizer: "No me mates,
tem piedade!. Mas Ignazio mordeu o lbio inferior e dum s
golpe espetou-lhe a faca nas goelas, at o cabo, continuando a
agarr-la pelos chifres. Filippo fazia de ajudante, foi rpido
a pr a tigela debaixo das goelas do bicho; o sangue jorrou da
ferida como duma fonte, negro e denso, quente, a fumegar. A
cabra estremeceu, depois semicerrou os olhos, j um pouco
embaciados, como se,  medida que o sangue escorria para a
tigela, a vida Ihe fugisse e,

!    com a vida, tambm o olhar; por fim dobrou os joelhos e
aban

donou-se, dir-se-ia que confiante ainda, nas mos daquele que
a matara.

Rosetta afastara-se debaixo da chuva que continuava a cair e
eu queria segui-la, mas, por outro lado, precisava de estar
ali presente porque a carne era pouca e no podia perd-la,
alm disso, Filippo prometera-me as tripas, que so muito boas
assadas na grelha, em fogo brando de lenha de carvo. Ignazio,
entretanto, erguera a cabra pelas patas traseiras e,
arrastando-a na lama, fora pendur-la em dois paus, pouco mais
adiante, de cabea para baixo e as patas

/ 1 7





uma para cada lado. Todos nos juntmos em redor para o ver
trabalhar.

Antes de mais nada, Ignazio pegou numa das patas anteriores e
cortou-lhe o p, assim como se decepasse uma das mos pelo
pulso. Em seguida pegou num pauzinho fino, mas duro, e
introduziu-o entre o coiro e a carne: a pele da cabra est
ligada  carne apenas por filamentos e pouco  preciso para a
separar, como se fora um papel mal colado. Introduzido o
panzinho, andou com ele em volta, de modo a fazer um buraco, e
depois deitou-o fora, meteu a pata na boca,  maneira duma
flauta, e soprou para dentro com toda a fora, at ficar com
as veias do pescoo grossas e as faces roxas. Soprando sempre,
a cabra comeou a inchar  medida que o sopro I de Ignazio se
introduzia e circulava entre o couro e a carne. Ignazio
continuou a soprar e por fim a cabra pendia entre os dois
paus, cheia como um odre, quase com o dobro do tamanho. S
ento ele abandonou a pata, limpou a boca soja de sangue e,
com a faca, cortou a pele a todo o comprimento da barriga,
desde a virilha at o pescoo. Depois, com as mos, comeou a
despegar a pele da carne. Era verdadeiramente uma coisa
estranha ver como a pele saa to fcilmente, semelhante a uma
luva que se descala da mo, conforme ele ia puxando e com a
faca cortava aqui e ali os filamentos que ainda estavam
presos. Em resumo, acabou de tirar devagarinho toda a pele e
deitou-a para o cho, peluda e ensaguentada, semelhante a um
vestido velho; agora a cabra estava nua, por assim dizer,
mnito vermelha, com algumas manchas brancas e azuladas aqui e
alm. Continuava a chuviscar, mas ningum se afastava: Ignazio
pegou novamente na faca, abriu ao comprido a barriga da cabra,
meteu as mos l dentro e gritou, imediatamente, para mim:
"Cesira, apara nos braos." Eu acorri logo e ele tirou para
fora 0 rolo das tripas, soltando-as uma por uma, com ordem,
como se fosse uma meada. De vez em quando cortava-as e
punha-mas nos braos; estavam ainda quentes, cheiravam mal a
valer e sujavam-me toda. Ignazio ia repetindo, como se falasse
consigo mesmo: "Isto  um prato de reis, ou, melhor,
tratando-se de mulheres, de rainhas... Bem limpas e assadas em
lume brando..." Nesse momento ouviu-se uma voz chamar:
~Filippo! Filippo!"

Voltmo-nos todos e eis que aparece no socalco, primeiro a
cabea, depois os ombros e por fim o corpo inteiro de
Vincenzo, o meeiro de Filippo, em casa do qual tnhamos morado
antes de subirmos para Santa Eufmia. Mais do que nunca
semelhante a um passaro depenado, o nariz adunco, os olhos
encovados, ofegante, ! sujo de lama, encharcado at os ossos,
ainda antes de chegar ao socalco j vinha a gritar: <<Filippo,
Filippo. aconteceu uma





desgraa... aconteceu uma desgraa!..." Filippo, que, como
todos ns, estava a observar Ignazio, correu ao seu encontro,
de olhos arregalados: "Que aconteceu, fala, que aconteccu?>>
Mas o outro, astuto, fingia ter perdido o flego com a subida
e comprimia a mo no peito, repetindo em voz cavernosa: ~Uma
grande desgraa!" Todos tnhamos deixado Ignazio e a cabra
para nos juntarmos em volta de Filippo e do meeiro: a janela
da casa de Filippo, um pouco mais acima, abriu-se entretanto e
apareceram nela duas mulheres, a esposa e a filha. O meeiro,
por fim, explicou: "Aconteceu que vieram os alemes e os
fascistas, bateram nas paredes, encontraram o esconderijo e
deitaram abaixo o muro." Filippo interrompeu-o com um urro: "E
roubaram as minhas coisas?" "Claro>>, respondeu o outro,
encorajado no sei porque, talvez por ter dado j a notcia,
"roubaram tudo, no deixaram nada, mesmo nada..." E disse isto
em voz to alta que a mulher e a filha de Filippo,  janela, o
ouviram e comearam imediatamente a lamuriar-se em altos
gritos e a agitar os braos, debruando-se no parapeito. Mas
Filippo no perdeu tempo com mais explicaes: "No  verdade,
no  verdade", ps-se a berrar. "Tu  que me roubaste, foste
tu o ladro... Qual alemo, qual fascista! ,.. Foste tu e
aquela bruxa da tua mulher e os malandros dos teus filhos!
Conheo-os a todos. So uma corja de ladres, no respeitam
sequer um compadre...~> Gritava como um possesso e de repente
tirou de cima da mesa uma das facas de Ignazio, agarrou
Vincenzo pelo pescoo e preparava-se para o agredir. Por
sorte. alguns refugiados saltaram-lhe rpidamente em cima: e,
enquanto quatro o seguravam pelos braos, ele lanava o peito
e a cabea para a frente, com espuma na boca, a gritar:
"Deixem-me, que eu mato-o, deixem me, que quero mat-lo!" Por
sua vez, as duas mulheres agitavam-se  janela e gritavam:
"Estamos desgraadas! Estamos desgraadas!" E a chuva caia sem
parar, encharcando todos.

Mas Michele, que estivera a observar a cena, podia dizer-se
quase com satisfao, como se sentisse prazer em que a irm
perdesse o enxoval e a me todos os haveres, aproximou-se
repentinamente de Vincenzo, que continuava a protestar: "No
fui eu que roubei! Foram os alemes, foram os fascistas, ns
no tivemos nada com isso!n, e, como se j soubesse, meteu-lhe
a mo no bolso do casaco e tirou de l uma caixinha,
pronunciando, mnito calmo: "Aqui est quem roubou. Foste tu...
Este anel pertence a minha irm."

E, dizendo isto, abria a caixinha e mostrava, de facto, um
pequeno anel com um brilhante que, como soube depois, fora
oferecido por Filippo  filha, no dia dos seus anos. Filippo,
mal viu o anel, deu um grande grito e, libertando-se com um
safano dos que o

1 1 9





retinham, atirou-se a Vincenzo de faca em punho. Mas o meeiro
foi mais lesto ainda e, safando-se por sua vez dos que o
cercavam, lanou-se pelo socalco abaixo. Filippo,
naturalmente, queria segui -lo, mas compreendeu que de nada
lhe servia: era baixo e barrigudo e o meeiro magro e alto, com
pernas de avestruz. Ento apanhou uma pedra do cho e
atirou-lha, berrando: "Ladro, ladro!" Ele no correu, mas
correram outros, no parque se importassem com as coisas de
Filippo, mas sim porque, quando h uma rixa, todos aquecem e
querem fazer o gosto s mos. Assim, vi dois ou trs rapazes
correrem de socalco em socalco, quase voando atrs do velho,
que corria como uma lebre. Alcanaram-no, por fim,
agarraram-no pelos braos e obrigaram no a subir novamente.
Filippo, que durante todo este tempo continuara a atirar
pedras suficientemente grandes para matar um homem, agora,
cansado e ansioso, esperava na beira do socalco que Ihe
trouxessem o meeiro; tinha na mo a faca de Ignazio, ainda
vermelha do sangue da cabra. Ento Michele aproximou-se do pai
e disse-lhe calmamente: "Aconselho-te a ir para casa."

"Mas eu mato-o!"

"Vai para casa.~>

"Eu quero mat-lo, tenho de o matar!"

"D-me a faca e vai para casa."

Com grande pasmo meu, vi Filippo aquietar se diante do filho
muito calmo: pousou a faca em cima da mesa e encaminhou-se
para casa, donde agora saam gritos e gemidos como de um
purgatrio. Assim, no meio do socalco, apenas ficou, debaixo
da chuva que continuava a cair, a pobre cabra aberta ao meio,
suspensa nos dois paus.

Entretanto, Vincenzo e os rapazes que o perseguiram, chegaram
onde estvamos e os camponeses e os refugiados voltaram a
reunir-se em sua volta, perguntando-lhe o que tinha feito,
mais por curiosidade, como observei, do que com reprovao.
Vincenzo no se fez rogado: "Eu no queria>>, disse com aquela
voz de orco, "nenhum de ns queria... que diabo, somos
compadres... ele baptizou o meu filho, eu baptizei-lhe a
filha... o sangue no  gua, pois no? Teria preferido,
juro-o, cortar uma das mos a roub-lo... que eu morra j aqui
fulminado por um raio se isto no  verdade..."

"Acreditamos, Vincenzo, acreditamos... mas ento porque
roubaste?"

~Uma voz... ouvi uma voz dentro de mim, dias e dias, uma voz a
repetir: pega num martelo e deita abaixo a parede... pega num
martelo e deita abaixo a parede... Uma voz que no me deixava

sossegar de noite nem de dia."     I

120





"E assim, Vincenzo, pegaste por fim num martelo e deitaste
abaixo a parede... no  verdade?"

"Assim mesmo..

Todos os refugiados e camponeses deram uma grande gargalhada
e, depois de mais algumas perguntas, deixaram-no e voltaram
para junto de Ignazio e da cabra. Vincenzo, porm, no se foi
logo embora. Comeou a andar por ali, duma casa para outra,
duma cabana para outra, e em toda a parte pedia de beber e
repetia a histria da voz e fazia rir toda a gente; mas ele
no ria, quedava-se com ar apalermado, qual pssaro de mau
agoiro, e parecia no compreender sequer a razo por que ns
riamos. Por fim,  noite, foi-se embora, de rabo entre as
pernas, como se o roubado fosse ele, e no Filippo.

Michele, nessa noite, apareceu na cabana, onde eu estava a
assar as tripas da cabra, na companhia de Paride e da familia,
e disse 

I    guisa de comentrio: "O meu pai no  mau    Mas por
causa de

quatro lenis e alqum ouro, por pouco no matava um homem, ao
passo que todos ns, por uma ideia, nem somos capazes de matar
um frango..."

Paride proferiu devagar, fixando o fogo: "Michele, no sabes
que para os homens contam mais os haveres do que as ideias?
Olha, por exemplo, o padre: se em confisso lhe disseres que
roubaste, ele, quando mnito, ordena-te que, em penitncia,
rezes uma orao qualquer a S. Jos e, no fim, absolve-te.
Mas, se fores  casa paroquial e lhe roubares, sei l, um
talher de prata, vers como grita... Imediatamente, em vez de
te absolver, manda chamar o chefe dos carabineiros para te
prender... Se isto  assim com um padre, que  padre, pensa o
que no ser connosco, que no somos padres."

Foi s isto que aconteceu de notvel durante os dias de chuva.
O resto, apenas o costume: conversas sobre a guerra e o tempo,
o que fariamos quando os Ingleses chegassem, e principalmente
grandes sonos, doze e catorze horas sempre a dormir; de vez em
quando acordvamos e, depois de ouvir, por alguns momentos, a
chuva crepitar nas telhas e gorgolhar no algeroz, tornvamos a
dormir ainda mais profundamente, abraadas uma  outra,
naquele leito feito de tbn as desc onjuntadas e um sac o
cheio de palha de milho seca, que s vezes se abria debaixo de
ns e ameaava deixar-nos cair no cho. Para a famlia de
Filippo e, em geral, para todos os

I refugiados, a grande ocupao era uma s: comer. Pode
dizer-se que no faziam outra coisa seno banquetear-se de
manh at  noite, nadando em abundancia. Afirmavam que era
preciso comer, porque era a nica maneira de combater a
melancolia; diziam tambem que





o melhor era gastar as provises, pois com a chegada dos
Ingleses viria a abundancia, os preos baixavam e aquelas
coisas ningum mais as queria. Mas eu pensava comigo prpria:
"Confiar  bom, mas no confiar  ainda melhor." Estava
igualmente convencida de que os Ingleses viriam. Mas quando?
Bastava que por qualquer motivo se atrasassem um ms ou dois,
e todos morreramos de fome. Assim, enquanto os outros se
empanzinavam, eu, na nossa casinha, fazia racionamento.
Comamos uma nica vez por dia. por volta das sete horas: uma
panelinha cheia de feijes e um bocadinho de carne, as mais
das vezes de cabra, um pouco de po, sempre a mesma
quantidade, e alguns figos secos. s vezes fazia polenta,
outros dias, em lugar de feijes, era gro-de-bico ou ervilhas
e, em vez de cabra, vaca. De manh cortava para mim e para
Rosetta uma fatia de po e, com o po, comamos uma cebola
crua. Ou nem po comamos e roamos algumas alfarrobas, que
vulgarmente se do aos cavalos, mas que em tempo de carestia
servem at para os cristos. Rosetta queixava-se
frequentemente de que tinha fome; compreende-se, era jovem, e
eu ento aconselhava-a a dormir, porque, j se sabe, dormir 
como comer: consome-se pouco e acumulam-se foras. Em suma,
imitava os camponeses, que, ao contrrio dos refugiados, eram
prudentes, ou, antes, avaros, e dir-se-iam que pesavam a
comida numa balancinha de ourives.  verdade que eles estavam
habituados  escassez e sabiam por instinto que com os Alemes
ou os Ingleses nunca teriam o bastante para matar a fome, pois
Ihes faltava sempre o dinheiro e a colheita nunca chegava para
todo o ano. Assim, em certo sentido, sentia-me mais camponesa
do que refugiada e no podia deixar de experimentar at
antipatia pelos refugiados, a maior parte deles comerciantes
que tinham amealhado uns cobres  custa da pele dos outros e
esperavam, mal chegassem os Ingleses, voltar a amealhar mais
do mesmo modo. Qualquer um poder dizer que tambm eu era
comerciante;  verdade, mas nascera camponesa e agora, em
contacto com a terra e os camponeses, sentia-me outra vez tal
como nos tempos em que, ainda rapariga, abandonara a aldeia
para ir casar em Roma.

Assim se passaram uns quarenta dias; depois, l para os fins
de Dezembro, uma bela manh levantmo-nos como de costume e
vimos que durante a noite 0 vento mudara. O cu estava dum
azul-duro, luminoso, profundo, ainda avermelhado pela aurora,
com mnitas nuvenzinhas vermelhas e cinzentas afastando-se para
longe, as ltimas desses dias de chuva. L em baixo, para os
lados de Ponza, via-se brilhar o mar pela primeira vez depois
de tanto tempo, um mar azul-escuro, quase negro. A planura de
Fondi, sob 0 manto

122





-

de invernia, mais cinzenta do que verde, fumegava na nvoa da
manh, como no alvorecer dum belo dia de sol, seco e
esplendoroso. Dos montes soprava a tramontana, fria. cortante,
fazendo agitar e bater uns nos outros os ramos nus da rvore
que ficava perto do nosso casinhoto. A lama, quando sa,
estava dura, com crosta, rangia debaixo dos ps e brilhava
aqui e alm como se Ihe tivessem misturado estilhaos de
vidro: durante a noite gelara. Esta mudana de tempo deu novas
esperanas aos refugiados, que sairam todos das suas casas, na
manh gelada, e comearam a abraar-se em sinal de regozijo:
agora, com o bom tempo, os Ingleses fariam um grande avano e
acabavam todos os tormentos.

Os Ingleses chegaram, de facto, pontuais, mas no como os
esperavam os refugiados. Nessa primeira manh de bom tempo, ai
por volta das onze horas, quando estvamos no socalco a
apanhar sol, como lagartixas friorentas, ouvimos
repentinamente um fragor longnquo que,  medida que se
aproximava, se ia tornando cada vez mais amplo e majestoso e
parecia encher todo o cu. Os refugiados, passado um momento
de incerteza, compreenderam e, tal como eles, eu compreendi
tambm, pois ouvira aquele mesmo fragor muitas vezes em Roma,
tanto de noite como de dia: "Os Ingleses, os avies, a esto
os avies ingleses..."

E, de facto, por trs duma montanha, no cu luminoso e limpo,
apareceu o primeiro grupo de quatro avies. Eram brancos e
lindos, cintilavam ao sol, pareciam, l em cima, no cu,
aquelas jias de filigrana de prata que se fazem em Veneza.
Logo a seguir apareceram outros quatro, e depois mais quatro,
doze ao todo. Voavam muito certos, como se os ligasse um fio
invisvel, e, garanto, embora o seu fragor enchesse o cu e me
fizesse recordar muitas horas ms vividas em Roma, tambm me
exaltei ao ouvi-lo, porque nele me parecia sentir uma voz
terrivel, mas boa para ns, Italianos, a intimar os fascistas
e os Alemes a irem-se embora. Assim, foi de corao em
expectativa e cheio de esperana que os vi dirigirem-se, muito
confiantes, para a cidade de Fondi, l ao longe, no vale,
mancha de casinhas brancas cercada pelo verde-escuro dos
laranjais. E depois o cu, em redor dos avies, comeou a
salpicar-se de pequenos farrapos brancos e logo se ouviu o
estrondear seco e apressado da artilharia antiarea. Eram no
sei quantos canhes que disparavam de todos os lados, l em
baixo, no vale. Os refugiados gritavam: "Disparem para a,
desgraados, que disparam em vo... agarram-nos amanh... sim,
disparem, disparem, que no Ihes fazem mossa." Efectivamente,
aquele canhoneio no parecia preocupar os avies, que
entretanto continuavam a avanar no cu. Depois, uma exploso
maior e mais funda, e vimos uma nuvem





branca, no j no cu, mas em terra, no meio das casas e
jardins de Fondi. Os avies tinham principiado a despejar as
suas bombas.

O que se passou apbs essa primeira exploso, record-lo-ei
durante muito tempo, quando mais no seja, por ter visto tanta
gente passar da alegria  dor em poucos minutos. As bombas
agora caam umas a seguir s outras, dentro da cidade, sobre a
qual as nuvens brancas das exploses se multiplicavam a olhos
vistos.

E todos aqueles refugiados, antes to contentes, comearam a
gritar l em cima, chorando e lamentando-se em altos gritos,
como a f~lha e a mulher de Filippo quando Vincenzo anunciou
que os alemes Ihes tinham roubado o enzoval. Todos gritavam,
correndo dum lado para outro e agitando os braos como se
quisessem deter os avies: "A minha casa, a minha casa,
assassinos! Destroem-nos as casas, pobres de ns, as nossas
casas!..." E entretanto as bombas continuavam a cair como
frutos maduros duma rvore que se abana e a artilharia
antiarea continuava a disparar, insistente e raivosa, com um
barulho de ensurdecer, e no s6 enchia o cu, como parecia
tambm fazer tremer a terra. Os avies foram at ao fundo do
vale, para os lados do mar, e l longe, onde o mar cintilava
ao sol, viraram e voltaram para trs e deitaram mais bombas,
enquanto os refugiados, que por instantes se calaram, julgando
que eles se tinham ido embora, recomearam a gritar e a chorar
mais forte do que a primeira vez. Mas, quando a esquadrilha,
inflexvel e segura, se afastava j na direco donde viera,
eis que o segundo avio do ltimo grupo lana uma grande chama
vermelha, semelhante a uma charpa ondulando no cu azul. A
antiarea ferira-o de morte e o avio ficava para trs dos
outros e aquela charpa de fogo ondulava em volta da pequena
mquina branca, cada vez maior e mais vermelha. Os refugiados
agora gritavam: "Bravo, alemes, deitem abaixo esses
assassinos, deitem-nos abaixo!" Rosetta exclamou, de sbito:
"Olha, mam, que lindo, os pra-quedistas!" E, de facto,
enquanto o avio ferido se afastava em chamas em direco ao
mar, vi abrirem-se no cu, um apbs outro, os grandes
guarda-chuvas brancos dos pra-quedas, e cada um deles trazia
uma coisinha preta pendurada em baixo e que se movia ao sabor
do vento: um aviador. Abriram-se sete ou oito pra-quedas, que
desciam lentamente; a antiarea j no disparava; 0 ano
atingido, cambaleando e baixando, desaparecera por trs duma
colina; em seguida ouviu-se uma exploso fortssima e, depois,
mais nada. Agora havia de novo silncio; distinguia-se apenas
um eco metlico na lonjura, para os lados onde tinha
desaparecido a esquadrilha; e l em cima no se ouviam seno
os choros e os gritos dos refugiados; os pra-quedistas
prateados continuavam a descer lentamente e todo o vale de
Fondi

124

.
! ~ ,',
     




-

estava envolto num fumo cinzento, aqui e alm avermelhado
pelas chamas dos incndios.

Foi assim que chegaram os Ingleses, mas para destruir as casas
dos refugiados. Tambm nessa ocasio se manifestou a estranha
dureza de Michele, duma forma que eu no esperara. Na mesma
noite, quando falvamos, na cabana, dos bombardeamentos,
proferiu de repente: "Sabes o que diziam esses refugiados que
choram agora as suas casas destrudas, quando os jornais
anunciavam que os nossos tinham covenar~zado qualquer cidade
inimiga? Pois bem, diziam, que os ouvi eu com os meus ouvidos:
'Se os bombardeiam,  porque o merecem.'" Eu perguntei-lhe:
"Mas no te faz pena que todos esses pobres fiquem sem as suas
casas e sejam obrigados a andar de terra em terra, sem nada,
como ciganos?" E ele: "Sim, faz-me pena, como me fez pena os
outros que perderam as suas casas antes deles. Afirmo-te,
Cesira, hoje a mim, amanh a ti... Aplaudiram quando eram
bombardeadas as casas dos Ingleses, Franceses, Russos; agora
chegou tambm a sua vez... No ser isto justo? Tu, Rosetta,
que crs em Deus, no vs nisto o dedo da providncia divina?"
Rosetta no disse nada, como de costume quando ele falava de
religio; e a conversa ficou por ali.

Depois daquele primeiro bombardeamento, os refugiados
precipitaram-se para o vale, a ver o que sucedera s suas
casas; quase todos voltaram com a boa noticia de que a maior
parte delas se tinha salvo e que, no fim de contas, as ruinas
no eram to terrveis como se receara  primeira vista.
Havia,  verdade, alguns mortos: um velho mendigo que dormia
numa casa semiarruinada da periferia e, parece impossvel,
aquele fascista chamado Scimmiozzo, que nos ameaara com a
espingarda quando morvamos em casa de Concetta. Scimmiozzo
morreu como tinha vivido: nessa manh, aproveitando o bom
tempo, fora a Fondi e arrombara a porta duma retrosaria. Uma
bomba fizera ruir a casa e ele ficou l debaixo.
Encontraram-no no meio de fitas e botes, com o roubo nas mos
ainda fechadas. Ao saber isto, disse a Rosetta: "Enquanto
morrer gente desta espcie, abenoada seja a guerra." Mas ela
surpreendeu-me, mostrando-me os olhos cheios de lgrimas e
dizendo: "No digas isso, mam... era tambm um pobre
homem..." E  noite quis rezar uma orao por sua alma, embora
ele tivesse a alma mais negra do que a camisa negra que vestia
quando a bomba o levou desta para melhor.

Esquecia-me de dizer que naqueles dias houve outra morte: a de
Tommasino. Sei bem como e porque morreu, pois estava ao p
dele quando sucedeu o que Ihe provocou a morte. Tommasino,
apesar da chuva, do frio e da lama, continuava sempre com o
seu comrcio.





Comprava aos camponeses, aos alemes, aos fascistas e vendia
aos refugiados. Os gneros eram agora poucos, mas ele l
arranjava sal, tabaco, laranjas, ovos. Tinha aumentado os
preos, naturalmente, e suponho que ganhava bastante dinheiro.
Andava todo o dia no vale, dum lado para outro, indiferente ao
perigo, no porque fosse corajoso, mas porque queria mais ao
dinheiro do que  prpria pele; sempre com a barba por fazer,
as calas arregaadas e rotas, os sapatos cheios de lama,
parecia mesmo o Judeu Errante. Alojara a familia, h tempos,
em casa duns camponeses que viviam ainda mais acima do que
Paride; a quem Ihe perguntava porque no ia para junto da
familia respondia: "Tenho o negcio, quero fazer neg6cio at o
ltimo momento." Referia-se at o ltimo momento da guerra;
mal sabia ele que faria neg6cio, sim, mas at o ltimo momento
da vida.

Resumindo, um dia juntei oito ovos num cestinho e desci ao
vale com Rosetta, na inteno de os trocar por um po militar
aos alemes que acampavam nos laranjais. Por acaso, Tommasino
estava em Santa Eufmia, em visita de neg6cios, e ofereceu-se
para nos acompanhar. Descemos no quinto dia de bom tempo, ap6s
aquele primeiro bombardeamento. Tommasino, como de costume, ia
adiante, caminhando por cima das pedras e dos buracos do
carreiro, sem uma palavra, absorto nos seus clculos, e n6s
seguamo-lo, tambm sem falar. O atalho descia em ziguezague
pelo flanco do monte da esquerda, mas a certa altura, ao p
dum despenhadeiro que nos barrava o passo, corria por um
planalto e depois continuava a descer no monte da direita.
Este planalto era um lugar estranho: havia muitas rochas nuas
e direitas, duma forma curiosa, semelhantes a pes de acar,
cinzentas como a pele dos elefantes, todas furadas por grutas
e grutazinhas, e entre essas rochas cresciam muitas
figueiras-da-ndia, com as suas folhas verdes e carnudas, que
pareciam outras tantas faces inchadas e cheias de espinhos. O
carreiro serpenteava por entre as figueiras-da-ndia e as
rochas, ao longo dum riachozinho que era mesmo uma beleza ver,
a gua clara como cristal a correr num leito de musgo verde.
Ora, quando chegmos ao planalto, Tommasino precedia-nos a
uns trinta metros, ouvimos 0 fragor duma esquadrilha de
avies. No fizemos caso: agora isso tinha-se tornado vulgar e
a maior parte das vezes dirigiam-se s linhas da frente;
podia-se estar seguro de que no bombardeavam a montanha, pois
no valia a pena gastar bombas, que custavam bom dinheiro, nas
pedras e socalcos. Limitei-me por isso a dizer a Rosetta,
tranquilamente: "Olha, os avies." Via, no cu luminoso, a
esquadrilha branca como prata, ordenada em trs filas, e, 
frente, um avio que parecia servir de guia. De

126
     




-

pois, enquanto olhava, vi uma bandeirinha vermelha sair do
avio da frente e, no sei como, lembrei-me que Michele me
dissera ser aquele o sinal do lanamento das bombas. Mal tive
tempo de pensar isto, e j as bombas comeavam a chover, ou,
melhor, ns no vimos as bombas, to rpidas caram, mas
sentimos quase imediatamente uma exploso violentssima e
muito prbxima, enquanto todo o terreno em volta bailava, como
se houvesse um terramoto. Na realidade, no era o terreno que
bailava, mas uma quantidade enorme de pedras arrancadas do
cho e, sobretudo, como me apercebi depois, pedaos de ferro
aguados e torcidos, cada um do comprimento, pelo menos, do
meu dedo mindinho: se um s6 nos tivesse entrado no corpo,
morriamos logo ali. Em volta de nds, entretanto, levantara-se
uma poeirada acre que nos fazia tossir, e no meio dessa nuvem
espessa de p, que no me deixava ver nada, possuda dum medo
terrivel, eu chamava por Rosetta. A poeirada dissipou-se um
pouco, no cho havia uma grande quantidade daqueles pedaos de
ferro e todo um massacre de folhas de figueira-da-ndia,
arrancadas e despedaadas; ouvi ento a voz de Rosetta: "Estou
aqui, mam!" Nunca acreditei em milagres, mas, confesso, ao
ver todos aqueles pedaos de ferro que tinham danado em volta
de nds, no momento da exploso, pensei, enquanto abraava,
feliz, a minha Rosetta s e salva, que era mesmo um milagre
no estarmos as duas mortas. Abracei-a, beijei-a, toquei-lhe
na cara e no corpo, quase no acreditando que ela estivesse
intacta; depois procurei Tommasino, que, como disse, nos
precedia uns trinta metros. No o vi, nem perto nem longe, no
planalto semeado de folhas de figueira-da-ndia partidas e
desfeitas; mas ouvi a sua voz a lamentar-se, no sei onde:
`<Meu Deus, Nossa Senhora, meu Deus, Nossa Senhora...~ Pensei
que estivesse ferido e senti mesmo remorsos da minha alegria
por encontrar Rosetta s e salva; ele no era nada simptico,
mas, no fim de contas, era um cristo e tinha-nos ajudado,
embora por interesse. Esperava encontr-lo estendido por
terra, banhado em sangue, e dirigi-me para o lugar donde me
parecia vir a sua voz. Era uma grutazinha pouco profunda,
quase uma pequena cavidade na rocha, onde ele se encolhera
todo como um caracol dentro da casca, a cabea entre as mos e
a lamentar-se, gemendo. Vi logo, porm, que no tinha sequer
um arranho, tudo aquilo era s6 medo. Disse-Ihe: "Tommasino,
j passou... que fazes ai nesse buraco? Podemos agradecer a
Deus, por estarmos salvos.~' Ele no respondeu e tornou a
mugir: "Meu Deus, Nossa Senhora...~ Insisti, surpreendida:
"Tommasino, mexe-te, vamos para baixo, seno faz-se tarde." E
ele: "No saio daqui." E eu: "Mas o qu, queres ficar aqui?" E
ele: "No





vou para baixo... vou para o cimo do monte, o mais alto que
puder, e meto-me numa gruta funda, debaixo da terra, e no me
mexo mais... para mim, acabou..." "Mas, Tommasino, e o
negcio?" "Que o leve o Diabo!" Ao ouvi-lo mandar para o Diabo
o neg6cio, pelo qual at ento desafiara tantos perigos,
compreendi que falava a srio e era intB insistir. Disse-lhe
todavia: "Mas ao menos acompanha-nos hoje l abaixo... podes
estar certo de que os avies no voltam." Respondeu-me: "Vo
vocs... eu no saio daqui." E todo ele tremia, enquanto se
encomendava a Nossa Senhora. Ento, despedi-me e segui pelo
carreiro, em direco ao vale.

Quando chegmos ao vale, encontrmos  beira dos laranjais um
carro de assalto alemo todo coberto com ramos de laranjeira e
uma tenda mimetizada, ou seja, pintada de azul, verde e
castanho, e seis ou sete alemes que cozinhavam, enquanto
outro, sentado debaixo duma rvore, tocava acordeo. Eram
todos jovens, de cabeas rapadas e faces plidas, inchadas e
cobertas de arranhes e cicatrizes: tinham estado na Rssia
antes de vir para Fondi e l, como nos disseram, a guerra era
cem vezes pior do que na Itlia. Eu conhecia-os, pois j
fizera aquela troca do po pelos ovos uma outra vez. De longe,
levantei ao alto, mostrando-o, o cestinho dos ovos; o do
acordeo parou logo de tocar, foi  tenda e saiu com um po de
forma, de um quilo de peso. Aproximmo-nos e ele, sem nos
olhar de frente, segurando bem o po como se tivesse medo que
Iho roubssemos, tirou as folhas que cobriam os ovos e
contou-os em alemo de um at oito. No contente com isso,
pegou num e levou-o ao ouvido, abanando-o para ver se era
fresco. Disse-lhe ento: "So frescos, est descansado, no
tenhas medo: arriscmos a vida para os trazer c abaixo, hoje
devias dar-nos dois pes em vez de um." Ele no compreendeu e
fez uma cara interrogativa; eu ento indiquei-lhe o cu e
depois fiz um gesto como para aludir  queda das bombas,
proferindo: "Bum! Bum!", a imitar a exploso. Ele compreendeu
finalmente e disse uma frase em que entrava a palavra kaputt,
que eles dizem a toda a hora e que, como me explicou um dia
Michele, significa em italiano qualquer coisa como "morto,
assassinado". Percebi que falava do avio abatido e repliquei:
"Por um que abatem, vem um cento... se fosse a vocs acabava
com a guerra e voltava para a Alemanha... era melhor para
todos, para vocs e para ns." Ele desta vez no disse nada
porque novamente no compreendeu, mas entregou-me o po e
pegou nos ovos com um gesto como a dizer: "Volta e tornaremos
a fazer a troca." E assim nos despedimos e regressmos, pelo
carreiro, a S anta Eufmia.

Tommasino, nesse mesmo dia. escapou-se mais para cima, para a
localidade a seguir a Santa Eufmia, onde tinha a familia. Na

128





-

manh seguinte mandou um campons com duas mulas buscar  sua
casa do vale tudo quanto l tinha, incluindo camas e colches.
Mas a casa em que se encontrava com a famlia no Ihe pareceu
bastante segura e, alguns dias depois, mudou-se com a mulher e
os filhos para uma gruta mesmo no cimo do monte. Era uma gruta
espaosa e profunda, cuja entrada no se podia ver de fora,
pois estava encoberta por rvores e silvas. Por cima dessa
gruta erguia-se uma rocha enorme, cinzenta, muito alta, em
forma de po de acar, que se via bem do fundo do vale, to
grande ela era. O tecto, portanto, devia ter uma espessura de
algumas dezenas de metros de pedra macia. Ele meteu-se com a
famlia nessa gruta, que em tempos idos servira de refgio aos
salteadores, e era natural que se sentisse ento em segurana
contra as bombas e que o medo lhe passasse. Mas no, apanhou
tal medo que, por assim dizer, Ihe entrou no sangue como uma
febre e, mesmo na gruta e com a rocha a proteg-lo, no fazia
outra coisa seno tremer todo o dia. dos ps  cabea, apoiado
ora aqui ora ali, mnito enrolado num cobertor. E repetia
constantemente: "Estou mal, estou mal...", numa voz fraca e
lamentosa; no comia e no dormia, definhava a olhos vistos,
apagando-se como uma vela, todos os dias um pouco mais.
Visitei-o uma vez e encontrei-o to magro e abatido que at
metia d, a tremer, apoiado  entrada da gruta, todo
embrulhado num cobertor. Lembro-me que, no notando que ele
estivesse doente mesmo a srio, trocei um pouco, dizendo-lhe:
"Mas, Tommasino, de que tens medo? Esta gruta   prova de
bombas. De que tens medo ento? De que as bombas andem pelo
bosque como serpentes e acabem por entrar aqui para virem ter
contigo  cama?" Ele olhava para mim como se no compreendesse
e s6 repetia: "Estou mal, estou mal..." Passados alguns dias
soubemos que tinha morrido. Morreu de medo, porque no tinha
feridas nem qualquer doenc,a: s6 o susto das bombas. No fui
ao funeral, pois ficaria triste, e tristezas j havia muitas.
S o acompanharam os parentes, entre eles Filippo e a famlia;
o morto no foi metido num caixo porque no havia tbuas nem
carpinteiros, mas ataram-no a dois ramos de rvore, e o
coveiro, um grandalhao louro que tambm era refugiado e fazia
um pouco de mercado negro nas montanhas, prendeu Tommasino 
sela do seu cavalo e l foi, pelo carreiro abaixo, para o
cemitrio. Disseram-me depois que no conseguiram encontrar
nenhum padre, pois tinham fugido todos, e o pobre teve de se
contentar com as oraes dos parentes; que o funeral foi
interrompido trs vezes por causa dos alarmes areos; que em
cima da cova,  falta de melhor, puseram uma cruz feita com
duas tbuas arrancadas duma caixa de munies. Em seguida
soube que Tommasino deixara  mulher





algum dinheiro, mas nenhumas provises: sempre a negociar,
vendera tudo, at o ltimo quilo de farinha e os ltimos
gramas de sal, e a vinva foi obrigada a comprar depois pelo
dobro o que o marido vendera por metade e creio que, no fim da
guerra, de todo o dinheiro que Tommasino lhe deixou, j no
tinha quase nada, por causa da desvalorizac,o da moeda.
Querem saber o Jue disse Michele a respeito da morte do tio?
"Tenho pena dele porque era bom homem. Mas morreu, nomo podem
morrer tantos outros iguais a ele que passam a vida a correr
atrs do dinheiro, imaginando que no h mais nada no mundo
alm do dinheiro; depois, um dia. imprevistamente, ficam
gelados de medo ao ver o que est por trs do dinheiro..."

130





-

CAPfTULo VI

O bom tempo, alm das bombas dos Ingleses, trouxe um outro
flagelo: os recrutamentos dos Alemes. O Tonto tinha-os
anunciado, mas, no fundo, ningum acreditara, e agora alguns
camponeses fugidos na montanha inform avam- nos que no vale os
alem es tinham feito uma rusga, prendendo todos os homens
aptos para o trabalho, metendo-os em camies e mandando-os no
se sabia para onde, uns diziam que para as fortificaes da
frente de batalha, outros afirmavam que para a Alemanha.
Depois veio outra m notcia: de noite os alemes cercaram um
vale prximo do nosso, subiram ao cimo do monte e em seguida
desceram, espalhando-se pelas encostas e apanhando na sua
rede, como peixes, todos os homens, os quais expediram logo em
camies para longe dali. Os refugiados ficaram imediatamente
cheios de medo, pois havia entre eles pelo menos quatro ou
cinco rapazes que, no momento da queda do fascismo, estavam na
tropa e tinham desertado, e eram mesmo esses rapazes que os
alemes procuravam, porque os consideravam traidores e queriam
fazer-lhes pagar a traio, obrigando-os a trabalhar como
escravos, quem sabe onde e em que condies. Os mais astutos
eram os pais, e mais do que todos Filippo, por causa de
Michele, que o estava sempre a contrariar, mas em quem tinha
muito orgulho. Em resumo, fez-se uma reunio em casa de
Filippo e ficou decidido que nos prximos dias, enquanto
houvesse o perigo dos recrutamentos, todos os rapazes subiriam
de madrugada a montanha, cada um para seu lado, descendo s6 ao
pr do Sol. L no alto, embora os alemes pudessem l ir
tambm, havia muitos atalhos que conduziam a outros vales ou a
outras montanhas e no fim de contas os alemes eram homens
como os outros e decerto perderiam a coragem ao ver que tinham
de andar quilmetros e quildmetros, por montes e vales, s
para apanharem um homem ou dois. Michele, para dizer a
verdade, no queria fugir como os outros, no por bazfia, mas
porque nunca gostava de fazer o mesmo que todos faziam. Mas a
me tanto lhe pediu e suplicou que ele por fim cedeu.

Rosetta e eu decidimos ir com ele, no porque tivssemos medo,
no prendiam as mulheres, mas para fazermos qualquer coisa,
pois no socalco morramos de tdio, e tambm para estarmos ao
p de

131





Michele, que era a nica pessoa l em cima a quem nos tnhamos
afeisoado. Assim comeou para ns uma vida estranha de que me
lemhrarei enquanto viver.

Noite ainda, Paride, que se levantava sempre antes do romper
da aurora, vinha bater  nossa porta; vestamo-nos  pressa,
alumiados pela luz fraca duma lamparina de azeite. Saamos
para o frio, no escuro, com muitas sombras a correrem para
cima e para baixo pelo socalco fora e as janelas das casitas a
iluminarem-se uma apbs outra. Por fim encontrvamos Michele,
pequenino, todo enroupado em camisolas e camisoloes, com um
pau na mo, parecia mesmo um ano das fbulas, dos que vivem
nas cavernas de guarda aos tesouros. Sem trocarmos uma
palavra, l seguamos atrs dele pela montanha acima.

Comevamos a subir no escuro, atravs de mato denso e alto,
que nos chegava at ao peito, pelo carreiro incrustado de
gelo. Nao se via nada, mas Michele tinha uma lmpada de bolso
e, gracas a esse foco de luz, podamos ver o caminho; e
andvamos, andvamos, sem falar. Entretanto, enquanto
subamos, o cu comeava a clarear por trs das montanhas,
tornando-se lentamente dum cinzento sujo, mas ainda com muitas
estrelas a brilharem uma ltima vez antes de romper o dia. As
montanhas desenhavam-se, negras, sobre esse fundo mais claro e
pontilhado de estrelas; depois tambm elas aclaravam,
revelando a sua cor verde, aqui e alm manchada do escuro do
mato e dos bosques. Agora j no havia estrelas e o cu era
dum cinzento quase branco e todo o mato surgia aos nossos
olhos, seco, gelado pelo inverno, mortificado, silencioso e
ainda adormecido. Mas o cu tornava-se gradualmente rosa no
horizonte e azul por cima das nossas cabeas e com os
primeiros raios do Sol que despontavam atrs dum dos montes,
agudos e cintilantes quais flechas de ouro, todas as cores
apareciam, o vermelho-vivo dalguns troncos, o verde-brilhante
do musgo, o branco-creme dos penachos das canas, o
negro-lustroso dos ramos apodrecidos. A seguir deixvamos o
matagal para caminharmos num bosque de carvalhos que cingia a
serra at l muito em cima. Eram carvalhos enormes, espalhados
pela encosta, a boa distncia uns dos outros, que tinham
crescido sem se tocarem e aqui e alm estendiam os seus ramos
como braos, quase como se quisessem dar-se as mos para se
ajudarem e no carem devido  fora do vento ou ao declive.
Torcidos e espaados, formavam um bosque esparso, permitindo
que o olhar abrangesse a encosta cheia de calhaus brancos, at
0 cume recortado no cu azul. 0 atalho era quase plano no meio
do bosque, 0 sol acordava os pssaros empoleirados nos ramos,
que se ouviam esvoaar e pipilar em

132





-

grande nmero, embora no se vissem. Michele ia  frente de
ns, parecia feliz no sei porqu; andava com desembarao,
fazendo girar o ramo de rvore que Ihe servia de bordo e
assobiando uma riazinha que parecia uma marcha militar.
Subamos um bocado e os carvalhos tornavam-se cada vez mais
raros, mais pequenos e mais torcidos; por fim cessavam de
todo, ficando s o carreiro ngreme por entre pedras duma
brancura que cegava; um pouco mais acima, atingamos o cume do
monte, ou, melhor, a passagem entre dois cumes para onde nos
dirigamos. Chegados l, encontrvamo-nos num planalto que era
mesmo uma surpresa, depois de tantas pedras, todo atapetado de
erva macia e muito verde, entre a qual, aqui e alm, se
erguiam, como corcovas, rochas brancas e redondas. No meio
desse prado cor de esmeralda havia um velho poo defendido por
um parapeito de pedras soltas. Do planalto gozava-se um
panorama soberbo, e at eu, pouco dada a entusiasmar-me com as
belezas naturais, talvez porque nasci na montanha e as conheo
bem, garanto que fiquei de boca aberta e cheia de admirao a
primeira vez que o contemplei. Dum lado os olhos desciam pela
encosta majestosa, toda em socalcos, semelhante a uma
escadaria imensa, at o vale e, mais longe ainda, at a risca
azul e cintilante do mar; do outro no se viam seno montanhas
e mais montanhas, as da Ciociaria, algumas salpicadas de neve
ou

|    completamente brancas, outras calcinadas e cinzentas. L
em cima

fazia frio, mas no mnito, porque havia um sol puro e lmpido
e se
estava bem ao sol e no havia vento, pelo menos durante todo o
tempo em que para l fomos, cerca de duas semanas.

Tnhamos de passar l o dia inteiro: estendamos um cobertor
sobre a erva e deitvamo-nos em cima dele. Repousvamos assim
algum tempo e, quando sentamos vontade de nos mover,
girvamos por aqui ou por ali. Michele e Rosetta afastavam-se,
colhendo flores ou simplesmente conversando, ou, melhor, ele
falando e ela ouvindo; mas eu, a maior parte das vezes, no os
acompanhava e ficava no planalto. Agradava-me estar szinha;
em Roma podia faz-lo quando queria, mas em Santa Eufmia era
impossvel, porque de noite dormia com Rosetta e durante o dia
havia refugiados em toda a parte. Estar s dava-me a iluso
duma paragem na vida, durante a qual podia olhar em volta; na
realidade, o tempo passava, mas eu no dava por ele como
quando estava acompanhada. Havia l em cima um grande
silncio; dum valezito logo abaixo chegava s vezes o som dos
chocalhos dum rebanho, mas era o nico rudo e por vezes nem
parecia um verdadeiro ruido, no chegava a perturbar,
dir-se-ia antes um rumor que tornava mais calmo o lugar e mais
profundo o silncio. Agradava-me ir de





ora em quando ao p do poo, aproximar-me do bocal e olhar
para baixo, muito tempo. Era bastante fundo, ou pelo menos
assim parecia, pois a gua mal se entrevia. As avencas to
lindas, com os seus pzinhos negros como bano e folhas verdes
e finas que nem plumas, despontavam densas por entre as pedras
e reflectiam-se na gua escura. Debruava-me, olhava o fundo
longamente e lembrava-me de que, em criana, mirar-me nos
poos me inspirava ao mesmo tempo medo e atraco; imaginava
que os poos comunicavam com um mundo subterrneo povoado de
fadas e anes e quase sentia vontade de me deixar cair para
esse mundo e abandonar o meu... Olhava para baixo enquanto os
olhos no se habituavam quela obscuridade e no via
distintamente a minha cara reflectida na gua; ento, agarrava
uma pedra e deixava-a cair no meio da cara e via-a
despedaar-se no tremor dos circulos que a queda da pedra
provocava. Alm de olhar para dentro do poo, agradava-me
tambm passear por entre aquelas rochas brancas e redondas,
to estranhas, que se elevavam aqui e alm no meio da erva
verde. Nestes passeios parecia-me igualmente voltar a ser
criana: quase tinha a esperana de encontrar no meio dessa
erva coisas preciosas, talvez porque a prpria erva, to
verde, me parecia ali uma coisa preciosa, ou talvez tambm
porque em lugares como aquele, segundo os contos que ouvira em
criana, podia estar enterrado um tesouro. Mas ali s havia
erva, que no vale nada e se d aos animais. Uma vez encontrei
um trevo de quatro folhas e ofereci-o a Michele e ele, mais
para me agradar do que por superstio, guardou-o na carteira.
O tempo passava assim lentamente; o Sol subia no cu e
tornava-se escaldante, tanto que algumas vezes abria a blusa e
me estendia no cho, para me queimar como se estivesse na
praia.  hora do almoo, Michele e Rosetta voltavam do seu
passeio, e ento comiamos, sentados na erva, um bocado de po
com queijo. Comi antes e depois muitas coisas boas, mas aquele
po escuro e duro, misturado com farinha de milho, e aquele
queijo de ovelha to rijo que era preciso um martelo para o
partir parecem-me, ao lembr-los, o melhor que comi na vida.
Talvez o seu condimento fosse o apetite que a caminhada e 0 ar
da montanha nos provocavam; talvez a ideia do perigo
constituisse tambm um molho raro; o certo porm  que comia
com um prazer estranho, como se me apercebesse pela primeira
vez na vida de que a comida, alm de nos servir simplesmente
para viver e recuperar as foras, nos pode proporcionar tambm
prazer. E devo acrescentar a propsito que l em cima, em
Santa Eufmia, me sucedeu o mesmo pela primeira vez com mnitas
outras coisas que so,  estranho diz-lo, as mais simples,
por assim dizer, e que

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habitualmente se fazem mecnicamente, sem se pensar nelas. O
sono, que nunca antes me tinha parecido um apetite, cuja
satisfao desse prazer e repouso; a limpeza do corpo, que,
como era dificil, se no impossvel, parecia l uma coisa
quase voluptuosa; em suma, tudo quanto diz respeito ao OlSico,
a que na cidade se dedica pouco tempo e quase sem se dar por
isso. Penso que, se estivesse l em cima um homem que me
agradasse, tambm o amor teria para mim um sabor novo, mais
profundo e mais forte. Era, em suma, como se me tivesse
tornado um animal, pois imagino que os animais, no tendo que
pensar seno no pr6prio corpo, devem experimentar os
sentimentos que eu experimentava ento, obrigada pelas
circunstancias a ser smente um corpo que se alimentava,
dormia se arranjava e procurava o maior bem-estar possvel.

O Sol dava a volta ao cu, lentamente, descendo para o lado do
mar. Quando o mar comeava a ficar mais escuro e a
avermelhar-se com os raios do poente, inicivamos a descida
para casa, no j pelo carreiro, mas a correr pela encosta,
sem querer saber do atalho, escorregando nas ervas e nas
pedras. Assim, o caminho que de madrugada percorrramos em
duas horas,  volta no levava mais de meia hora. Chegvamos
na altura da ceia, cobertos de p, as vestes cheias de folhas
e espinhos, e amos logo para a cabana cear. Deitvamo-nos
cedo e de madrugada estvamos de novo a p.

Nem sempre, porm, l em cima, no planalto, tudo estava calmo
e distante da guerra. No me refiro aos avides que
frequentemente passavam sobre as nossas cabeas, isolados ou
em esquadrilha, nem s explosbes cujo rumor nos chegava do
vale, enfraquecido pela distncia, e que indicavam que esses
safados dos alemes continuavam a destruir os diques,
espalhando a gua e a malria por toda a parte; falo, sim, dos
encontros que de vez em quando tinhamos e que tornavam para
ns a guerra sempre presente. E isto porque aquela passagem
to solitria era o caminho quas~ obrigatrio de todos
quantos, atravs das montanhas, trilhando sempre os cumes
altos e evitando os vales, desciam de Roma e da alta Itlia,
ocupadas pelos Alemes, para a Itlia meridional, onde se
encontravam os Ingleses. Eram, na maioria, soldados em fuga,
ou gente pobre que queria voltar  sua aldeia, donde a guerra
a expulsara, ou ainda prisioneiros fugidos de qualquer campo
de concentrao.

Lembro-me mnitssimo bem de um desses encontros. Estvamos a
comer, como de costume, po e queijo, e eis que apareceram, de
repente, por trs dumas rochas, dois homens armados de
varapaus, com tal aspecto que por pouco no os tomava por
selvagens. Vinham rotos e esfarrapados, mas no foi isso que
me meteu medo, porque

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de farrapos andava toda a gente vestida l em cima; mas os
seus ombros, duma largura nunca vista, e os seus rostos,
completamente diferentes dos dos Italianos, fizeram-me tanta
impresso que nem sequer pude mexer-me ao v-los aproximar-se,
e ali fiquei, sentada, paralisada de medo, com o po e o
queijo suspensos no ar. Michele, que no tinha medo de nada
nem de ningum, no s6 por coragem, mas porque confiava em
todos, aproximou-se dos dois homens e comeou a falar com eles
por gestos. Tommos nimo e tambm n6s as duas nos
aproximmos. As caras de ambos eram amarelas e achatadas, sem
barba, com umas rugas compridas na pele lisa ao longo das
faces; tinham cabelos negros e espessos, olhos pequenos,
repuxados para cima nos angulos, ao lado das tmporas: narizes
esmagados e bocas de mortos cheias de dentes aguados e
escuros. Michele disse-nos que eram dois pusioneiros russos,
mas de raa mongol, como quem diz chinesa; em sua opinio,
tinham fugido de qualquer campo de concentrao alemo onde
estavam prisioneiros. Eu no me cansava de olhar para os seus
ombros muito largos, pensando que talvez tivesse sido uma
imprudncia no nos termos escondido ou fugido: aqueles dois
homens eram to fortes que, se saltassem em cima de mim ou de
Rosetta, decerto no poderamos escapar. Mas os dois mongdis
comportaram-se como gente boa: sempre a falar por gestos,
ficaram connosco uma hora ou pouco mais, 0 tempo de
descansarem. Michele ofereceu-lhes po e queijo e eles comeram
com discrio e parece-me que agradeceram. Riam
constantemente, os pobrezinhos; talvez, como no conseguiam
compreender-nos nem fazer-se compreender, quisessem dar-nos a
entender, com esse riso, que as suas intenes eram boas.
Michele, sempre por gestos, explicou-lhes o caminho que deviam
tomar e, passado algum tempo, l se foram embora, por entre as
fragas; de longe pareciam mesmo dois grandes macacos a
caminharem sobre as patas traseiras, com o auxlio dos
varapaus que tinham arrancado de qualquer rvore.

Uma outra vez passou um operrio italiano que estivera a
trabalhar nas fortificaes da frente de batalha, no me
lembro onde, e tinha fugido porque l no comiam nada, eram
tratados como ces e trabalhavam como escravos. Quase no se
tinha em p. Era um pereito rapaz, distinto, de rusto fino e
moreno, mas magro como um co, os ossos a furarem-lhe a pele,
os olhos encovados e tristes e todo o corpo verdadeiramente na
espinha. Disse nos que tinha famlia em Puglie e esperava
chegar l, caminhando assim de montanha em montanha. H uma
semana que andava e tinha um aspecto miservel, os sapatos
rotos, as vestes em farrapos. No disse

136

-





-

grande coisa; por causa da fraqueza, falava devagar, a custo,
e poucas palavras de cada vez, como se quisesse poupar o
flego. Ouvira dizer que em Roma houvera uma revolta e que
tinham morrido alguns alemes... estes, em represlia, mataram
muitos italianos... mas no sabia quando, nem como, no sabia
mais nada. Por fim, sempre a falar dos Alemes, disse: "So
uns miserveis. Sabem muito bem que j perderam a guerra, mas,
como a guerra Ihes agrada e nada lhes falta, porque vivem 
nossa custa, continuaro a faz-la enquanto tiverem um
soldado. Se a guerra no acabar depressa, morreremos todos de
fome e de misria. Ou acaba a guerra ou acabamos nds."
Aceitou, de Michele, po, queijo e algum tabaco e, depois de
descansar uma meia hora no planalto, retomou o seu caminho,
arrastando devagar as pernas. Parecia que a cada passo iria
cair ao cho para no se levantar mais.

Uma manh, quando estvamos a apanhar sol, ouvimos
inesperadamente um assobio. Escondemo-nos logo todos trs
atrs duma daquelas rochas brancas, para ver o que se passava.
Nunca se sabia... estvamos sempre alerta e sempre com medo
que aparecessem os alemes e nos prendessem. Dali a pouco
Michele deitou a cabea de fora e viu, em frente, outra
cabea, que se escondia  pressa atrs duma rocha no muito
distante. Continumos assim durante algum tempo, a espiar-nos
uns aos outros, e por fim vimos que no eram alemes e eles
viram que ns ramos italianos e saram do esconderijo. Eram
dois homens da Itlia meridional, militares, um tenente e um
alferes, segundo nos disseram, mas vestidos  paisana, pois
tambm eles, como tantos outros, fugiam atravs das montanhas
em direco ao Sul, no intuito de passarem as linhas de
combate e atingirem a terra onde tinham as familias. Um era
moreno e alto, de pele escura, cara redonda, olhos pretos como
o carvo, dentes brancos e lbios quase

I de cor violeta; o outro era louro, de cara comprida, olhos
azuis e o nariz muito aguado. O moreno chamava-se C armelo e
o louro Luigi. De todos os encontros que tivemos no cimo da
montanha, foi talvez este o menos agradvel, no porque os
dois fossem verdadeiramente antipticos:  provvel que em
tempo de paz, na sua terra, eu no achasse nada que lhes
censurar, mas, como adiante se ver, a guerra exercera neles
uma influncia pssima, como de resto em tantos outros, pondo
a descoberto o lado mau do seu carcter, que doutra forma
ficaria oculto. E a propbsito quero afirmar que a guerra  uma
grande provao: para se julgar bem os homens  preciso v-los
em tempo de guerra, no em tempo de paz; no quando h leis e
respeito pelos outros e temor a Deus, mas sim





quando todas essas coisas no existem e cada um age segundo a
sua natureza, sem freios de qualquer espcie.

Aqueles, no momento do armistcio, encontravam-se num
regimento aquartelado em Roma e desertaram; primeiro estiveram
escondidos, depois fugiram da capital, na esperana de
chegarem s suas terras. Durante um ms viveram em casa de um
campons, nas faldas do monte das Fadas, e fiquei logo com m
impresso deles ao ouvi-los falar desse homem, que, em suma,
os hospedara, duma maneira depreciativa, como dum pobre
rfstico ignorante, que nem sabia ler e cuja casa parecia um
covil. Um disse, a rir: ~Mas, j se sabe, tnhamos de nos
contentar, em tempo de racionamento, po bolorento..."
Disseram ainda que tinham abalado do monte das Fadas porque o
campons Ihes dera a entender que no podia t-los l mais
tempo, no tinha comida para lhes dar, mas o moreno observou
que no era verdade, pois, se tivessem dinheiro, a comida
decerto aparecia, todos os camponeses so interesseiros. Em
concluso, iam para o Sul e esperavam passar a frente.

Era a hora do almoo e Michele, embora de m vontade,
ofereceu-lhes o po e o queijo do costume. O moreno disse que
aceitava o po, mas, quanto ao queijo, tinham um inteiro,
roubado ao campons avarento sem ele dar por isso, na altura
em que o deixaram. E, dizendo isto, tirou o queijo da sacola e
agitou-o no ar, a rir. Fiquei mal impressionada com esta
declarao to franca, no tanto pelo roubo, vulgar naqueles
tempos em que todos roubavam e o furto j no se chamava
furto, como pelo -vontade, que me parecia imprdprio num homem
como ele, com o posto de tenente e que, pelas suas maneiras,
devia pertencer  burguesia. Alm disso, no era bonito,
pensei, pagar a hospitalidade daquele pobre homem levando-Ihe
o pouco que tinha. Mas no disse nada; sentmo-nos na erva e
comemos a comer e, enquanto comamos, conversvamos, ou
melhor, ouviamos o moreno, que falava pelos cotovelos e sempre
de si prprio, atribuindo-se uma grande importancia, quer como
proprietrio de terras na sua aldeia, quer como oficial
durante a guerra. O loiro ouvia-o semicerrando os olhos por
causa do sol e de vez em quando contradizia-o maliciosamente;
mas o outro no se desconcertava e prosseguia com as suas
gabarolices. Dizia por exemplo o moreno: "Na minha aldeia
tenho uma herdade..." E o louro: "Bem, digamos dois ou trs
campitos do tamanho de lenos de assoar." "No, uma grande
herdade, e  preciso um cavalo para a percorrer." "Ora, ora,
basta ir a p e no  preciso dar muitos passos." Ou ento:
~Arranjei uma patrulha e entrei no bosque. Estavam l
escondidos, pelo menos, uma centena de soldados

138





inimigos." "Ena, eu fui contigo e vi, no eram mais de quatro
ou cinco." "No, digo-te que eram pelo menos cem... claro,
quando surgiram de trs das sebes onde estavam escondidos, no
os contei, nesses momentos h mais que fazer do que contar os
inimigos, mas deviam ser pelo menos cem..." "Vamos, diminui l
isso, faz-lhe um desconto, eram uns cinco ou seis..." E assim
por diante. O moreno dizia-as das grossas, num tom muito
seguro e fanfarro; o loiro, fraco e indolente, no deixava
passar nem uma. Por fim, o moreno contou o que fizera no dia
em que fora proclamado o armistcio e o exrcito italiano se
dispersara: "Eu estava nos servios da intendncia, um armazm
militar cheio de todos os bens que Deus criou. Quando soube
que a guerra acabara, no hesitei: mandei carregar num camio
tudo quanto pude, caixas de conservas, queijos, farinhas, toda
a espcie de gneros alimentcios, e levei esse carregamento
para casa, para a minha me." Riu satisfeito do seu belo
feito, mostrando a fieira dos dentes brancos e perfeitos;
ento Michele, que at a o ouvira sem uma palavra, observou
num tom seco: "Em resumo, voc roubou." "Que quer dizer?..."
"Quero dizer que momentos antes era um oficial do exrcito
italiano e momentos depois era um ladro." "Meu caro senhor,
no sei quem , nem como se chama, mas podia..." "Podia o
qu?" "Quem Ihe disse que roubei?... Fiz o que faziam todos,
se eu no tivesse levado esses gneros, outro qualquer os
levaria." " possvel, mas, apesar disso, foi voc que os
roubou..." "Veja como fala, sou capaz..." "De qu, vejamos de
que  capaz?..." O loiro disse ento ao moreno em ar de troa:
" pena, Carmelo, mas tens de reconhecer que este senhor
chegou para ti... Tocado!" O moreno encolheu os ombros e disse
a Michele: "No quero perder tempo a discutir consigo." "Faz
muito bem", declarou Michele com autoridade,"mas sempre Ihe
digo porque  que se comporta como um ladro... No contente
em ter roubado, ainda se gaba... supe que foi muito
esperto... se o tivesse feito e se se envergonhasse, poderia
supor-se que o fizera por necessidade... ou arrastado pelo
contgio da multido... Mas no, gaba-se, e assim mostra que
no ligou importncia ao que fez e est pronto a faz-lo de
novo." O moreno. furioso com este tom, levantou-se, agarrou
num ramo de rvore e brandiu-o contra Michele, dizendo: "Ou
est calado ou..." Mas Michele nem teve tempo de reagir. O
loiro desarmou-o imediatamente, com uma risadinha maliciosa:
"Tocado de novo!" Carmelo ento voltou a sua fria contra o
amigo : "M as cala-te , tambm participaste no saque,
estvamos l os dois..." "Eu apenas obedecia... eras meu
superior... ah! ah!" Em suma, a refeio acabou em silncio,
com o moreno deveras sombrio e o loiro a fungar. Depois
ficmos ainda mais

139





algum tempo calados. Mas Carmelo no podia engolir aquela do
ladro e dali a pouco disse em ar de desafio a Michele: "Voc,
que julga sem saber e chama to fcilmente ladro a quem vale
mais, mas muito mais, do que voc, pode saber-se quem ? Eu
posso dizer quem sou: Carmelo Ali, oficial, agricultor,
licenciado em direito, condecorado por mrito, cavaleiro da
Coroa de Itlia. E voc, quem ?" O loiro, fungando, observou:
"Esqueceste-te de dizer que s tambm o secretrio dofascio na
nossa terra. Porque no o dizes?" Carmelo respondeu,
aborrecido: "O fascio j no existe, s por isso no o
disse... mas sabes bem que, como secretrio do partido, nunca
ningum se queixcu de mim." O loiro, a rir, corrigiu: "A no
ser que te aproveitavas disso para apanhares as camponesas
mais bonitas que iam pedir-te algum favor... Sempre foste um
grande D. Joo..." Carmelo, lisonjeado com a acusao, sorriu,
mas no a repeliu; depois voltou-se para Michele, insistindo:
"Ento, meu caro senhor, diga um ttulo, um curso, uma
condecorao, qualquer coisa ern suma que nos faa compreender
quem  e com que direito critica os outros." Michele olhava-o
fixamente atravs das espessas lentes de mope; por fim
perguntou: "Que lhe importa o que sou?" "Mas ao menos 
licenciado?" "Sim, sou licenciado... mas, mesmo que no fosse,
nada mudaria." "Que quer dizer?" "Quero dizer que voc e eu
somos homens e aquilo que somos somo-lo pelo que fazemos, e
no pelas honras e cursos... e o que voc fez e disse define-o
como um homem pelo menos leviano e de conscincia muito
elstica... eis tudo." "Tocado!", exclamou outra vez o loiro,
nudo. O moreno desta feita escolheu o partido de no fazer
caso. Disse de repente, pondo-se em p: "Eu sou estpido em
baixar-me a discutir consigo... Vamos, Luigi, que se faz tarde
e ainda temos de andar mnito... Obrigado pelo po e no duvide
que, se for  minha aldeia, lho pagarei com juros." Michele,
caprichoso, respondeu com calma: "Sim, contanto que o po no
seja feito com a farinha que voc roubou ao exrcito
italiano." Agora Carmelo, que j ia distante, limitou-se a
encolher os ombros, dizendo: "V para 0 Diabo mais 0 exrcito
italiano." Ouvimos ainda o loiro repetir numa risada:
"Tocado!" Depois viraram por trs duma rocha e desapareceram
da nossa vista.

Outra vez vimos ao longe, num carreiro que contornava a
montanha, uma quantidade de gente que caminhava em fila
indiana, como em procisso. Passaram da a pouco junto de ns.
Eram pelo menos trinta pessoas, os homens com fatos
domingueiros, a maior parte fatos pretos, as mulheres com o
seu trajo regional: saias compridas, blusas e xailes. As
mulheres levavam  cabea~ embrulhos e cestos e ao colo as
crianas mais pequenas; as crianas

140





maiorzinhas iam pela mo dos homens. Estes desgraados, como
eles prprios explicaram, eram os habitantes duma aldeia que
estava mesmo na lirlha da frente. Os alemes, uma manh,
tinham-nos acordado de madrugada, quando ainda dormiam, e
deram-lhes meia hora para se vestirem e embrulharem os
objectos mais necessrios. Depois meteram-nos num camio e
transferiram-nos

? para um campo de concentrao perto de Frosinone. Mas,
passados alguns dias, fugiram desse campo e agora tentavam
regressar  sua aldeia, atravs das montanhas, para voltarem
s suas casas e recomecarem a sua vida. Michele interrogou o
chefe do grupo, um perfeito homem, j velhote, de bigodes
grisalhos, e este disse-lhe com ingenuidade: "Se no fosse por
mais nada, pelos animais... Se n6s no pensarmos nos animais,
quem h-de pensar?... Os

: alemes?..." Michele no teve coragem de lhes dizer que, ao
chegarem  aldeia, no encontrariam casas, nem animais, nem
nada. Descansaram um momento e retomaram o seu caminho. Eu
simpatizei imenso com esses pobrezinhos, to resignados e
confiantes, naturalmente porque se assemelhavam a ns as duas,
a Rosetta e eu: tambm tinham sido postos fora das suas casas
pela guerra, tambm andavam fugidos nas montanhas,
abandonados, como ciganos. Alguns dias mais tarde soube que os
alemes os tinham prendido e levado outra vez para o campo de
Frosinone. Depois no soube mais nada deles.

Fizemos esta vida, subir de madrugada e descer ao pr do Sol,
durante umas duas semanas; por fim tornou-se evidente que os
alemes tinham renunciado aos recrutamentos, pelo menos
naquele ponto da montanha, e ficmos l em baixo e recomemos
a vida do costume. Ficou-me, porm, a saudade daqueles dias
to lindos que passei no alto do monte, em comunho intima com
a solido e a natureza. L em cima no havia refugiados nem
camponeses a aborrecerem-me com a guerra, os ingleses, os
alemes e a carestia; no tinha canseiras para cozinhar um
ruim almoo ou jantar com lenha verde numa cabana escura; nada
nos lembrava a situao em que nos encontrvamos, a no ser
aqueles dois ou trs encontros que j referi. Podia pensar que
ia passear todos os dias com Michele e Rosetta, e eis tudo.
Aquele pradozinho verde sobre o qual o sol de Inverno se
tornava to quente que parecia mesmo estarmos em Maio, com as
montanhas da Ciociaria no horizonte, coroadas de neve, e do
outro lado o mar cintilando ao fundo da planura de Fondi,
parecera-me um lugar encantado, onde muito bem podia estar
escondido um tesouro, como ouvia dizer em criana. M as esse
tesouro no estava debaixo da terra, sabia-o agora,
encontrara-o em mim prpria, com tanta surpresa como se o
houvesse desenterrado

141





com as minhas mos: era aquela calma profunda, uma completa
ausncia de medo e de ansiedade, uma confiana em mim e no
que, passeando sdzinha, sentia crescer no meu ntimo  medida
que os dias passavam. Em tantos anos, foram talvez esses os
dias mais felizes da minha vida e,  estranho diz-lo, foram
tambm aqueles em que fui mais pobre, mais desprovida de tudo,
tendo po e queijo por nico alimento e a erva do prado por
leito, e nem uma cabana para me acoitar, vivendo mais como um
animal selvagem do que como um ser humano.

Agora estava-se no fim de Dezembro e mesmo no dia de Natal
chegaram na verdade os Ingleses. No os ingleses do exrcito
de Garigliano, bem entendido, mas dois ingleses que fugiam,
como tantos, pelas montanhas e apareceram em Santa Eufmia na
manh de 25 de Dezembro. O tempo continuava lindssimo, frio,
seco e lmpido; nessa manh, ao chegar  porta do casinhoto,
avistei no socalco uma pequena multido. Aproximei-me e vi que
os refugiados e os camponeses cercavam dois rapazes que
pareciam forasteiros: um louro e pequeno, de olhos azuis,
nariz direito e fino, boca vermelha, barba loura cortada em
ponta; o outro, alto e magro, de olhos azuis e cabelos pretos.
O louro falava um italiano arrastado e disse-nos que eram
ingleses: ele, oficial da marinha, o outro, simples
marinheiro. Tinham desembarcado para os lados de stia, perto
de Roma, para fazerem ir pelos ares, com dinamite, um pouco do
que restava aos pobres italianos. Uma vez a misso concluda,
voltaram  praia, mas o barco que os trouxera no tornou a
aparecer e tiveram de fugir e esconder-se como e onde puderam.
O periodo das chuvas passaram-no em casa duns camponeses, para
os lados de Sermoneta, mas agora, que fuzia bom tempo, queriam
tentar atravessar as linhas e alcanar Npoles, onde estava 0
seu comando. Estas explicaes foram seguidas doutras tantas
perguntas e respostas; refugiados e camponeses queriam saber
como ia a guerra e quando acabava. Mas eles sabiam tanto como
ns: viviam nas montanhas h muitos meses, durante os quais s
tinham lidado com camponeses analfabetos que no estavam a par
do que se passava. Assim, quando os refugiados se aperceberam
de que os dois no sabiam nada e, ainda por cima, precisavam
de~ auxilio, agora um, logo outro, afastaram-se todos,
repetindo que era perigoso estar ao p dos ingleses, pois
nunca se sabe o que pode acontecer: denunciar  fcil e se os
alemes viessem a sab-lo, era caso para suceder alguma
desgraa. Em suma, por fim ficaram os dois szinhos no meio do
socalco, ao sol, vestidos de farrapos, as barbas compridas,
olhando em volta como perdidos...

142





Ltal I de mo h e no 10s

os: ca de 0 e les de do ol -reeos Lm o ,as ~er no sb ar de de
ra de ra

os as

Tambm eu, confesso, tive medo de ester ao p deles, e no por
| mim, mas por Rosetta; mas Rosetta fez-me sentir vergonha
desse

| medo, dizendo: ~Mam, eles tm o ar de quem anda perdido, os

I pobrezinhos... e hoje  die de Natal... No tm nada de
comer e naturalmente gostariam de ester com as familias e no
podem... Porque no os convidamos a comer connosco?"
Envergonhei-me do meu medo e pensei que Rosetta tinha razo.
No valeria a pena desprezar os refugiados como desprezava, se
no fim de contas procedia como eles. L conseguimos que os
dois compreendessem que os convidvamos a comer connosco o
jantar de Natal. Aceitaram logo, mnito felizes.

Para esse Natal eu fizera um sacrificiozinho, sobretudo por
cause de Rosetta, que todos os anos, desde que nascera,
festejava aquele die melhor do que a filha dum senhor.
Comprara a Paride uma galinha e assara-a no forno com batatas.
Tinha tambm feito masse em case, pouca, verdade se diga, pods
restava-me pouquissima farinha, e arranjara uns pezinhos com
recheio. Tinha dois salpices, que cortei em fatias fieas,
pare comermos com alguns ovos cozidos. Fiz tambm doce: 
falta de melhor, rasped umas quantas alfarrobas, misturei essa
farinha com farinha de trigo, passes de uvas, pinhes e acar
e cozi no forno um bolo baixo e duro, mas saboroso. Consegui
ainda que um refugiado me dispensasse uma garrafa de marsala
i; o vinho tinha-mo dado Paride. Fruta havia com abundancia:
em Fondi as rvores estavam carregadas de laranjas, que
custavam baratssimo, e uns dies antes

~ comprara cinquenta quilos delas e no comia outra coisa todo
o dia.

I Pensei convidar tambm Michele e disse-lho quando ele se
dirigia  pressa pare case do pai. Aceitou logo e penso que o
fez sobretudo pare no ester junto da familia. Acrescentou:
"Care Cesira, fizeste hoje uma boa aco... Se no tivesses
convidado esses dois homers, retirava-te toda a minha estima."

Michele, no entanto, chamou o pai, que apareceu  janela;
ento disse-lhe que o tinhamos convidado pare jantar e que
aceitara. Filippo, em voz baixa, pods tinha medo que os
ingleses o ouvissem, comeou a aconselh-lo: "No vs, eles
so dois fugitivos, se os alemes vm a sab-lo, estamos
arranjados." Mas Michele encolheu os ombros e, sem esperar que
o pai acabasse o discurso, dirigiu-se pare o nosso casebre.

Tinha posto a mesa de Natal com uma toalha de linho espesso
que os camponeses me emprestaram. Rosetta colocara em volta
dos

143


pratos ramos cortados no mato, verdes com bagas vermelhas,  Ru
semelhantes queles que se vem nas festas em Roma. Num prato
estava a galinha, que, para cinco pessoas, era pequena, nos
outros    gr'
os salpices, os ovos, o queijo, as laranjas e o doce. O po
tinha-o   mE
feito de propsito para aquele dia e estava ainda quente do
forno
e cortara-o em fatias, uma para cada um. Comemos com a
porta aberta, pois a casa no tinha janelas e, se a porta esti
vesse fechada, ficvamos s escuras. L fora brilhava o sol e
avistava-se o panorama de Fondi, luminoso e lindissimo at
onde o mar cintilava ao longe. Michele, depois dos pezinhos
recheados, comeou a atacar os ingleses a respeito da guerra.
Dizia-lhes das boas e fortes, falando de igual para igual, e
eles
pareciam um pouco admirados. talvez por no esperarem uma
conversa daquelas em tal lugar, com um farroupilha. Michele
disse
-lhes que tinham cometido um grande erro em no desembarcar
perto de Roma, em vez de desembarcarem na Sicilia; nessa
altura
teriam tomado Roma com facilidade e toda a Itlia meridional.
Agora, avanando a passo e passo pela Itlia acima, no s
destruiam o pais, como faziam sofrer horrivelmente as
populaes,
que se encontravam, por assim dizer, entre a bigorna, que eram
eles,
e o martelo, que eram os alemes. Os ingleses respondiam que
no
sabiam nada de tudo isso, eram soldados e obedeciam. Michele
ento atacou-os com outros argumentos: porque faziam a guerra,
com que fim? Os ingleses responderam: faziam a guerra para se
defender dos Alemes, que queriam submeter o mundo inteiro.
Michele respondeu: isso no era razo suficiente, toda a gente
esperava que eles, depois da guerra, criassem um mundo novo,
com
mais justia, mais liberdade e mais felicidade do que o
antigo. Se
no conseguissem criar esse mundo, ento teriam perdido tambm
a
guerra, embora de facto fossem os vencedores. O oficial loiro
ouvia
Michele com desconfiana e respondia pouco, mas o marinheiro
pareceu-me que tinha as mesmas ideias, embora, por respeito ao
oficial, seu superior, no tivesse coragem de as exprimir. Por
fim, o
oficial cortou a discusso, dizendo que o essencial, agora,
era ven
cer a guerra; para o resto, confiava no seu governo, que tinha
certamente planos para criar esse mundo novo de que Michele
falava. Compreendemos todos que no queria comprometer-se
numa discusso embaraosa, e o prprio Michele, embora
contrariado, tambm compreendeu e props que bebssemos 
sade desse mundo novo que iria surgir depois da guerra.
Enchemos
os copos de marsala e bebemos todos  sade do mundo de
amanh.
Michele estava comovido e tinha lgrimas nos olhos e, depois
desse
primeiro brinde, quis beber  sade dos Aliados, incluindo os


144



Russos, que nessa altura, segundo constava, tinham a cancado
uma grande vithria sobre os Alemes. Estvamos todos muito
contentes, mesmo como se deve estar em dia de Natal; por
momentos pareceu-nos que no havia diferenas de lngua nem de
educaSo, que ramos na verdade todos irmos e que esse dia.
que tantos sculos antes vira nascer Jesus num estbulo,
assistia agora tambm ao nascimento de qualquer coisa
semelhante a Jesus, qualquer coisa de bom e de novo que
tornaria os homens melhores. No fim do jantar fizemos um
ltimo brinde  sade dos dois ingleses e depois abrapmo-nos
todos; eu abracei Michele, Roseta e os dois ingleses e eles
abraaram-nos e dissemos uns aos outros: "Bom Natal e bom Ano
N ovo ! r,

Pela primeira vez desde que estava em Santa Eufmia me senti

I verdadeiramente feliz. Michele, porm, observou dai a pouco
que tudo aquilo era muito bonito, mas havia um limite para o
sacrifcio e o altrusmo, e explicou aos dois ingleses que ns
as duas lhes podamos oferecer hospitalidade aquela noite, o
mximo; depois era melhor partirem, porque seria
verdadeiramente perigoso para eles e para ns se ficassem l
em cima: os alemes podiam vir a sab-lo e ento ningum nos
salvaria da sua vinganca. Os ingleses responderam que
compreendiam perfeitamente estas exigncias e asseguraram-nos
que partiriam no dia seguinte.

Ficaram connosco todo aquele dia. Falaram um pouco de tudo com
Michele e eu no pude deixar de notar que, enquanto Michele
parecia mnito bem informado sobre a terra deles, at quase
melhor do que eles prprios, eles, ao contrrio, ignoravam
tudo da Itlia, na qual todavia se encontravam e faziam a
guerra. O oficial. por exemplo, disse-nos que andara na
universidade, portanto era pessoa instruda, Mas Michele,
arranha que arranha, acabou por descobrir que ele no sabia
quem era Dante. Ora eu no sou instruda e nunca li o que
escrevou Dante, mas conhecia-o pelo menos de nome, e Rosetta
disse me que, quando andava na escola, no s lhe tinham
ensinado queni era Dante, como tambm lera alguns trechos
desse poeta, Michelo confessou-nos baixinho a sua admiraSo e,
sempre em voz baixa, num momento em que os ingleses no o
ouviam, acrescentou que assim se explicavam muitas coisas,
como por exemplo os bombardeamentos que tinham destruido
tantas cidades italianas, Os aviadores que deitavam as bombas
no sabiam nada de ns nem dos nossos monumentos, a ignorancia
tornava os tranquilos e sem piedade e a ignorancia,
acrescentou Michele,  talvez a causa de todas as nossas dores
e das dos outros, porque a malvadez no  seno uma forma de
ignorancia e quem sabe no pode verdadeiramente fazer mal,

 -

145





Aquela noite dormiram os dois num palheiro e, de manh cedo,
sem se despedirem, foram-se embora. Estvamos ambas muito
cansadas, pois ficramos a p at tarde, o que no era
habitual: todos os dias amos para a cama com as galinhas.
Assim, nessa manh, j passava do meio-dia e ns ainda
dormamos. No melhor desse sono, eis que oio uma pancada
terrvel na porta e depois uma voz medonha que dizia no sei o
qu numa lingua que eu no conhecia. "Oh, meu Deus, mam!",
exclamou Rosetta, aconchegando-se a mim. "Que  isto?" Fiquei
um momento sem me mexer, quase incrdula, e logo outra pancada
e outro grito incompreensvel. Ento disse a Rosetta que ia
ver quem era, saltei da cama tal como estava, em saia de
baixo, toda despenteada, os ps descalos, e fui abrir a
porta. Eram dois militares alemes; um devia ser sargento e o
outro simples soldado. O sargento era mais jovem: tinha a
cabea loura, a cara branca como papel, os olhos dum azul
deslavado, sem pestanas, sem expresso e sem luz. O seu nariz
era um pouco torto para um lado e a boca torcida para o outro;
duas cicatrizes na face, longas e plidas, davam-lhe um
aspecto curioso, como se a boca continuasse at o pescoo. O
outro era um homem de meia-idade, forte, moreno, de testa
enorme, olhos tristes e encovados, de um azol-escuro, o
maxilar de co mastim. Digo a verdade: assustei-me deveras,
no por mais nada, pelos olhos do sargento, frios e
inexpressivos, de um azul to feio que pareciam os olhos dum
animal, e no dum homem. Porm, no mostrei medo e gritei-lhe
na cara com quanta fora tinha: <Ol, que bicho te mordeu,
desgraado? Queres arrombar a porta? No vs que somos duas
mulheres e estamos a dormir? Nem sequer podemos dormirh O
sargento dos olhos claros fez com a mao um gesto, dizendo en~
mau italiano: "Bona, bona." Depois, voltando-se para 0
soldado, fez-lhe aceno para que o seguisse e entrou na casota.
Rosetta estava ainda na cama e olhava-os de olhos
esbugalhados, os lenis puxados at 0 queixo. Espreitaram por
toda a parte, at debaixo da cama; e o sargento, na sua fria
pesquisadora, at levantou o lenol a Rosetta, como se ela
pudesse ter debaixo das roupas aquilo que procuravam. Depois
sairam. Entretanto, juntaram-se  porta muitos refugiados, e
hoje, pensando nisso, digo que foi mesmo um milagre os dois
alemes no os interrogarem a respeito dos ingleses, pois
decerto, quanto mais no fosse por estupidez, algum havia de
dar com a lngua nos dentes, e, ento, coitadinhas de nds...
De resto, o facto de os alemes irem l acima, logo no dia
seguinte  chegada dos ingleses, fez-me pensar sempre que
houve com certeza denncia ou, pelo menos, alguma conversa. M
as os alemes, segundo rne

146`
     




pareceu, no queriam ter aborrecimentos, e por isso se
limitaram a fazer uma busca  pressa, sem interrogar ningum.

Porm, os refugiados, que no estavam habituados a ver alemes
l em cima, queriam informer-se a respeito da guerra, se
terminaria ou no depressa. Um at foi chamar Michele, que
sabia alguma coisa de alemo, e, no momento em que os dois
estavam pare se ir embora, empurraram-no pare a frente, porque
ele no queria, e gritaram-lhe: "Pergunta-lhes quando acaba a
guerra."

i    A Michele, via-se a uma lgua de distncia, no Ihe
agradava

falar com os alemes. Mas encheu-se de coragem e l disse
qualquer
coisa. Reproduzo agora em italiano aquilo que os alemes e
Michele
disseram em alemo, porque uma parse Michele traduziu-a logo
ali
j pare os refugiados e a outra parse traduziu-ma depots de os
alemes
partirem. Michele perguntou-lhes quando acabaria a guerra e o
sargento respondeu que no demoraria muito, com a vit6ria de
Hitler. Acrescentou que os Alemes tinham umas armas secretes
e
com elas iriam deitar ao mar os Ingleses, o mais tardar na
primavera. Disse ainda qualquer coisa que fez uma grande
impresso aos refugiados. ~Faremos a ofensiva e deitaremos os
Ingleses ao mar. Entretanto, os comboios serviro pare
transporter
munies e ns viveremos do que os Italianos tm, e aos
italianos
que nos trarem, deix-los-emos morrer de fome." Disse assim
mesmo, com ar convicto, calmo e desapiedado, como se, em vez
de
italianos, isto , cristos, falasse de moscas ou de qualquer
outro
animalejo. Os refugiados calaram-se todos ao ouvir estas
palavras,
pods no as esperavam; no sei porqu, supunham que os alemes
tinham simpatia por eles. Michele, que tomara o gosto de
falar,
perguntou ainda donde cram. O sargento respondeu que era de
Berlim e em tempo de paz tinha uma pequena fbrica de caixas
de
carto, mas agora tinham-lha destruido, e por isso no Ihe
restava
senao fazer a guerra o melhor que podia. O soldado hesitou
antes de
responder; depots, revirando os olhos encovados e tristes e
fazendo
uma care aflita, como um co que apanhou uma paulada, disse
que
tambm era de Berlim e tambm Ihe no restava mais nada seno
a
guerra, pods a mulher e a filha nica tinham-lhe morrido,
vtimas
dos bombardeamentos. Em resumo, ambos responderam mais
ou menos a mesma coisa: que tinham perdido tudo nos bom
bardeamentos e s pensavam agora em fazer a guerra;
simplesmente, via-se teem, era claro como a gua, o sargento
fazia a
guerra com zelo e paixo, talvez at com malvadez, enquanto o
soldado, to sombrio, com aquela testa enorme que parecia
cheia de
tristeza, fazia a guerra por qualquer outra razo, talvez por
desespero, pods sabia que ningum j o esperava em case. E eu

147







pensei que aquele soldado talvez no fosse mau; mas o facto de
ter perdido a mulher e a filha poderia torn-lo ruim, e se,
por exemplo, Deus me livrasse de tal, nos tivesse prendido as
duas, talvez no hesitasse em matar Rosetta ao lembrar-se de
que Ihe morrera uma filha da mesma idade nos bombardeamentos
de Berlim.

Enquanto pensava em tudo isto, o sargento, que parecia ter
algum agravo dos Italianos, perguntou de repente por que razo
entre os refugiados havia tantos rapazes com as mos nos
bolsos, enquanto todos os alemes combatiam na frente. Michele
respondeu-lhe, elevando a voz, quase aos gritos, que ele e
todos os outros tinham combatido por Hitler e pelos Alemes na
Grcia, em frica e na Albania e estavam prontos a combater de
novo, at a ltima gota de sangue, e todos l em cima ansiavam
pela hora em que o grande e glorioso Hitler vencesse
definitivamente a guerra e deitasse ao mar esses safados dos
Ingleses e Americanos. O sargento ficou um pouco atrapalhado
com esta tirada; olhava com ar de dvida para Michele, media-o
de alto a baixo e via-se que no o acreditava. M as, em suma,
eram palavras que no faziam mal nenhum e contra as quais nada
podia dizer, embora no acreditasse nelas. Assim, depois de
terem entrado nas outras casotas e revistado aqui e alm, mas
de m vontade e sem interesse, os dois voltaram para o vale
com grande alvio de todos ns.

Eu porm fiquei impressionada com a atitude de Michele. No
digo que devia insultar os alemes, mas todas aquelas
mentiras, assim gritadas com uma cara sem vergonha,
surpreenderam-me bastante. Disse-lho e ele encolheu os ombros
e respondeu-me: "Com os nazis tudo  lcito: mentir-lhes,
trai-los, mat-los se for possvel, Que farias a uma serpente
venenosa, um tigre ou um lobo raivoso7 Procuravas, decerto,
reduzi-lo  impotncia pela fora ou pela astcia.
Naturalmente no Ihe falavas, tentando de qualquer modo
amans-lo, porque j sabias que isso seria intil.  assim com
os nazis. Eles colocaram-se fora da humanidade, como animais:
selvagens, e por isso, para os combater, todos os meios so
bons. Tu, como aquele oficial ingls to instruido, nunca
leste Dante. Se 0 tivesses lido, saberias que Dante diz: E
cortesia fu in lui esser villano".

Perguntei 0 que queria dizer aquela frase de Dante e ele ento
explicou-me que queria dizer precisamente que com gente como
os nazis era j muita cortesia mentir e atraioar. Nem isso
mereciam. Eu disse por dizer que entre os nazis tambm podia
haver bons e maus, como h em todo o lado, e portanto no se
podia saber se aqueles dois eram maus. Mas Michele ps-se a
rir: "Aqui no se trata de bons e maus. Talvez sojam bons para
as mulheres e para os

,'4~1





filhos, tal como os lobos e as serpentes so bons para as
fmeas e suas crias. Mas para a humanidade,  isso que conta,
contigo, comigo, com Rosetta, com estes refugiados e
camponeses, no podem deixar de ser maus." "E porqu?"
"Porque", respondeu, passado um momento de reflexo, "esto
convencidos de que  o bem aquilo que ns chamamos o mal. E
fazem o mal julgando que cumprem o seu dever.~ Fiquei na
dvida, parecia-me no ter compreendido. Ele, porm, no me
dava ateno e concluiu, como que a falar consigo mesmo: "A
combinao do mal e do sentido do dever, eis o que  o
nazismo.a

Era curioso como Michele podia ser to bom e ao mesmo tempo
to duro!... Lembro-me de termos encontrado alemes noutra
ocasio, em circunstncias mnito diferentes. Eu tinha j pouca
farinha e fazia o po aproveitando no s o farelo mais fino,
mas tambm o mais grosso. Um dia decidimos ir ao vale a ver se
encontrvamos um pouco de farinha para trocar por ovos. Os
ovos comprara-os a Paride; tinha dezasseis e esperava, em
troca desses ovos e juntando-lhe algum dinheiro, arranjar uns
quilos de farinha branca. Nunca mais descramos ao vale desde
o dia daquele bombardeamento que causara tanto medo ao pobre
Tommasino, e, digo-o com sinceridade, desta vez ia de m
vontade. No sei porqu, falei nisto diante de Michele e ele
ofereceu-se para nos acompanhar. Aceitei com prazer porque,
com Michele, sempre me sentia mais segura, pois era a nica
pessoa l em cima que verdadeiramente me inspirava coragem e
confiana. Meti ento os ovos num cestinho com palha e
pusemo-nos a caminho de manh cedo. Estvamos nos primeiros
dias de Janeiro, em pleno Inverno, em plena guerra, no
momento, por assim dizer, mais negro, mais frio e mais
desesperado, daquele desespero que durava h tantos anos j. A
ltima vez que descera ao vale, nesse dia em que fora com
Tommasino, havia ainda folhas nas rvores, embora amarelas, e
erva nos prados, depois de tantas chuvas, e nas encostas
algumas flores, as ltimas do Outono, como ciclames e violetas
selvagens. Mas agora,  medida que desciamos, vamos tudo
seco, cinzento, rido e nu, num ar frio e sem sol, sob um cu
nublado e sem cor. Partimos bastante alegres, mas depressa nos
calmos: o dia estava silencioso como so silenciosos os dias
de Inverno e esse silncio gelava-nos e impedia-nos de falar.
Primeiro descemos pela encosta  direita do vale, depois
atravessmos o planalto onde, entre figueiras-da-ndia e
rochas, caira a bomba lanada pelo avio no dia em que amos
acompanhadas por Tommasino, passando em seguida para o lado
esquerdo. Caminhmos assim sem falar ainda meia hora e por fim
chegmos  entrada do vale, onde havia a pontezinha, a

149


encruzilhada e a casa em que Tommasino morara at o dia fatal
do bombardeamento. Lembrava-me desse lugar como dum stio
risonho, bonito e amplo, e fiquei surpreendida, confesso, ao
v-lo triste, cinzento, nu e mesquinho. J viram uma mulher
sem cabelo? Eu j vi uma rapariga da minha aldeia que teve o
tifo: uma parte caiu-lhe, o resto raparam-lho  mquina zero.
Parecia outra, at tinha uma expresso diferente, fazia
lembrar um ovo grande e feio, com a cabea lisa e calva que as
mulheres nunca tm, pois uma cara privada dos cabelos fica
como que esmagada por uma luz demasiado crua. Do mesmo modo,
sem a folhagem espessa e verde dos trs pltanos que davam
sombra  casita de Tommasino, sem a verdura que cobria as
pedras das margens do riacho, sem as plantas dos dois lados da
estrada e nos valados, que ento eu no notara, mas deviam l
estar, pois agora sentia a sua falta, aquele lugar no parecia
o mesmo, perdera toda a beleza, exactamente como uma mulher a
quem tivessem rapado o cabelo. E, no sei porqu, vendo-a
assim to miservel, confrangeu-se-me o corao e quase me
pareceu que se assemelhava um pouco s nossas vidas naquele
momento, tambm nuas e sem iluses, numa guerra que no
acabava mais.

Seguimos pela estrada principal e da a pouco tivemos o
primeiro encontro do dia. Um homem conduzia pelas rdeas dois
cavalos, castanhos e gordos, muito bonitos, na verdade. Eram
dois cavalos alemes, mas o homem tinha um uniforme que eu
nunca vira. Quando chegmos ao p dele, primeiro olhou-nos,
depois saudou-nos e, como `azamos o caminho na mesma
direco, comeou a conversar connosco num mau italiano. Assim
andmos e falmos um bom bocado. Era um rapaz dos seus vinte e
cinco anos, duma beleza como poucas vezes tenho visto na vida.
Alto, de ombros largos, cintura delgadssima como uma mulher,
elegante, pernas altas, metidas em botas de coiro amarelo. Era
louro como o ouro, tinha olhos duma cor entre o verde e o
azul, talhados em amndoa, estranhos e sonhadores, o nariz
direito, comprido e fino, a boca vermelha e bem desenhada e,
quando sorria, descobria uns dentes lindssimos, brancos e
certos, que era um prazer olh-los. Disse-nos que no era
alemo, mas sim russo, duma terra muito distante, cujo nome
no me lembro. Confessou tranquilamente que traira os Russos e
se pusera ao lado dos Alemes porque no gostava dos Russos,
embora tambm no gostasse dos Alemes. Acrescentou que,
juntamente com outros compatriotas que tinham trado
igualmente o seu pas, estava ao servio dos nazis; mas agora
tinha a certeza de que os Alemes perdiam a guerra, pois a sua
crueldade revoltara o mundo inteiro, que se unira contra eles.
Os Alemes,

150








concluiu, mais ms, menos ms, perdem a guerra e ento, para
ele, acabaria tudo, e fez nesta altura um gesto que nos deixou
gelados, levando a mo ao pescoo, como que a dizer que os
Russos Ihe cortariam a cabea. Falava com calma, como se a
prpria sorte Ihe fosse indiferente. E sorria at, no s com
a boca, mas com aqueles olhos estranhos, cerleos, que
pareciam dois bocadinhos de mar, onde o mar  mais fundo.
Via-se que odiava os Alemes e odiava os Russos e se odiava a
si mesmo e no Ihe importava nada morrer. Caminhava
tranquilamente, segurando pelas rdeas os dois cavalos. Na
estrada deserta e no campo cinzento e gelado no havia seno
ele e os seus cavalos e parecia inacreditvel que este homem
to belo estivesse, por assim dizer, j condenado e tivesse de
morrer, talvez mesmo antes do fim do ano. Na encruzilhada onde
nos separmos disse ainda, acariciando as crinas a um dos
cavalos: "Estes dois cavalos  tudo quanto me resta na vida e
nem sequer so meus..." Depois, l se foi em direco 
cidade. Ficmos a v-lo um momento afastar-se. E eu no pude
deixar de pensar que encontrara mais uma vitima da guerra: se
no fosse a guerra, aquele rapaz to belo teria ficado na sua
aldeia, decerto para se casar e trabalhar e ser um homem
honrado, como todos os outros. A guerra obrigara-o a sair da
aldeia, obrigara-o a trair e agora a guerra matava-o e ele
estava resignado a morrer, e isso, entre tantas coisas
hornveis, era talvez a pior, por ser a menos natural e a menos
compreensvel.

Tommos,  esquerda, uma estrada secundria que conduzia aos
laranjais. Espervamos trocar a os ovos pelo po dos alemes
que tinham as suas tendas  beira do pomar, como da outra vez.
Mas no encontrmos ningum, as peas de artilharia tinham
desaparecido. S se via 0 solo pisado e sem ervas no stio
onde tinham estado as tendas e algumas rvores arrancadas e
despedaadas, era tudo... Disse ento que seria melhor
continuarmos por aquela estrada, pois talvez outros grupos de
alemes estivessem acampados um pouco mais adiante. Caminhmos
ainda um quarto de hora, sempre em silncio, e, por fim,
percorrido quase um quilmetro, encontrmos uma rapariga loura
que andava por ali szinha, no como quem se dirige para um
lugar determinado, mas como quem passeia sem destino.
Caminhava devagar, olhando com estranho interesse para os
campos cinzentos e nus e dando de vez em quando uma dentada
num bocado de po. Fui ao seu encontro e perguntei-lhe:
"Dize-me, sabes se h alemes para estes lados, se seguirmos
pela estrada adiante?" Ela parou ao ouvir a minha pergunta e
fitou-me. Usava um leno na cabea, e era uma linda rapariga,
s e robusta, de cara larga, um pouco macia e olhos grandes,
castanhos. Respondeu logo

151





 pressa: "Os alemes... decerto que os h... pois esto c os
alemes." Perguntei-lhe: "Mas onde esto?" Ela olhava-me e
agora parecia assustada, de repente, sem me responder, fez um
movimento para se ir embora. Peguei-lhe num brao e repeti a
pergunta. Ento baixou a voz e disse: "Se eu to disser, no
vais contar onde tenho as provises?" Fiquei de boca aberta ao
ouvir tais palavras, que eram ao mesmo tempo adequadas s
circunstancias e completamente absurdas. Exclamei: "O que
dizes? Porque me falas tu de provises?" E ela, abanando a
cabea: "Vm e levam tudo... vm e levam tudo... os alemes,
claro... mas sabes o que Ihes disse a ltima vez que c
vieram? No tenho nada, no tenho farinha, no tenho feijes,
no tenho banha, no tenho nada... s tenho o leite para o meu
menino... se o querem, levem-no... aqui est." E, olhando-me
fixamente, de olhos esbugalhados, comeou a desabotoar a
blusa. Fiquei perplexa, tal como Michele e Rosetta. Ela olhava
para ns, mexendo os lbios como se falasse consigo mesma, e
entretanto abria a blusa at a cinta e depois, com uma das
mos, os dedos abertos, como fazem as mes quando do de mamar
aos filhos, tirou para fora o seio. "No tenho seno isto...
Ievem-no", repetia em voz baixa, sonhadora. Agora tinha
conseguido tirar para fora da blusa todo o seio, que era
lindo, redondo e cheio, com aquela transparncia de pele e
brancura que habitualmente indicam que a mulher  me e
amamenta. Mas, depois de o tirar, eis que de repente se foi
embora, cantarolando, distrada, a blusa toda aberta, um seio
 mostra e outro tapado. Fez-me impresso v-la ir assim a
mordiscar o bocado de pao, com o seio exposto ao frio do
Inverno, nica coisa viva e branca e luminosa e quente naquele
instante sem sol e sem cor, nu e frio... " louca!", disse por
fim Rosetta. Michele confirmou secamente: "Sim!" Recomemos a
caminhar em silncio.

Como no se viam alemes em parte alguma, Michele props que
fssemos a casa duns seus conhecidos que possivelmente viviam
refugiados numa barraca no meio dos laranjais. Disse-me que
eram gente honesta e talvez nos pudessem indicar onde se
encontravam alemes que nos trocassem os ovos por po. Assim,
dali a pouco deixmos a estrada e metemos por um carreiro
atravs do pomar. Michele disse-nos que todas aquelas
laranjeiras pertenciam  pessoa a casa de quem amos, um
advogado solteiro, que vivia com a me, j velha. Andmos
talvez dez minutos e por fim desembocmos numa pequena
clareira, diante duma barraquita insignificante, com paredes
de tijolo e tecto de chapa ondulada. A barraca tinha duas
janelas e uma porta. Michele aproximou-se duma das janelas,
olhou, viu que os donos estavam em casa e bateu duas vezes.
Espermos um bocado e por fim a porta abriu-se lentamente,
como que de m

152
     







vontade, e o advogado apareceu na soleira. Era um homem duns
cinquenta anos, corpulento, calvo, fronte plida e brilhante
como o marfim, circundada de cabelos pretos desgrenhados,
olhos aquosos e  flor da pele, nariz em bico, boca mole e
dobrada sobre o duplo queixo. Vestia um casaco como os que se
usam  noite na cidade, de fazenda azul e gola de veludo
preto. Mas, alm deste casaco to elegante, tinha um par de
calas esfarrapadas e botas de soldado, de coiro, com cardas.
Ao ver-nos, notei-o imediatamente, ficou pouco satisfeito;
porm recomps-se logo e deitou os braos ao pescoo de
Michele, com uma cordialidade quase excessiva. <<Michelino...
bravo, bravo... que bom vento te traz por c?" Michele apresen
tou-nos e ele saudou-nos a distncia, empertigado, quase com
frieza. Entretanto, continuvamos  porta e ele no nos convi
dava a entrar. Michele, ento, disse: "Passmos por aqui e lem
brmo-nos de Ihe fazer uma visita." O advogado estremeceu:
"Muito bem... amos agora mesmo sentar-nos  mesa... venham...
comem connosco." Hesitou e depois acrescentou: "Michele, vou
avisar-te... como conheo os teus sentimentos, que, de resto,
sao tambm os meus... Convidei o tenente alemo que comanda a
bateria antiarea instalada aqui ao lado... tinha de o
fazer... nos tempos que correm..." Assim, desculpando-se e
suspirando, introduziu-nos na barraca. Uma mesa redonda estava
posta junto da janela e era a nica coisa limpa e em ordem na
sala: o resto eram apenas bugigangas, montes de farrapos,
pilhas de livros, montes de malas e caixas,  mesa estavam j
sentados a me do advogado, uma senhora idosa, pequena,
vestida de preto, de face enrugada e apreensiva, qual
macaquinha assustada, e o tenente nazi, loiro, magro, chato
como uma folha de papel na farda justa, as compridas pernas
metidas em cales de montar e polainas e estendidas sem
cerimnia, uma para cada lado, debaixo da mesa. Tinha mesmo
focinho de co: s nariz, os olhos, quase amarelos, mnito
prximos um do outro, sem pestanas nem sobrancelhas, com
expresso estudada e hostil, a boca grande e repuxada nos
cantos. Corts e obsequioso, levantou-se e saudou-nos, batendo
os calcanhares: mas no apertou a mo a ningum e tornou a
sentar se imediatamente, como quem diz: "No o fao por vocs,
mas sim porque sou uma pessoa educada." O advogado,
entretanto, explicava que o tenente comandava uma bateria
antiarea, o que ns j sabamos, e que aquele almoo era um
almoo de boa vizinhana. "E esperemos", concluiu, "que a
guerra acabe depressa e o tenente possa por sua vez retribuir
nos este convite em sua casa, na Alemanha.~> O tenente no
disse nada, nem sequer sorriu. e eu pensei que ele no perce

153





bia a nossa lngua e no tinha compreendido. M as, depois, de
repente, ouvi-o dizer em bom italiano  me do advogado, que,
com voz lamentosa, Ihe oferecia um vermute: "Obrigado, no
tomo aperitivos.. E compreendi ento, no sei porqu, que ele
no sorria porque embirrava, por qualquer motivo, com o dono
da casa. Michele contou o encontro com a louca e o advogado
disse com indiferena: "Ah, sim, Lena!... Ela foi sempre
doida. No ano passado, naquela confuso de tropas para um lado
e para o outro, um soldado surpreendeu-a enquanto vagueava nos
campos, szinha como de costume, e engravidou."

"E onde est agora o filho?" "Est com a famlia, que o cria
com todo o cuidado. Mas ela. a pobre louca, imagina que lho
querem tirar por no ter leite para aliment-lo.  curioso,
porm, que o amamenta regularmente, isto , a horas certas, a
me pe-Iho nos braos e ela faz o que a me Ihe diz que faa.
Mas continua com a ideia fixa de que nao pode saciar-lhe a
fome." O advogado falava da pobre Lena como duma coisa sem
importncia. A mim, pelo contrrio, causara-me uma impresso
profunda, que nunca mais se apagou da minha memria. Como se
aquele seio nu, que ela oferecia a qualquer na estrada, fosse
a verdadeira imagem das condioes em que todos ns, Italianos,
viviamos naquele Inverno de 1944: desprovidos de tudo, como os
animais que no tm seno o leite que do aos filhos.

Entretanto, a me do advogado, assustada, trmula, apreensiva,
ia  cozinha e voltava, trazendo os pratos nas duas mos, como
se fossem o Santissimo Sacramento. Ps na mesa salame e fatias
de presunto, po de fabrico alemo, igual quele de que ns
andvamos  procura, depois uma verdadeira sopa com os
condimentos necessrios e por fim um grande frango assado com
guarnio de legumes em conserva. Ps tambm na mesa uma
garrafa de vinho tinto, de boa qualidade. Via-se que o
advogado e a me faziam tudo para agradar quele rapazote
alemo; como era agora vizinho deles, com a sua bateria,
tinham todo o interesse em amans-lo.

Mas o tenente possua de facto um carcter ruim, pois a
primeira coisa que fez foi indicar 0 po e inquirir: "Posso
perguntar-lhe, senhor advogado, como conseguiu adquirir este
pao?" O advogado, todo enrolado no capote como se tivesse
febre alta, respondeu numa voz hesitante mas zombeteira: "Bem,
foi um presente, um soldado deu-nos isso e ns demos-lhe outra
coisa... sabe-se, em tempo de guerra..." "Uma troca>>, disse o
outro, severo, "isso  proibido... E quem  esse soldado?"
"Ah! ah! tenente, fala-se do pecado, mas no

154
     




do pecador... Prove este presunto, no  alemo,  nosso." O
tenente no disse nada e comeou a comer o presunto.

Depois o tenente deixou o advogado em paz e voltou-se para
Michele. Perguntou-lhe  queima-roupa qual era a sua profisso
e Michele respondeu, sem hesitar, que era professor.
"Professor de qu?" "De literatura italiana." O tenente, com
grande espanto do advogado, afirmou ento tranquilamente:
"Conheo a vossa literatura e at traduzi para alemo um
romance italiano". "Qual?" O tenente disse o nome do autor e o
ttulo, mas j no me recordo de um nem de outro e vi que
Michele, que at ento no mostrara nenhum interesse pelo
tenente, parecia agora interessado. O advogado, vendo que o
nazi falava a Michele quase com uma espcie de considerao,
de igual para igual, tambm mudou de atitude: parecia contente
por sentar Michele  sua mesa; chegou a dizer ao tenente: "Ah!
o nosso Festa  um literato... um literato de valor!" E
dava-lhe palmadas no ombro. Mas dir-se-ia ser ponto de honra
para o tenente no ligar nenhuma ao advogado, que era o dono
da casa e o convidara. E continuou, voltado para Michele:
"Vivi dois anos em Roma e estudei a vossa lngua...
pessoalmente, ocupo-me de filosofia>~. O advogado procurou
meter-se na conversa, dizendo a brincar: "Ento deve
compreender porque  que ns, Italianos, encaramos tudo quanto
nos aconteceu ltimamente com filosofia... ah! ah!  isso
mesmo, com filosofia..." Mas mais uma vez o tenente nem sequer
olhou para ele. Agora falava animadamente com Michele, citando
uma quantidade de nomes de escritores e ttulos de livros;
via-se que conhecia bem a literatura e percebi que Michele,
mesmo contra vontade, ia cedendo a pouco e pouco, no digo a
um sentimento de estima, mas pelo menos de curiosidade.
Continuaram assim algum tempo e em seguida, no sei como,
comearam a falar da guerra e do que pode significar a guerra
para um homem de letras ou um filsofo. O tenente, depois de
observar que era uma experincia importante, ou, antes,
necessria, saiu-se com esta: "Mas a sensao mais original e
at a mais estticax>, repito esta palavra esttica, embora
naquela altura no a tivesse compreendido, porque toda a frase
me ficou na memria como que gravada a fogo, "experimentei-a
durante a campanha dos Balcs, e sabe, senhor professor, de
que maneira? Limpando uma caverna cheia de soldados inimigos
com o lana-chamas..." Quando ele proferiu esta frase, ficmos
todos quatro, Rosetta, eu, o advogado e a me, como
petrificados. Depois pensei que talvez aquilo fosse gabarolice
e quis convencer-me que no o tinha feito, que no era
verdade: ele bebera j alguns copos de vinho, tinha o rosto
avermelhado e os olhos um pouco brilhantes, mas no mesmo





instante senti oprimir-se-me o corao e gelei completamente.
Olhei para os outros. Rosetta tinha os olhos no cho; a me do
advogado, nervosa, endireitava com as mos trmulas a dobra da
toalha; o advogado fez como as tartarugas, enterrou a cabeca
na gola do capote. S Michele olhava para o tenente de olhos
bem abertos; ento disse-lhe: "Interessante, no h outra
coisa a dizer, moito interessante... Mas ainda mais original e
esttica, suponho, deve ser a sensaco do aviador que lana
bombas sobre uma aldeia e depois, ao passar, v que onde
estavam casas no resta seno uma nuvem de p..." O tenente,
porm, no era to tolo que no percebesse a ironia daquela
frase de Michele. Passado um momento, declarou: "A guerra 
uma experincia insubstituivel, sem a qual um homem no pode
chamar-se um homem... E, a propsito, senhor professor, como 
que est aqui e no na frente?" Michele retorquiu-lhe com
simplicidade: "Qual frente?" E, por muito estranho que pareca,
0 tenente desta vez no disse nada, limitou-se a lancar-lhe um
olhar mau e voltou-se para o prato.

Mas no estava satisfeito, via-se a uma lgua de distancia;
compreendia que tinha em sua volta pessoas, se no hostis,
pelo menos desfavorveis. Assim, de sbito, deixou Michele em
paz, talvez por no lhe parecer bastante assustado, e atacou
de novo o advogado: "Caro senhor>>, disse mnito empertigado,
indicando a mesa, "aqui nada-se em abundancia, enquanto toda a
gente das redondezas, duma maneira geral, rebenta de fome. O
que fez para adquirir tantas coisas boas?" O advogado e a me
trocaram um olhar significativo, assustado e apreensivo o da
me, tranquilizador 0 do filho; depois este afirmou:
<<Asseguro-lhe que nos outros dias no comemos assim...
fizemo-lo em sua honra." O tenente calou-se um momento e em
seguida perguntou: ~O senhor  proprietrio aqui no vale, no
 verdade?" "Sim, de certo modo, sou." "De certo modo?
Disseram-me que possui metade do vale..." "Oh! No, meu caro
tenente, quem lhe disse isso foi algum mentiroso ou invejoso
ou as duas coisas juntas... possuo uns pomares... ns chamamos
pomares. a estes lindos bosques de laranjeiras." "Disseram-me
que estes pomares rendem bom dinheiro... o senhor  um homem
rico." "Bem, senhor tenente, rico, rico, no... vivo do que 
meu." eE sabe como vivem os camponeses que trabalham para o
senhor?" O advogado, vendo o caminho que a conversa tomava,
respondeu com dignidade: "Vivem bem... neste vale so dos que
vivem melhor..." O tenente, que nessa altura cortava um pedaco
de frango, observou sem sorrir, espetando a faca na direcco
do advogado: "Se estes passam bem, imagine-se como ho-de
viver os que passam mal... Eu vejo como vivem os seus
camponeses. Vivem como animais, en~

156





-

te
ou

casas que parecem chiqueiros, comem como as bestas e vestem-se
de farrapos. Nenhum campons, na Alemanha, vive assim. Ns, na
Alemanha, envergonhar-nos-amos se os nossos camponeses
vivessem dessa maneira.>, O advogado, para agradar  me, que
deitava olhares suplicantes, a pedir: "No lhe ds corda, est
calado", encolheu os ombros e no replicou. O tenente, porm,

I    insistiu: "Que diz, meu caro advogado, a tudo isto? O que
me
I    responde?" O outro desta vez afirmou: "So eles que
querem viver

|    assim, asseguro-lhe, meu tenente   O senhor no os
conhece   " Mas

I    o tenente retorquiu com dureza: "No, vocs, os
proprietrios,  que

querem que os camponeses vivam dessa maneira. Tudo depende
disto", e batia na cabea. "Vocs so a cabea da Itlia e a
culpa 
vossa se os camponeses vivem como animais..." O advogado
estava
mesmo assustado e via-se que engolia a comida com esforo,
como

I    os frangos quando comem  pressa. A me tinha uma
expresso

completamente desvairada e vi-a juntar as mos, s escondidas,
no
regao: rezava, encomendava-se a Deus. O tenente prosseguiu:

j    "Antigamente, eu conhecia apenas algumas cidades da
Itlia, as
!    mais belas, e dessas cidades conhecia s os monumentos.
Mas

agora, graas  guerra, conheo a fundo o seu pais, percorri-o
todo
de ls a ls. E sabe, egrgio advogado, o que lhe digo? Que as
vossas
diferenas de classes so um escfindalo!" O advogado ficou
calado;

I    porm fez um movimento de ombros como quem diz: "E que
tenho
|    eu com isso?" O tenente percebeu e saltou: "No, meu caro
senhor,
~isso diz-lhe tambm respeito, como a todos os outros,
advogados,

I    engenheiros, mdicos, professores, intelectuais   A ns,
Alemes,

por exemplo, indignam-nos as enormes diferenas que h entre
os oficiais e os soldados italianos: os oficiais, cobertos de
ga
loes, vestem uniformes de tecidos especiais, comem comidas
especiais, tm em tudo e para tudo um tratamento especial, pri
vilegiado. Os soldados andam vestidos de farrapos, comem como
animais, so tratados como gado... Que tem a dizer, meu caro
senhor, a tudo isto?" O advogado desta vez falou: "Digo-lhe
que
talvez seja verdade. Eu sou o primeiro a deplor-lo. Mas que
posso
eu fazer szinho?" E o outro, teimoso: "Nao, meu caro senhor,
no
deve dizer isso. A sua responsabilidade  evidente porque, se
o
senhor e todos os que sao como o senhor quisessem verda
deiramente que esta situao mudasse, ela mudaria. Sabe
porque  que a Itlia perdeu a guerra e agora ns, os Alemes,
temos de desperdiar tropas nesta frente italiana? Por causa
dessa
diferena entre soldados e oficiais, entre o povo e os
senhores da
classe dirigente. Os soldados italianos no combatem porque
pensam que esta guerra  a vossa guerra, no a deles. E
manifestam





precisamente a sua hostilidade no combatendo. Que tem a dizer
a j isto, egrgio advogado?" O outro, talvez por raiva, desta
vez conseguiu vencer o medo e pronunciou: " verdade que o
povo no quis a guerra. E eu tambm no. Esta guerra foi-nos
imposta pelo governo fascista. E o governo fascista no  o
meu governo, disto pode o senhor estar certo." Mas o nazi,
levantando a voz: "No, caro senhor, isso  mnito cmodo. Este
governo  o seu governo." "O meu governo? O senhor est a
brincar, tenente..." A me interveio nessa altura: "Francesco,
por favor.,. por amor de Deus!" O tenente insistiu: "Sim, o
seu governo, quer a prova?" "Mas qual prova?" "Eu sei tudo a
seu respeito, meu caro senhor, sei por exemplo que  um
antifascista, um liberal. Apesar disso, o senhor no se
entende com os camponeses e os operrios do vale e entende-se
com o secretrio do fascio... que diz a isto?..." O advogado
encolheu mais uma vez os ombros: "Pois saiba que no sou
antifascista, nem liberal, no me ocupo de poltica, trato
apenas das minhas coisas... E, depois, que tem isso... andei
na escola com o secretrio dofascio, somos quase parentes, a
minha irm casou com um primo dele... Vocs, Alemaes, no
podem compreender certas coisas... No conhecem a Itlia
bem..." "No, caro senhor, esta  uma prova boa e slida...
vocs, fascistas e antifascistas, esto todos unidos uns aos
outros, porque so todos da mesma classe, e este governo  o
governo de todos os fascistas e antifascistas porque  o
governo da vossa classe... hem! Claro, os factos falam por si,
o resto  conversa...~> O suor perlava agora a testa do
advogado, se bem que na barraca fizesse frio; a me, no
sabendo o que fazer, tinhn se levantado, mnito assustada, e
dizia com voz trmula: "Vou preparar-lhes um bom caf..." E
encafuou-se em seguida na cozinha. O tenente entretanto dizia:
"Eu no sou como a maior parte dos meus compatriotas, que so
to estpidos como vocs, Italianos... eles amam a Itlia por
causa dos monumentos e porque as suas paisagens so as mais
belas do mundo... ou porque encontram um italiano que fala
alemo e comovem-se ao ouvir falar a prpria lngua... ou
porque Ihes oferecem um bom jantar, como o senhor me ofereccu
hoje, e ficam amigos. Mas eu no sou como esses alemes
estpidos e ingnuos. Vejo as coisas como elas so e digo-as
de cara a cara, meu caro senhor. "

N o sei porqu, talvez porque aquele pobre advogado me
causava d, disse-lhe de repente, quase sem reflectir: "O
senhor sabe por que razo 0 advogado Ihe ofereceu este
jantar?" "Porqu?' "Porque vocs, Alemes, metem medo a toda a
gente... no h

158`
     




ningum que no tenha medo de vocs... por isso procurou
amans
-lo, como se faz a um animal feroz, dando-lhe qualquer coisa
boa a
comer..." At custa a acreditar, mas ele mostrou por momentos
uma
cara quase triste e amargurada: a ningum, nem mesmo a um
alemo, agrada ouvir dizer que mete medo e que as outras
pessoas
so amveis com ele s por terem medo. O advogado, cheio de
terror, procurou remediar as coisas, intervindo: "Tenente, no
d
ouvidos a esta mulher...  uma pessoa simples, no compreende
certos assuntos..." M as o nazi fez-lhe sinal que se calasse e
perguntou: "E porque  que ns, Alemes, metemos medo? No
somos homens como os outros?" Eu, agora lanada, ia responder
-Ihe: "No, um homem verdadeiramente homem, ou seja, um cris
to, no tem prazer em limpar, como o senhor disse h pouco,
uma
caverna cheia de soldados vivos com um lana-chamas...~' Mas,
por sorte, pois no sei o que da poderia advir, no tive
tempo;
subitamente, comecou no vale um banz de disparos desordenados
e
secos dos canhes antiareos, alternando com os estrondos mais
profundos das bombas que caam. Ao mesmo tempo, o ar enchia-se
de um rumor distante, mas que se aproximava, tornando-se cada
vez mais distinto. O tenente levantou-se imediatamente, excla
mando: "Os avies... tenho de correr para a minha bateria!" E,
deitando ao cho cadeiras e tudo quanto encontrou na passagem,
saiu a correr. O primeiro a recompor-se depois da fuga do
tenente foi
o advogado: "Depressa, depressa, venham... vamos para o
abrigo..."

Levantou-se e saiu da barraca  nossa frente. A um canto do
terreiro
havia uma abertura  flor da terra, protegida por um castelo
de
traves e sacos de areia. O advogado dirigiu-se para l e
comeou a
descer uma escadinha de madeira, repetindo: "Depressa, que
daqui
a instantes esto mesmo por cima de nbs". De facto, sentia-se
aquele
rumor, entre as exploses da antiarea, tornar-se cada vez
mais
:    intenso, como se viesse de trs das rvores que
circundavam a
clareira. Depois tudo acabou e ali ficmos no escuro, num
quarto
subterraneo que parecia ter sido escavado mesmo por baixo da
clareira. "Isto naturalmente no basta para uma bomba>>, disse
o
    advogado, "mas serve pelo menos para nos abrigar das
balas das

metralhadoras... por cima de ns h um metro de terra e os
sacos..."
Estivemos l em baixo no sei quanto tempo, de p, no escuro,
quase sem poder respirar: ouvia-se de quando em quando, mas
muito fraco, um tiro da antiarea, e era tudo. Por fim o
advogado
abriu a portinha, verificou que a calma era completa e samos
para o
ar livre. O advogado apontou-nos alguns dos sacos de areia
rasgados
e furados e apanhou um projctil de lato, do comprimento dum
dedo, dizendo: "Isto, se nos apanhava, matava-nos com
certeza.,> A

159







seguir, erguendo os olhos para o cu: "Benditos avioes, venham
muitas vezes. Oxal nos libertem desse maldito tenente, que 
nesmo I um animal feroz." A me repreendeu-o: "No digas isso,
Francesco. Tambm  um cristo, no se deve desejar a morte a
ningum." Mas o advogado respondeu: "Um cristo? Maldito seja
ele, maldita a sua bateria e maldito o dia em que chegou aqui!
Quando se for embora, hei-de dar um jantar mil vezes melhor do
que o de hoje. E fica entendido, esto todos convidados." E
no se cansava de amaldioar o tenente alemo, com verdadeiro
dio. Tornmos a entrar na barraca e bebemos o caf; depois a
me do advogado ficou com os ovos e deu-nos em troca alguma
farinha e feijes. Por fim despedimo-nos e partimos.

Fazia-se tarde e, como j tnhamos trocado os ovos, eu queria
voltar depressa a Santa Eufmia. No vale s tivramos maus
encontros. Primeiro o russo com os cavalos, depois a pobre
louca, por fim o tenente alemo. Michele, durante o caminho,
disse: "A ouvi-lo falar, fazia-me raiva sobretudo uma coisa."
"O qu?" "Oue tivesse razo, apesar de ser nazi." Eu observei:
"Porqu? Os nazis tambm podem ter razo de vez em quando." E
ele, de cabea baixa: "Nunca!" Queria perguntar-lhe como
explicava que aquele nazi to feroz, que sentia prazer em
queimar gente com o lana-chamas, fosse capaz ao mesmo tempo
de se impressionar com a injustia que reinava na Itlia.
Michele dissera-nos sempre que s sentiam a injustia as
pessoas de bem, os melhores, os nicos que ele no desprezava.
E eis que aparecia aquele tenente, ainda por cima filsofo,
que sentia e censurava a injustia e simultneamente tinha
prazer em matar gente. Seria possivel? Ento, no fim de
contas, a justia no era uma coisa boa? Mas no tive coragem
de Ihe comunicar as minhas reflexes. pois via-o abatido e
triste. Assirn deixmos o vale e chegmos a Santa Eufmia,
oude j fazia escuro h pedao.

1 60





CAPfTULo VII

Num desses dias de Janeiro, continuava a soprar a tramontana
num cu transparente e luminoso que parecia de cristal,
Rosetta e eu ouvimos, ao acordar, um rumor distante e regular,
vindo do fundo do horizonte, dos lados do mar. Era primeiro um
baque surdo, como se o cu tivesse recebido um murro, e depois
um segundo logo a seguir, mais forte e mais claro, que parecia
o eco do primeiro. Brum, brum... Brum, brum... Era assim, sem
parar, mas este som

 misterioso e ameaador parecia tornar, em contraste, o dia
mais belo, o sol mais claro e o cu mais azul. Durante dois
dias aquela

I barulheira no parou nem de noite nem de dia; depois, uma
manh,

I chegou um pastorinho do mato, trazendo um papel impresso que
encontrara numa sebe. Era uma folha dum jornal dos Ingleses,
mas

I escrito em lngua alem, para os Alemes, e, como l em cima
Michele era o nico que sabia alguma coisa de alemo,
levaram-lho. Ele, depois de o ler, explicou-nos que os
Ingleses tinham feito um grande desembarque para os lados de
Anzio, prximo de Roma, e que se travava agora uma grande
batalha com navios, canhoes, carros blindados e soldados... Os
Ingleses avanavam para Roma e, segundo parecia, estavam j s
portas de Velletri. Ao saberem esta notcia, todos os
refugiados caram nos braos uns dos outros, felicitando-se e
beijando-se com alegria. Naquela noite ningum foi para a cama
cedo, como era costume, todos andaram de casa em casa,
comentando o desembarque e regozyando-se com o sucedido.

Os dias seguintes, porm, no nos trouxeram nenhuma novidade.
Aquele rumor surdo do canho continuou,  certo, a ressoar no
fundo do horizonte, para os lados de Terracina; mas os
Alemes, no tardmos a sab-lo, no se iam embora. Passados

I alguns dias, chegaram-nos as primeiras noticias certas: os
In gleses, sim, tinham desembarcado, mas os Alemes mandaram
prontamente contra eles no sei quantas divises e, aps duros
combates, conseguiram det-los. Agora os Ingleses estavam
entnncheirados na praia, num espao bastante reduzido, e os
Alemes faziam fogo para l, com todos os seus canhoes, como
se se tratasse de tiro ao alvo; por aquele andar, depressa
obrigariam os Ingleses a

161





reembarcar nos navios que continuavam ao largo, prontos a
receb-los, no caso de o desembarque ser repelido.

Depois destas notcias, s se viam em Santa Eufmia narizes de
palmo e meio; os refugiados repetiam que os Ingleses no
sabiam fazer a guerra em terra, pois eram s6 marinheiros, ao
passo que os Alemes a tinham no sangue; por isso os Ingleses
no levariam a melhor e os Alemes acabariam por ganhar a
guerra. Michele no falava a este respeito com os refugiados
porque, segundo nos disse, no se queria irritar. Mas a nds
assegurava-nos, com calma, que era absolutamente impossvel os
Alemes vencerem. Quando um dia Ihe perguntei porque pensava
assim, respondeu simplesmente: "Os Alemes estavam j vencidos
quando principiaram a guerra."

Quero contar aqui uma histria para mostrar como estvamos l
em cima sem noticias e como os camponeses, quase todos
analfabetos, deformavam at o pouco que se conseguia saber.
Visto ser difcil conseguirmos dados concretos sobre o
desembarque dos Ingleses em Anzio, Filippo e outro refugiado,
negociante como ele, decidiram pagar a Paride para ir, pelos
atalhos da montanha, a uma aldeia bastante longe, na
Ciociaria, onde havia um mdico municipal que tinha rdio. 
verdade que Paride era analfabeto, no sabia ler nem escrever,
mas tinha ouvidos e podia ouvir a rdio como toda a gente e
pedir explicaes ao mdico. Deram ainda a Paride algum
dinheiro para tentar comprar, pelo caminho, mantimentos:
farinha, feijo, gorduras, tudo o que encontrasse. Paride
albardou o burro e partiu uma manh ao romper da alva.

Esteve fora trs dias e voltou uma tarde  noitinha. Assim que
o viram a descer o monte com o burro pela arreata, todos os
refugiados foram ao seu encontro, e entre eles Filippo e o seu
amigo negociante, que lhe tinham pago para ele ir ouvir a
rdio. Paride, mal chegou ao socalco, disse que no encontrara
nada ou quase nada de comer, por toda a parte havia escassez e
fome como em Santa Eufmia, ou ainda pior. Depois dirigiu-se
para a cabana seguido dum cortejo de gente. Na cabana
sentou-se num banco e em sua volta sentaram-se a familia,
Michele, Filippo e outros; muitos ficaram l fora, porque no
havia lugar, mas queriam  mesma ouvir o que Paride conseguira
saber.

Paride disse que ouvira a rdio, mas esta quase nada adiantava
sobre 0 desembarque, a no ser que os Ingleses e os Alemes
continuavam nas suas posioes e dali no se moviam. Mas falara
com o mdico e com outras pessoas que tinham ouvido a rdio
nos dias anteriores e assim pudera concluir porque  que 0
desembarque falhara. Filippo perguntou-lhe porqu e Paride
respondeu com

162





simplicidade que fora por culpa de uma mulher. Ficaram todos
de boca aberta com tal notcia. Paride prosseguiu e contou que
o almirante que comandava o desembarque era americano, ou,
melhor, na realidade alemo, mas ningum sabia. Este almirante
tir~ha uma filha, linda como as estrelas, que estava noiva do
filho do general que comandava todas as tropas americanas na
Europa. Mas esse filho do general no passava dum patife e
fizera a afronta de romper o noivado, restituindo  filha do
almirante os presentes e o anel para ir casar com outra.
Ento, o almirante, pai da noiva, que era alemo, para se
vingar, informou os Alemes, secretamente, do desembarque, e,
assim quando os Ingleses apareceram diante de Anzio,
encontraram j ali os alemes prontos a receb-los com os seus
canhdes. Mas a traio fora j descoberta, sabia-se de fonte
segura que o almirante era alemo, embora se fizesse passar
por americano; tinham-no prendido e iam julg-lo e com certeza
seria I fuzilado. Estas notcias de Paride dividiram os
ouvintes. Alguns, os

a | mais ignorantes e mais simples, repetiam, abanando a
cabea: ? I "Sabe-se, por trs de tudo h sempre uma mulher...
se procurarmos bem, encontramos sempre saias.. Mas muitos
outros no acreditavam, dizendo que era impossvel que a rdio
tivesse contado aquelas patranhas. Michele limitou-se a
perguntar a Paride: "Ests certo de que essas notcias as deu
a rdio?~ Paride confirmou que o j mdico e outros mais Ihe
asseguraram que tinham ouvido isso nos comunicados da Voz de
Londres. E Michele: "Dize l, por acaso no as terias ouvido a
algum cantor na praa da aldeia7" "Que cantor?' I ~Digo isto
por dizer. Parece uma nova verso da histbria de Gano di
Maganza. Muito interessante, no h dvida..." Paride no
compreendeu a ironia e repetiu que eram tudo noticias dadas
pela rdio; mas eu, pouco depois, perguntei a Michele quem era
esse Gano di Maganza e ele explicou-me que tinha sido um
general do passado, que h muitos sculos traira o seu
imperador numa batalha contra os Turcos. Ento, observei:
"Bem, como vs, so coisas que podem acontecer... no digo que
Paride tenha razo, mas no  completamente impossivel..." Ele
ps-se a rir e disse: "Oxal as coisas se passassem ainda hoje
dessa maneira!..."

Em suma, no nos restava seno esperar, visto que o
desembarque tinha falhado por qualquer motivo. Mas, como diz o
provrbio, quem espera desespera, e nds l em cima, em Santa
Eufmia, durante esse fim de Janeiro e em todo o ms de
Fevereiro no fizemos seno desesperar e morrer cada dia um
pouco mais. O tempo passava, mondtono, tudo se repetia e todos
os dias aconteciam as mesmas coisas que tinham acontecido nos
meses

163





anteriores. De manh era preciso levantar, cortar lenha,
acender o fogo na cabana, fazer a comida e comer; e depois
andar pelos socalcos para enganar o tempo at a hora da ceia.
E todos os dias vinham os avies deitar bombas. Todos os dias
se ouvia, de manh  noite, o martelar daqueles malditos
canhes de Anzio, que disparavam continuamente e parece que
nunca acertavam, pois nem os Ingleses nem os Alemes, segundo
sabamos, avanavam um passo. Cada dia era semelhante ao
anterior; mas a esperana, excitada e impaciente, tornava-o
mais tenso, exasperado, doloroso, aborrecido, interminvel e
enervante. E aquelas horas que, no princpio da nossa
permanncia em Santa Eufmia, parecia passarem to
rpidamente, agora nunca mais findavam e era mesmo um
desfalecimento e um desespero impossvel de descrever.

Contudo, o que contribua para tornar ainda mais exasperante
aquela monotonia era ouvir sempre a mesma conversa: comida, s
comida. Falava-se de comida cada vez mais, talvez porque
houvesse cada vez menos. E nessas conversas no transparecia
s a saudade de quem come mal, mas a inquietao de quem no
come bastante. Agora todos comiam uma nica refeio por dia e
tinham moito cuidado em no convidar os amigos. Como dizia
Filippo: "Amigos at  morte, mas  mesa, nestes tempos, cada
um por si." Os que passavam menos mal eram ainda os que tinham
alguns cobres, isto , Rosetta e eu, Filippo e outro
refugiado, que se chamava Geremia; mas tambm nds, os
"ricaos", como se diz, sentiamos que da a pouco o dinheiro
no serviria para nada. De facto, os camponeses, que, ao
princpio, se mostravam to vidos de dinheiro, pois,
coitados, em tempo de paz nunca o vem, comeavam j a
entender aquele latim e convenciam-se de que afinal o dinheiro
vale menos do que os gneros. Diziam surdamente, quase com
acento de vingana: "Agora chegou a hora dos camponeses...
Somos ns que mandamos porque temos as provises... o dinheiro
no se come..." Mas eu sabia que isto eram gabarolices e s6
gabarolices eles tambm no tinham que comer. No passavam de
pobres camponeses da montanha, que lutam sempre com
dificuldades at  altura das colheitas e, quando chega Abril
ou Maio, tm de arranjar uns patacos para comprar alguma coisa
at o ms de Julho.

Qual era a nossa alimentao? Comiamos, uma vez por dia.
alguns feijes cozidos em gua com uma colherzinha, das de
caf, de banha e um pouco de conserva de tomate, um bocado de
carne de cabra e alguns figos secos. De manh, como j disse,
alfarrobas ou cebolas e uma fatia de po. O pior  que no
havia sal, e isto era terrivel, pois a comida sem sal no se
pode tragar, assim que se mete

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na boca d vontade de vomit-la, to insipida , quase doce,
at parece uma coisa morta e podre. De azeite no havia uma
gota sequer ; de b anha restavam- me d ois dedos no fundo dum
tac ho de barro. De vez em quando l nos saa a sorte grande,
como num dia em que pude comprar dois quilos de batatas. De
outra vez sucedeu-me comprar a uns pastores um queijo de
ovelha com quatrocen tos gramas, duro como pedra, mas bom e
picante. Mas isto era um acaso, uma coisa rara, com a qual no
se podia contar.

O campo, quando chegmos aos primeiros dias de Maro, comeou
a mostrar os sinais da Primavera. Uma manh, por exemplo, ao
debruarmo-nos no socalco, vimos por entre o nevoeiro, na

i    encosta, o primeiro tremular das flores brancas das
amendoeiras:

tinham aberto durante a noite e parecia tremerem de frio,
brancas
como quimeras no nevoeiro cinzento. A ns, refugiados, essa
flora
o pareceu um bom sinal: chegava a Primavera, as estradas iam
secar, os Ingleses recomeariam o seu avano. Mas os
camponeses
abanavam a cabea: Primavera quer dizer fome. Eles sabiam por
experincia prpria que as suas provises no chegavam at a
nova
colheita e procuravam poup-las o mais que podiam, tentando de
todas as formas arranjar qualquer coisa que comer sem as
desfalcar. Paride, por exemplo, punha no mato ratoeiras feitas
com
canas para apanhar pintarroxos e cotovias: mas eram pssaros
to
pequeninos que menos de quatro no chegavam para uma refeio.
I Ou ento procurava apanhar em armadilhas as raposas, que
para
aqueles lados so pequenas e vermelhas como fogo; depois
tirava
-lhes a pele e deixava-as em gua durante alguns dias para
amaciar
a carne, cozinhando-as em seguida com um molho doce e forte,
de
maneira a no se sentir o seu gosto selvagem. Mas o grande
recurso
I    dessa poca era a chicria, no a planta que se come em
Roma com
esse nome e  sempre a mesma, mas qualquer planta boa para
comer. Eu tambm recorria cada dia mais  chicria e algumas
vezes passava manhs inteiras com Rosetta e Michele a
colh-las
nos socalcos. Saltvamos da cama cedo e, cada um com uma
faquinha e um cabaz, iamos pela encosta, ora mais para baixo,
ora
mais para cima das casas, colher as ervas.
    No se faz ideia da grande quantidade de ervas boas para
comer:
so quase todas. J as conhecia por t-las colhido em criana,
mas
esquecera-me quase por completo dos seus nomes e espcies.
Lusa,
a mulher de Paride, acompanhou-me a primeira vez para me
ensinar e bem depressa me tornei to hbil como os camponeses,
conhecendo as vrias espcies uma por uma, pelo nome e pela
forma. Lembro algumas: o mastruco, que na cidade se chama

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agrio, com as folhas e os ps tenros e doces, de um
verde-escuro; o dente-de-leo, que se encontra entre as pedras
dos socalcos, de um verde quase azul, com folhas finas,
compridas e carnudas; a beldroega, que  uma erva achatada,
com quatro ou cinco folhas esmagadas contra o cho, peludas,
verdes e amarelas: a autntica chicdria, com ps compridos e
folhas denteadas e pontiagudas; os poejos; a hortel, as
azedas e no sei quantas mais. Andvamos, como disse, para
cima e para baixo, nos socalcos, e no ramos os nicos,
porque todos colhiam chicria, o que dava  encosta da
montanha um aspecto estranho, toda salpicada de gente a
mover-se dum lado para o outro, de cabea baixa, em passos
midos, como outras tantas almas do Purgatbrio. Parecia que
todos procuravam algum objecto perdido, quando, ao contrrio,
era a fome que os fazia procurar qualquer coisa, no que
tinham perdido, mas sim que esperavam encontrar. Esta colheita
de chicbria durava bastante tempo, duas ou trs horas, e at
mais, porque para fazer uma tigela era preciso colher um
avental cheio, e tambm porque no havia tanta que chegasse
para todos que a procuravam; por isso,  medida que os dias
passavam, era preciso ir procur-la cada vez mais longe e
durante mais tempo. De todo este trabalho, no fim, pouco
restava; uma vez cozidas, as ervas de dois ou trs aventais
cheios ficavam reduzidas a duas ou trs bolas verdes, cada uma
do tamanho duma laranja. Depois de as cozer, eu passava-as na
frigideira por um pouco de banha; isto servia, se no para nos
alimentar, ao menos para nos encher a barriga e enganar a
fome. Mas o trabalho de colher a chicdria deixava-nos
cansadssimas para todo o dia. E  noite, quando me deitava ao
lado de Rosetta na cama dura, em cima do saco cheio de palha
de milho, mal fechava os olhos, em vez de ver o escuro, s6 via
chicdria, plantas e mais plantas de chichria a danarem na
minha frente. E bem me esforava por dormir: durante um bocado
s6 via a chicbria a cruzar-se e a separar-se diante de mim,
at que, depois duma longa sonolencia, adormecia.

Mas, como j disse, a coisa mais aborrecida, neste perodo,
era o facto de a escassez incitar os refugiados a falar todo 0
dia de comida e mais comida. A mim tambm me agrada comer;
reconheo, naturalmente, que comer  uma coisa importante; se
no se come, no se pode fazer nada, nem sequer procurar
comida. Mas h coisas mais importantes, como dizia Michele,
para se conversar: e, alm disso, falar de comida com a
barriga vezia  sofrer um duplo tormento: recorda-se ao mesmo
tempo a fome e a fartura. Filippo, sobretudo, estava sempre
cado nestas conversas.

Algumas vezes, ao passar no socalco, via Filippo sentado numa
pedra e cercado dum grupo de refugiados: aproximava-me e
ouvia-o

166
     




-

dizer: "Lembram-se? Algum telefonava para Npoles, fazia a
marcao duma mesa num restaurante. Depois tomvamos um carro,
uns quatro ou cinco, todos bons garfos, e partamos.
Sentvamo-nos  mesa  uma e s6 nos levantvamos s cinco. O
que comiamos? Ah! Spaghetti de peixe, com lulas, gambas,
ostras;

I    douradas e muges assados ou cozidos com maionese:
peixe-pombo
i    com ervilhas; postas de peixe-espada, de perca ou de atum
na

grelha: polvos  Luciana, que so bem bons. Em suma, peixes de

!    todas as qualidades e com todos os molhos, durante duas
ou

trs horas. Sentvamo-nos  mesa em ordem, irrepreensveis:
levantvamo-nos com os coletes desabotoados, os cintos de
sapertados e arrotos que faziam tremer os vidros: pesvamos,
cada um, mais dois ou trs quilos. E bebamos pelo menos uma
garrafa de vinho por cabea. Ah! Quando tornaremos a essas
comezainas?" Qualquer um dizia ento: "Quando chegarem os
Ingleses. volta a abundancia, Filippo!" Num desses dias em
que,
como de costume, falavam de comida, assisti a uma contenda
entre
Filippo e Michele. Filippo dizia: "Ah! Quem me dera ter agora
um
bom porco para matar e fazer uns belos bifes, bem gordos, da
altura
dum dedo, cada um com o peso de quinhentos gramas... sabem,
quinhentos gramas de porco  coisa de fazer ressuscitar um
morto..." Michele, que, por acaso, estava a ouvir, comentou:
"Seria
mesmo um caso de canibalismo." "Porqu?" "Um porco a comer
outro porco..." Filippo ficou para morrer ao ouvir o filho
chamar-lhe
porco, fez-se vermelho e proferiu, em voz forte: "No
respeitas os
teus pais?!~> E Michele: "No s6 no os respeito, como me
envergonho deles." Filippo Rcou novamente desconcertado com
esse
tom to duro e intransigente e limitou se a observar mais
calmo: "Se
no tivesses tido um pai que te pagasse os estudos, no podias
agora
envergonhar-te de nds... mea culpa." A estas palavras, Michele
ficou
um momento calado e depois disse: "Tens razo... fiz mal em
ouvi
-los... daqui para o futuro estarei a distncia e vocs podem
falar 
vontade de comidas..." Filippo volveu ento, conciliador e
quase
comovido, pois era talvez a primeira vez, desde que estavam l
em
cima, que o Rlho Ihe dava razo: "Se queres, falamos doutra
coisa...
tens razo, que necessidade h de falar em comida?... Falemos
doutra coisa...~> Mas Michele, de sbito, encheu-se de clera
e,
voltando-se, como uma vbora, gritou: "Est bem, e do que
vamos
falar? Do que faremos quando chegarem os Ingleses? Da abun
dancia? Dos neg6cios? Das coisas que o meeiro roubou? Sim, do
que vamos falar?..,>> Desta vez Filippo calou-se, pois eram s6
aqueles, ou poucos mais e semelhantes, os assuntos em que
podia

167





falar; o filho tinha-os dito quase todos e no havia nenhum
outro de que ele se lembrasse. Michele, depois de dizer isto,
afastou-se. Filippo, quando o viu pelas costas, fez um gesto
vago, a significar: " um extravagante, temos de ter pena
dele..." E todos os refugiados procuravam consol lo,
dando-lhe razo: "Filippo, tens um filho que sabe mnitas
coisas... o dinheiro que gastaste com os seus estudos no foi
mal empregado... isto  o importante, o resto no conta..."

Michele disse-nos naquele mesmo dia. um pouco mortificado:
<<Meu pai tem razo, falto-lhe ao respeito. Mas  mais forte
do que eu: quando o oio falar de comida, perco a cabega."
Perguntei-lhe porque o irritava tanto que o pai falasse de
comida. Ele pensou um momento e depois respondeu me: "Se
soubesses que morrias amanh, falavas de comida?" <<No."
<<Pois bem, ns estamos nessas condies. Amanh ou daqui a
anos morreremos. Devemos, ento, enquanto esperamos a morte,
falar s de tolices?" Eu no compreendia bem e insisti: "Mas
de que havemos de falar?" Ele pensou outra vez e retorquiu:
"Da situao em que nos encontramos, por exemplo, deviamos
falar das razes por que viemos aqui parar." "E quais so
essas razes?~> Ele ps-se a rir e respondeu: "Cada um de ns
deve encontr las por si prprio.~> Eu ento disse: ~Ser, mas
o teu pai fala de comida precisamente porque ela falta e somos
forados, por assim dizer, a pensar nela  fora.~> Michele
conclulu: <<Pode ser. A desgraa, porm,  que o meu pai fala
sempre no mesmo, at quando h fartura e no f'alta comida a
ningum."

Entretanto, havia verdadeira falta de gneros e todos agora
procuravam salvar o pouco que tinham; quando falavam uns com
os outros, o seu primeiro cuidado era esforarem-se por
convencer toda a gente de que j no tinham nada. Filippo, por
exemplo, repetia constantemente aos refugiados mais pobres:
<<S tenho farinha e feijes para uma semana... depois, ser o
que Deus quiser. . . "

Ora isto no era verdade e todos sabiam que ele tinha ainda em
casa um saco de farinha e outro mais poqueno de feijes, mas
Filippo, com medo de que 0 roubassem, no convidava ningum a
ir a sua casa e de dia fechava a porta  chave e ia para os
socalcos com a chave no bolso.

Os camponeses, esses, coitados, estavam na verdade quase sem
nada, pois nos outros anos, por essa poca, costumavam descer
a Terracina para comprarem com que viver at a altura das
colheitas. Mas nesse ano havia escassez por toda a parte e
dava-se at o caso de haver mais fome em Terracina do que em
Santa Eufmia. Alm disso, os alemes, sempre que podiam,
deitavam mo ao que apanhavam, no porque fossem todos maus e
ladres, mas

168





simplesmente porque estavam em guerra e a guerra significa
matar e roubar. Por exemplo, num daqueles dias chegou l acima
um soldado alemao szinho, como se fosse em passeio: estava
desarmado. Moreno, de cara redonda e boa, olhos azuis
inquietos e um pouco tristes, andou muito tempo em volta das
cabanas a falar com os camponeses e os refugiados. Via se que
no tinha ms intenes, at mostrava simpatia por toda aquela
pobre gente. Disse que em tempo de paz era ferreiro na sua
terra, na Alemanha, e disse ainda que era um bom tocador de
harmnio. Ento um dos refugiados foi buscar o seu harmnio e
o alemo sentou-se em cima duma pedra e tocou para ns,
cercado de crianas que o ouviam de

i    boca aberta. Tocava mesmo bem e tocou, entre outras
coisas, uma

canoneta que naqueles tempos, segundo parece, era cantada por
todos os soldados alemes: Lili Marlene Era uma canoneta
triste,
quase um lamento, e ao ouvi la pensei que, apesar de tudo,
aqueles
alemes, que Michele tanto odiava e nem sequer considerava
como
homens, tambm eram cristos. tinham mulher e filhos em casa e
tambm odiavam a guerra, que os separava da tamilia. Depois de
Lili Marlene tocou muitas outras rias, sempre tristes, que
comoviam, algumas to complicadas como msicas de concerto. E
ele, de cabea inclinada para o harmnio, todo absorvido a
considerar as teclas que percorria com os dedos geis, dava a
impresso de ser um homem srio que conhecia o valor das
coisas e
no odiava ningum, e, se pudesse, de boa vontade renunciaria
a
fazer a guerra. Bem, este alemo simptico. depois de ter
tocado ai
uma hora, retirou-se, no sem primeiro acariciar a cabea das
crianas, dizendo-nos algumas palavras de conforto, no seu
italiano
arrastado: "Coragem, a guerra vai acabar depressa.~'O carreiro
por
onde desceu passava rente a uma cabana em cuja paliada o
refugiado que l morava pusera a euxugar uma linda camisa aos
quadrados vermelhos e brancos. O alemo parou, apalpou o
tecido
para ver se era de boa qualidade, depois abanou a cabea e
seguiu o
seu caminho. Mas, meia hora mais tarde, ei-lo de volta,
cansado da
subida feita a correr. Vai direito  cabana, tira a camisa da
paliada, pe-na debaixo do brao e l vai ele de novo a
correr pela
encosta em direco ao vale. Compreende-se isto? Foi-se embora
depois de ter tocado harmnio e acariciado as crianas, era um
bom
homem, via-se bem; mas aquela camisa ficara a mo-lo e a
remo-lo
e pelo caminho, enquanto descia, s pensava nela; por fim a
tentaao foi mais forte do que a conscincia e voltou  pressa
l
acima, pegou nela e foi-se de vez. Enquanto tocara harmnio,
fora o
homem que em tempo de paz era ferreiro; quando pegou na
camisa,
era o soldado que no conhece o meu nem o teu e no respeita
nada

169





nem ningum. Em suma, como j disse, a guerra no quer dizer
s matar, mas tambm roubar; e aquele que em tempo de paz no
mataria, nem roubaria por nenhum ouro do mundo, em tempo de
guerra encontra no fundo do corao o instinto de roubar e de
matar que h em todos os homens: mas encontra-o porque o
encorajam a encontr-lo, dizendo-lhe a todo o momento que
aquele instinto  bom e deve obedecer-lhe, doutro modo no
ser um verdadeiro soldado. Ento ele pensa: "Estamos em
guerra... tornarei a ser aquilo que na realidade sou quando
voltar a paz... por agora, deixo-me ir ao sabor da
corrente..." Infelizmente, ningum que tenha roubado e matado,
ainda que seja na guerra, pode esperar vir a ser alguma vez o
que era antes, pelo menos em minha opinio. Seria como se, por
exemplo, uma mulher virgem se deixasse desflorar na iluso de
que podia mais tarde voltar a ser virgem, no sei por que
milagre que nunca sucedeu. Ladres e assassinos uma vez, mesmo
com farda e o peito coberto de medalhas, sero ladroes e
assassinos para sempre.

Os camponeses sabiam que os alemes tinham o costume de deitar
a mo a tudo e por isso arranjaram uma espcie de servio de
alarme: vrios rapazes escalonados pela encosta, desde o vale
at Santa Eufmia. Mal um alemo aparecia no carreiro,
imediatamente o primeiro gritava com quanto flego tinha:
"Malria!~ E outro logo mais acima repetia o grito: "Malria!"
E assim duns para outros iam gritando: "Malria! Malria!"
Ento, quele grito, era um corrupio geral em Santa Eufmia:
um agarrava no saquito dos feijes, outro no da farinha, outro
no pote da banha e outro nas salsichas, e iam todos esconder
esses tesouros no meio das sebes ou dentro das grutas. Algumas
vezes o alemo chegava, era um simples soldado que se
arriscara at l acima no se sabia porqu, andava um bocado
por entre as casas e todos o seguiam em procisso e um ou
outro levava a comdia ao ponto de fazer gestos, com as mos
na boca, como a dizer que tinha fome. Mas mnitas vezes o
alarme era falso e, passada uma hora, como no aparecia nenhum
alemo, os refugiados davam um suspiro de alvio e iam buscar
as suas coisas aos esconderijos.

Mas a verdade  que cada vez escasseava mais a comida e, como
as minhas provises estavam quase no fim, decidi fazer um
esforo srio para arranjar mantimentos; eu tinha dinheiro e
talvez em qualquer lugar menos exposto algum vendesse fosse 0
que fosse Assim, uma bela manh, muito cedo, pusemo-nos a
caminho, Rosetta, Michele e eu, em direco a uma localidade
da montanha chamada Sassonero, que ficava mais ou menos a umas
quatro horas de caminho. Calculvamos chegar l por volta do
meio-dia, fazer as

1 70





nossas compras, se fosse possvel, comer qualquer coisa, e
pormo-nos de novo a andar, para voltarmos a Santa Eufmia
antes do anoitecer.

Partimos ainda o Sol se escondia por trs dos montes, embora
j fosse dia h bocado. Corria um ventinho frio que nos gelava
o nariz e as orelhas e, na realidade, quando chegmos l
acima, encontrmos neve: alguns flocos brancos que se
desfaziam na erva cor de esmeralda. O Sol apareceu finalmente
e passmos a sentir menos frio, o panorama das montanhas da
Ciociaria, salpicadas de neve por baixo do cu luminoso, era
to lindo que parmos um momento a contempl-lo. Recordo que
Michele disse, num suspiro, quase a custo, olhando para os
montes: "Ah! Como  bela a Itlia!" Eu observei-lhe, a rir:
"Michele, dizes isso como se te desagradasse." E ele: "
verdade, desagrada-me um pouco, porque a beleza  uma
tentao."

No planalto tommos por um vago carreiro entre os rochedos,
que no era mais que um rasto na erva: porm, a pouco e pouco
tornava-se bem visvel, seguindo sempre a crista do monte,
tendo dum lado e doutro vertentes em precipcio, uma que
descia ininterruptamente at Fondi, a outra, menos funda, que
ia dar a um vale deserto, todo coberto de espesso mato, O
carreiro, sempre encarrapitado l nos pncaros, ondulava um
bocado em curvas de serpente, depois comeava a descer a meia
encosta para o tal vale selvagem, entre mato e carvalheiras.
Descemos at o fundo desse vale, ou, melhor, dessa garganta
deserta, e durante algum tempo caminhmos ao longo dum riacho
meio escondido nas sebes, o qual produzia, ao correr sobre as
pedras, um leve e alegre rumor naquele silncio profundo. Logo
o carreiro tornava a subir, atingindo do outro lado novo
planalto, e depois descia um pouco, para comear, noutra
montanha, nova subida at um cume nu e pedregoso, com uma cruz
de madeira negra, mnito velha, colocada no meio das pedras,
sabe-se l porqu. Avanando sempre pela crista dos montes,
chegmos por fim a um lugar estranho, que pudemos observar um
momento l do alto, antes de descermos. Era um pequeno plaino,
liso como a palma da mo, estendido em frente duma rocha
vermelha do feitio dum panettone', aqui e alm semeado de
carvalhos e rochedos. Os carvalhos eram grandes e velhos, de
ramos nus e grisalhos, emaranhados no ar, semelhantes a

~ Bolo especialmente fabricado em ~ilo, feito com fannha,
manteiga, acar, ovos e passas de uvas Tem a forma dum
cilindro abaulado no

c~mo.





cabeleiras de bruxas; os rochedos, esses, uns eram pequenos e
outros grandes, mas todos do feitio do po de acar, lisos e
negros, como se os tivessem passado ao torno. Entre os
carvalhos e as fragas, aqui e acol, viam-se cabanas cobertas
de palha enegrecida, a fumegarem, e, em frente das cabanas,
mulheres que costuravam ao ar livre, ou estendiam roupa nas
cordas, a secar, e muitas crianas que brincavam no cho
pedregoso; no se viam homens, pois era uma aldeia de pastores
e quela hora os homens andavam com os seus rebanhos na
montanha. Quando descemos at junto das cabanas, vimos na base
daquela grande rocha em forma de panettone, de que j falei, a
abertura negra duma caverna; uma das mulheres disse-nos que l
dentro havia refugiados. Perguntei-lhe se tinha alguma comida
para vender, mas ela abanou a cabea, taciturna, em sinal
negativo; depois, num tom reticente, acrescentou que talvez os
refugiados pudessem vender-nos qualquer coisa. O que me
pareceu estranho, pois habitualmente os refugiados nao vendem,
compram.

Contudo, dirigimo-nos para a caverna, quando mais no fosse,
ao menos para pedir informaes, visto que das mulheres dos
pastores, selvagens e desconfiadas, era impossvel arrancar
uma nica palavra. O cho,  medida que nos aproximvamos,
estava juncado de grande quantidade de ossos, pequenos e
grandes, misturados com o cascalho, sem dvida os restos das
cabras e ovelhas consumidas por aqueles refugiados; mas alm
dos ossos havia tambm lixo, caixas ferrugentas, farrapos,
sapatos velhos, papis. Parecia um desses terrenos de Roma
destinados a construes, onde se deita o lixo das casas
vizinhas. Aqui e alm viam-se crculos negros de fogueiras com
ties apagados em volta de pequenos montes de cinza. A
entrada da caverna era bastante ampla e, em torno, toda negra
e suja. De pregos espetados na pedra, pendiam panelas, tachos
de cobre, trapos e um quarto de cabra h pouco abatida, do
qual escorria ainda o sangue para o cho.

Quando entrei, confesso, fiquei surpreendida: alta e profunda,
com a abbada enegrecida pelo fumo e o fundo tao escuro que
nem se Ihe via 0 fim, parecia um imenso dormitrio,
completamente cheio de camas e enxergoes, alinhados uns ao
lado dos outros, como num hospital ou numa caserna. L dentro
reinava o mau cheiro caracterstico dos asilos e albergues
para pobres e aquelas camas,  primeira vista, pareceram-me em
desordem, com os lenis revolvidos, sujos de causar medo. Os
refugiados estavam aqui e ali e eram muitos: uns sentados na
beira da cama, coando a cabea ou mnito quietos sem fazer
nada; outros deitados, enrolados nos cobertores; outros ainda
passeando dum lado para o outro no

1 72





pequeno espao livre. Um grupo, sentado em duas camas, em
volta duma pequena mesa, jogava as cartas mais ou menos como
os de Santa Eufmia, com os chapus na cabea e os sobretudos
pelas costas. Numa das camas notei uma mulher seminua que dava
o peito a um nen; mais alm, trs ou quatro crianas,
encostadas umas s outras, im6veis. como mortas, estavam
talvez a dormir. O fundo da caverna. como disse, ficava no
escuro, mas entrenam-se trastes amontoados, numa grande pilha,
provvelmente tudo quanto aqueles pobres refugiados tinham
conseguido trazer consigo quando fugiram.

Junto da entrada da gruta notei uma coisa inslita: um altar
construido com caixas de embalagens e, a cobri-lo, uma linda
toalha bordada. Em cima da toalha, um crucifixo e duas jarras
de prata, nas quais,  falta de flores, tinham posto ramos de
carvalho com toda a folhagem Por baixo do crucifixo, em vez de
santos e outros objectos do culto, vi com estranheza vrios
relgios, talvez uma dzia, alinhados em boa ordem. Eram todos
relgios de tipo antigo, dos que se traziam no bolso do
colete, a maior parte de metal branco, mas dois pareceram-me
de ouro. Junto do altar, num banco, vi o padre. Digo o padre
porque o distingui pela tonsura, pois, quanto ao resto, seria
dificil imaginar que fosse padre. Era um homem duns cinquenta
anos, com rosto moreno, magro e grave. No tinha batina,
estava vestido todo de branco, camisa branca, faixa branca,
calas, ou, melhor, cales  zuavo, meias pretas e sapatos
pretos. Em suma, tirara, sabe-se l porqu, a batina, e ficara
com o que trazia por baixo. Estava imvel, a cabea inclinada
e mos unidas no regaco, mexendo depressa os lbios como se
rezasse. Depois levantou os olhos para mim, que, entretanto,
me aproximara para observar bem o altar; e vi ento que eram
uns olhos desvairados e, ao mesmo tempo, como que privados de
vista.

Disse, baixinho, a Rosetta: " louco", mas sem me admirar,
porque desde h tempos que j no me admirava de nada. Ele,
entretanto, olhava para mim fixamente, com um olhar que a
pouco e pouco ia tomando uma expresso curiosa, como quem
reconhece lentamente uma pessoa. De sbito levantou-se,
pegou-me num brao e disse: "s corajosa, sempre vieste...

relgios."

Voltei-me para a caverna, um pouco confusa, tanto mais que a
mo dele me apertava o brao com fora terrvel, como apertam
as patas dos falces ou dos milhafres. Um dos refugiados que
jogavam as cartas, o qual tinha seguido a cena pelo canto do
olho, gritou sem se voltar: <<Faz-lhe a vontade, d corda aos
relgios... coitado, destruram lhe a igreja e a casa e ele
fugiu com os seus relgios e

Bem, d corda a estes



no raciocina... mas nao faz mal a ningum... podes estar
descansada."

Um pouco mais tranquilas, Rosetta e eu pegmos cada uma em seu
relgio e demos-lhe corda, ou, melhor, fingimos dar, porque
todos tinham corda e trabalhavam muito bem. Ele olhava-nos
como olham os padres, de p, as pernas abertas, as mos atrs
das costas, carrancudo, a cabea inclinada. Quando acabmos,
disse numa voz profunda: "Agora, que Ihes deram corda, posso
finalmente dizer missa... corajosas, corajosas, vieram
finalmente..." Naquele momento aproximou-se de ns outra
habitante da caverna: uma jovem freira, cuja presena me
tranquilizou imediatamente. Tinha um rosto plido, dum oval
perfeito, as sobrancelhas negras muito juntas, formando como
que um trao escuro sobre os olhos negros, brilhantes e
tranquilos, semelhantes a duas estrelas numa noite de Vero. O
que, porm, me fez mais impresso e na verdade me maravilhou
foi o escapulrio e tudo quanto era branco no seu hbito de
freira: imaculado como a neve e, inacreditvel naquele lugar,
engomado na perfeio. Como podia ela apresentar-se assim to
limpa e irrepreensvel naquela caverna imunda? Com boas
maneiras e uma voz doce, voltou-se para 0 padre: "Vamos, Dom
Matteo, venha comer connosco... Mas antes vista qualquer
coisa... no parece bem comer em ceroulas..." Dom Matteo, de
pernas abertas, um verdadeiro zuavo da cabea aos ps, ouvia-a
de boca aberta, os olhos perdidos. Resmungou por fim: "E os
relgios? Quem pensa nos relgios?" A irm volveu, numa voz
tranquila: "Deram-lhes corda; trabalham todos  maravilha,
veja, Dom Matteo, marcam todos a mesma hora, que 
precisamente a hora do almoo." Entretanto, tirara dum prego a
batina preta do padre e ajudava-o a enfi-la, com boas
maneiras, tal como se fora enfermeira dum louco num manicmio.
Dom Matteo deixou que ela lhe vestisse a batina cheia de p6 e
de ndoas; depois, passando a mo pela cabea despenteada, l
foi com a freira, que o amparava pelo brao, para o fundo da
caverna, onde se via em cima dum trip um grande caldeiro
preto a fumegar. Ela disse ento, voltando-se para nds:
"Venham tambm os trs, a comida chega para todos."

Aceitmos e aproximmo-nos do caldeiro, em volta do qual,
neste meio tempo, se tinham reunido mnitos outros refugiados.
Entre eles notei um que parecia descontente e arrogante ao
mesmo tempo, um homenzinho baixo, gordo, muito mal vestido,
todo em farrapos, despenteado e com a barba comprida. Tinha um
rasgo nas calas, mesmo nos fundilhos, e por ele saa-lhe a
fralda da camisa branca. Lamuriava-se, estendendo o prato: "A
mim d-me sempre menos do que aos outros, Irm Teresa; porque
me d

1 74





sempre menos a mim?" A Irm Teresa no Ihe respondeu, estava
atenta a encher as tigelas, dando a todos um bocado de carne e
duas conchas de caldo; mas outro refugiado, um homem de
meia-idade, de bigodes pretos e cara vermelha, disse
sarcsticamente: "Tic, porque no aplicas uma multa 
irm?... s guarda-municipal, aplica-lhe uma multa por te dar
menos sopa do que aos oukos." E depois, rindo para Michele:
"Ns vivemos aqui muito bem: o padre est doido, os polcias
foram deportados para a Alemanha, o guarda anda com a fralda
da camisa fora das calas e o prefeito, que sou eu,  o mais
esfomeado de todos. No h autoridade,  um milagre que no se
matem uns aos outros." A irm respondeu sem levantar os olhos
do caldeiro: "No  um milagre,  a vontade de Deus, que quer
que os homens se ajudem mutuamente." Tic, no entanto,
resmungava: "Dom Luigi tem sempre vontade de brincar... No
sabe que um guarda sem uniforme  um pobreto como qualquer
outro? D-me novamente o uniforme e poderei ento manter a
ordem." E eu pensei que no fundo ele tinha razo. Pelo menos
em certos casos o uniforme  tudo. E at aquela boa irm, com
o seu carcter doce e a sua religio, no teria tanta
autoridade se, em vez do hbito de freira, estivesse vestida
de farrapos, como eu e Rosetta.

Adiante. Comemos a sopa, uma caldaa gorda em que decerto
tinham cozido carne de bode, pois cheirava e sabia a bodum;
apesar da fome, quase no conseguia engoli-la. Enquanto
comamos, ouvimos as mesmas conversas que conheciamos em
demasia: a carestia, a chegada dos Ingleses, os
bombardeamentos, os recrutamentos, a guerra. Por fim, quando
me pareceu o momento propcio, arrisquei-me a perguntar se
alguns deles podia vender-nos quaisquer mantimentos. Ficaram
estupefactos, como j imaginava: no tinham nada; tal como
ns, tambm compravam aqui e alm, ou acabavam por consumir o
que tinham trazido da terra. Mas aconselharam-nos a ir ter com
os pastores que viviam nas cabanas, fora da caverna,
dizendo-nos: " a eles que compramos... tm sempre um queijo
ou um cabrito... vejam se Ihes vendem alguma coisa." Eu
respondi que uma mulher nos indicara a gruta, afirmando que os
pastores no tinbam nada para vender. O prefeito encolheu os
ombros: "Dizem isso porque no confiam em ningum e querem
manter os preos altos. Mas tm os rebanhos e por estes lados
so ainda os nicos que podem vender seja o que for."

Em resumo, agradecemos  irm e aos refugiados a sopa,
tornmos a passar diante do altar cheio de relgios do padre
louco e saimos da caverna. Nesse mesmo instante passava enke a
fraga e as cabanas um pequeno rebanho de ovelhas e cabras
guiado por um homenzarro de tamancos brancos, calas pretas,
faixa na cinta,

1 75





casaco preto e chapu preto. Uma refugiada que estava perto da
entrada da caverna a mordiscar um naco de po e ouvira a nossa
conversa indicou-mo, dizendo: "Olha, aquele  um dos
evangelistas... vende-te queijo se souber que lho pagas bem."
Corri atrs do homem e gritei-lhe: "Tens algum queijo para
vender?" Ele no me respondeu, nem sequer se voltou,
continuando a andar; parecia surdo. Tornei a gritar: "Sr.
Evangelista, vende-me queijo?" Ele ento disse: "No me chamo
Evangelista, chamo-me De Santis." E eu: "Disseram-me que te
chamavas Evangelista." E ele: "No, ns pertencemos  religio
evangelista, assim  que ."

Por fim, l acabou por dizer que talvez pudesse vender-nos o
queijo e seguimo-lo at  cabana. Primeiro meteu as ovelhas
num cortelho ao lado, uma por uma, chamando as pelo nome:
"Bianchina, Paciocca, Matta, Celeste...", e assim por diante;
depois fechou a porta ao rebanho e conduziu-nos  sua cabana.
Era semelhante quela em que vivia Paride, talvez um pouco
maior, mas, no sei porqu, mais triste, mais vazia e mais
fma; ou talvez isto fosse apenas uma impresso causada pelo
seu acolhimento pouco amvel. Em volta do fogo do costume, e
sentadas em iguais bancos e cepos de madeira, estavam mnitas
mulheres e crianas. Sentmo-nos tambm e ele, em primeiro
lugar, ps-se a rezar, juntando as mos; todos o imitaram, at
as crianas. Fiquei pasmada ao v-lo rezar, pois os
camponeses, pelo menos l para os meus stios, raramente rezam
e s o fazem na igreja; mas lembrei-me da resposta dele sobre
a religio evangelista e compreendi que no eram como ns, que
criam em Deus duma maneira diferente. Michele, cheio de
curiosidade, mal ele acabou a orao, perguntou lhe porque
eram evangelistas, e, ao faz-lo, parecia conhecer o
significado dessa palavra.

O homenzarro respondeu que ele e dois dos seus irmos tinham
estado na Amrica a trabalhar e l encontraram um pastor
protestante que os convenceu, e por isso se tinham convertido
 religio evangelista. Michele perguntou-lhe com que
impresso ficara da Amrica e ele volveu: "Embarcmos em
Npoles e desembarcmos numa pequena cidade do Pacfico;
depois fomos de comboio para as florestas, porque tnhamos
sido contratados como lenhadores. Por aquilo que vi, parece-me
um pais de florestas." "Viste alguma cidade?" "No, s aquela
onde desembarcmos, uma cidade pequena... Estivemos dois anos
nas florestas e depois voltmos pelo mesmo caminho para a
Itlia." Michele parecia surpreendido e tambm divertido,
porque, disse-me mais tarde, na Amrica h cidades enormes e
eles s viram rvores e por isso pensavam que a Amrica era
uma floresta imensa... Falaram da

1 76





Amrica ainda durante algum tempo; depois, como se fazia
tarde, eu aludi ao queijo; o homem ento remexeu no escuro,
entre a palha do tecto, e tirou de l dois queijinhos de
ovelha, amarelados, dizendo com toda a simplicidade que, se os
queriamos, custavam tanto. Dei um salto, pois era um preo
como nunca ouvira, mesmo naqueles tempos de carestia, e disse:
"O qu, o teu queijo  de ouro?" Ele respondeu, gravemente:
"No,  melhor do que o ouro,  queijo. O ouro no o podes
comer, o queijo, sim." Michele observou, sarcstico: ~O
Evangelho ensina-te a pedir esses preos?" O homem no
respondeu e eu insisti: "EI pouco, a Irm Teresa, ali na
caverna, disse que Deus quer que os homens se ajudem uns aos
outros.  bonita a vossa maneira de ajudar os homens." E ele,
com cara de bronze, tranquilo: "A Irm Teresa  doutra
religio, nds nfio somos cat61icos." "E o que julgas que  ser
evangelista?", interveio de novo Michele. " vender pelo dobro
do que vendem os que so cat61icos?" E ele, com a mesma
gravidade: "Evangelista, irmo,  observar os preceitos do
Evangelho. Ns observamo-los."

Em suma, tinha sempre uma resposta pronta e no havia nada a
fazer, era mais duro do que uma pedra. Disse-nos, por fim: "Se
querem, posso vender-lhes um cordeiro... bem gordo, para a
Santa Pscoa... tenho-os at de seis quilos. Fao um preo
razovel." Pensei que de facto a Pscoa se aproximava e que um
cordeiro vinha mesmo a prop6sito; perguntei-lhe o preo e dei
outro salto; com esse dinheiro quase poderamos comprar, alm
do cordeiro, a ovelha que o parira. Michele proferiu de
repente: "Sabes o que vocs so, os Evangelistas? Boas pessoas
para matarem os outros  fome." E o homem: "Sossega, irmo, o
Evangelho ensina os homens a amarem-se uns aos outros." Por
fim, desesperada, disse que Ihe comprava o queijo, mas ele
tinha de fazer um abatimento. Sabem o que me respondeu? "Um
abatimento?  o preo mais baixo que posso fazer.  melhor que
o deixes ficar, irm, pois, se o compras ao meu preo, ficars
a querer-me mal e, se eu o vender ao teu, ficarei a odiar-te.
Ora o Evangelho ensina os homens a amarem-se uns aos outros.
Deixa-o ficar e assim continuaremos a querer-nos bem." No fiz
caso desta recomendao e discuti no sei quanto tempo; mas
ele era inflexvel e no houve meio de o convencer; quando o
punha contra a parede, provando-lhe que era um ladro, saa-se
com uma mxima do Evangelho, como. por exemplo: "No te deixes
dominar pela ira, irm, a ira  um ruim pecado." Por fim, l
paguei esse preo exorbitante, obtendo smente que ele nos
desse a mais uma fatia de requeijo, que comemos ali com um
bocado de po. Depois despedimo nos e ele,  porta, se bem que
nos tivssemos separado friamente, saudou-nos assim: "Deus
seja convosco, irmos." Pensei

C, - 12

1 7 7





comigo, quase de mau grado "E a ti que o Diabo te leve para o
Inferno."

Esta caminhada no nos rendeu seno aquele queijo; e pensar
que tnhamos andado tantos quil6metros pelas montanhas e cada
um de nds quase gastara um par de tamancos! ... M as, como
acontece s vezes nestas situaes, da a poucos dias veio a
compensao, sem esforo, como que por interveno da
Providncia: o coveiro, que andava pelas montanhas  procura
de comida, no seu cavalo preto, vendeu-nos por um preo
razovel uma quantidade de feijo-frade. Tinha-o comprado a
uns desterrados jugoslavos que na altura do armistcio fugiram
da ilha de Ponza, escondendo-se num vale vizinho do nosso, e
agora, com medo dos Alemes, iam-se embora no sei para onde e
no podiam levar com eles todas as provises. O coveiro, um
rapaz aloirado, mnito alto e vivo, deu-nos tambm algumas
notcias da guerra, que soubera por esses desterrados.
Disse-nos que numa cidade chamada Estalinegrado, na Rssia, os
Alemes tinham sofrido uma derrota terrivel e que os Russos
Ihes aprisionaram um exrcito inteiro, com todos os seus
generais; Hitler, desencorajado, ordenara ento a retirada.
Acrescentou que era agora uma questo de dias, o mximo de
semanas, e a guerra acabava. Estas notcias encheram de
alegria os refugiados, mas no os camponeses. A maior parte
dos homens de Santa Eufmia que andavam na guerra
encontravam-se mesmo em Estalinegrado e at tinham escrito
dessa cidade, por isso agora mnitas daquelas mulheres temiam
pela vida dos maridos e dos irmos, e com razo, pois a seguir
soube-se que nem um sequer se salvara.

Em todo o mes de Maro, enquanto os dias cresciam e lentamente
a montanha comeava a verdejar e o ar a tornar-se mais ameno,
continuou o bombardeamento de Anzio de um lado e de Cassino do
outro. Estvamos, por assim dizer, a meio caminho entre Anzio
e Cassino e todo o dia e toda a noite ouvamos muito bem os
canhes que disparavam naqueles dois lugares, sem trguas,
como se estivessem ao desafio. Bum, bum... dizia o canho de
Anzio, primeiro com a exploso da partida e depois com a da
chegada; bum, bum... respondia o de Cassino do outro lado. O
cu parecia uma pele de tambor, que repercutia sombriamente
esses estrondos, como quando se d um murro num bombo. Fazia
impresso ouvir semelhante barulho ameaador e lgubre em dias
to lindos; chegava-se a pensar que a guerra fazia agora parte
da natureza, que aquele barulho estava ligado e confundido com
a luz do Sol e que tambm a Primavera sofria, como os homens,
do mal da guerra. Aquele estrondo do canho entrara j na
nossa vida, como os

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farrapos, a carestia, os perigos, e, como nunca parava,
tornou-se, como os farrapos, a carestia e os perigos, uma
coisa normal,  qual nos habituramos, de tal modo que, se
acabasse, como de facto acabou um belo dia. ficariamos
surpreendidos. Isto serve para dizer que nos habituamos a tudo
e a guerra se pode tornar um hbito, e aquilo que nos modifica
no sfio os factos extraordinrios, que acontecem uma s6 vez,
mas sim esse hbito, essa longa aceitao das coisas contra as
quais deixamos de nos revoltar.

Nos primeiros dias de Abril, a montanha estava mesmo bonita,
toda verde e florida, e o ar to ameno que podamos andar fora
de casa todo o dia. Mas naquelas flores que alegravam a vista
ocultava-se para nds, refugiados, a ideia da fome, pois as
flores desabrocham quando as plantas alcanam o mximo de
desenvolvimento, se tornam duras e fibrosas e no se podem j
comer. Em suma, aquelas flores to lindas significavam que o
nosso ltimo recurso, a chicbria, acabara e que, na verdade,
desta vez s6 a chegada imediata dos Ingleses nos poderia
salvar. Tambm as rvores estavam em flor, os pessegueiros, as
amendoeiras, as macieiras, as pereiras, aqui e alm, na
encosta, dir-se-iam pequenas nuvens brancas e cor-de-rosa
suspensas no ar calmo, sem vento; mas tambm no podamos
olhar para essas rvores sem pensar que aquelas flores tinham
de se tornar frutos e os frutos, dos quais nos poderamos
alimentar, s6 estariam maduros da a alguns meses. E o trigo,
que era ainda erva verde, baixo e tenro qual veludo,
produzia-me tambm uma espcie de desfalecimento: ainda se
passaria mnito tempo antes que, crescido e loiro, pudesse ser
ceifado e trilhado, os gros levados ao moinho e a farinha
feita em massa e metida no forno em lindos pes de quilo. Ah!
A beleza pode apreciar-se com a barriga cheia; mas, com a
barriga vazia, todos os pensamentos vo dar ao mesmo e a
beleza parece um engano ou, pior, uma troa.

A propbsito do trigo ainda verde, lembro-me de uma coisa que
nesses dias me deu a noo exacta da carestia. Uma tarde desci
a Fondi, como era costume, na esperana de comprar po; quando
chegtmos ao vale, ficmos varados ao ver tres cavalw do
exrcito alemo que pastavam tranquilamente num campo de
trigo. Um soldado sem divisas, talvez um russo traidor como o
que encontrramos da outra vez, estava sentado na cerca, sem
fazer ada, com uma erva entre os dentes, a guard-los.
Garanto, nunca como nesse momento compreendi to bem o que
significa a guerra e como, em tempo de guerra, o corao deixa
de ser corao e o amor do prximo no existe e tudo 
possvel. Estava um lindo dia. cheio de sol e de flores, e ns
os trs, Michele, Rosetta e eu, de p junto

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`la cerca f Ihvamoc Cif-' hoca aYr rta para aq~f lec trs
cavalos bonitos e gordos que, coitados, sem cuidarem do mal
que os donos os obugavam a fazer, comiam o grao tf !,rr: f `~m
o qual quanGa ma

duro, se fabrica o po dos cristos. Lembro-me que em criana
os meus pais me diziam que o po  sagrado, que  um
sacrilgio deit-lo fora ou estrag-lo, e at  um pecado
volt-lo. Agora via que esse po o davam aos animais, quando
tanta gente no vale e nas montanhas morria de fome. Michele
disse, por fim, exprimindo o sentimento geral: "Se fosse
crente, diria que tinha chegado o apocalipse quando se vem os
cavalos a pastar no trigo. Como no sou, limito-me a dizer que
chegaram os nazis, o que no fundo  talve7 a mesma coica.,`

Nesse mesmo dia. um pouco mais tarde, tivemos a confirmao do
carcter dos Alemes, to estranho e to diferente do nosso,
cheio talvez de grandes qualidades, mas com enormes lacunas,
como se no fossem homens completos.

Fomos outra vez a casa do advogado onde encontrramos aquele
oficial ruim que gostava, como dizia, de limpar as grutas de
inimigos com o lana-chamas. Desta vez encontrmos l outro
alemo, um capito. O advogado, porm, advertiu-nos "Este no
 como os outros,  uma pessoa educada, fala francs, viveu em
Paris e, sobre a guerra, pensa como ns." Entrmos na barraca
e o capito, como fazem todos os alemes, levantou-se  nossa
chegada e apertou-nos a mo, batendo os calcanhares. Era na
verdade um homem fino, um cavalheiro, j um pouco calvo, de
olhos cinzentos, nariz delgado e aristocrtico, na boca uma
expresso altiva; um belo homem, em resumo, que pareceria
quase italiano se no fosse aquele seu ar rigido que os
Italianos nunca tm. Falava bem o italiano e dirigiu-nos uma
quantidade de cumprimentos sobre a Itlia, dizendo que era a
sua segunda ptria e que ia todos os anos para Capri; a
guerra, se no lhe servisse para mais, servia-lhe ao menos
para visitar maitos lugares bonitos da Itlia que ainda no
conhecia. Ofereceu-nos cigarros, informou-se a respe'ito de
Rosetta e de mim, falou por fim da familia e mostrou-nos uma
fotografia: a mulher, uma linda senhora de magnficos cabelos
loiros, e trs meninos, tambm muito lindos, trs anjinhos,
todos loiros. Disse, voltando a pegar na fotografia: "Neste
momento, estes meninos so felizes., Perguntmos porqu e
respondeu que tinham desejado ter um burrinho e ele, dias
antes, comprara um em Fondi e mandara-lho de presente, para a
Alemanha. Entusiasmado, entrou em pormenores: encontrara
exactamente 0 burrinho que procurava, de raa sarda, e, como
era ainda de mama, mandara-o num comboio militar, com um

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soldado encarregado de lhe dar continuamente leite; no comboio
ia tambm uma vaca. E ria, satisfeito, pensando que os filhos
andariam a essa hora a cavalo no burrico, muito felizes da sua
vida.

Ns, o advogado e a me estvamos pasmados: era tempo de
carestia, no havia comida, mas ele arranjara maneira de
mandar um burrinho para a Alemanha e de o alimentar no
trajecto com leite que podia ter sido dado s crianas
italianas, que tanta falta tinham dele. Onde estava o seu amor
 Itlia e aos Italianos se no se apercebia duma coisa to
simples? No entanto, pensei, no fizera isto por maldade, pois
era decerto o melhor alemo que encontrara at essa altura;
fizera-o, sim, porque era alemo e os Alemes, como j disse,
tm uma maneira de ser especial, talvez com boas qualidades,
mas todas pendendo s para um lado, enquanto no outro no tm
nem uma, mais ou menos como certas rvores que crescem
encostadas a uma parede e tm os ramos todos voltados para o
lado oposto  parede.

Michele, agora, que faltava a comida, procurava ajudar-nos de
todas as maneiras, ora abertamente, levando-nos uma parte do
seu almoo ou da sua ceia, ante os olhares de reprovao da
familia, ora s escondidas, roubando para ns as provises do
pai. Por exemplo, um dia mostrei-lhe o po que nos restava, um
po pequeno e, ainda por cima, com dois teros de farinha de
milho. Ele ento disse que dali em diante nos traria po,
pouco de cada vez, tirando-o da caixa onde a me o punha. E
assim fez. Todos os dias nos trazia algumas fatias dum po
ainda branco, sem mistura de farinha de milho nem de smeas,
um po como ningum mais fazia l em cima, embora Filippo
chorasse continuamente a sua misria e dissesse para quem o
queria ouvir que ele e a familia estavam na ltima, reduzidos
a passar fome.

Um dia. no sei porqu, em vez das trs ou quatro fatias do
costume, Michele trouxe-nos dois pes inteiros, tinham cozido
po nessa manh e ele julgava que no dariam pela falta. Mas
deram e Filippo fez um banz dos demnios, gritando que lhe
tinham roubado as provises; mas no disse que eram pes
porque, se o dissesse, desmentia-se, pois andava sempre a
afirmar que j no tinha farinha. Filippo fez uma verdadeira
investigao policial, medindo a altura e a largura da janela,
examinando o terreno em baixo, a ver se a erva estava calcada,
observando os urnbrais para ver se acaso teria caido algum
bocado de cal e por fim convenceu-se de que, dada a paquenez e
a altura da janela, devia ter sido um garoto a entrar em casa
e a praticar o furto, mas que esse garoto no poderia chegar
to alto sem a ajuda dum adulto. De concluso em

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concluso, decidiu que o garoto era certamente um tal
Mariolino, filho dum refugiado, e que o adulto que o ajudara
fora com certeza o pai. Mas tudo teria ficado por ai se
lilippo no comunicasse as suas suspeitas  mulher e  filha.
O que para ele eram apenas suposic,es, tornaram-se
imediatamente certezas para as duas mulheres. Primeiro
deixaram de cumprimentar o refugiado e a mulher, passando na
frente deles sempre caladas e srias; depois deixaram escapar
algumas aluses: "O po hoje estava bom?" Ou: "Tenham cuidado
com o Mariolino... pode quebrar a cabea ao subir s janelas."
Por fim, um dia disseram-lhes de cara a cara: "O que vocs so
 uma famlia de ladres." Comec,ou ento um burburinho que
dificilmente se pode descrever, com gritos e berros que
chegavam at o cu. A mulher do refugiado, mulher pequena e
fraca de sade, desgrenhada, esfarrapada, repetia numa voz
estridente: "Anda! Anda!" Confesso que no sei o que ela
queria dizer. E a mulher de Filippo, por seu lado, gritava-lhe
na cara que eram todos uns ladres. Assim, uma repetindo
aquela nica palavra: "Anda!", e a outra berrando que eram
ladres, continuaram por algum tempo, uma em frente da outra,
num circulo de refugiados, sem se tocarem, como duas galinhas
furiosas. Entretanto, ns as duas, no sem remorsos, estvamos
a trincar o po de Filippo nesse mesmo instante, no escuro,
para no dar nas vistas, um bocado a cada grito das duas
mulheres, e no posso negar que aquele po roubado quase me
parecia mais saboroso que o nosso, precisamente porque tinha
sido roubado e porque o comiamos s escondidas. No entanto,
depois desse dia. Michele teve o cuidado de fazer as coisas de
maneira que a familia no desse conta, uma fatia agora outra
logo, e de facto no tornaram a descobrir os furtos e tambm
no houve mals cenas.

Passou Abril com as suas flores e a fraqueza nos estmagos e
veio Maio com o calor; agora, alm da fome e do desespero,
havia o tormento das moscas e das vespas. Na nossa casota
havia tantas moscas que, por assim dizer, passvamos o dia a
enxot-las e  noite, quando iamos para a cama, elas iam
tambm dormir nas cordas em que dependurvamos os vestidos, e
eram tantas que as cordas ficavam negras. As vespas tinham o
ninho debaixo do telhado e entravam e saiam em nuvens, e ai de
quem Ihes tocasse, picavam sem d6 nem piedade. Suvamos todo o
dia. talvez por causa da fraqueza, e, com o calor, no sei
porqu, decerto porque no podiamos lavar-nos nem mudar de
roupa, apercebemo-nos a certa altura de que parecamos duas
pedintes, daquelas que parecem no ter idade nem sexo e pedem
esmola  porta dos

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conventos. Os nossos vestidos estavam feitos em farrapos e
cheiravam mal; os nossos tamancos (desde h algum tempo que
no tnhamos sapatos) tambm causavam d, consertados por
Paride com bocados de velhos pneus de automvel, e o quartito
tornou-se inabitvel por causa das moscas, das vespas e do
calor; depois de ter sido um refgio no Inverno, era agora
pior do que uma priso.

Rosetta, apesar de toda a sua doura e pacincia, sofria com
esta situao talvez mais do que eu, porque eu nasci
camponesa, mas ela nasceu na cidade. Tanto que um dia
disse-me: "Tu, mam, falas-me sempre em comida... mas eu no
me importaria de passar fome ainda durante um ano contanto que
tivesse um vestido limpo e vivesse numa casa asseada." O facto
 que faltava tambm a gua, porque no chovia j h meses e
ela no podia lavar-se com a gua do poo, como durante o
Inverno, justamente quando tinha disso mais necessidade...

Em Maio soube uma coisa que pode dar uma ideia do desespero a
que tinham chegado os refugiados. Parece que em casa de
Filippo houve uma reunio, na qual participaram s6 os homens,
e durante essa reunio foi decidido que, se os Ingleses no
chegassem nesse ms, os refugiados, que possuam todos armas
-um tinha um rev61ver, outro uma espingarda de caSa, outro uma
faca-, obrigariam os camponeses a pr em comum as provises, a
bem ou  fora. Michele tambm participou na reunio e
protestou logo, disse-nos depois, declarando que se colocaria
ao lado dos camponeses. Um dos refugiados, ento
respondeu-lhe: "Muito bem, nesse caso tratar-te-emos como aos
outros, considerando-te um deles." Em resumo, essa reunio
talvez no significasse l grande coisa, porque, apesar de
tudo, os refugiados eram boa gente e duvido que fossem capazes
de fazer uso das armas; mas serve para indicar o grau de
desespero a que todos tinham chegado. Outros, soube-o mais
tarde, como estava bom tempo e o solo endurecera,
preparavam-se para partir de Santa Eufmia em direco ao Sul,
atravessando as linhas de batalha, ou ao Norte, onde se dizia
que os mantimentos no faltavam. Outros falavam tambm em ir
para Roma, a p, porque, diziam, no campo nos deixam morrer de
fome, mas na cidade ho-de ajudar-nos, tm medo da revoluo.
Em suma, ao calor daquele sol ardente de Maio, tudo se movia,
tudo se esboroava, cada um tornava a pensar em si mesmo e na
prpria pele e muitos estavam at dispostos a arriscar a vida
para sair daquela situao de imobilidade e de espera sem fim.

De repente, um dia qualquer, eis que chegou a grande notcia:
os Ingleses tinham desencadeado a ofensiva a srio e
avanSavam. No

183





posso descrever a alegria dos refugiados, os quais,  falta de
melhor, no podendo beber porque no havia vinho, nem comer
porque no havia comida, se manifestaram abraando-se e
atirando os chapus ao ar. Coitados, mal sabiam eles que o
avano dos Ingleses nos traria ainda mais sofrimentos. As
dificuldades mal tinham comepado.

184



CAPTULO VIII

Quando eu era criana, havia um negociante na minha aldeia que
tinha as solec$es da Domenica Illustrada do tempo da outra
guerra; muitas vezes as folheei, juntamente com os seus
filhos. Tinham lindas gravuras a cores, nas quais se viam as
batalhas de 1915. Talvez por isso, eu imaginava as batalhas
como as vira naquelas ilustraes: canhes a dispararem,
poeira, fumo, fogo; soldados a correrem ao assalto, de
baioneta calada e bandeira ao vento; lutas de corpo a corpo,
homens que caam mortos, outros que continuavam a correr.
Confesso, gostava dessas ilustraes e parecia-me que a
guerra, no fim de contas, no era to m como se dizia. Ou,
melhor, era m, sim; mas para quem gostasse de matar, ou de
mostrar coragem e dar provas de iniciativa e de desprezo do
perigo, a guerra era o elemento prprio. E pensava tambm que
no era admissvel que todos gostassem da paz. Pelo contrrio,
havia muita gente que se sentia bem com a guerra, quando mais
no fosse por poder dar largas aos seus instintos violentos e
sanguinrios. Pelo menos era o que eu julgava, enquanto no vi
a verdadeira guerra com os meus pr6prios olhos.

Num daqueles dias Michele veio dizer-me que a batalha para o
rompimento da frente estava quase no fim; mas eu no o
acreditei, pois, to longe quanto os meus olhos alcanavam,
no via nem sombra dum combate. Estava um dia lindssimo,
sereno, apenas com uma ou outra nuvenzinha cor-de-rosa no
horizonte, quase aflorando o cimo das montanhas, atrs das
quais ficavam Itri, Garigliano, enfim, a frente de batalha. 
direita verdejavam as montanhas, majestosas, sob a luz do Sol;
 esquerda, para l da planura, cintilava o mar, dum azul
sorridente, claro, primaveril. Onde se travava a batalha?
Michele respondeu-me que a batalha estava em curso pelo menos
h dois dias e se desenrolava por trs das montanhas de Itri.
Eu no queria acreditar porque, como sabem, imaginava uma
batalha de maneira muito diferente, e disse-Iho. Michele
ps-se a rir e explicou-me que essas batalhas, que eu tanto
admirara nas capas da Domenica, j no existiam: agora os
canhes e os avies limpavam o terreno de soldados at grande
distncia da verdadeira frente; cada vez mais uma batalha se

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assemelhava  operao que uma dona de casa faz com ~
pulverizad or do flit, matando tod as as mosc as sem suj ar as
mos sem sequer Ihes mexer. Na guerra moderna, afirmou
Michele, n' havia lugar para cargas  baioneta, assaltos,
combates corpo, corpo; o valor individual tornara-se intil;
agora vencia quen possusse maior nmero de canhes que
atirassem mais longe avioes com maior raio de aco e mais
velozes. "A guerra tornou-st um trabalho de mquinas~,
concluiu, "e os soldados pouco mais sc do que bons
mecanicos."

Bem, esta batalha que no se via durou talvez um dia ou dois.
depois, uma manh, o canho deu um salto no espao e ouvimo-l'
to prbximo de nds que fazia tremer as paredes do nosso
cubculc Bum, bum, bum-parecia que disparava mesmo atrs do
lombo d; montanha. Levantei-me  pressa e sa precipitadamente
d, choupana, quase com o pressentimento de ir ver o
corpo-a-corpo d que falei. Mas nada: estava o mesmo dia
lindssimo, sereno e chei, de sol; a nica diferena  que l
longe, no horizonte, para alm do montes que fechavam a
plancie, viam-se uns traos finssimoE vermelhos, como
relampagos, semelhantes a feridas abertas no cu que logo se
dissolviam na imensidade azul. Eram, como m, explicaram, os
projcteis dos canhoes, cujas trajectrias, devido,
momentaneas condies atmosfricas, se podiam distinguir a
olh~ nu. Esses traos vermelhos pareciam mesmo navalhadas no
fir mamento, com sangue a jorrar um segundo das feridas, estan
cando logo de seguida. Vamos primeiro a navalhada; a seguir
che gava at ns o som do disparo; depois ouvamos mesmo por
cimE da cabea um miado furioso e soprado, e, quase ao mesmo
tempo, d~ trs da montanha vinha o estoiro da exploso,
fortssimo, ressoandr no cu como num quarto vazio.
Disparavam, em suma, por cima d~ ns, para algum ou para
qualquer coisa que estava nas nossa' costas, e isto, como nos
explicou Michele, queria dizer que a batalhE mudara para o
Norte e o vale de Fondi j estava livre. Perguntei-lh~ para
onde tinham ido os Alemes e ele respondeu-me que o< Alemes,
decerto, teriam fugido para Roma e que a batalha para ~
rompimento da frente terminara e aqueles canhoes martelavan
agora a retirada dos nazis. Em suma, nada de corpo-a-corpo, d~
assaltos  baioneta, de mortos e feridos...

Naquela noite vimos, porm, que 0 cu, para os lados de Itri
estava mais claro e de vez em quando vermelho, como qu'
iluminado por uma chama imprevista; entretanto, continuavam a.
navalhadas dos tiros dos canhes, qual fogo de artificio no
cu negrc e cheio de estrelas: era uma chuva contnua de
riscos muito finos mas sem as floraoes que coroam os estoiros
dos morteiros; c

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barulho tambm era diferente, mais cavo, mais profundo e
ameaador, e no alegre como o estralejar dos foguetes.
Ficmos a contemplar o cu durante algum tempo e depois,
cansadssimas, fomos para a cama e quase no dormimos: estava
calor e Rosetta no fazia seno falar. De manh, muito cedo,
acordmos com um estrondo fortssimo e muito prximo. Saltmos
da cama e vimos que desta feita atiravam mesmo para cima de
ns. Ento compreendi pela primeira vez que os canhes so bem
piores do que os avioes; estes, ao menos, vem-se e, assim que
os vemos, podemos correr e abrigar-nos ou, pelo menos, ter a
satisfao de ver para onde voam; mas aos canhes nunca os
vemos, esto escondidos para l do horizonte, e, embora no os
vejamos, eles procuram-nos e nunca sabemos onde havemos de nos
esconder, porque o canho nos segue para toda a parte como um
dedo vingador. Aquele barulho, como disse, foi muito prximo,
e de facto informaram-nos de que caira um projctil a pouca
distncia da casa de Filippo. Michele chegou a correr,
dizendo-nos mnito contente que era agora uma questo de horas;
mas eu observei-lhe que morrer podia ser uma questo de
segundos; ele encolheu os ombros e retorquiu que devamos
considerar-nos como imortais. Ia responder-lhe quando ouvimos,
de sbito, mesmo por cima de ns, uma exploso horrvel.
Tremeram as paredes e o cho; do tecto choveu calia e p, e o
ar escureceu um momento, de tal forma que julgmos que o
projctil tinha cado mesmo em cima da casa. Precipitmo-nos
para fora e ento vimos que explodira mnito perto, no socalco,
do qual fizera abater um grande bocado, abrindo um enorme
buraco cheio de terra revolvida e ervas arrancadas. Nfio digo
que Michele ficasse assustado, mas compreendeu que eu tinha
razo ao dizer que para morrer bastavam poucos segundos. Ento
disse-nos que deviamos segui-lo, pois sabia para onde ir; era
preciso, explicou, abrigarmo-nos num ngulo morto. Corremos ao
longo do socalco, at o outro extremo da garganta, e fomos
para uma chosa feita de ramos que servia de abrigo aos
animais, situada por baixo dum esporo rochoso. "Este  um
ngulo morto", disse Michele, muito contente por moskar o seu
conhecimento da guerra, "podemos sentar-nos na erva... os
tiros nunca chegaro aqui." Sim, bom ngulo morto. Mal acabara
de falar, houve uma exploso violentissima e ficmos todos
envolvidos em fumo e p e, por entre o fumo e o p6 vimos a
cabana dobrar-se toda para um lado e depois ficar assim,
inclinada, que at parecia uma daquelas casinhas feitas pelas
crianas com cartas de jogar, que nunca esto direitas. Desta
vez Michele no

angulo morto. Mandou-nos deitar no cho ~

insistiu com o seu
sem se levantar,
gritava-nos: "Sigam-me at a grutavamos para a grutanao se





levantem, arrastem-se como eu." A gruta ficava mesmo por trs
da choa, era mnito pequena, com entrada baixa, e nela os
camponeses tinham improvisado uma capoeira. Rastejmos atrs
dele e, sempre de rastos, entrmos na gruta, por entre as
galinhas, que cacarejavam e fugiam assustadas para o fundo. A
gruta era demasiado baixa para estarmos de p, e assim ficmos
mais duma hora estendidos ao lado uns dos outros, de maneira
que sujmos os vestidos com os excrementos que cobriam o cho,
enquanto as galinhas, depois de readquirirem coragem,
passeavam por cima de ns e nos bicavam os cabelos. Entretanto
ouvamos as exploses seguirem-se umas s outras, em volta de
ns. Eu disse a Michele: "No  nada mau este ngulo morto..."
Por fim, houve ainda uma ou outra exploso, cada vez mais
raras, e depois mais nada, a no ser o canhoneio distante que,
por assim dizer, nos cavalgava e ia martelar outra localidade
por trs de Santa Eufmia. Michele disse ento que os
projcteis que tinham atingido a cabana provvelmente no eram
atirados pelos ingleses, mas sim pelos alemes, com morteiros
de montanha de tiro curvo, e agora podamos sair em segurana,
pois os alemes j no disparavam e os ingleses no atirariam
contra ns. De rastos, como tnhamos entrado, l samos da
gruta e voltmos para casa.

Era j uma hora e pensmos em comer qualquer coisa, um bocado
de po com queijo. Enquanto comiamos, apareceu a correr,
esbaforido, o filho de Paride, dizendo que tinham chegado os
alemes. N o compreendemos logo, porque pensvamos,
lgicamente, que, depois de tantos tiros de canho, deviam
ser. sim, os ingleses a chegar, e insisti com ele, pois era
uma criana e podia ter compreendido mal: "Queres dizer os
ingleses?..." "N o, os alemes." <<Mas os alemes fugiram."
"E eu digo-te que chegaram." Mas Paride veio explicar o
mistrio: chegara efectivamente um grupo de alemes em fuga,
que estavam sentados na palha,  sombra dum palheiro, e
ningum entendia o que eles queriam. Eu disse a Michele: "Oue
nos importam esses alemes?... Estamos  espera dos ingleses,
no dos alemes... Eles que se amanhem como quiserem e
puderem..." Mas Michele, infelizmente, no me deu ouvidos: os
seus olhos adquiriram novo brilho ao ouvir o que contava
Paride. Dir-se-ia que odiava os alemes e era ao mesmo tempo
atrado por eles; naturalmente, a ideia de os ver agora em
fuga e derrotados, depois de os ter encontrado tantas vezes
soberbos e vitoriosos, excitava-o e agradava-lhe. Disse a
Paride: "Vamos l ver esses alemes." E foi. Rosetta e eu
seguimo-lo.

Encontrmos os alemes, como Paride nos dissera,  sombra do
palheiro. Eram cinco e em toda a minha vida nunca vi gente
mais

188





-

fatigada e exausta. Estavam deitados na palha, um aqui, outro
alm, estendidos, as pernas e os braos abertos, como mortos.
Trs dormiam ou, pelo menos, estavam de olhos fechados; outro,
de olhos ahertos, deitado de costas, fixava o cu; o quinto,
tambm estendido, fizera uma almofada com um molho de feno e
olhava a direito na sua frente. Fixei sobretudo este ltimo:
era quase albino, com a pele rosada e transparente, os olhos
azuis circundados de plos quase brancos, os cabelos dum loiro
clarssimo, finos e lisos. Tinha as faces cinzentas de pb e
estriadas de sulcos, como de lgrimas que tivessem rolado por
cima do p, deixando o rasto da sua passagem; as narinas
negras de terra ou no sei de que porcaria; os lbios
gretados, e os olhos circundados de vermelho, com dois traos
negros por baixo que pareciam duas unhadas. Os Alemes,
sabe-se, andam sempre com o uniforme em ordem, muito limpo e
engomado como se tivesse saido nesse momento da naftalina. M
as os uniformes destes cinco estavam rasgados e desabotoados;
parecia at que tinham mudado de cor, como se lhes tivessem
atirado para cima, com violncia, um jacto de poeira ou de
negro-de-fumo. Muitos refugiados e camponeses formavam um
crculo em volta, a alguma distancia, olhando os alemes em
silncio, como se olha um espectculo inacreditvel; eles
permaneciam calados e no se moviam.

Michele aproximou-se e perguntou-lhes donde vinham. Falava em
alemo, mas o albino, sem se mexer, como se a sua nuca
estivesse pregada quela almofada de palha, respondeu devagar
"Pode falar em italiano... conheo o italiano." Michele
repetiu ento a pergunta em italiano e o outro respondeu que
vinham da frente. Michele inquiriu o que tinha acontecido. O
albino, sempre naquela posio de paralitico, separando
devagar as palavras umas das outras, num tom grave, ameaador
e abatido, disse que os cinco eram artilheiros e tinham estado
dois dias e duas noites sob um terrvel bombardeamento areo,
que no s6 os canhes, mas tambm o terreno onde se
encontravam, tinham ido pelos ares, e que, por fim, depois de
terem visto morrer a maior parte dos companheiros, foram
obrigados a fugir. "A frente", concluiu lentamente, <<j no 
em Garigliano, mas mais ao norte e temos de l chegar... mais
ao norte h outras montanhas e resistiremos.,> Mesmo reduzidos
quele estado, mais mortos do que vivos, ainda falavam em
continuar a guerra e resistir!

Michele perguntou ento quem tinha rompido a frente, os
Ingleses ou os Americanos? Foi uma pergunta imprudente, pois o
albino teve um sorriso de escrnio e respondeu: "Que Ihe
importa quem foi? Meu caro senhor, deve contentar-se em saber
que dentro

189


em pouco chegam aqui os seus amigos, e  tudo." Michele fingiu
no se aperceber do tom sarcstico e ameaador e perguntou o
que podia fazer por eles. O albino disse: "D-nos alguma coisa
que comer."

Mas o facto  que estvamos todos na ltima; talvez a nica
excepc,o fosse Filippo; tanto refugiados como camponeses, no
creio que arranjassem maneira de cozer ainda po. Assim,
olhmos uns para os outros, consternados, e eu, interpretando
o sentimento geral, exclamei: "Comer? Mas quem tem alguma
coisa que comer? Se os Ingleses no o trouxerem o mais
depressa possvel, morreremos aqui todos de fome. Esperem
tambm pelos Ingleses e tero que comer."

Vi Michele fazer um gesto de desaprovao, como se me chamasse
"estpida., e compreendi que tinha dito o que no devia. O
alemo entretanto fixava-me, como se quisesse guardar a minha
cara na memria. Disse lentamente: "Um ptimo conselho:
esperar pelos ingleses..." Ficou quieto ainda um instante e
depois, levantando a custo um brao, comeou a procurar
qualquer coisa no peito, debaixo da farda. Em seguida: "J
disse que queremos comer..." Agora apertava na mo uma enorme
pistola negra e apontava-a para ns, sem se mexer, sem mudar
de posio.

Fiquei com um medo terrvel, talvez no tanto pela pistola
como pelo olhar dele, que parecia mesmo o dum animal selvagem
preso numa armadilha e que, no entanto, continua a ameaar e a
mostrar os dentes. Michele no se perturbou e dirigiu-se com
simplicidade a Rosetta: "Vai, corre, v se encontras 0 meu pai
e dize-lhe que te de um po para um grupo de alemes que
precisam." Pronunciou estas palavras duma maneira especial,
como a sugerir a Rosetta que devia explicar que os alemes
pediam o po de pistola em punho. Rosetta correu imediatamente
a casa de Filippo.

 espera do po, ficmos todos ali parados, fazendo crculo em
volta do palheiro. O albino, passado pouco tempo, continuou:
"No precisamos s de po... temos necessidade de algum que
venha connosco e nos indique os atalhos para o Norte, para nos
juntarmos ao nosso exrcito." Michele respondeu: "O atalho 
aquele", e indicava-lhe 0 carreiro escarpado da montanha. O
albino volveu: "Tambm o vejo. Mas no conhecemos estas
montanhas. Temos necessidade de algum. Por exemplo, aquela
rapariga." "(lual rapariga?" "Aquela que foi buscar o po."
Gelou-se-me o sangue nas veias ao ouvir tais palavras: se
levassem Rosetta, em plena guerra, quem sabe o que Ihe
sucederia, quem sabe se a tornaria a ver? Mas Michele disse
logo, sem perder a calma: "Aquela rapariga no  destes
stios. Conhece ainda menos as montanhas do que vocs."

190








-


"Ento", disse o albino, "vir o senhor. O senhor  destes
lados, no ?" Eu queria gritar a Michele: "Diz-lhe que s
forasteiro!", mas no tive tempo. Demasiado honesto para
mentir, ele respondia: "Sou destes stios, mas tambm no as
conheo. Vivi sempre na cidade."

?    O albino quase riu ao ouvir estas palavras e volveu: "A
acredit-lo,

ningum aqui conhece as montanhas. Pois vir o senhor. Ver
como
descobre de repente que as conhece bem." Michele no
respondeu,
limitou-se a franzir as sobrancelhas por cima dos bculos.
Entretanto
Rosetta voltara, cansada, com dois pes pequenos, que ps no
cho,
em cima da palha, estendendo uma mo  frente, exactamente
como
se faz com os animais selvagens em quem no se confia. O
alemo
notou o gesto e disse com uma nota de desespero na voz: "D-me
o
po na mo. No somos ces raivosos que mordam." Rosetta pegou
nos pes e entregou-lhos. O alemo guardou a pistola, pegou
nos
pes e sentou-se.

Os outros tambm se sentaram, e viu-se que no dormiam e
tinham seguido toda a conversa, embora de olhos fechados. O
albino tirou do bolso uma faca, cortou os dois pes em cinco
partes iguais e distribuiu-as pelos companheiros. Comeram
devagar e nds continumos ali em volta sem pronunciar uma sb
palavra. Quando acabaram, e demorou algum tempo, pois comiam,
por assim dizer, migalha a migalha, uma camponesa trouxe-lhes,
em silncio, uma vasilha de cobre cheia de gua e eles
beberam, uns duas e outros at quatro tigelas cheias: estavam
mesmo mortos de fome e de sede. Depois o albino sacou de novo
da pistola.

"Ento", disse, "temos de partir, seno faz-se tarde." Dirigiu
estas palavras aos companheiros, que logo comearam a pr-se
em p, lentamente. Em seguida voltou-se para Michele: "E o
senhor vem connosco, para nos ensinar o caminho."

Ficmos todos aterrados, pois julgvamos que o albino, h
pouco, tivesse dito aquilo por dizer, mas agora, ao contrrio,
via-se bem que o tinha dito a srio. Tambm Filippo ali estava
e assistira em silncio  refeic,o dos alemes. Mas, quando
viu o albino apontar a pistola a Michele, deu um gemido e, com
uma coragem que ningum Ihe conhecia, ps-se entre a pistola e
o filho: "Este  meu filho entendem? E meu filho!"

O albino no disse nada. Fez porm com a pistola um gesto como
para enxotar uma mosca; queria dizer que Filippo se afastasse.
Mas Filippo gritou: "O meu filho no conhece as montanhas,
juro-o pelo Evangelho. Ele l, escreve, estuda, como podia
conhecer as montanhas ?"

O albino volveu: "Ir connosco e acabou-se." Pusera-se em p
e, sem baixar a pistola, apertava o cinto com a outra mo.

191

Filippo olhou-o como se no tivesse compreendido bem. Vi-o
engolir em seco e passar a lngua pelos lbios: devia
sentir-se sutocado; no sei porqu, lembrei-me naquele momento
da frase que ele repetia com tanto gosto: "Aqui ningum 
tolo." Pobrezinho, agora j no era tolo nem esperto, era um
pai e mais nada. Depois de se quedar um momento, como que
fulminado, gritou de novo: "Levem-me a mim! Levem-me em lugar
do meu filho... Eu conheo as montanhas. Antes de ser
comerciante fui vendedor ambulante. Andei por todos esses
montes... Posso gui-los, acreditem!" E voltou-se para a
mulher, dizendo: "Vou eu. No fiquem aflitos, volto amanh,
antes do anoitecer." Juntando a aco s palavras, apertou o
cinto das calas e, compondo na cara um sorriso, que naquele
momento me pareceu mesmo dilacerante, aproxirnou-se do alemo,
ps-lhe a mo no ombro e disse com um desembarao forado:
"Bem, vamos, temos mnito caminho para andar."

M as o alemo no entendia as coisas da mesma maneira.
Respondeu calmamente: "Voc  muito velho. Ir o seu filho, 
o seu dever." E, afastando-o com o cano da pistola, foi at
junto de Michele e fez-lhe sinal, sempre de pistola aperrada,
para seguir em frente: "Vamos!" Um, no sei quem, gritou:
aMichele, foge!" Pois sabem o que fez o alemo? Embora exausto
de foras, ei-lo que se volta, rpido como um raio, para donde
tinha partido o grito e dispara. Por sorte o tiro perdeu-se
nas pedras do socalco; mas o alemo conseguiu  mesma o
objectivo em vista: intimidar os camponeses e os refugiados e
impedi-los de fazerem fosse o que fosse em defesa de Michele.
De facto todos fugiram, aterrados, tornando a formar crculo
um pouco mais longe, e depois olharam em silncio para o
alemo, que se afastava, levando na frente Michele, com o cano
da pistola apontado s suas costas. Partiram e eu conservo
ainda nos olhos, como se a tivesse presente, a cena dessa
partida: o alemo de brao dobrado a apontar a pistola e
Michele a caminhar na sua frente; lembro-me que tinha uma
perna das calas mais comprida, chegando-lhe quase ao salto do
sapato, e outra mais curta, deixando-lhe 0 tornozelo  mostra.
Michele caminhava devagar como se esperasse que ns nos
revoltssemos e Ihe dssemos ocasio de fugir; a maneira como
arrastava as pernas deu-me a ideia de que arrastava atrs dele
uma pesada corrente. A procisso dos quatro alemes, de
Michele e do Albino desfilou por baixo de ns, no carreiro que
conduzia ao vale, e depois desapareceu lentamente no mato.

Filippo, que, como os outros, fugira ao ouvir o tiro, s
parando a alguma distancia, quando viu desaparecer Michele,
deu de repente um rugido e ia lanar-se atrs deles. Os
camponeses e os refugiados

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correram e seguraram-no, e ele continuou a rugir e a repetir o
nome do f~ho, enquanto grossas lgrimas lhe banhavam as faces.
Tinham acorrido tambm a me e a irm, que, no sabendo o que
se passava, pediam explicaes a um e a outro; mas, logo que
compreenderam, puseram-se a chorar e a gritar o nome de
Michele. A irm soluava e repetia, entre soluos: "E agora,
que iam acabar os nossos sofrimentos... agora, que iam
acabar..." Nbs no sabiamos o que dizer, pois, quando h dor
verdadeira, provocada por causas verdadeiras, as palavras no
a diminuem: seria necessrio anular as causas, e isso estava
fora do nosso alcance, Por fim Filippo reanimou-se e disse 
mulher, segurando-a pelos ombros e ajudando-a a andar: "Vers
que volta... decerto... no pode deixar de voltar... indica o
caminho e volta." A filha, mesmo a chorar, dava razo ao pai:
"Vers, mam, volta antes do anoitecer." Mas a me disse o que
muitas vezes dizem as mes nestes casos, e acontece acertarem
quase sempre, pois o instinto das mes  mais forte do que
qualquer raciocnio: "No, no, no volta, tenho o
pressentimento de que no o torno a ver..."

Devo confessar que, com toda aquela barafunda do canhoneio, da
derrota dos Alemes, do rompimento da frente e do fim da nossa
estada na montanha, o que aconteceu a Michele no nos causou a
impresso que devia causar-nos. Tambm julgvamos, ou, melhor,
procurvamos iludir-nos e acreditar que ele voltaria sem
falta, e isto talvez por sentirmos que, se no acreditssemos
no seu regresso, seriamos incapazes de participar na dor dos
Festas como devamos: o nosso pensamento, os nossos coraes
estavam j noutro sitio. Possua-nos por completo essa
novidade to desejada e to esperada da libertaso. Nem nos
apercebiamos de que o desaparecimento de Michele, que tinha
sido para nbs um pai e um irmo, era mais importante at do
que a libertao, ou pelo menos devia t-la tornado amarga e
dolorosa. Mas  assim mesmo: o egosmo, que se conservara mudo
enquanto o perigo existira, agora, que ele desaparecera,
tornava a fazer-se ouvir. E eu prpria, ao dirigir-me para o
casinhoto depois do desaparecimento de Michele, no pude
deixar de pensar que fora uma grande sorte os alemes terem-no
levado em vez de Aosetta. No fim de contas, o seu
desaparecimento dizia respeito sobretudo  familia, ns
estvamos em vsperas de abalar, talvez para sempre, e nunca
mais os veriamos, voltariamos para Roma e recomearamos a
nossa vida, e desse tempo passado na montanha s nos
lembrariamos de longe em longe, um pouco distraidamente,
dizendo uma para a outra: "Lembras-te de Michele?... E
lembras-te de Filippo, da mulher e da filha?... Que ser eito
deles?"

193





Naquela noite dormimos as duas abraadas, apesar do calor,
talvez porque o canho continuava a disparar e os tiros caiam
ali perto de vez em quando; parecia-nos que, se fssemos
atingidas, ao menos assim morreriamos juntas. Dormimos  uma
maneira de dizer, dorrnitvamos cinco ou dez minutos e logo um
tiro mais forte nos fazia saltar e sentar na cama; ou ento
acordvamos, sem motivo, agitadas e nervosas.

Rosetta estava preocupada com Michele, e agora compreendo que
ela, ao contrrio de mim, sentia que o seu desaparecimento era
muito mais grave do que eu pretendia fazer-lhe acreditar.
Assim, de vez em quando, ouvia-a perguntar-me no escuro:
"Mam, que faro eles a Michele?" Ou ento: "Mam, acreditas,
na verdade, que Michele volta?" Ou ainda: "Mam, o que ser
feito daquele pobre Michele?" Eu, por um lado, sentia que ela,
no fundo, tinha razo para se preocupar, mas, por outro, quase
me zangava, pois, como j disse, parecia-me que a nossa estada
em Santa Eufmia findara e no deviamos portanto pensar seno
em ns as duas. Assim, respondia-lhe ora uma coisa, ora outra,
procurando sempre sosseg-la, e por fim, impaciente,
disse~lhe: "Agora dorme, tanto mais que no podes fazer nada
por ele, mesmo que no durmas. De resto, estou certa de que
no Ihe fazem nenhum mal. A esta hora Michele j vem a caminho
para junto de ns." Rosetta pronunciou ainda, quase a dormir:
"Pobre Michele!' E foi tudo; depois destas palavras adormeceu.

Na manh seguinte, quando acordei, vi que Rosetta no estava
ao meu lado. Corri para fora de casa: era j tarde, o Sol ia
alto e apercebi-me de que o canhoneio cessara e em toda a
parte havia grande movimento. Os refugiados andavam dum lado
para o outro, uns despedindo-se dos camponeses, outros
transportanto coisas, alguns seguindo j em fla indiana pelo
carreiro abaixo, em direco a Fondi. Senti de sbito um medo
terrivel, pensei que Rosetta, por qualquer motivo que eu no
sabia, tivesse desaparecido tambem, como Michele, e comecei a
correr e a cham-la. Ningum queria saber de mim, no me davam
ateno; ento percebi que, tal como eu procedera com Michele,
procediam agora os outros comigo. Rosetta no estava ali e
todos cuidavam apenas de si prprios, ningum queria sequer
parar para me ouvir o que tinha acontecido. Por sorte, a
mulher de Paride chegou a porta da cabana e gritou-me: "Mas
que queres tu de Rosetta? Ela est aqui connosco, a comer a
polenta., Respirei de alvio e, um pouco mortificada, entrei
na cabana e sentei-me com os outros em volta da mesa onde
estava a terrina da polenta. Como de costume, ningum falava,
e eu tambm no falei; os camponeses pareciam, como sempre,
absorvidos de

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todo no acto de comer, mesmo naquele dia em que tinham
acontecido e estavam para acontecer tantas novidades. S6
Paride, exprimindo um pensamento comum, disse a certa altura,
sem tristeza, como se dissesse que o tempo estava bonito ou
outra frase semelhante: "Com que ento, l voltam para a
cidade a fazer vida de senhoras... e nds ficamos neste
penar...* Limpou a boca, pegou num pcaro de gua, bebeu-a e
saiu, como fazia todos os dias, sem se despedir sequer. Eu
disse  famlia de Paride que iamos preparar as nossas coisas,
mas voltariamos para nos despedirmos. E sa com Rosetta.

Agora s6 tinha um desejo, grande, impaciente e jubiloso: ir-me
embora dali o mais depressa possvel. No entanto disse, no
sei porqu: " preciso ir a casa dos Festas para saber o que
aconteceu a Michele." Disse-o contrariada, pois podia dar-se o
caso de Michele no ter voltado e receava que a dor dos~Festas
viesse perturbar a minha alegria. Mas Rose~tta respondeu
tranquilamente: "Os Festas j c no esto. Foram-se embora
esta manh, de madrugada. E Michel'~ n~in voltou. Esperam
encontr-lo na cidade."

Senti um grande alivio ao ouvir estas palavras, no menos
egosta da que a minha contrariedade de pouco antes, e disse:
"Bem, s6 nos resta fazer as malas e abalarmos o mais depressa
possvel." Rosetta ento acrescentou: "Eu levantei-me de
madrugada, tu ainda estavas a dormir, e fui dizer adeus aos
Festas. Coitados, estavam mesmo desesperados... Para eles,
este dia to lindo  bem triste, pois Michele no voltou..."
Calei-me um momento, pois de repente senti vergonha de mim
prpria; Rosetta era mnito melhor do que eu: levantara-se de
prop6sito de madrugada e fora a casa dos Festas, no tendo
tido medo que a dor deles estragasse a sua alegria. Disse-lhe,
ento, abraando-a: ~Rica filha, s mnito melhor do que eu e
fizeste aquilo que eu no tive coragem de fazer. Sentia-me to
feliz por chegar ao fim deste tormento, que quase tinha medo
de ir a casa dos Festas..." Ela respondeu: ~Oh! No me custou
nada, fui l porque gostava de Michele. Custava-me, sim, se
no tivesse ido... Toda a noite no preguei olho, no fiz
outra coisa seno pensar naquele pobre rapaz... E a me dele
tinha razo: no voltou..."

Agora era preciso partir. Quando chegmos ao nosso tugrio,
tirmos para fora as duas malas de fibra que trouxramos de
Roma e metemos nelas os poucos farrapos que ainda possuiamos:
umas saias, duas camisolas de malha feitas l em cima com
agulhas e a l grossa dos camponeses, algumas meias e lenos.
Guardei tambm o que nos restava de provises, o queijo de
ovelha comprado ao evangelista, um quilo ou pouco mais de
fe~ijo-frade e um pequeno po escuro, o ltimo, feito de
farelo e farinha de milho. Hesitei ainda

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se devia levar os dois ou trs pratos e copos que comprara aos
camponeses, mas decidi deixar-lhos e pousei-os em boa ordem em
cima do peitoril da janela. E era tudo. Fechei as malas,
sentei-me um momento na cama, ao lado de Rosetta, olhando em
volta para o pequeno quartito, que j tinha o aspecto triste e
vazio das casas que vo ser abandonadas para sempre. Agora no
me sentia to alegre e impaciente; experimentava, antes, uma
sensao de angstia. Pensava que quelas paredes sujas,
quele cho lamacento, ficavam ligados os dias mais amargos e
terriveis da minha vida, e sofria ao deix-los, embora o
desejasse. Os nove meses que passara naquele casinhoto,
vivera-os dia a dia. hora a hora e minuto a minuto com a
intensidade da esperana e do desespero, do medo e da coragem,
da vontade de viver e do desejo de morrer. Sobretudo, esperava
uma coisa, a libertao, anseio ao mesmo tempo belo e justo,
que possua, alm disso, o mrito de interessar aos outros
tanto como a mim. Compreendi ento que quem vive  espera duma
coisa como esta vive com mais intensidade do que os que no
esperam nada. E, aprofundando o meu pensamento, pensei que o
mesmo se podia dizer de todos os que esperavam coisas ainda
mais importantes, como a volta de Jesus  Terra, ou o triunfo
da justia para os pobres. E, digo a verdade, quando sa dali
para me ir embora definitivamente, pareceu-me abandonar, no
digo j uma igreja, mas um lugar quase sagrado, porque l
dentro tinha sofrido mnito e, como disse, tinha esperado e
desejado no s6 por mim, mas tambm pelos outros.

Pusemos as malas  cabea e dirigamo-nos  cabana dos
camponeses, para lhes dizer adeus, quando entre a gente que se
encontrava no socalco houve de sbito uma debandada geral.
Desta vez, porm, no era o canho que se ouvia ao longe, como
o trovo dum temporal que se afasta, mas um tiquetique
regular, preciso, furioso, que se diria vir do mato, l de
cima, do cume da montanha. Um refugiado parou um momento para
nos gritar: "As metralhadoras! Os alemes disparam as
metralhadoras sobre os americanos!" E continuou a correr.
Agora todos tinham fugido para se esconder nas grutas e nos
buracos e ns as duas estvamos szinhas no meio do socalco e
aquele tiquetique no parava, antes parecia tornar-se mais
insistente. Durante um momento tambm eu pensei em correr para
qualquer abrigo; mas depois nasceu em mim uma revolta enorme,
no queria recomear, exactamente quando ia descer para Fondi,
a vida de medo que fizera durante esses nove meses, e disse,
raivosa, a Rosetta: "As metralhadoras... sabes 0 que te digo?
Que no me interessam nada e vou para baixo na mesma." Rosetta
no respondeu; tambm ela, com o tdio e a fadiga, se

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-

tornara corajosa. Renuncimos, por isso, a ir dizer adeus aos
camponeses que nos tinham hospedado durante tanto tempo e
agora estavam escondidos sabe Deus onde. E, sem fazer caso das
metralhadoras, tommos pelo carreiro que descia para o vale,
andando sem pressas. Comemos a descer, um socalco a seguir a
outro, e,  medida que descamos, notvamos que afinal
fizramos bem em no nos escondermos; agora o tiquetique j
no se ouvia e tudo parecia normal: um lindo dia de Maio como
os outros, com o sol a escaldar, as sebes a cheirar a rosas
bravas e a p e as abelhas a zumbirem nas sebes, tudo como se
no houvesse guerra.

Mas a guerra existia e bem depressa vimos os seus sinais.
Primeiro encontrmos dois soldados que julguei serem
americanos, mais por aquilo que nos disseram do que pelos
uniformes, que eu no conhecia. Eram dois jovens baixos e
morenos e vieram quase de encontro a ns, saidos do meio do
mato. Um disse "Hello!,> ou coisa parecida; o outro pronunciou
umas palavras em ingls que no compreendi. Cruzaram-se
connosco e depois, abandonando o carreiro, comearam a trepar
pelo mato, curvados, a espingarda na mao, os olhos voltados
para cima, sob a sombra do capacete, em direco ao cume,
donde vinha o tiquetique das metralhadoras. Estes foram os
primeiros americanos que vimos e foi por acaso; mas toda a
guerra, agora que penso nisso,  uma srie de acasos; tudo
acontece sem razo; se damos um passo para a esquerda,
matam-nos; se, ao contrrio, o damos para a direita, estamos
salvos. Disse a Rosetta: "Viste-os? Aqueles so americanos.~>
E Rosetta: "Julgava-os altos e loiros, e afinal so morenos e
baixos.~, Naquele instante no soube o que havia de responder,
mas mais tarde vim a saber que no exrcito americano h gente
de todas as raas e de todas as cores: negros e brancos,
loiros e morenos, altos e baixos. Aqueles dois. disseram-me
depois, eram italo-americanos, e havia muitos, pelo menos no
corpo de exrcito em operaoes naquela regio.

Continuando a descer, encontrmos um posto da Cruz Vermelha. 
sombra duma alfarrobeira, fora do carreiro: um leito, um
armrio com medicamentos e alguns soldados. Precisamente nesse
momento, outros dois soldados traziam ao posto um companheiro
ferido, estendido de costas numa maca. Parmos a olhar esses
dois maqueiros, que subiam com dificuldade em direcao ao
posto. O ferido tinha os olhos fechados e parecia morto. Mas
no estava morto; os que o levavam falavam-lhe, como que a
dizer-lhe que tivesse pacincia, que faltava pouco para
chegarem, e ele fazia um ligeiro sinal com a cabea, como que
a responder que compreendera e no se afligissem. Mas, ao ver
esta cena, naquela encosta, com o sol, o mato florido que
escondia at a cintura os dois homens que

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carregavam a maca, quase se pensava que no s aquele ferido
no estava ferido, mas tambm aqueles soldados no eram
soldados e o posto da Cruz Vermelha no era um posto da Cruz
Vermelha, em suma, que tudo aquilo no era verdadeiro, mas uma
cena estranha e absurda que no se podia explicar e no
significava nada. Disse a Rosetta: "Aquele foi ferido pelas
metralhadoras... podamos ter sido nds..." Creio que o disse
para me convencer que as metralhadoras existiam na verdade e 0
perigo era real e srio. Mas no estava mnito convencida
disso.

Adiante. Socalco a seguir a socalco, chegmos l abaixo, 
encruzilhada junto ao no, onde ficava a casita onde outrora
morava o pobre Tommasino. A ltima vez que vramos esse lugar,
estava deserto, como todos os lugares sob o domnio dos
Alemes, os quais conseguiram, no sei porqu, fazer o deserto
em sua volta: para onde eles iam, toda a gente se escondia e
desaparecia. Agora, pelo contrrio, via-o apinhado de gente,
camponeses e refugiados, uns a p, outros em burros e mulas,
todos carregados de coisas e descendo, como ns, da montanha
para voltarem s suas casas. Juntmo-nos a essa multido. Iam
todos alegres e falavam uns com os outros como se se
conhecessem h muito tempo. Diziam: "Acabou a guerra...
acabaram os tormentos... chegaram os Ingleses... chegou a
abundancia..." e outras frases semelhantes.

Enfim, dir-se-ia terem esquecido os anos de sofrimento. Assim
caminhando, chegmos a uma encruzilhada onde a estrada
principal cortava outra estrada que se dirigia para o monte e
aqui encontrmos a primeira coluna de americanos. Marchavam em
fila indiana, e desta vez, sim, vi que eram na verdade
americanos, isto , diferentes tanto dos Alemes como dos
Italianos. Tinham uma maneira de andar arrastada, indolente,
quase descontente; cada qual levava o capacete de sua maneira:
um inclinado para o lado, outro para os olhos, outro para a
nuca; muitos iam em mangas de camisa e todos mastigavam
pastilhas elsticas. Parecia que faziam a guerra de m
vontade, no entanto sem medo, mesmo como gente que no nasccu
para fazer guerra, ao contrrio dos Alemes, por exemplo, mas
que a faz porque a isso  arrastada pelos cabelos. No olhavam
para nds; via-se a uma lgua de distncia que j no tinham
conta as estradas de montanha por eles percorridas, apinhadas
de gente carregada de embrulhos, em lindas manhs como aquela,
desde que desembarcaram em Itlia; estavam calejados, como se
costuma dizer. Desfilaram durante no sei quanto tempo, em
direco aos cumes, lentos, mnito lentos, sempre no mesmo
passo igual. Por fim passaram os ltimos trs ou quatro,

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-

que pareciam ainda mais cansados e aborrecidos, e ns
retommos a estrada principal.

Esta estrada levava a Monte San Biagio, uma terra
encarrapitada nas alturas que fecham ao norte o vale de Fondi;
pouco mais adiante entroncava na estrada nacional, na Via
pia, segundo creio. Quando chegmos  Via pia, ento  que
ficmos de boca aberta diante do espectculo do exrcito
americano em movimento. Dizer que a estrada estava  cunha
seria dizer muito pouco, e at no seria exacto porque no era
uma multido o que enchia a estrada, eram carros de toda a
espcie, pintados de verde, com a estrela branca de cinco
pontas, a estrela da Amrica, bastante diferente da grande
estrela da Itlia, que, dizem, nos d sorte, mas smente isso,
ao passo que a estrela americana d fora e poder queles que
a seguem. Disse carros, e no automveis. E de facto havia ali
carros de todas as formas e feitios, to juntos que quase nem
se mexiam. Pequenos automveis de ferro, descobertos,
apinhados de soldados com a espingarda entre as pernas; carros
de assalto gigantescos, couraados e com canhes a tocarem nos
ramos dos pltanos que sombreavam a estrada: camies pequenos
e grandes, fechados e abertos; carros de assalto mais
pequenos, quase brinquedos, mas tambm com um potente canho
apontado para o alto; at vages inteiros, enormes, blindados,
com cabinas onde se entreviam quadros cheios de botes,
alavancas e fios elctricos. Garanto que quem no viu avanar
numa estrada o exrcito americano no faz ideia do que seja um
exrcito. Esse rio de carros grandes e pequenos, todos com uma
estrela branca, at parecia uma obsesso, avanava lentamente,
mais devagar que o passo dum homem, parando a cada instante e
retomando depois a marcha, como os carros no Corso, em Roma, 
hora de maior movimento. E por toda a parte soldados
amontoados, nos carros de assalto, nos automveis, nos
camies, sentados e em p, sempre com aquele ar paciente de
indiferenga, quase de aborrecimento, e sempre a mastigarem
pastilhas elsticas; alguns liam uns jornaizinhos cheios de
figuras. Entre um carro e outro metiam-se as motocicletas, com
um ou dois motociclistas, todos vestidos de coiro, e estes
eram os nicos que andavam depressa e podiam correr e pareciam
ces de pastor que se agitassem em volta dum enorme rebanho
lento e preguioso. Ao ver esta procisso de carros to juntos
que, se atirasse uma moeda para o meio deles, no cairia no
cho, admirei-me que os Alemes no aproveitassem aquele
momento para aparecerem com os seus avies e fazerem um
massacre. E isto principalmente fez-me compreender que os
Alemes tinham perdido na realidade a guerra; j no podiam
fazer mal, tinham-lhes cortado

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as unhas e os dentes, que num exrcito so os canhes e os
anes. E foi ento que compreendi o que  a guerra moderna.
No o corpo-a-corpo que tanto admirara nas ilustraes da
guerra de 1915, mas uma luta distante e indirecta: primeiro os
avies e os canhes limpam o terreno com bombas e projcteis;
depois surge o grosso das tropas, que raramente estabelece
contacto com o inimigo e se limita a avanar cmodamente, os
soldados sentados em autom6veis e camies, a espingarda entre
as pernas, mastigando pastilhas elsticas e lendo jornais
ilustrados. Algum me disse mais tarde que em certos sitios
estas tropas tiveram grandes baixas. Nunca em luta com outras
tropas, mas sim castigados pelos canhes que contra elas
atiravam, procurando det-las.

Atravessar ou seguir por esta estrada, nem p~ nsar nisso:
seria como atravessar um rio caudaloso no seu ponto mais
fundo. Assim, voltmos para trs, como mnitos outros, e,
chegados a uma estrada secundria, tommos a direco da
cidade. Chegmos l em dez minutos, mas tambm ai no vimos
possibilidades de parar. Todas as casas estavam por terra, em
grandes montes de ruinas; e onde no havia ruinas havia
enormes buracos cheios de gua estagnada; no pouco terreno
desimpedido pululavam e cirandavam soldados americanos,
refugiados e camponeses. Era como uma feira, smente no havia
nada para vender nem para comprar, a no ser a esperana em
dias melhores, e aqueles que podiam vender essa esperana, ou
seja, os americanos, pareciam indiferentes e distantes e os
que a queriam comprar, os camponeses e os refugiados,
dir-se-ia que no sabiam como fazer tal aquisio. Andavam em
volta dos americanos, interrogando-os em italiano, e eles no
compreendiam e respondiam em ingls; ento os camponeses e os
refugiados iam-se embora, desiludidos, para dai a pouco
recomearem, com igual resultado.

Diante duma casa que ficara intacta no se sabe como vi grande
balbrdia e aproximei-me. Alguns americanos estavam na varanda
do segundo andar e deitavam  rua, para os refugiados e
camponeses, caramelos e cigarros, e eles apressavam-se a
apanh-los, brigando uns com os outros, rojando-se no p...
Era mesmo uma indecncia. Via-se bem que no fundo no se
importavam mnito com esses caramelos e cigarros e, se bulhavam
com tanta fria, era por suporem que os americanos esperavam
que se comportassem assim. Em resumo, respirava-se j naquelas
primeiras horas a atmosfera que mais tarde tive ocasio de
observar em Roma, durante todo o periodo da ocupao aliada:
os Italianos mendigavam para agradar aos Americanos e os
Americanos davam para agradar aos Italianos,

200


-



-

e nem uns nem outros compreendiam que no proporcionavam assim
nenhum prazer. Penso que certas coisas ningum as deseja e
sucedem espontaneamente, cOmo que por acordo tcito. Os
Americanos eram os vencedores e os Italianos os vencidos. isso
explica tudo.

Aproximei me dum carro militar parado no meio daquela
multido: estavam l sentados dois soldados, um de cabelos
ruivos, com sardas e olhos aznis, e o outro moreno, de cara
amarelada, nariz aguado e lbios delgados. Pedi-lhes:
"Digam-me, como se vai para Roma?" O ruivo nem sequer olhou
para ns, mastigava a sua pastilha elstica e estava absorvido
na leitura dum jornalzinho: mas o moreno rebuscou nos bolsos e
tirou um mao de cigarros. Eu gritei: "Qual cigarros nem meio
cigarros! Ns no fumamos! Digam-nos s se h um meio de ir
para R oma.n "Roma?", repetiu o moreno por fim. "No Roma." "E
porqu?" "Alemo em Roma." Entretanto revistava os bolsos e
desta vez tirou caramelos. Mas eu tambm Ihos recusei.
dizendo-lhe: "Se queres dar-nos alguma coisa, d-nos po. Para
que queremos ns caramelos?  para nos adoarem a boca? No o
conseguirs, ficar amarga ainda durante moito tempo." Ele no
compreendeu e tirou debaixo do banco uma mquina fotogrfica e
fez um gesto como quem diz que queria tirar-nos uma
fotografia. Desta vez perdi a pacincia e gritei-lhe: "Ah!
Queres tirar-nos o retrato assim, rotas e sujas, que at
parecemos duas selvagens? Muito obrigada, guarda a tua mquina
fotogrfica." Como ele insistisse, tirei-lhe a mquina das
mos e pu-la no banco. como que a dizer: "Deixa-te disso."
Desta vez ele compreendeu e voltou-se para o companheiro,
falou-lhe em ingls, e o outro respondeu de m vontade, sem
levantar os olhos do jornal. Depois o moreno voltou-se para
ns e fez-nos sinal que subssemos: obedecemos e o ruivo, como
quem desperta, pegou no volante e ps o carro em movimento. O
automvel partiu como um foguete por entre a multido, que se
afastava. Entrou na cidade, galgando montes de entulho,
atravessando poas de gua: via-se que era um carro militar
que podia andar por toda a parte. O moreno entretanto
observava os ps de Rosetta, que trazia tamancos como eu. Por
fim perguntou: "Sapatos?" E inclinou-se at tocar nos
tamancos. Depois, com a mo, seguindo os atilhos, foi-lhe
apalpando a perna. Eu ento dei-lhe uma palmada forte,
dizendo: "Eh! A mo para baixo... So tamancos, sim, que tm
de especial?... Mas no deves aproveitar-te para apalpar as
pernas  minha filha." Ele ainda desta vez fingiu no
compreender e, indicando os tamancos de Rosetta, pegou de novo
na rnquina fotogrfica e inquiriu: "Fotografia?"
Respondi-lhe: "Andamos de tamancos, mas no queremos que nos
tires fotografias.

201





Naturalmente ias dizer depois l para a tua terra que todos
ns, Italianos, usamos tamancos e no conhecemos sapatos...
Vocs tm l peles-vermelhas; o que diriam se ns os
fotografssemos e dissssemos depois que os Americanos andam
todos com penas na cabea, como se fossem galinceos? Sou
ciociara e orgulho-me disso; mas para ti sou italiana, romana,
ou o que quiseres, mas no estejas a maar-me com as tuas
fotografias." Por fim ele compreendeu que no devia insistir e
pousou a mquina. Entretanto, aos saltos, passando por cima
dos escombros ou transpondo lagos de gua suja, o autom6vel
atravessou a cidade e chegou  praa principal.

Aqui estava uma grande multido, sempre a mesma balbrdia de
feira, e sobretudo muita gente em volta duma casa que devia
ser a sede da comuna e que por milagre no tinha rudo: apenas
um ou outro buraco e algumas fendas na fachada. O ruivo, que
at a no dissera uma s6 palavra e nem sequer olhara para
n6s, fez-nos ento um sinal para descermos; obedecemos; o
moreno desceu tambm, disse-nos que esperssemos e desapareceu
no meio da multido. Voltou da a pouco com outro americano
fardado, um rapaz que parecia mesmo italiano, moreno, de olhos
brilhantes e dentes brancos e certos, que me disse logo: "Eu
sabo falar italiano." E continuou a discorrer naquilo que
julgava ser italiano e era, quando mnito, um dialecto
napolitano dos mais vulgares, falado pelos carregadores no
porto de Npoles. Mas, como nos entendia e se fazia entender,
disse-lhe: "Ns as duas somos de Roma e queremos voltar para
l. Explica-nos pois o que temos de fazer para ir para Roma."
Ele ps-se a rir, mostrando todos os dentes branqussimos, e
respondeu: "A nica maneira  vestirem-se de soldados, subirem
para um carro de assalto e virem tomar parte na batalha que
vai travar-se para a conquista de Roma." No fiquei l muito
satisfeita e perguntei: "Mas vocs no a ocuparam j?" E ele:
"No, esto l ainda os Alemes. E, mesmo que a tivssemos
ocupado, no poderiam ir enquanto no chegassem ordens a esse
respeito. Sem ordens, ningum pode ir para Roma." Senti o
sangue ferver e grirei de novo: " esta a vossa libertao?
Morrer de fome e no ter casa, como antes ou pior do que
antes?" Ele encolheu os ombros e disse que havia razes de
fora maior, era a guerra. Mas acrescentou que, quanto a
morrer de fome, estava tudo previsto para que nos territbrios
por eles ocupados ningum morresse de fome: e, como prova
disso, ia-me dar qualquer coisa de comer. De facto, sempre a
sorrir com aqueles dentes brilhantes, disse-nos que o
segussemos; assim, entrmos atrs dele na sede da comuna e
encontrmos l o fim do mundo, impossvel de descrever, gente
que se empurrava e

202





-

     nbs, gritava e protestava ao fundo dum grande salo
branco onde havia
     tm  uma mesa muito comprida. Atrs da mesa estavam
alguns
     ~s e habitantes de Fondi com braadeiras brancas e, em
cima da mesa,
     s na montes e montes de caixas de conservas americanas.
     >-me O oficial talo-americano guiou-nos at l e, graas
 sua
     mas  autoridade, conseguimos que nos entregassem algumas
daquelas
     ele  caixas. Lembro-me que nos deram seis ou sete de
carne com
     ina. Iegumes, duas de peixe e uma grande caixa redonda,
com o peso
     ; ou pelo menos de um quilo, de compota de ameixas.
Resumindo,
     .de e     metemos as caixas dentro da mala e samos para
a rua aos
empurres e encontres. Os dois soldados do autom6vel j
tinham
     ia de     desaparecido. O oficial fez-nos uma amvel
saudao militar, com
     ;er a     um sorriso, e tambm desandou.
     n ou Comemos a andar por entre a multido, sem destino,
como
     no  todos os outros. Agora, com aquelas caixas na mala,
sentia-me mais
     nto tranquila, porque ter comida  o principal; e
diverti-me ento a
     am, olhar o espectculo de Fondi libertada. Pude assim
notar algumas
     .do.     coisas que me fizeram compreender que a
situao era muito
     que  diferente do que tinhamos imaginado l em cima em
Santa Eufmia,
     ~ntes     quando espervamos a chegada dos Aliados. No
havia aquela
     " E  famosa abundncia de que todos falavam. Os
Americanos davam
     ~ndo cigarros e caramelos, de que parecia terem na
verdade grande
     ~elos     reserva; mas, quanto ao resto, via-se bem,
mostravam-se muito
     ~azia     mais parcimoniosos.
     ~ltar     Alm disso, a atitude destes americanos,
confesso, no me
     ma." agradava. Eram amveis, sim, e por isso preferia-os
em qualquer
     ~s, e     caso aos Alemes, que de amveis no tinham
nada; mas a sua
     irem amabilidade era indiferente e distante, tratavam-nos
como crianas
     vai  terriveis que aborrecem as pessoas crescidas e por
isso  necessrio
     ita e     mant-las sossegadas, precisamente com os
caramelos. Mas
     ,o l     algumas vezes nem sequer eram amveis. Para se
fazer uma ideia
     no  vou contar um incidente a que assisti. Quem quisesse
entrar n
     Sem  cidade precisava de um salvo-conduto ou, pelo menos,
de estar
     ritei     ligado aos trabalhos que Italianos e Americanos
tinham comeado j
     asa, para remediar os estragos causados pelos
bombardeamentos. Por
     lisse     acaso encontrvamo-nos, Rosetta e eu, num lugar
da estrada
     que, principal onde havia um posto de guarda, com dois
soldados e um
     nos  sargento. Vimos aproximarem-se dois italianos, dois
senhores. via
     omo  -se pelas suas maneiras, embora ambos estivessem
tambm mal
     ~re a     vestidos. Um deles, um velho de cabelos
brancos, disse ao sargento:
     nos; "Somos engenheiros e o comando aliado mandou-nos
apresentar
     l o hoje para os trabalhos." O sargento, um tipo forte,
com cara rapada
     va e e rude que parecia um punho fechado, perguntou:
"Onde est o

203





salvo-conduto?" Os dois olharam um para o outro; o velho
respondeu: "No temos salvo-conduto... disseram-nos s que nos
apresentssemos..." O sargento, ento, corr. maus modos,
comeou a gritar: <<E apresentam-se a esta hora? Deviam
apresentar-se de manh, s sete, como todos os outros
operrios." "S nos disseram h pouco", declarou o mais novo,
um homem duns quarenta anos, magro e distinto, nervosssimo,
com um tique que lhe fazia inclinar um pouco a cabea para o
lado, como se tivesse torcicolo. "Mentira, vocs so uns
mentirosos!" "Veja como fala,~, disse o mais novo, ressentido.
<<Este senhor e eu somos engenheiros e..." Ia continuar, mas o
sargento interrompeu-o com estas bonitas palavras: "Cala a
boca, trapalho... seno dou-te dois bofetes que te fao j
fechar o bico..." O engenheiro mais novo, como notei, devia
ser bastante nervoso e tais propsitos produziram-lhe o mesmo
efeito que se tivesse recebido as duas bofetadas. Fez-se
branco como um papel e por momentos pensei que ia atirar-se ao
sargento. Por fortuna, o velho interveio, conciliador,
trocaram-se mais algumas palavras e l acabaram por passar.
Incidentes semelhantes vi alguns nesse dia. E devo afirmar que
eram sempre provocados pelos soldados americanos ou, melhor,
talo-americanos. Os verdadeiros anglo-americanos, quero
dizer, os altos, loiros, magros. comportavam-se de maneira
diferente: distantes, sim, mas educados e respeitosos. Mas
estes talo-americanos eram uma desgraa, com eles nunca se
sabia o que se havia de fazer. Talvez, por se sentirem muito
semelhantes aos Italianos, quisessem convencer-se de que eram
diferentes e melhores e, para se distinguirem, nos tratassem
mal; ou por terem rancor  Itlia, donde tinham ido para a
Amrica, nus e vagabundos: ou ento, como na Amrica no eram
mnito considerados, talvez quisessem fazer-se valer ao menos
uma vez na vida: em suma, o caso  que eram os mais grosseiros
ou, se se prefere, os menos amveis. Todas as vezes que tive
de pedir alguma coisa aos Americanos, roguei sempre a Deus que
me aparecesse qualquer um, nem que fosse um negro, mas no um
talo americano. Alm disso, gabavam-se de saber falar o
italiano e falavam todos uns dialectos da baixa Itlia, como 0
calabrs, 0 siciliano, ou 0 napolitano, e custava a
compreende-los. Conhecendo-os melhor, descobria-se que eram,
no tun (ie contas, boa gente. Mas 0 pumeiro contacto era
sempre desagradvel.

Bem, mas adiante. Andmos ainda algum tempo entre os
escombros, no meio da multido de italianos e de soldados, e
depois tommos pela estrada principal, onde havia ainda
algumas casas intactas, pois os bombardeamentos tinham
atingido principalmente

204
     




-

a cidade. No stio onde a montanha lanava na planicie uma
espcie de espigo e a estrada fazia uma curva em sua volta
vimos uma casinha. A porta estava aberta e eu disse a Rosetta:
"Vamos ver se esta noite podemos ficar ali." Subimos trs
degraus e encontrmos uma nica diviso completamente vazia.
Talvez noutros tempos as paredes tivessem sido brancas; mas
agora estavam mais sujas do que as dum estbulo. Entre as
manchas de fuligem, as gretas e os buracos havia mnitos
desenhos feitos a carvo: mulheres nuas, caras de mulher e
outras coisas que no digo: as indecencias que os soldados
costumam desenhar nas paredes. A um canto, no cho, um monto
de cinzas e muitos ties apagados e negros indicavam que
tinham acendido ali o lume. Nas duas janelas no havia vidros
e s restava uma persiana; lembrei-me que aqueles tices
talvez t'ossem os restos da outra. Em resumo, disse a Rosetta
que, por duas ou trs noites, nos convinha acomodar-nos ali;
vira, da janela, um palheiro, no terreno ao lado; iramos l
buscar um bragado de palha e, bem ou mal, faramos com ela uma
cama. Lenis e cobertas no tnhamos, mas estava o tempo
quente e podamos dormir vestidas.

Dito e feito: fizemos como pudemos uma limpeza ao quarto,
tirando a maior porcaria, e depois fomos ao campo e trouxemos
uma poro de palha, a suficiente para fazer uma cama. Disse a
Rosetta. " estranho que ningum tivesse pensado ainda em
instalar-se aqui." A explicapo do facto tivemo-la da a
pouco, quando samos para a estrada que contornava a montanha.
A curta distncia da casa havia uma espcie de largo e um
grupo de rvores. Pois bem, descobrimos que os Americanos
tinham colocado a trs canhoes to grandes como durante toda
a guerra nunca vi outros iguais. Estavam apontados para o cu
e tinham canos er~ormes, largos na base como grossos troncos
de rvores, adelgaando cada vez mais para o cimo, pintados de
verde-garrafa e tao compridos que desapareciam entre a
folhagem dos grandes pltanos, sob os quais se ocultavam.
Montados sobre rodas e lagartas, possuam quadrantes cheios de
rodelas, botes e alavancas, que faziam pensar que devia ser
complicadssimo o seu manejo;  volta estavam no sei quantos
camies e carros blindados, nos quais, como nos disseram uns
camponeses, que tambm estavam ali a ver, se guardavam os
projcteis, que, a avaliar pelos canos, deviam ser tambm
enormes. Dos soldados que guarneciam a bateria, uns estavam
deitados na erva, de barriga para o ar, outros empoleirados
nos canhes, todos em mangas de camisa, todos jovens e
despreocupados, como se estivessem ali num piquenique, e nao
na guerra: uns fumavam, outros mastigavam pastilhas elsticas,
outros liam jornais. E um dos camponeses disse-nos que os
soldados tinhari





avisado todos os habitantes das proximidades que, se ficassem
em suas casas, corriam srios riscos, pois podia dar-se o caso
de os Alemes contra-atacarem com algum bombardeamento areo
e, se atingissem os canhes, todas aquelas munies podiam ir
pelos ares, matando os que se encontrassem num raio duma
centena de metros. Compreendi ento porque  que aquela casota
estava desabitada, apesar da falta de casas que havia em
Fondi, e disse: "Parece-me que saltmos da frigideira para
cima das brasas, como se costuma dizer. Estamos aqui em perigo
de ir pelos ares juntamente com estes rapazes." Mas havia sol,
hana aquela calma dos soldados em mangas de camisa, deitados
na relva, havia todo aquele verde e aquele ar ameno dum lindo
dia e parecia mesmo impossvel que se pudesse morrer, e ento
acrescentei: "Bem, no importa... no morremos at agora,
tambm no morreremos desta vez. Ficamos na casinha." Rosetta
fazia sempre o que eu queria e disse que por ela no se
importava: Nossa Senhora tinha-nos protegido at a e havia de
continuar a proteger-nos. E assim prosseguimos tranquilamente
o nosso passeio.

Era como se fosse domingo e houvesse feira e todos quisessem
saborear em santa paz um lindo dia de festa. A estrada estava
cheia de camponeses e soldados e todos fumavam cigarros e
comiam caramelos americanos e gozavam o sol e a liberdade como
se as duas coisas fossem uma s, e o sol sem liberdade no
desse luz nem calor, e a liberdade no existisse enquanto
durava o Inverno e o Sol estava escondido pelas nuvens. Tudo
era natural, em resumo, como se o que acontecera antes tivesse
sido contra a natureza e finalmente, passado tanto tempo, a
natureza recuperasse os seus direitos. Conversmos com mnita
gente e todos diziam que os Americanos tinham distribudo
mantimentos e j falavam em reconstruir Fondi e fazer dela uma
cidade muito mais bonita do que era; agora todos os males
tinham passado, no havia nada a temer... Rosetta
atormentava-me para saber notcias de Michele, pois ficara-Ihe
esse espinho cravado no corao, apesar de tantas alegrias.
Perguntei por ele a vrias pessoas, mas no consegui saber
nada. Agora, que os Alemes tinham partido, ningum queria
pensar em coisas tristes. Tambm eu, quando abandonei Santa
Eufmia, tive medo de ir despedir-me de Filippo, que, de
todos, era o nico que no podia estar alegre. As pessoas
diziam: "Filippo? Deve andar a organizar o mercado negro." Mas
do filho ningum sabia, chamavam-lhe "o estudante', e
compreendi que o consideravam um mandrio e um original.

Nesse dia comemos o recheio de uma daquelas caixas de
conservas com um bocado de po que nos deu um campons, e

206





depois, como apertava o calor, no tnhamos nada que fazer e
estvamos cansadissimas, fomos para a casota, fechmos a porta
e deitmo-nos na palha a dormir. Acordmos em sobressalto, a
meio da tarde, com uma exploso fortissima: as paredes tremiam
como se no fossem de tijolo, mas de papel. Fiquei primeiro na
dvida sobre a origem da exploso, mas, passados uns cinco
minutos, ouvi outra, no menos violenta, e ento compreendi:
os canhes americanos, a cinquenta passos de nbs, entravam em
aco. Se bem que j tivssemos dormido algumas horas,
estvamos ainda bastante cansadas e ali ficmos estendidas ao
canto do quarto, abraadas em cima da palha, entontecidas,
incapazes at de falar. O canho continuou a disparar toda a
tarde. Depois da primeira surpresa, comecei a dormitar e, no
obstante a violencia terrivel das exploses, ouvia-as muito
longe, numa sonolncia, e os tiros misturavam-se estranhamente
s minhas reflexes, e estas, por assim dizer, seguiam o ritmo
dos tiros. O troar do canho era regular e os meus pensamentos
adaptaram-se depressa a essa regularidade e o barulho no os
perturbava. Primeiro uma exploso violentissima, profunda,
rouca e dilacerante, como se a prpria terra vomitasse o
projctil; todas as paredes tremiam e caam do tecto, em cima
de ns, bocadinhos de calia. Depois, tudo ficava em silncio,
mas por pouco tempo; de repente, outra exploso fazia tremer
de novo as paredes e cair a calia do tecto. Rosetta no dizia
nada, apertava-se contra mim, mas eu pensava e no podia
deixar de pens ar, embora fossem pens amentos c arregados de
sono e estivesse de olhos fechados. Confesso, aquelas
exploses enchiam-me de alegria e a minha alegria aumentava a
cada exploso. Pensava que aqueles canhes disparavam contra
os Alemes e os fascistas e compreendi ento pela primeira vez
que odiava os Alemes e os fascistas. Aquelas exploses no me
pareciam de canhes, mas sim de qualquer fora natural, como o
trovo ou o alude. Aqueles tiros to regulares, to montonos,
to obstinados, reflectia, punham em fuga o Inverno e os
sofrimentos e os perigos e a guerra e a carestia e a fome e
todas as coisas ms que os Alemes e os fascistas tinham feito
chover sobre as nossas cabeas durante anos e anos. Pensava:
"Queridos canhes... abenoados canhes... canhes de ouro.; e
acolhia cada exploso com uma sensao de alegria que me fazia
estremecer o corpo todo; e notava cada silncio quase com
medo, receando que os canhes no disparassem mais...

De olhos fechados, parecia-me ver um salo enorme, o mesmo que
vira mnitas vezes reproduzido nos jornais, um salo com muitas
e belas colunas e numerosas pinturas, cheio de fascistas de
camisa negra e de nazis de camisa castanha, todos na posio
de sentido,

207





como diziam os Jornais. E atrs duma mesa enormssima estava
Mussolini, com aquela carantonha large, aqueles olhos grandes,
aqueles lbios grossos, o peito coberto de medalhas, um
penacho branco na cabea e ao lado dele esse outro alma do
Diabo, o seu amigo Hitler, com a sue care de feiticeiro,
bigodinho negro, que parecia mesmo uma escova de dentes, olhos
de peixe podre e nariz aguado e aquela madeixa de valento
das dzias caida pare a testa. Via esse salo como o vi sempre
nas fotografias, e podia distinguir todos os pormenores como
se l estivesse: os dois atrs da mesa, mnito direitos, em p,
e, de um lado e outro, fascistas e nazis,  direita os
fascistas, todos de negro, os desgraados, sempre de negro,
com uma caveira branca nos barretes pretos;  esquerda os
nazis, como os vi em Roma, de camisas castanhas, a braadeira
vermelha com aquela cruz negra que parecia um bicharoco a
correr com as quatro pates, as cares gordas sombreadas pela
pale do bon, as barrigas ensacadas dentro das calas de
mortar. Eu olhava, olhava e divertiam-me aqueias cares de
safados impunes, de almas do Diabo, e depots, de sbito,
voltava em pensamento pare junto dos canhes que estavam ao
lado da casinha, ocultos nos pltanos, e via ento um soldado
americano, no em posio de sentido, sem cruzes penduradas,
sem camisa preta ou castanha, nem caveira no bon, nem punhal
enfiado no cinto, nem polainas brilhantes, nem sodas as outras
coisas com que se ornamentavam os Alemes e os fascistas, mas
simplesmente vestido e, como fazia calor, com as mangas da
camisa arregaadas. E esse rapaz americano, calmamente, a
mastigar uma pastilha elstica, pegava sem presses num
projctil enorme, enfiava-o na culatra do canho, manobrava as
alavancas dos comandos e o canho disparava, rugindo e dando
um salto pare trs, e ento no sonho entrava o ruido do canho
verdadeiro, que disparava realmente, e o sonho no era sonho,
mas realidade. E eu seguia em pensamento aquele projctil que,
assobiando e miando, fendia o ar e depots via-o cair de
repente no salo, fazendo ir pelos ares fascistas e nazis,
Hitler e Mussolini, com sodas as sues caveiras e penachos, as
sues cruzes, os seus punhais e as sues polainas. E esta
exploso dava-me uma alegria profunda e eu compreendia que uma
tal alegria no era boa porque era a alegria do dio, mas no
podia deixar de a sentir, via-se teem que eu odiara sempre os
fascistas e os nazis sem o saber, e agora, que o canho
disparava contra eles, estava contente. Assim, duma exploso
pare outra, ia e vinha, em pensamento, do salo ao canho e
deste ao salo novamente, e sodas as vezes voltava a ver as
cares de Mussolini e de Hitler e dos tascistas e dos nazis e
depots a do artilheiro americano, e sodas as vezes tambm
experimentava a mesma alegria, mas nunca ficava

208





saciada. Mais tarde ouvi falar muito de libertao e
compreendi o sentido dessa palavra porque nesse dia a senti no
prprio sangue, uma sensao fsica de bem-estar semelhante 
que algum sente ao ser desamarrado, depois de estar amarrado
mnito tempo; ou a sensao de se ver livre quando se esteve
fechado  chave num quarto e de repente se abrem as portas. E
aquele canho que disparava contra os nazis, embora fosse em
tudo semelhante aos canhes que os nazis usavam para disparar
contra os Americanos, representava para mim a libertao:
qualquer coisa que tinha uma fora bendita mais forte de que a
fora maldita dos outros, qualquer coisa que lhes fazia medo
depois de eles terem causado tanto medo a todos, qualquer
coisa que os destrua depois de eles terem destrudo tanta
gente e tantas cidades. Aquele canho disparava contra os
nazis e os fascistas e cada tiro seu atingia essa priso de
mentiras e de medo que eles tinham construdo durante anos e
anos e era grande como o cu e agora desabava de todos os
lados com os tiros daquele canho, e todos podiam j respirar,
at os fascistas e nazis, que em breve no seriam obrigados a
ser fascistas e nazis e voltariam a ser homens como os demais.
Sim, naquela tarde senti deste modo a libertao e, embora
depois essa libertao tenha significado muitas outras coisas
menos belas, at por vezes bastante feias, lembrar-me-ei
sempre, enquanto viver, daquela tarde e daquele canho e de
como me senti deveras livre e senti a libertao como uma
felicidade que at me fez regozijar com a morte que o canho
espalhava e odiar pela primeira e nica vez na vida. Mau grado
meu, alegrava-me a destruio dos outros com o mesmo
sentimento de jbilo com que se acolhe a chegada da Primavera
e das flores e do bom tempo.

Assim passei essa tarde dormindo, ou, melhor, dormitanto,
embalada pela tremenda cantilena do canho, to doce aos meus
ouvidos como a que me cantava minha me para me adormecer
quando era criana. A casa tremia a cada exploso, a calia
caa aos bocados em cima da minha cabea e do meu corpo, a
palha picava e o cho por baixo da palha era duro; mas, apesar
de tudo, essas foram as mais belas horas da minha vida, posso
diz-lo hoje com plena conscincia. De vez em quando, se abria
os olhos e olhava para a janela sem vidros, via a folhagem
verde dum pltano iluminada pela bela luz de Maio; depois essa
luz esmoreceu, a folhagem tornou-se mais escura e menos
luminosa, mas o canho continuou a disparar e eu abraava-me a
Rosetta e sentia-me feliz... Era tal o cansao e o
entontecimento que, apesar do canhoneio, dormi pelo menos uma
hora, num sono pesado e profundo; depois acordei e de novo
ouvi o canho ribombar l fora e compreendi que

209





durante aquela hora o canho no deixara de disparar. Por fim,
ao ! entardecer, quando o quarto estava quase mergulhado no
escuro, o | canho calou-se repentinamente. Sucedeu-lhe um
silncio que

parecia entorpecido por todos os tiros disparados, um silncio
feito, dos rumores normais da vida: um sino de igreja que
tocava algures,, vozes, gente que passava na estrada, um co a
ladrar, um boi a, mugir. Ficmos ainda uma meia hora
abraadas, meio adormecidas, e depois levantmo-nos e saimos.
Era j noite, o cu estava constelado de estrelas e no ar
calmo e sem vento havia um cheiro forte a erva cortada. Mas da
Via pia, pouco distante, continuava a chegar um fragor de
ferros e motores: a ofensiva prosseguia.

Comemos mais uma caixita de conserva e um bocado de po e
depois estendemo-nos novamente na palha e recomemos logo a
dormir, estreitamente abraadas, desta vez sem o barulho do
canho. No sei quanto tempo dormimos, talvez umas quatro ou
cinco horas, talvez mais. S sei que de repente dei um salto e
me sentei, aterrada: o quarto estava todo iluminado por uma
luz verde, intensssima, vibrante: tudo era verde, as paredes,
o tecto, a palha, a cara de Rosetta, a porta, o pavimento.
Esta luz parecia tornar-se cada vez mais intensa, como certas
dores fsicas que se tornam cada vez mais agudas, embora se
julgue impossvel que possam aumentar, to fortes e
intolerveis so. Depois, subitamente, a luz apagou-se e, no
escuro, ouvi aquele maldito uivo da sereia de alarme que nao
ouvia desde os tempos de Roma e compreendi que era um
bombardeamento areo. Foi um segundo, gritei a Rosetta:
"Depressa, fujamos daqui!" E ao mesmo tempo ouvi as exploses
das bombas, violentssimas, que caam perto, e, por entre as
exploses, 0 fragor enfurecido dos avies e os disparos secos
da artilharia antiarea.

Peguei na mo de Rosetta e precipitei-me para fora de casa.
Era noite, mas parecia dia por causa duma luz vermelha que
iluminava 3 a casa, as rvores e o ccu. Depois houve um
estrondo espantoso: cara uma bomba atrs da casa e a
deslocao do ar que senti na saia, como se uma boca enorme a
tivesse soprado, colando-a s minhas pernas, fez-me pensar que
estava ferida ou talvez j morta, Mas corria, arrastando
Rosetta pela mo, atravs dum campo de trigo; a seguir
tropecei e senti que andava com gua at o joelho. Era uma
poa, cheia at cima, e o frio da gua acalmou-me um pouco;
fiquei ali parada, a gua chegava-me agora  barriga,
apertando Rosetta contra o peito, enquanto em redor de ns !
danava aquela luz vermelha, que nos permitia ver as casas de
! Fondi em ruinas, com todas as suas cores e contornos. como
se fosse

210





-

te

dia . e no c amp o em volta c ontinua v am os disp aros p
rximos e distantes. O cu, por cima de ns, era todo ele uma
florao de flocos brancos: os tiros da antiarea; e, no meio
desse terror de fim do mundo, continuava a barulheira furiosa
dos avies voando baixo e lanando bombast Por fim houve uma
ltima exploso, mais forte do que sodas, como se algum
batesse  porta do Cu com mais fora antes de se ir embora;
logo o claro vermelho se extinguiu quase por completo, menos
num canto do horizonte, once naturalmente havia um incndio; a
barulheira dos avies tambm se foi distanciando at se perder
ao longe e a antiarea deu ainda aliguns tiros e depots mais
nada...

Eu disse a Rosetta, mal a noise se tornou negra e silenciosa e
as estrelas apareceram de novo no ccu por cima das nossas
cabeas: "No nos convm voltar pare a casita... pode dar-se o
cave de esses filhos da me recomearem a lanar bombas, e
desta vez no escapamos..." Assim, samos da gua e
deitmo-nos no melo do trigo, ao lado da poa. No dormimos,
dormitmos apenas, mas j no to felizes como dentro de case
enquanto o canho troava. A noise estava cheia de rumores,
ouviam-se gritos distantes, berros, o ronronar dos motores, o
tropear dos ps e no sei quantos outros sons estranhos. A
noise estava inquieta e pensei que cheia de mortos e feridos
por cause das bombas lanadas pelos Alemes; agora os
Americanos corriam dum lado pare outro a recolher esses mortos
e feridos. Finalmente, adormecemos; acordmos com a luz
cinzenta da madrugada e vimo-nos deitadas no meio de uma seara
de trigo; em nossa volta, espigas atas e amarelas e por entre
as espigas, a3'cgumas papoi as dum vermelho muito bonito, e o
cu, l em cima, branco e frio, com algumas estrelas de oiro
brilhando ainda. Olhei pare Rosetta, estendida ao meu lado:
dormia, tinha a care toda manchada de lame negra e seca e as
pernas e a saia pretas at maito acima; as minhas pernas e a
minha saia estavam na mesma.

Sentia-me porm repousada, pods entretanto no tinha feito
seno dormir, desde as primeiras horas da tarde do die
anterior at aquele instante. Disse a Rosetta: "Vamos embora?"
Mas ela murmurou qualquer coisa que no compreendi, voltou-se
e ps a cabea no meu regao, enlaando-me com os dois braos.
Ento estendi-me de novo, embora j no tivesse song, e fiquei
all, com o trigo alto em volta de ns, de olhos fechados,
esperando que ela deixasse de dormir.

Acordou fina3mente, j die alto. Levantmo-nos a custo da
nossa came de trigo e, quando chegmos  beira do campo,
olhmos na direco da casita once nos abrigramos; mas, por
mais que olhssemos, no houve maneira de a descobrirmos. Por
fim,  fora

Z 1 1





de olhar, vi um montculo de escombros no sitio onde me
lembrava mnito bem que estava a casa. Disse a Rosetta: "Vs,
se tivssemos l ficado tnhamos morrido." Ela respondeu com
uma voz calma, sem se mover: "Talvez fosse melnor, mam..."
Olhei para ela, vi que tinha uma expresso desesperada e
disse-lhe, com sbita deciso: ~Hoje mesmo abalamos daqui, de
qualquer maneira." Ela perguntou: "E como?" E eu: "Temos de ir
e iremos."

Entretanto fomos ver a casita e notmos que a bomba rebentara
mesmo ao lado, empurrando-a para a estrada, que, de facto,
estava entulhada de escombros em quase toda a largura. A bomba
abrira um grande buraco superficial e esbeiado, em volta do
qual a terra escura e fresca se misturava com ervas
arrancadas; no fundo havia j uma poa de gua amarelada.
Assim, estvamos agora sem casa e, o que era pior, tambm as
nossas malas, com o pouco que possuamos, tinbam ficado
debaixo dos escombros, Senti-me de repente desesperada e, nao
sabendo o que fazer, sentei-me no meio das runas, a olhar em
frente. A estrada. como no dia anterior, fervilhava de
soldados e refugiados. mas todos seguiam a direito, sem olhar
para nds nem para as ruinas: coisa to normai que nem j se f
azia caso. Depois um campons parou e saudou-nos: era de Fonai
e eu conhecera-o quando descia de Santa Eufrnia  procura de
mantimentos. Disse-nos que aquele bombardeamento, durante a
noite, obra dos Alemes, provocara uns cinquenta mortos,
trinta soldados e uns vinte italianos. Contou-nos que uma
famlia de refugiados que passara quase um ano na montanha,
como nds, e de l descera tambm quando os Aliados chegaram,
estava numa casita  beira da estrada a pouca distAncia da
nossa: uma bomba atingiu-a em cheio e matou todos, mulher,
marido e quatro filhos, Ouvi isto sem dizer nada. Rosetta
tambm no abriu a boca. Noutros tempos teria exclamadom<Mas
como? Porqu? Coitadinhos! Vejam l que desgraca!~, Mas agora
no tinha vontade de dizer nada. Na realidade, as nossas
desgraas tornam-nos indiferentes s desgraas alheias. Em
seguida pensei que isto  certamente um dos piores efeitos da
guerra: torna-nos insensiveis, endurece o corao, mata a
piedade.

Passmos a manh sentadas nos escombros da casa, apatetadas,
incapazes de pensar fosse o que fosse. Estvamos to tontas e
de uma maneira to estupefacta e dolorosa que nem sequer
tinhamos foras para responder aos numerosos soldados e
camponeses que se nos dirigiam quando passavam diante de ns.
Lembro-me que um soldado americano, ao ver Rosetta sentada nas
pedras, imvel e atnita, parou a falar-Lhe. Ela no respondia
e olhava-o; 0 soldado falou-lhe primeiro em ingls, depois em
italiano; por fim tirou do





ia. s los o,

as, de lOS ~ se um 1 e do do

bolso um cigarro, meteu-lho na boca e foi-se. E Rosetta ficou
como estava, a cara manchada de lama negra e seca e aquele
cigarro na boca, pendente dos lbios: seria uma imagem cbmica
se no fosse imensamente triste. Depois chegou o meio-dia, e
ento, num esforo supremo, decidi que tnhamos de fazer
qualquer coisa, quando mais no fosse, arranjar comida, pois
precisvamos de comer. Disse a Rosetta que amos voltar a
Fondi e procurar aquele oficial americano que falava
napolitano e parecia ter simpatizado connosco, Devagar,
caminhando sem vontade, voltmos  cidade. L encontrmos a
mesma feira, entre montes de calia, poas de gua, camies e
carros blindados; os polcias americanos, nos cruzamentos,
esbracejavam para dar uma direco a toda aquela gente ociosa
e desordenada. Chegmos  praa e dirigi-me  sede da comuna,
onde como no dia anterior, havia a mesma multido em tumulto e
a mesma distribuio de mantimentos. Desta vez notei um pouco
de ordem: os polcias tinham alinhado todo aquele povo em trs
filas, e em frente de cada uma via-se um americano muito
direito, atrs da mesa onde estavam amontoadas as caixas; ao
lado de cada americano, um italiano com braadeira branca,
funcionrios da comuna encarregados de ajudar  distribuio.
Vi, por entre os outros, atrs da mesa, o oficial americano
que procurava e disse a Rosetta que nos pusssemos naquela
fila, pois assim conseguiramos falar-lhe. Espermos um grande
bocado e finalmente chegou a nossa vez. O oficial
reconheceu-nos e sorriu com aqueles seus dentes mnito
brilhantes: "Como est, no foi ainda para Roma?"

Disse Ihe, indicando o meu vestido e o de Rosetta: "Olha o
estado em que estamos....

Ele olhou-ncs ~ ~ npreendeu logo: "O bombardeamento desta
noite ?~>

"Sim, e agora nr t.mics nada. As bombas destruram a casa
para onde fomos e as nossas malas ficaram debaixo dos
escombros, juntamente com as caixas que nos deste".

Ele deixou de sorrir. Sobretudo Rosetta, com o seu lindo rosto
sujo de lama, tirava a vontade de sorrir. <<Posso dar-lhes
mantimentos, como ontem,\, disse, "e at algumas roupas. Mas
no posso fazer mais nada."

"Ajuda-nos a voltar para Roma", supliquei-lhe, "temos l casa,
roupas, tudo...~

Mas ele respondeu, como no dia anterior: "Ainda no chegmos a
Roma, como podes ir tu para l?~\

Desta vez calei-me, no tinha mais nada a dizer. Ele tirou do

213





monte algumas caixas, deu-mas e depois mandou um daqueles
italianos de braadeira branca acompanhar-nos a outro stio
onde distribuam roupa. De repente, quando o ia deixar para
seguir o italiano, disse-lhe, nem sei porqu: "Tenho os meus
pais numa aldeia perto de Vallecorsa... ou, melhor, tinha,
pois agora no sei onde param. L conheo toda a gente e,
mesmo que no encontre os meus pais, sempre arranjarei forma
de ir vivendo."

Ele olhou-me e respondeu, amvel, mas firme: "No posso
mand-las nos transportes do exrcito.  proibido. S6 os
italianos que trabalham para o exrcito americano se servem
dos nossos meios de transporte e ~nicamente em servio. Tenho
muita pena, mas no posso fazer nada por vocs." Dito isto,
voltou-se para as outras duas mulheres que se seguiam e
compreendi que no tinha mais nada a acrescentar; segui o
italiano da braadeira.

Quando chegmos  rua, o italiano, que ouvira a nossa
conversa, disse: "Ainda ontem levaram dois refugiados, mulher
e marido,  aldeia deles, num autom6vel do exrcho. Mas esses
puderam demonstrar que tinham dado hospitalidade durante o
Inverno a um prisioneiro ingls. Para os recompensar, abriram
uma excepo  regra e l os levaram. Se vocs tivessem feito
alguma coisa parecida, talvez no fosse muito dificil irem
para Vallecorsa."

Rosetta, que at a nao dissera nada, exclamou de sbito:
"Mam, lembras-te dos dois ingleses' Podemos dizer que os
hospedmos."

Ora, por acaso, aqueles ingleses, antes de nos deixarem,
tinham-me dado um bilhetinho escrito na sua lngua e assinado
por ambos, que eu pusera no saco onde guardava o dinheiro.
Agora dinheiro j havia pouco, mas o bilhete devia l estar.
Tinha-o esquecido, mas, quelas palavras de Rosetta,
apressei-me a procur-lo e de facto encontrei-o. Os dois
ingleses tinham-me pedido que, mal chegassem as tropas
aliadas, entregasse o bilhete a um oficial. Exclamei com
alegria: "Ento estamos salvas!" E contei ao italiano a
histria dos dois ingleses e que ns as duas fomos as nicas a
dar-lhes hospitalidade no dia de N atal, pois todos os
refugiados tiveram medo de os ajudar, e que no dia seguinte
tinham partido e nessa mesma manha apareceram l em cima os
alemes a procur-los. O italiano disse: "Venham agora comigo
buscar as roupas. Depois vamos ao comando e vers que
consegues tudo quanto desejas."

Resumindo, fomos a outra casa, onde faziam a distribuio das
roupas, e ali deram-nos um par de sapatos de homem, com solas
de borracha, meias verdes pelo meio da perna, uma saia e uma
blusa da mesma cor para cada uma. Era o que vestiam as
mulheres do

214





os a, as a

exrcito americano e ficmos mnito contentes por poder vestu
aquilo, pois os nossos vestidos j estavam reduzidos mesmo a
farrapos e todos sujos de lama. Recebemos tambm um bocado de
sabo e aproveitmos a ocasio para lavar a cara e as mos; eu
penteei-me e Rosetta penteou-se tambm; ficmos assim quase
apresentveis e o italiano ento disse-nos: "Bom, agora j
parecem duas pessoas civilizadas... h bocado pareciam mesmo
duas selvagens... Venham da comigo ao comando."

O comando era noutra casa. Subimos uma escada, e por toda a
parte havia polcias do exrcito, que perguntavam onde amos e
se informavam de tudo. Um lano a seguir a outro, por entre o
vaivm de soldados e italianos, chegmos ao ltimo andar.
Aqui, o italiano foi falar com um soldado que estava de guarda
diante de uma porta e depois veio ter connosco e disse: "No
s6 se interessam pelo caso, mas recebem-nas imediatamente,
Sentem-se neste banco e es

perem."

Espermos pouco. Passados cinco minutos, o soldado que fora l
dentro veio chamar-nos e introduziu-nos numa sala. Esta sala
estava completamente vazia, apenas tinha uma escrivaninha,
atrs da qual se sentava um homem loiro, de meia idade, com
bigode ruo  laia de escova, olhos azuis e cara sardenta,
corpulento e jovial. Vestia uniforme com divisas, mas eu no
conhecia os postos deles; soube depois que era major. Havia
duas cadeiras em frente da escrivaninha; quando entrmos, ele
levantou-se delicadamente; convidou-nos a sentar e sentou-se
depois. "Fuma?" perguntou em bom italiano, oferecendo-nos o
mao dos cigarros. Recusei e comeou logo: "Disseram-me que
tm um bilhete para mim."

Respondi: "Est aqui..." E entreguei-lho. Ele pegou no
bilhete, leu-o duas ou trs vezes com ateno e em seguida, de
cara muito sria, olhando-me fixamente, pronunciou: "Este
bilhete  muito importante e vocs deram-me informaes
preciosas. Estvamos sem noticias destes dois militares h
algum tempo e ficamos muito gratos pelo que fizeram por eles.
Digam-me agora como eram?"

Descrevi-lhos o melhor que pude: "Um loiro, baixo, com a barba
em ponta. O outro era alto e magro, moreno, de olhos azuis."

"Que traziam vestido?"

"Casacos largos, parece-me que de oleado preto, e calas
compridas."

"Tinham bon ?"

"Sim, uma espcie de bon militar."

"Estavam armados?"

"Tinham pistolas. Mostraram-mas."

" E que tenc ionav am fazer qu and o as deixar am ?"

Z15





"Queriam ir, pelas montanhas, at  frente de batalha,
atravess-la e alcanar Npoles. Estiveram todo o Inverno
escondidos em casa de um campons, no Monte das Fadas, e
esperavam poder atravessar as linhas da frente. Mas parece-me
que no o conseguiram, toda a gente dizia que era impossivel
por causa das patrulhas alems e do fogo das metralhadoras e
canhes."

"De facto", concordou o oficial, "no passaram, pois nunca
chegaram a Npoles... Em que data estiveram convosco?"

Disse-lhe a data e ele prosseguiu, passado um momento: "E
quanto tempo os hospedaram?~

"S um dia e uma noite, pois iam com pressa e tinham medo de
ser apanhados. De facto, logo que se foram embora, apareceram
os Alemes. Mas passaram connosco o dia de Natal, comemos
juntos uma galinha e bebemos algum vinho."

O oficial sorriu e comentou: "Esse vinho e essa galinha que
dividiram com eles representam apenas uma pequena parte da
dvida que temos para convosco. Agora digam-me o que podemos
fazer por vocs."

Ento disse-lhe tudo: no tinhamos que comer; em Fondi no nos
agradava ficar; no tinhamos casa, o bombardeamento
destrura-a nessa noite; queriamos ir para a minha aldeia,
perto de Vallecorsa, onde viviam os meus pais e onde, quanto
mais no fosse, tinha a minha casa. Ele ouviu-me, muito srio,
e depois afirmou: "O que me pedem  proibido. Mas sob o
dominio dos Alemes tambm era proibido dar hospitalidade aos
fugitivos ingleses, no  assim?" Sorriu e eu sorri tambm.
Ele continuou: "Faremos assim: direi que vo de automvel, com
um oficial nosso, colher informaes nas montanhas sobre esses
dois oficiais perdidos. De resto, em qualquer dos casos, temos
de fazer um inqurito, embora no seja muito provvel que eles
passassem pela vossa aldeia. Quer dizer, o oficial
acompanha-as primeiro a Vallecorsa e depois ir fazer a sua
investigao."

Eu agradeci-lhe muito e ele respondeu: "Somos ns que
agradecemos. Entretanto, dem-me os vossos nomes."

Disse-lhe como nos chamvamos, ele escreveu tudo com cuidado e
depois levantou-se, cumprimentou-nos e levou a sua amabilidade
ao ponto de nos acompanhar at a porta para nos confiar ao
soldado da guarda, ao qual disse qualquer coisa em ingls. O
soldado tornou-se imediatamente tambm muito amvel e
convidou-nos a segui-lo.

Fomos com o soldado at o fundo dum corredor branco e nu e ele
introduziu-nos numa sala vazia, mas limpa, onde havia duas
camas de campanha; disse-nos que nessa noite dormiramos ali e
no dia seguinte, conforme as ordens do major, iriamos para
outro lado.

216





Deixou-nos, fechando a porta, e nds sentmo-nos nas camas, com
um suspiro de satisfao. Agora sentiamo-nos muito melhor do
que nos sentramos at ento, Possuiamos roupas limpas,
estvamos lavadas e tinhamos conservas para comer, duas camas
de campanha para dormir, um tecto para nos proteger e, mais do
que tudo isso, a esperana em melhores dias. Em suma, tudo
mudara e essa mudana deviamo-la ao major e s suas boas
palavras. Eu

I    pensava mnitas vezes que um homem deve ser tratado como
um

homem, e no como animal, e tratar assim um homem quer dizer
dar-lhe os meios de estar limpo, numa casa asseada, mostrar
por ele
simpatia e considerao e, sobretudo, dar-lhe esperanas no
futuro.
Se tal no sucede, o homem, que  capaz de tudo, no tardar a
tornar-se um animal selvagem e a comportar-se como tal, e 
intil
pedir-lhe que se conduza como homem, uma vez que foi tratado
como animal.

Bem, adiante. Abramo-nos e eu beijei Rosetta e disse-lhe:
"Vers que tudo se compe, desta vez a srio. Vamos passar
alguns dias na aldeia, l comemos bem, descansamos e depois
regressamos a Roma e tudo voltar a ser como dantes." A pobre
Rosetta respondeu-me: "Sim, mam..." Assim mesmo, como um
cordeirinho que  conduzido ao matadouro sem saber e lambe a
mo que o arrasta para o cutelo. E, ainda por cima, essa mo
era a minha e eu no sabia que, por minha iniciativa, a levava
para o aougue, como se ver a seguir.

Naquele dia. depois de termos comido conservas, ficmos toda a
tarde estendidas nas camas, a dormitar. No nos agradava andar
nas ruas de Fondi, era muito triste ver toda aquela multido
de farroupilhas e soldados e todos aqueles escombros que a
cada passo nos lembravam a guerra. Por outro lado, estvamos
ainda bastante cansadas: tnhamos passado uma noite inteira ao
ar livre e, depois de tantos sustos e emoc,es, sentiamos os
ossos partidos. Assim, dormimos; de vez em quando acordvamos
e depois tornvamos a adormecer. A minha cama ficava em frente
da janela, uma janela sem persiana, atravs da qual se via o
cu azul. De cada vez que acordava, notava que a luz diminua
de intensidade  medida que o Sol se movia no horizonte, do
nascente para o poente. Tambm naquele dia me senti feliz como
no dia anterior ao ouvir o canho, mas desta vez sentia-me
feliz por ver Rosetta a dormir na cama ao lado, s e salva
depois de tantas peripcias e de tantos perigos passados.
Pensava que, no fim de tudo, tivera sorte e conseguira
atravessar a tempestade da guerra e pr-me a salvo, tanto eu
como a minha filha. Rosetta estava bem, eu estava bem, no nos
acontecera nada de verdadeiramente grave e bem depressa







voltariamos a Roma, pare a nossa case, e eu tornaria a abrir a
loja e tudo recomearia como antes. At melhor do que antes,
pods o noivo de Rosetta decerto se salvara tambm e voltaria
da Jugoslvia pare casar com ela. No meio da sonolncia,
detinha-me com grande satisfao e profundo jbilo no
casamento de Rosetta. Via-a sair do portal branco, com fiores
de laranjeira na cabea, pelo brao do marido, e, atrs dela,
eu e todos os parentes e amigos, sorridentes e felizes. Depois
j no me bastava v-los no portal da igreja, dava urn salto
atrs, queria v-los ajoelhados diante do altar, enquanto o
padre os casava e fazia a sue prdica sobre os deveres e
obrigaes do santo matrimnio. Mas isto ainda no me bastava,
e dava mais outro salto, desta vez pare a frente, e via
Rosetta com o seu primeiro nen: estvamos  mesa, eu, ela e o
marido: e a criana comeava; de repente a chorar no quarto ao
lado, Rosetta levantava-se, ia busc-la e tornava a sentar-se,
desabotoava a blusa e oferecia o seio ao flho, que o agarrava
logo com a boca e as duas mozinhas, enquanto ela se inclinava
pare a frente pare tomar uma colher de sopa; e assim j no
estvamos s trs a comer  mesa, mas sim quatro: o marido de
Rosetta, Rosetta, o nen e eu. Contemplando no meu sonho este
quadro, pensava que era av e no me desagradava s-lo, pods
j no desejava o amor, queria tornar-me uma mulher velha e
viver muitos anos como av, ao lado de Rosetta e dos seus
filhos. Entretanto, enquanto sonhava, via s vezes Rosetta
estendida no leito de campanha e dava-me prazer v-la ali como
que a demonstrar-me que os meus sonhos no eram apenas sonhos,
que depressa se tornariam realidade, quando voltssemos a Roma
e refizssemos a antiga existncia.

Veio a noise, levantei-me e, no escuro, olhei em minha volta:
Rosetta dormia ainda, tirara a saia e a blusa, na penumbra
entrevi-lhe os ombros e os braos nus, brancos e rolios, de
rapariga nova e sadia; a combinao subira, pods tinha a perna
dobrada, com o joelho quase  altura da boca; tambm as coxes
eram brancas e fortes, como os ombros e os braos.
Perguntei-lhe se queria comer, e ela, dai a pouco, sem se
voltar, abanou a cabea e disse qualquer coisa que era uma
recusa. Perguntei-lhe ainda se queria levantar-se e descer s
ruas de Fondi: novo gesto, nova negao. Ento tornei a
deitar-me e desta vez adormeci a valer; na realidade estvamos
ambas exaustas com tantas emoes e aquele nosso sono era urn
pouco como a corda que se d a um relgio parado h muito
tempo, que se gira e torna a girar e no se acaba mais porque
o relgio est sem corda nenhuma, sem foras pare andar.





-

CAPfIrULO DC

De madrugada fomos acordadas por algum que batia  porta com
pancadas to fortes como se a quisesse arrombar. Era o soldado
que nos auxiliara na vspera. Quando lha abrimos, avisou-nos
de que o autom6vel que nos levaria a Vallecorsa j estava l
em baixo e nos deviamos despachar. Vestimo-nos  pressa e, ao
vestir-me, notei que me sentia mais forte do que nunca;
aquelas horas de sono tinham-me restaurado por completo.
Compreendi que Rosetta tambm se sentia forte, pela maneira
enrgica como se lavou e vestiu. S6 uma me pode perceber
estas coisas; lembrava-me de Rosetta, no dia anterior,
apatetada pelo sono e pelas emoes, a cara suja de lama seca,
os olhos distrados e tristes; e agora dava-me prazer olh-la
ao sentar-se na cama, as pernas pendentes, a espreguiar-se,
levantando os dois braos e enchendo de ar o lindo peito
branco, que parecia ir saltar fora da combinao; e depois
dirigir-se ao lavatbrio, situado a um canto, deitar a gua
fria do jarro na bacia, lavar-se com fora, no s6 a cara, mas
tambm o pescoo e os ombros, e, de olhos fechados, pegar s
apalpadelas na toalha e esfregar-se bem at ficar vermelha,
pegando em seguida na saia e enfiando-a pela cabea, no meio
do quarto. Eram tudo gestos normais que Ihe vi fazer no sei
quantas vezes. Mas sentia neles a sua juventude e a sua fora
restaurada, como se sente a juventude e a fora de uma bela
rvore banhada de sol, quando todas as suas folhas mexem ao
mais leve sopro do vento da Primavera.

Bem, adiante. Vestimo-nos e descemos a correr as escadas ainda
desertas daquela casa vazia. Em frente da porta estava um
desses pequenos autom6veis descobertos do exrcito aliado,
bastante s61idos e com assentos de ferro. Ao volante, um
oficial ingls, loiro, de faces vermelhas e expresso
embaraada ou talvez aborrecida. Indicou-nos os assentos de
trs e disse-nos em mau italiano que tinha ordem para nos
levar a Vallecorsa. No parecia muito amvel, sem dvida mais
por timidez do que por antipatizar connosco. No autom6vel
estavam tambm duas enormes caixas de papelo cheias at acima
de conservas; o oficial ingls disse-nos, sempre com o seu ar
embaraado, que o major nos mandava aquelas caixas com os seus
cumprimentos e desejos de boa viagem, desculpando-se de no
poder despedir-se de nds, mas estava mnito ocupado. Enquanto

219





duraram estes preparativos, vrios refugiados que,
provvelmente, tinham passado a noite ao relento cercaram o
automvel, olhandonos em silncio, com a inveJa claramente
estampada no rosto. Apercebi-me de que nos invejavam porque
arranjramos maneira de sair de Fondi e tambm por termos
todas aquelas conservas; confesso, nesse momento quase
experimentei um sentimento de vaidade, embora aliado a certo
remorso. Mal sabia eu quanto a nossa sorte era pouco para
invejar!...

O oficial ps o motor a trabalhar e o automvel partiu,
rpido, por cima de poas e escombros, em direco s
montanhas. Tomou por uma estrada secundria e bem depressa,
sempre a grande velocidade, comeou a subir, entre dois
montes, um vale estreito e profundo, onde corria um riacho.
Ns amos caladas e o oficial tambm, nds porque, no fim de
contas, nos enfastiava falar por gestos e ganidos, como
surdas-mudas, e ele talvez por timidez ou por no gostar de
ser motorista. De resto, que podamos ns dizer quele
oficial? Que estvamos satisfeitas por deixar Fondi? Que
estava um lindo dia de Maio, com 0 cu azol, sem nuvens, e 0
sol resplandecente a inundar os campos verdes e viosos? Que
iamos para a aldeia onde eu nascera? Tudo coisas que no Ihe
interessavam... E ele teria razo se respondesse que no
queria saber disso para nada, que ia ali apenas a cumpur o seu
dever, o de nos conduzir a determinada terra, conforme as
ordens recebidas, e portanto era melhor irmos caladas, pois
tinha de guiar e no podia distrair-se. Porm, ainda que
parea estranho, embora eu pensasse assim, senti, em todo o
tempo, o desejo aflitivo de falar quele oficial, de saber
quem era, onde tinha a familia, o que fazia em tempo de paz,
se estava noivo, e assim por diante. Na realidade,
compreendo-o agora, passado 0 perigo eu tornava a experimentar
os sentimentos normais dos tempos normais, isto , retomava
interesse pelas pessoas e pelas coisas alheias a mim, para
alm da minha segurana e da de Rosetta. Em resumo, recomeava
a viver, ou, melhor, a fazer muitas coisas sem razo, por
simpatia, por simples capricho, por impulso, ou at por
brincadeira. E aquele oficial despertava a minha curiosidade,
como, depois duma longa doena, ao entrar-se na convalescena,
desperta curiosidade tudo quanto vemos por acaso, ainda que
seja insignificante. Olhava para ele e via que tinha cabelos
loiros verdadeiramente magnificos, da cor do oiro, com mnitas
madeixas lisas e brilhantes que se acamavam e entranavam como
as fibras de um lindo cesto e depois formavam, na nuca,
franjas caprichosas. Estes cabelos de iro davam-me quase a
tentao de estender a mo e acarici-los: no porque aquele
jovem me agradasse ou atraisse duma maneira especial, mas s6

2ZO





porque a vida me dava de novo prazer e aqueles cabelos eram
mesmo vivos. E, de facto, experimentava igual sensao pelas
rvores de folhagem nova que corriam ao nosso encontro na
estrada, e pelo paredo de pedras polidas e teem talhadas que
sustentava o terrapleno do outro lado do fosso, e pelo cu
azul e o claro sol de Maio. Tudo isto me agradava, tudo
despertava em mim apetite, como depots de um longo jejum que
por muito tempo me tivesse tirado o gosto de comer.

A estrada secundria, depots de ladear durante algum tempo o
riacho, no vale estreito e alto, foi afar finalmente  estrada
nacional e o riacho a um ribeiro largo e transparente que
corria num vale um

I    pouco mais amplo. As montanhas agora no estavam mesmo em

cima da eslrada, desciam pare ela em suaves encostas e no
eram
verdes, mas sim pedregosas e nuas. Toda a paisagem se tornava,
a
cada passo, mais nua, mais deserta e mais severe. Era a
paisagem
once eu crescera e me fizera mulher, reconhecia-a cada vez
melhor,
e a sensao desencorajante, quase assustadora, da sue
selvajaria e
solido era em parse mitigada pela alegria de me encontrar num
local familiar. Era mesmo uma paisagem de salteadores e nem o
sol
de Maio a tornava mais agradvel e acolhedora; no havia seno
pedras e rochas e encostas cobertas de pedras e rochas e quase
nenhuma verdure; e aquela estrada negra, lisa e brilhante que
corria por entre aqueles pedregulhos dir-se-ia uma serpente
acordada pelos primeiros calves da Primavera. No se via uma
case, um palheiro, uma barraca, uma cabana; no se via um
nico
ser vivo, homem ou animal. Eu sabia que aquele vale continuava
assim nu, silencioso e deserto durante quildmetros e
quildmetros e a
nica aldeia que a se encontrava era a minha terra, um grupo
de
cases alinhadas ao longo da estrada e em volta duma praa once
se
erguia a igrej a.

Corremos assim um bocado, em silncio, e depots, de repente,
numa volta do caminho, eis que surge, a alguma distancia, a
minha aldeia. Tudo continuava como eu me lembrava ainda: dos
dois lados da estrada, o povoado comeava com duas cases que
eu conhecia muito teem, velhas cases de campo construdas com
pedras daqueles montes, sem cal, escuras e modestas, com as
telhas verdes do musgo. Senti de sbito no sei que timidez em
relao quele oficial ingls, que parecia to aborrecido de
nos servir de motorista: e impulsivamente bati-lhe no ombro e
disse-lhe que podamos parer all: tnhamos chegado. Ele travou
no mesmo instante e eu, j vagamente arrependida do meu gesto,
avisei Rosetta de que chegramos ao nosso destino e devamos
descer. Apemo-nos no meio da estrada e o oficial ajudou-nos a
descarregar as duas





grandes caixas com provises, que pusemos  cabea. Depois
pronunciou, em italiano, de maneira quase afectuosa e com um
sorriso: "Boa sorte!" Logo deu meia volta rapidssima e partiu
como um foguete. Passados uns segundos, j tinha desaparecido
na curva da estrada e ns as duas estvamos sbs...

Foi ento que notei o profundo silncio e completa solido do
lugar. N o se via ningum, no se ouvia nenhum rumor, a no
ser o do vento da Primavera, doce e leve, que corria no vale.
Ao olhar para as duas casas  entrada da aldeia, descobri
qualquer coisa em que no reparara no primeiro instante:
tinham as janelas cerradas, as madeiras igualmente fechadas e
na porta do rs-do-cho duas tbnas pregadas em cruz. A aldeia
fora evacuada... E pela primeira vez admiti que talvez tivesse
feito mal em deixar Fondi: ali havia,  verdade, o perigo dos
bombardeamentos, mas havia tambm moita gente e no se estava
s... Senti confranger-se-me o corao e, para ganhar coragem,
disse a Rosetta: "Talvez na aldeia no esteja ningum, talvez
se tenham refugiado em qualquer parte. Nesse caso no paramos
aqui, seguimos at Vallecorsa, que fica a poucos quilmetros.
Ou ento pedimos a qualquer condutor de camio que nos leve,
esta estrada  mnito frequentada, h-de passar algum..."

Quase no mesmo instante, como a confirmar as minhas palavras,
eis que aparece na curva uma longa fila de carros militares.
Esta apario reconfortou-nos: eram aliados, por isso amigos;
em caso de apuros, podamos recorrer a eles, como em Fondi.
Pus-me na beira da estrada, ao lado de Rosetta, para ver
desfilar a coluna diante de ns.  frente vinha um pequeno
automvel descoberto, semelhante quele que nos trouxera; l
dentro iam trs oficiais e por cima do motor levava espetada
uma bandeirinha. Era uma bandeira azal, branca e vermelha, a
bandeira francesa, como soube depois, e os oficiais eram
oficiais franceses, com o qupi do feitio duma panela redonda
e a pala dura por cima dos olhos. Atrs deste automvel vinham
mnitos camioes, todos iguais, a abarrotar de tropas, mas no
eram soldados semelhantes aos que vira at ento, eram homens
de pele escura, com caras de turcos, tanto quanto deixavam
adivinhar os turbantes vermelhos que lhes envolviam as
cabeas, e cobertos por lenis brancos, tendo por cima um
capote de cor escura. S mais tarde soube a origem destes
soldados: eram de Marrocos, portanto marroquinos, e Marrocos,
segundo penso,  um pas distante, que fica em frica, e, se
no fosse a guerra, estes marroquinos nunca por nunca ser
teriam vindo  Itlia. A coluna no era muito comprida;
fechava-a um automvel semelhante quele que ia na frente; a
estrada ento voltou a ficar deserta e silenciosa. Disse a
Rosetta: "So aliados, decerto, mas no sei a que

222





,is       ~raa pertencem. Nunca vi gente assim   " Em seguida
dirigi-me para

m    I    o povoado.
io        Pouco antes da aldeia, a montanha encurvava para a
estrada um
~a        grande rochedo, por baixo do qual havia uma espcie
de gruta com
?    uma nascente. Disse a Rosetta, enquanto caminhava com a
caixa 
lo        cabea: "Aquilo  uma gruta com uma nascente. Vamos
l, pois
O         tenho sede e quero beber." Foi isto o que disse,
mas, na realidade,
~r        ~queria era tornar a v-la, pois em criana e mais
tarde, j rapariga,
m         ~ia quela gruta buscar gua todos os dias vrias
vezes, com o
s,   `    cntaro de cobre  cabea, e ficava l a conversar
dez minutos ou
is        mais, conforme os casos, com outras mulheres que
tambm ali iam
a    I    por igual razo; s vezes at encontrava gente das
aldeias vizinhas.
         com barris amarrados  albarda dos burros, porque a
gua daquela
:a        ~fonte tinha fama e era a nica nas redondezas que
durante o Vero
a    `    no secava e continuava a correr, sempre gelada e
abundante.
ja        Gostava daquela gruta e lembrava-me que, em criana,
me parecia
,0        ~um lugar estranho e misterioso, que me metia medo e
ao mesmo
~s        tempo me atraa; muitas vezes me debruava, o busto
todo dobrado
re        para a frente, na beira do tanque que l existia,
para me ver
?    espelhada na gua negra, e olhava durante muito tempo as
avencas
5,        densas que ocultavam a nascente. Gostava de
contemplar a minha
a         imagem voltada ao contrrio, to clara e colorida;
gostava de olhar
e         para as avencas to lindas, com as folhinhas verdes
e as hastes
a         negras como bano; gostava de ver o musgo aveludado,
com gotas
e         brilhantes como prolas e constelado de florinhas
vermelhas que
e         cobria a rocha. Mas sentia-me atrada sobretudo pela
gruta prque
3         na aldeia algum me contara uma lenda segundo a qual
quem se
~atirasse com deciso  gua, nadando sempre para o fundo,
s         chegaria a um mundo subterraneo mnito mais belo do
que o nosso
c em cima, com cavernas cheias de tesouros e anes e lindas
fadas.
1         Esta histbria causara-me grande impresso e mesmo
mais tarde,
5         quando j era rapariga e no acreditava nisso, pois
sabia ser apenas
uma lenda, nunca cheguei  gruta sem me lembrar dela e
experimentar uma sensao de dvida e incerteza, como se
aquilo
no fosse uma lenda, mas sim uma coisa verdadeira e eu pudesse
r         dar ainda aquele mergulho, se quisesse ir l abaixo
visitar as tais
cavernas encantadas.
i         Fomos at a gruta, pus no cho a caixa, subi os dois
ou trs
;         degraus e debrucei-me, esmagando o peito na beira do
tanque, por
baixo das estalactites revestidas de musgo verde e brilhante
que, tal
como outrora, pingavam gota a gota. Tambm Rosetta se
aproximou
e eu olhei um momento as nossas duas caras reflectidas na gua
negra e irhovel e suspirei, pensando no sem-nmero de coisas,
nem

223





sempre boas, que tinham sucedido desde o tempo em que, criana
ainda, me debruava para aquela gua e nela me via como num
espelho. Por baixo das avencas densas, no fundo do tanque,
via-se, como ento, o leve borbulhar prodozido pela nascente e
pensei que aquela nascente continuaria a brotar assim por toda
a eternidade, doce e tranquila, quando eu e Rosetta e todos os
outros fssemos embora deste mundo e desta guerra to terrivel
restasse apenas a recordao. Porque tudo acaba, considerei;
eu estava ali e j no era criana e tinha uma f~lha crescida,
mas a fonte continuava a deitar gua, como sempre...
Inclinei-me e bebi; creio que uma lgrima me caiu dos olhos
para o tanque; Rosetta, ao meu lado, bebia tambm e no se
apercebeu. Depois limpmos a boca, tornmos a pr as caixas 
cabeca e clirigimo nos para a aldeia.

Tal como imaginava, a aldeia estava deserta. N o fora
bombardeada nem devastada, apenas abandonada. Todas as casas,
umas casas pobres, de pedra em bruto, sem rebocos, encostadas
umas s outras ao longo da estrada, estavam intactas, mas de
janelas fechadas e portas pregadas. Caminhmos um bocado entre
duas filas de habitaes mortas que me davam quase uma
sensao de medo, como quando se caminha num cemitrio e se
pensa na gente que est por baixo das lpides; passmos diante
da casa de meus pais, tambm fechada e pregada; renunciei a
bater e, sem dizer nada a Rosetta, apressei o passo; por fim
chegmos a um largo em declive, com degraus, no cimo do qual
se erguia a igreja, uma igrejinha mesmo de aldeia, de velhas
pedras enegrecidas, rustica e antiga, sem fioreios nem
ornamentos. O largo continuava tal qual como eu me lembrava
dele: os degraus calcetados de pedra negra com listras
brancas; quatro ou cinco rvores plantadas irregularmente,
que, como sempre na Primavera, se apresentavam carregadas de
folhas novas, e a um lado um velho poo com o parapeito da
mesma pedra negra da igreja e 0 cabrestante de ferro todo
enferrujado. Notei que, sob o p6rtico, sustentado por duas
colunas, a porta da igreja estava semiaberta e disse a
Rosetta: "Sabes o que vamos fazer? A igreja est aberta, vamos
sentar-nos l dentro um bocado, a descansar, e depois seguimos
a p para Vallecorsa." R osetta no respondeu e seguiu-me.

Entrmos e imediatamente me apercebi, por vrios indcios, de
que a igreja fora, se no devastada de propbsito, pelo menos
habitada por soldados e reduzida ao estado de estrebaria. A
nave era comprida e estreita, caiada, com grandes traves
negras no tecto e ao fundo 0 altar, este ltimo sobrepujado
por um quadro representando Nossa Senhora com o Menino. O
altar estava agora nu, sem paramentos nem nada; 0 quadro
continuava l, mas de

224





-

banda, como se um terramoto 0 houvesse deslocado, e os bancos,
que outrora se alinhavam em duas filas at junto do altar,
tinham desaparecido todos, menos dois, dispostos no sentido do
comprimento. Entre eles, no cho, havia muitas cinzas e alguns
ties pretos, sinal de que se acendera ali lume. A igreja
recebia luz de um grande vitral por cima da entrada, que
noutro tempo fora brilhante e colorido. Agora, desses vidros
no restavam seno alguns fragmentos aguados e na igreja era
dia claro. Encostei-me a um dos bancos sobreviventes,
endireitei-o, de modo a ficar de frente para o altar, pousei
l a caixa e disse a Rosetta: "Eis o que  a guerra: nem as
igrejas respeitam..." Depois sentei-me e Rosetta sentou-se ao
meu lado.

Experimentava uma sensao estranha, como a de quem se
encontra num lugar sagrado, e no entanto no tinha vontade de
rezar. Voltei os olhos para o quadro de Nossa Senhora, todo
torcido, com o rosto da Virgem j negro de fumo, e no a olhar
para baixo, para os bancos, como antigamente, mas sim para o
tecto, de revs; pensei que, se quisesse rezar, teria, antes
de tudo, de endireitar aquela imagem. Mas talvez nem mesmo
assim fosse capaz de rezar; estava como que inteiriada e no
sentia nada, a no ser uma espcie de atordoamento. Esperava
encontrar a aldeia onde nascera e a gente no meio da qual
tinha crescido e, se Deus quisesse, tambm os meus pais; mas,
ao contrrio, encontrara apenas uma casa vazia... Todos tinham
abalado, no se sabia para onde, e talvez tambm Nossa
Senhora, desgostosa por terem ofendido a sua imagem,
deixando-a para ali  banda. Olhei para Rosetta, ao meu lado,
e vi que ela rezava de mos postas e cabea inclinada, mal
movendo os lbios. Disse-lhe ento, em voz baixa: "Fazes bem
em rezar... reza tambm por mim... eu no tenho coragem..."

Naquele instante ouvi no sei que barulho de passos e de vozes
do lado da entrada, voltei-me e, como um relampago, vi chegar
 porta qualquer coisa branca que imediatamente desapareceu.
Pareceu-me reconhecer, porm, um daqueles estranhos soldados
que viramos passar pouco antes na estrada dentro de camies.
Tomada de sbita inquietao, levantei-me e disse a Rosetta:
"Vamos...  melhor ir andando..." Ela levantou-se logo,
benzendo-se; ajudei-a a pr a caixa  cabea, pus tambm a
minha e depois dirigimo-nos para a entrada.

Empurrei a porta, que estava fechada, e encontrei-me cara a
cara com um soldado que parecia turco, to escuro e bexigoso
era, com um carapuo vermelho enterrado at os olhos, pretos e
brilhantes, e o corpo embrulhado naquele capote escuro por
cima do lenol branco. Ele ps-me as mos no peito,
empurrando-me para

C. - ~s

225





trs e dizendo-me qualquer coisa que no entendi; atrs dele
vi outros, no sei quantos, pois o bruto agarrou-me com fora
um, brao e puxou-me logo para dentro da igreja, enquanto os
outros, todos de lenol branco e carapuo vermelho, entravam
de roldo Ento gritei: "Mais devagar, que querem de ns?
Somos refugiadas!" Ao mesmo tempo, a caixa que trazia  cabea
caiu e senti as conservas rolarem no cho. Comecei a
debater-me. O turco agarrava-me pela cintura, apertava-me
contra ele, a cara escura e feroz perto da minha. De sbito
ouvi um berro, agudo, dilacerante, era Rosetta; ento procurei
libertar-me com quantas foras tinha, para correr em seu
auxlio, mas ele apertava-me desalmadamente e, embora lhe
fincasse a mo no queixo, empurrando-lhe a cara para trs,
senti que ele conseguia arrastar-me para um canto, na penumbra
da igreja,  direita da entrada. Ento gritei tambm, um berro
ainda mais agudo que o de Rosetta, e creio que pus nele todo o
meu desespero, no s6 por aquilo que me estava a acontecer
nesse instante, como por tudo quanto me sucedera desde o dia
em que sa de Roma. Seguiu-se uma breve luta e por fim
desmaiei...

Voltei a mim passado no sei quanto tempo; estava estendida a
um canto, na penumbra da igreja, os soldados tinham-se ido
embora e reinava um grande silncio. Doa-me a cabea, mas s6
atrs, na nuca; no tinha outras dores e compreendi que aquele
homem terrivel no conseguira os seus intentos; eu defendi-me,
dando-lhe vigoroso aperto no stio onde os homens no toleram
que os apertem, e ele, raivoso, agarrou-me pelos cabelos e
bateu-me com a cabea no pavimento; por isso desmaiei e, j se
sabe,  difcil fazer seja o que for a uma mulher desmaiada.
Mas tambm no me fizera nada porque, como reflecti a seguir,
os companheiros o chamaram, para segurar Rosetta e ele
deixou-me e foi saciar-se, como todos os outros, na minha
pobre filha. Infelizmente, Rosetta no desmaiou e tudo quanto
lhe sucedeu viu-o com os olhos e sentiu-o com os sentidos. ..

Eu estava para ali estendida, quase incapaz de me mexer;
depois experimentei levantar-me e senti subitamente uma dor
aguda na nuca. Porm, reagi, pus-me de p e olhei em volta.
Primeiro no vi seno o pavimento da igreja semeado de caixas
de conservas que tinham rolado pelo cho no momento em que
fomos assaltadas; depois ergui os olhos e vi Rosetta.
Tinham-na arrastado, ou ento perseguido, at junto do aitar;
estava estendida de costas, o vestido levantado e a cobrir-lhe
a cabea, nua dos ps at  cintura.

Aproximei-me e chamei-a, em voz baixa: "Rosetta!. Mas no
esperava que ela me respondesse, e ela, de facto, no me
respondeu, nem se mexeu e convenci-me de que estava morta.
Inclinei-me e

226





afastei-lhe as roupas de cima da cara. Vi ento que ela me
olhava de olhos arregalados, sem pronunciar uma palavra, sem
se mover, com um olhar que nunca lhe vi, como um animal preso
numa armadilha, sem poder mexer-se,  espera que o caador lhe
d o golpe de misericdrdia.

Sentei-me ento junto dela, debaixo do altar, passei-lhe o
brao pela cintura, levantei-a, apertei-a contra mim e disse:
"Meu tesouro!..." Mas no consegui dizer mais nada, comecei a
chorar e as lgrimas saltavam-me dos olhos e eu bebia-as e
sentia que eram amargas, com toda a amargura concentrada que
eu recolhera na minha vida. Entretanto, esforava-me por
comp-la; antes de tudo, tirei o leno do bolso e limpei-lhe o
sangue ainda fresco das coxas, baixei-lhe a combinao e a
saia e depois, sempre a chorar perdidamente, meti-lhe dentro
do colete o seio que aqueles brbaros tinham tirado para fora
e abotoei-lhe a blusa. Por fim peguei num pentezinho que me
tinham dado os ingleses e penteei-lhe cuidadosamente os
cabelos desgrenhados. Ela deixava-me fazer tudo, estava quieta
e no falava. Eu agora j no chorava e entristecia-me por no
poder chorar, nem gritar, nem desesperar-me. Disse-lhe: "Podes
sair daqui?" Respondeu que sim, numa voz mnito baixa. Ajudei-a
a levantar-se; ela vacilava, estava mnito plida, mas por fim
l deu alguns passos, sempre amparada a mim. A meio da igreja,
quando chegmos junto dos dois bancos, disse-lhe: "Temos de
apanhar estas coisas e met-las nas caixas. No devemos
deix-las aqui. Podes?. Novamente respondeu que sim; enchi as
duas caixas com as conservas que estavam espalhadas no cho,
pus-Ihe uma  cabea e fiquei com a outra; por fim saimos.

Continuava a doer-me a nuca duma maneira que no sei explicar,
e ao sairmos da igreja at se me enevoou a vista; mas reagi,
com o pensamento em Rosetta, que devia sofrer bastante naquele
momento. Descemos devagar os degraus resvaladios do largo; o
Sol j ia alto e iluminava com a sua bela luz as paredes
escuras. Marroquinos no havia nem um; depois de terem feito o
que fizeram, foram-se embora, graas a Deus, talvez para irem
fazer o mesmo em qualquer outra terra pr6xima. Atravessmos
toda a aldeia por entre duas filas de casas fechadas e
silenciosas, logo tommos a estrada principal, cheia de sol,
limpa, clara, batida pelo vento da Primavera, que me soprava
docemente aos ouvidos e parecia dizer-me que no me
desesperasse, pois tudo continuava como dantes, como sempre.
Andmos talvez um quildmetro, lentamente, sem falar; mas eu
sentia-me cada vez pior da nuca e compreendi que tambm
Rosetta no podia mais. Disse-lhe: "Agora, na primeira quinta
que encontrarmos, paramos at amanh, para

227





descansar." Ela no disse nada, comeava assim aquele silncio
em que se fechou depois de os marroquinos a violarem e que
havia de durar mnito e mnito tempo.

Em suma, demos ainda mais uns cem passos e vi vir ao nosso
encontro um automvelzinho descoberto, em tudo semelhante
quele que nos trouxera, com dois oficiais dentro, dois
oficiais franceses, reconheci-os logo pelo qupi em forma de
panela. Ento senti no sei que impulso e pus-me no meio da
estrada, fazendo sinais com o nico brao livre, e eles
pararam. Aproximei-me e gritei-lhes com fria: "Sabem o que
fizeram os turcos que vocs comandam? Sabem o que tiveram a
coragem de fazer num lugar ~agrado, na igreja, sob os olhares
de Nossa Senhora? Digam, sabem o que eles fizeram?" No me
compreendiam e olhavam-me espantados: um era moreno, de bigode
preto e cara vermelha, cheia de sade; o outro era loiro,
delgado, plido, de olhos azuis e vesgos. Gritei outra vez:
"Desgraaram a minha filha, sim, desgraaram-na para sempre,
uma filha que era um anjo e agora est pior do que se tivesse
morrido. Mas no sabem o que eles fizeram?" Ento o moreno
levantou a mo e fez um sinal como a dizer "basta>> e depois
repetiu, em italiano, mas com acento frances: "Pacd, pac",
que quer dizer "paz". Gritei: "Sim, paz, linda paz, esta  a
vossa paz, flhos dum corno?!" O louro no sei o que disse ao
moreno, naturalmente que eu era doida, pois levou um dedo 
testa e sorriu, Ento perdi por completo a cabea: "No sou
doida, no, olhem!" E, atirando a caixa ao cho, corri para
Rosetta, que ficara mais atrs, no meio da estrada, com a
caixa  cabea, im6vel, e levantei-lhe as saias para lhes
mostrar aquelas belas pernas ensanguentadas, No mesmo momento
ouvi o autom6vel passar ao meu lado a grande velocidade e,
quando me voltei, vi-o desaparecer l adiante na curva.

Rosetta continuava parada, semelhante a uma esttua, com a
caixa  cabea, o brao levantado para a segurar, as pernas
unidas, e eu de repente tive medo que ela tivesse enlouquecido
e, baixandolhe o vestido, pronunciei: "Minha filha, porque no
falas? O que tens?... Fala  tua mam." Ento ela respondeu,
numa voz tranquila: <<No  nada, mam. E uma coisa natural,
j est a passar." Respirei fundo, pois tive verdadeiramente
medo que ela, com 0 abalo, ficasse tola; perguntei-lhe, j um
pouco mais animada: "Ento podes andar ainda um bocado?"
Respondeu: "Sim, mam." Pus a caixa  cabea e continumos a
palmilhar a estrada principal.

Andmos ainda mais outro quil6metro e eu sentia-me cada vez
pior da nuca; de vez em quando quase desfalecia e toda a
paisagem ficava negra, como se 0 Sol se encobrisse de repente.
Por fim, numa curva, vimos um morro abrigado por montanhas
mais altas,

228





redondo e coberto de mato. No cimo, entre o mato, havia uma
cabana como as que em Santa Eufmia os camponeses construam
para meter os animais. Disse a Rosetta: "No posso mais e tu
tambm deves estar cansada. Vamos para aquela cabana; se tiver
gente, devem ser cristos e ho-de deixar-nos passar l a
noite. Se no houver ningum, tanto melhor. ficamos hoje e
amanh e, logo que nos sentirmos bem, retomaremos o caminho."
Rosetta no disse nada, como de costume; mas desta vez fiquei
menos inquieta, pois j sabia que no tinha enlouquecido,
estava smente perturbada, e isso compreendia-se, depois do
que sucedera. No entanto, sentia que ela nunca mais seria a
mesma e que qualquer coisa mudara, no s6 no seu corpo, mas
tambm na sua alma. E, embora fosse sua me, no tinha o
direito de lhe perguntar o que pensava, pois a nica maneira
de lhe demonstrar todo o meu afecto era deix-la em paz.

Segulmos por uma vereda que serpenteava no meio do mato, em
direco  cabana, e por fim, ap6s longa subida, chegmos l.
Como imaginava, era uma choupana de pastores, com paredes de
pedra solta, o telhado de palha, descendo quase at ao cho, e
a porta de madeira. Pousmos as caixas e tentmos abrtr a
porta. Mas esta tinha uma barra de ferro com um grande loquete
e era feita de tbnas mnito grossas: no podamos pensar em
abri-la, nem um homem a conseguiria arrombar. Enquanto
abanvamos a porta, ouvimos primeiro um balido muito fraco e
depois outro e outro; pareciam de cabras, mas no fortes e
irritados como so os balidos das cabras quando esto no
escuro e querem sair, mas fracos e lamentosos, Ento disse a
Rosetta: "Fecharam aqui dentro os animais e fugiram,,, 
preciso arranjar maneira de os pr c fora." Assim, fui para o
lado da cabana e comecei a tirar a palha do telhado. Tarefa
dificil, pois a palha estava bastante comprimida e emaranhada
devido  chuva e ao fumo e por ter sido acamada ali h muito
tempo; alm disso, cada feixe estava preso com vimes aos
troncos de esteio. Porm, arrancando aqui e alm, ora
despedaando os vimes, ora desatando-os, consegui tirar alguns
feixes de palha e fazer um buraco bastante grande  altura da
parede, e, logo que o alarguei, uma cabra branca e preta
aproximou a cabea, pondo as patas na parede e olhando para
mim com olhos lamentosos e balindo. Disse-lhe: "Anda, linda,
salta, salta!" Mas vi que ela, a pobrezinha, embora procurasse
erguer-se, no tinha foras, e compreendi que aquelas cabras
estavam enfraquecidas pela fome e era preciso tir-las de l.
Alarguei mais o buraco. enquanto a cabra continuava com as
patas apoiadas  parede, olhando-me e balindo baixinho; depois
agarrei-a pela cabea e pelo pescoo, puxci-a e ela fez um
esforo e saltou. Logo a seguir outra





cabra apareceu no buraco e de novo me esforcei por tir-la
para j fora, e depois uma terceira e uma quarta. Por fim no
apareceu I mais nenhuma, mas sentia-se ainda balir na cabana;
alarguei de novo o buraco e saltei l para dentro. Vi logo
dois cabritos que estavam mesmo debaixo da abertura, incapazes
de saltar porque eram moito pequenos. A um canto distingui um
vulto e aproximei-me: era uma cabra branca, estendida no cho,
de lado, imvel. Um cabrito estava junto dela, agachado, com
as patas dobradas debaixo `, da barTiga e o pescoo estendido,
a mamar. Ainda pensei que a cabra estivesse assim im6vel para
dar de mamar ao cabrito, mas, quando me aproximei, vi que
estava morta. Compreendi-o logo pelo abandono da cabea, pela
boca semiaherta e pelas moscas pousadas aos cantos da boca e
dos olhos. A cabra morrera de fome e os trs cabritos viviam
ainda porque tinham podido mamar at o ltimo suspiro da me.
Peguei nos cabritos, um por um, e, inclinando-me para fora,
pousei-os no cho, ao p da parede. As outras quatro cabras
que libertara devoravam j o mato com uma avidez furiosa,
cegas de fome; os cabritos alcanaram-nas e bem depressa
cabras e cabritos deixaram de se ver, embrenhados no meio dos
arbustos. Mas ouviam-se os seus balidos, cada vez mais claros
e fortes, como se a cada bocado a sua voz se fortalecesse e
quisessem assim dar-me a entender que estavam melhor e me
agradeciam t-los salvo da morte.

Em concluso, tirei para fora da cabana, com grande custo, o
cadver da cabra e arrastei-o para to longe quanto pude, para
no nos incomodar com o mau cheiro. Depois peguei naquela
palha toda que arrancara do telhado, juntamente com outra que
consegui: alargando mais o buraco, e coloquei-a num canto da
cabana, t fazendo na sombra uma espcie de cama. Disse a
Rosetta: "Vou estender-me nesta palha, quero dormir um bocado.
Porque nao fazes o mesmo?" Ela respondeu: "Eu fico aqui fora,
ao sol." No insisti e fui deitar-me.

Estava na sombra, mas pelo buraco aberto no telhado via um
pedao de cu azul; o sol alongava os seus raios no cho da
cabana, semeado das caganitas negras das cabras, brilhantes
como bagas de louro; respirava-se ali um bom cheiro a
estbulo. Sentia os ossos quebrados e compreendi que era
incapaz, devido ao cansao, de me amargurar verdadeiramente
com o que sucedera a Rosetta: o acontecido ficara na minha
memria como qualquer coisa incompreensvel e absurda; via em
pensamento as suas lindas pernas brancas, as coxas apertadas e
os msculos em relevo, e ela de p, imvel, no meio da
estrada, e o sangue a escorrer at aos joelhos, mnito vivo e
vermelho, brilhando ao sol. Quanto mais

230

l





rememorava essa cena, menos a compreendia. Finalmente
adormecl. ..

Dormi pouco, talvez s6 meia hora; de repente acordei, em
sobressalto, e chamei logo por Rosetta, aos gritos, quase com
ansiedade. Ningum respondeu, hana um silncio profundo, no
se ouviam sequer as cabras, e sabe-se l para onde teriam ido.
Chamei outra vez, e depois, inquieta, levantei-me, saltei para
fora, pelo buraco: Rosetta no estava ali. Dei a volta 
cabana, vi as duas grandes caixas de conservas encostadas 
parede, mas dela nem sombra.

Fui tomada de um medo louco, pensei que tivesse fugido, cheia
de vergonha e desespero, que tivesse ido para a estrada para
se meter debaixo dalgum autom6vel e acabar assim num momento
de desanimo. Faltou-me o ar e senti o corao bater mais
apressado no peito; comecei a chamar por Rosetta, parada
diante da porta, mas em todas as direces. Ningum respondia,
talvez porque no gritasse muito alto; com a perturbao
faltava-me a voz. Ento abandonei a cabana e caminhei ao acaso
pelo meio do mato.

Segui a vereda, que ora se alargava, clara e poeirenta, ora
no era mais do que um trao incerto entre os arbustos altos.
Imprevistamente, cheguei junto duma rocha que descia a pique
para a estrada principal. Havia ali uma rvore e a rocha
estava talhada em forma de banco. donde se podia ver uma boa
parte da estrada que serpenteava no vale estreito e, l mais
abaixo, o leito da torrente, semeado de seixos brancos, com
dois ou trs braos de gua transparente, correndo e
cintilando ao sol entre os seixos e os tufos de verdura.
Quando me sentei na rocha e me inclinei para olhar, vi Rosetta
ao longe. Compreendi ento que no me tivesse ouvido, pois
estava muito mais abaixo do que a estrada, no meio do riacho
pedregoso, e caminhava sem pressas. com prudncia, saltando
duma pedra para outra, evitando molhar os ps; pela sua
maneira de andar, vi que no fora por desespero ou por
perturbaao de animo que ali descera. Depois vi-a parar no
stio onde a corrente era mais estreita e mais funda,
ajoelhar-se e inclinar-se at tocar com o rosto na gua para
beber. Quando acabou, ergueu-se, olhou em volta um momento e
em seguida levantou as saias, descobrindo as pernas, e, embora
eu tivesse bastante longe, pareceu-me ver um risco escuro de
sangue seco que Ihe chegava at o joelho. Agachou-se, de
pernas abertas, apanhando a gua na concha da mo e levando-a
ao ventre: compreendi que se lavava. Tinha a cabea inclinada
para um lado e lavava-se sem pressa, com mtodo, assim me
pareceu, no se importando de expor ao sol e ao ar as suas
vergonhas. Todas as minhas terrveis suposies cairam por
terra:

231





Rosetta afastara-se da cabana, descera  ribeira, unicamente
para se lavar...

Devo confess-lo, experimentei uma sensao de dolorosa
desilusao. Claro, eu no queria que ela se matasse; no
entanto, temia-o: mas v-la agir duma maneira to diferente da
que imaginava inspirava-me uma decepo profunda e quase medo
do futuro. Parecia-me que se vergara j ao novo destino, que
comeara para ela na igreja, ao perder a virgindade por obra
daqueles brbaros, e que o seu obstinado silncio era mais de
resignaao do que de furor. E pensei mais tarde, quando esta
impresso, infelizmente, se confirmou, que, nesses poucos
instantes de tormento, a minha pobre Rosetta se tornara
bruscamente mulher, tanto no corpo como na alma, mulher
endurecida, experimentada, amarga, sem iluses nem esperanas.

Fiquei a olh-la durante muito tempo, l de cima, do rochedo.
Depois de se limpar o melhor que pde, e sempre com o mesmo
impudor quase animal, tornou a atravessar a corrente e subiu
de novo para a estrada. Em seguida atravessou-a e eu ento
levantei -me da rocha e voltei para a cabana: no queria que
ela pensasse que a tinha estado a espiar. De facto, vi-a
chegar da a poucos minutos, com uma cara no de todo
sossegada e calma, mas sem qualquer expresso: eu, fingindo
uma fome que no tinha, clisse Ihe: "Estou com apetite, queres
comer alguma coisa?" Respondeu-me numa voz indiferente: "Se
quiseres..."

Sentmo-nos ambas em frente da cabana, numas pedras, e abri
duas caixas de conservas, e de novo fiquei surpreendida, duma
maneira obscuramente dolorosa, ao ver que ela comia com
apetite, ou, melhor, vorazmente. Tambm desta vez no
esperava, decerto, que nao comesse, pelo contrrio; no
entanto, v-la atirar-se  comida com tal sofreguido
surpreendeu-me, pois pensava que, pelo menos, depois de tudo
quanto sucedera, a comida Ihe repugnasse. No sabia 0 que
dizer, estava para ali apalermada, a v-la tirar com os dedos,
das caixas abertas, os bocados de carne em conserva, um a
seguir a outro, e met-los na boca e mastig-los com fria, de
olhos arregalados. Por fim disse-lhe: "Minha rica filha, no
deves pensar mais no que sucedeu na igreja... no penses e
vers..." E ela, interrompendo-me, pronunciou secamente: "Se
no queres que eu pense, comea por no me falares mais
nisso." Fiquei surpreendida, at o tom da sua voz j era
outro: quase irritado e, ao mesmo tempo, frio, impassvel.

Em suma passmos l em cima quatro dias e quatro noites,
sempre a fazer as mesmas coisas, isto , dormindo de noite na
cabana, em que entrvamos pelo buraco do telhado,
levantando-nos

232





sa Co,

ue

do ra es ~o o,

r,   I

a,

I    com o Sol, comendo as conservas do major ingls, matando
a sede
|    na gua da corrente e quase no falando, a no ser quando
era

mesmo necessrio. Durante o dia andvamos no mato, sem
destino:
s vezes dormamos tambm  tarde, no cho, debaixo duma
rvore. As cabras, depois de pastarem todo o dia. voltavam
para a
cabana e ns ajudvamo-las a saltar para dentro e depois
dormiam
connosco, acacapadas umas contra as outras, a um canto,
juntamente com os cabritos, que tinham comecado a mamar ora
numa ora noutra e j nem se lembravam da me morta, Rosetta
estava sempre com o mesmo humor aptico, indiferente,
distante:
como me pedira, no Ihe falei mais no que sucedeu na igreja; e
desde
ento no toquei em tal assunto uma nica vez, e a dor que
experimentei ficou dentro de mim, como um espinho, e nunca
mais
me abandonar porque nunca encontrar expresso. A propsito
daqueles quatro dias, no sei porqu, estou convencida de que
foi
nessa altura que Rosetta mudou verdadeiramente de carcter, ou

fora de pensar. duma maneira muito especial, em tudo quanto
Ihe
sucedeu, ou transformando-se sem querer e sem dar por isso,
pela
prpria fora do ultraje sofrido, numa pessoa diferente da que
fora
at a. E devo dizer que ao princpio at eu me surpreendi com
a sua
mudanca tao completa e to radical, passando do branco para o
preto: mas depois, pensando melhor, pareceu-me que, dado o seu
temperamento, no podia ser doutra forma. J aqui afirmei que
ela
era levada pela sua natureza para uma estranha perfeio; se
era
qualquer coisa, tinha de o ser a fundo e completamente, sem
incertezas nem contradies, e de tal forma que sempre estive
convencida de que a minha filha era uma espcie de santa. Ora
essa
perfeio de santa, feita, como disse, sobretudo de
inexperincia e
ignorncia da vida, fora ferida de morte pelo que sucedeu na
igreja;
ento mudou bruscamente para a perfeio oposta, sem essas
meias-medidas, moderao e prudncia prprias das pessoas
normais, imperfeitas e espertas. Tinha-a visto at a toda
devoo e
bondade, pureza e doura; devia esperar, de futuro, que ela se
voltasse para 0 excesso oposto, com a mesma ausncia de
dvidas e
de hesitaes, a mesma inexperincia e o mesmo sentido
absoluto.
Muitas vezes, em concluso das minhas reflexces sobre este
dolo
roso assunto, disse a mim prpria que a pureza  uma coisa que
no
se pode receber  nascena como dom da natureza, por assim
dizer;
mas que se encontra com as provaoes da vida e quem a recebeu
ao
nascer perde-a cedo ou tarde e tanto mais fcilmente quanto
mais
confiava possu-la: em suma, vale mais nascer imperfeito e
tornar
-se, a pouco e pouco, se no perfeito, pelo menos melhor, do
que nas
cer perfeito e depois ser obrigado a abandonar aqueia primeira
e
efmera perfeio pela imperfeio da experincia e da vida.

233







CAPTULO X

Entretanto, as conservas do major ingls iam desaparecendo a
olhos vistos, tanto mais que Rosetta parecia ter agora uma
fome de lobo; assim, decidi que precisvamos de sair o mais
depressa possvel daquele poiso. N o tinha coragem de me
dirigir a Vallecorsa ou a qualquer outra terra da regio, pois
receava encontrar novamente os marroquinos, que, segundo me
parecia, estavam espalhados por toda a Ciociaria. Por fim
disse a Rosetta: "O melhor  voltarmos a Fondi. L
encontraremos decerto maneira de regressar a Roma, se os
Aliados j l tiverem chegado, De qualquer modo, mais vale
suportar os bombardeamentos do que os marroquinos..." Rosetta
ouviu e ficou calada um momento, depois saiu-se com uma frase
que me socu mal: cNo, por mim prefiro os marroquinos aos
bombardeamentos. Os marroquinos j no podem fazer-me pior do
que me fizeram, enquanto os bombardeamentos... eu nao quero
morrer..." Discutimos ainda um pouco e por fim convenci-a de
que era aconselhvel voltar para Fondi: os bombardeamentos j
deviam ter acabado, pois o exrcito aliado avanava para o
Norte. E uma manh deixmos a cabana e descemos  estrada.

Tivemos mnita sorte, posso afirm-lo, porque, depois de termos
deixado passar alguns camies militares, que. j sabia, no
transportavam civis, vimos de sbito aparecer um camio
completamente vazio que descia, por assim dizer. alegremente e
a toda a velocidade os ziguezagues da estrada deserta. Pus-me
no meio do caminho e agitei os braos. O camio parou e vi ao
volante um rapaz loiro, de olhos aznis, vestido com uma linda
camisola vermelha. Ele olhou para mim e eu gritei-lhe: cSomos
duas refugiadas, podes levar-nos a Fondi?" Ele soltou um
assobio e respondeu: "Ests com sorte,  mesmo para Fondi que
vou. So duas refugiadas; ento a outra, onde est?" "Vem j
a." Fiz o sinal combinado a Rosetta, a quem ordenara,
receando algum mau encontro, que ficasse um pouco mais acima,
atrs duma moita. Ela desceu e caminhou ao nosso encontro,
pelo meio da estrada inundada de sol, trazendo  cabea a
nica caixa que possuamos,

234





na qual guardvamos as conservas que nos restavam. Agora podia
ver melhor o rapaz do camio e no me pareceu l mnito
simptico: havia um no sei qu de arrebatado, vulgar e
violento nos seus olhos aznis e na sua boca demasiado
vermelha. Essa impresso desfavorvel confirmei-a logo a
seguir: quando Rosetta se aproximou, ele no lhe olhou para a
cara, mas sim para o peito, que, como ela trazia os braos
levantados, a segurar a caixa, estava puxado para cima e
sobressaa debaixo do tecido fino da blusa. O rapaz exclamou
ento, com uma risada tola: "A tua me disse-me que eras
refugiada, mas no acrescentou que eras uma linda rapariga,"
Depois desceu e ajudou-a a subir para o seu lado, colocando-me
do lado oposto. Reparei que no protestara ao ouvir aquela
frase pouco respeitosa, quando alguns dias antes o teria feito
speramente e talvez renunciasse at a seguir no camio; e
pensei que tambm eu j no era a mesma, pelo menos em relao
a Rosetta. Entretanto, o rapaz ps de novo o motor a trabalhar
e o camio partiu.

Durante algum tempo no falmos; depois, como acontece sempre
nestes casos, comeou a troca de informaes. A nosso
respeito, disse pouco; mas ele, que parecia bastante
conversador, contou mnito da sua vida. Disse que nascera
naqueles stios; era soldado na altura do armistcio e
desertou; depois de andar a monte algum tempo, foi preso pelos
Alemes; mas um capito nazi simpatizou com ele e, em vez de o
mandar para as fortificaes, pusera-o nas cozinhas, onde
trabalhou todo esse tempo; nunca na sua vida tinha comido mais
e melhor; enfim, como a escassez era geral, a abundancia de
provises de que dispunha permitira-lhe conseguir das mulheres
tudo quanto queria: "Muitas raparigas bonitas vinham pedir-me
qualquer coisa de comer. E eu dava, mas, bem entendido, sob
condies. Talvez no acreditem, mas nunca encontrei nenhuma
que recusasse. Ah! A fome  boa conselheira, torna razoveis
at as mais soberbas..." Para mudar de conversa, perguntei-lhe
o que fazia agora e ele respondeu que se associara a uns
amigos e naquele carro levavam para aqui e para alm os
refugiados que voltavam s suas terras; claro, fuziam-se pagar
bem. "A vocs no levo nada>>, acrescentou nessa altura,
deitando uma olhadela de soslaio a Rosetta. Tinha a voz grossa
e rouca; no pescoo forte caiam-lhe tantos anis de cabelos
loiros que a sua cabea parecia a dum bode, e na verdade tinha
qualquer coisa de bode na maneira como olhava Rosetta, ou,
melhor, todas as vezes que podia lhe atirava os olhos ao seio.
Disse ainda que se chamava Clorindo e perguntou o nome de
Rosetta. Ela disse-lho e ento comentou: " pena,  uma pena
que a carestia acabe. Mas mesmo assim havemos

235





de chegar a acordo. Gostas de meias de seda? Ou dum bonito
corte de fazenda pare um vestido? Ou dum lindo par de sapatos
de pelica?" Rosetta, com grande espanto meu, retorquiu,
passado um instante: "Quem no gosta de coisas dessas?" Ele
riu e repetiu: "Havemos de nos emender, havemos de nos
emender..." Toda eu tremia e no puce deixar de exclamar "V
l como falas... A quem julgas que ests a falar?..." Ele
olhou-me de esguelha e disse: "Uh! Como s m! A quem julgo
que estou a falar? A duas pobres refugiadas que precisam do
meu auxi'lio..."

Em resumo, um tipo alegre, embora vulgar, brutal e
profundamente imoral. Depois desta converse, quando chegmos 
altura em que a estrada desce pare o mar, comeou a guiar o
camio como um louco, lanando-o num, ^orreria vertiginosa,
com 0 motor desligado, fazendo e desfaze.uo curves a seguir
umas s outras e cantando a plenos pulmces uma cano
brejeira. Na verdade, dava vontade de canter, pods estava um
lindo die e respirava-se no ar a liberdade reconquistada aps
tantos meses de escravidao. E no posso negar que at ele, de
certa maneira, nos fazia sentir, com a sue conduta
desordenada, que essa liberdade era j um facto; simplesmente,
a sue era a liberdade do valdevinos que no quer respeitar
nada nem ningum; enquanto a nossa, a minha e a de Rosetta,
era s a liberdade de voltar pare R oma e de recomear a vida
doutros tempos. Numa curve, um solavanco do camio atirou-me
contra ele, e ento vi que guiava s com uma das mos,
enquanto com a outra apertava a mo de Rosetta em cima do
assento. E uma vez mais me admirei de ver aquilo e no
protester, como sem dvida o teria feito alguns dies antes.
Era esta a liberdade dele, pensei; e veto-me  ideia que no
podia fazer nada... Nossa Senhora tambm no fizera o milagre
de impedir que os marroquinos realizassem a sue obra nefasta
mesmo junto do seu altar, assim eu agora, muito mais fraca do
que Nossa Senhora, no podia impedir Clorindo de segurar a mo
de Rosetta...

Entretanto descamos em correria a encosta e da a pouco
rodvamos na estrada, que eu conhecia teem, ladeada dum lado
pela montanha e do outro pelos laranjais. Lembrava-me de a ter
visto, a ltima vez, apinhada de soldados, de refugiados, de
automveis, de carros de assalto, e fiquei impressionada com o
silencio e a solido que tinham sucedido quela espcie de
feira. Se no fosse o sol e as rvores verdejantes que se
inclinavam pare a estrada, por cima das sebes em flor, podia
pensar-se que se estava ainda no Inverno, no pior momento da
ocupao alem, quando 0 terror obrigava toda a gente a
esconder-se como coelhos nas sues tocas. No passava ningum
ou quase ningum, a no ser um ou outro campons

236





levando  frente o seu burro; no se ouvia nenhum rumor, nem
prximo nem distante. Percorremos a grande velocidade a
estrada principal e entrmos em Fondi.

Tambm aqui reinava o deserto e o silncio, mas muito pior,
com todas aquelas casas arruinadas, aqueles montes de entulho,
aquelas poas cheias de gua estagnada. A gente que andava nas
ruas cheias de buracos, runas e poas parecia miservel e
esfomeada, nem mais nem menos do que um ms antes sob a
ocupao alem. Observei isto a Clorindo e ele respondeu
alegremente: "Eh! Diziam que os Ingleses traziam a abundncia.
Sim, trouxeram-na, mas s nos dois ou trs dias que pararam
aqui. Nesses dois ou trs dias distriburam caramelos,
cigarros, farinha, roupas. Depois foram-se embora e a
abundfincia acabou e toda a gente ficou como antes, ou pior do
que antes, pois j no tm mais nada a esperar, nem a chegada
dos Ingleses... " Vi que ele tinha razo; era assim mesmo: os
Aliados paravam um momento com o seu exrcito nos lugares
conquistados aos Alemes e, durante um dia ou dois, o exrcito
dava um pouco de vida s terras devastadas. Depois iam-se
embora e tudo voltava  mesma desolao. Disse a Clorindo: "E
que vamos ns as duas fazer agora? No podemos ficar aqui
neste ermo. J no possumos nada... Temos de voltar para
Roma." Ele, continuando a guiar por entre os destroos,
respondeu: "Roma no foi ainda libertada.  melhor por
enquanto ficarem aqui." "Mas o que fazemos?" Clorindo
retorqulu ento num tom reticente: "De vocs as duas trato
eu..." Pareceu-me um tom estranho, mas no disse nada.

Clorindo guiava o carro para fora de Fondi e em seguida meteu
por uma estrada secundria entre os laranjais. "Aqui, no meio
destes pomares, mora uma famlia que eu conheo", disse, num
tom despreocupado, "podem l ficar enquanto Roma no for
libertada. Logo que seja possvel, eu mesmo as levo a Roma
neste carro. " Mais uma vez no disse nada; ele fez o camio
dar meia volta, parou-o, depois desceu, explicando que
tnhamos de ir a p at casa dos seus amigos. Seguimos por um
atalho entre laranjeiras. Parecia-me conhecer aquele lugar; 
verdade que s se viam laranjeiras e o atalho era igual a
tantos outros; todavia, por alguns indcios, iria jurar que j
percorrera aquele atalho, no meio daquelas laranjeiras.
Caminhmos ainda uns dez minutos e depois, repentinamente,
desembocmos numa clareira; ento compreendi: diante de mim
estava a casa cor-de-rosa de Concetta, a mulher junto de quem
tnhamos estado nos primeiros dias que passmos em Fondi.
Disse, resoluta: "Eu aqui no quero ficar." "E porqu?"
"Porque j aqui estivemos h meses e fugimos;  uma famlia de
ladres e esta Concetta queria que Rosetta andasse metida com
os fascistas, como





uma prostituta." Ele soltou uma grande risada: "guas passadas
no movem moinhos... hoje j no h fascistas... os filhos de
Concetta no so ladroes, so meus scios, e podes estar
tranquila que te tratam bem... guas passadas..."

Quis ainda insistir e afirmar de novo que no ficaria em casa
de Concetta por nada deste mundo; mas no tive tempo. No mesmo
instante, Concetta saiu de casa e correu ao nosso encontro,
atravessando a clareira, jubilosa, exuberante e exaltada como
antigamente: "Bem-vindas sejam, bem-vindas sejam! Quem  vivo
sempre aparece! Ah! vocs fugiram, foram-se embora e nem
sequer disseram para onde, nem nos pagaram o que deviam... Mas
fizeram bem em fugir para a montanha; dai a pouco tempo os
meus filhos tambm tiveram de ir para o monte por causa dos
recrutamentos desses malditos Alemes. Fizeram bem, tiveram
mais juzo do que ns, que ficmos aqui e passmos 0 bom e 0
bonito. Sejam bem-vindas, sejam bem-vindas, d-me muito prazer
v-las de boa sade. Ah! Quando h sade, h tudo... Venham,
venham, Vincenzo e os meus filhos hfio-de gostar de as ver. E,
alm disso, vm com Clorindo,  como se viessem com um filho
meu. Clorindo agora faz parte da familia... Estejam  vontade,
no faam cerimnia.,."

Em resumo, era a mesma Concetta, e senti apertar-se-me o
corao por estar ali de novo, em piores circunstancias do que
antes, pois tnhamos fugido da casa de Concetta justamente
para evitar o perigo em que caramos depois, sem remdio, ao
chegarmos  minha aldeia. Mas no disse nada e deixci-me
beijar e abraar por aquela mulher odiosa, o mesmo fazendo
Rosetta, que parecia agora quase um boneco, to aptica e
indiferente se mostrava. Entretanto, tambm Vincenzo sara de
casa, mais pssaro de mau agoiro do que nunca, magro de meter
medo, o nariz mais adunco, as sobrancelhas mais salientes e os
olhos mais cintilantes do que a ltima vez que o vira. E
Concetta teve a coragem de dizer, enquanto ele, resmungando
qualquer coisa incompreensvel, me apertava a mo: "Vincenzo
disse-me que vocs estavam l em cima com os Festas, que as
tinha visto em Santa Eufmia. Ah! Tambm para os Festas foi um
mau Inverno. Primeiro no conseguimos resistir  tentao
daqueles tesouros escondidos na parede, depois o filho, o
Michele... Pobrezinhos... as coisas que lhes tirmos,
restituimo-las todas, menos naturalmente as que j tinham sido
vendidas, porque somos honestos e o que pertence aos outros
para nds  sagrado. M as o filho ningum lho restituir,
coitados..."

Confesso, ao ouvir estas palavras to estouvadas e to cruis,
senti o corao desfalecer, toda eu gelei e pus-me plida,
plida como morta. Perguntei, num murmrio: ~Porqu, sucedeu
alguma

238





-

coisa a Michele?" E ela, entusiasmada, como se nos desse uma
grande e bela notcia: <<Mas, no sabiam? Os Alemes
mataram-no!" Estvamos no meio da eira e senti que me faltavam
as foras; compreendi pela primeira vez que gostava de Michele
como dum f~ho; sentei-me numa cadeira ao p da porta e tapei a
cara com as mos. Concetta, entretanto, continuava, excitada:
"Sim, os alemes mataram-no quando fugiam. Parece que o tinham
levado para Ihes servir de guia... Assim, de montanha em
montanha, chegaram a um lugarejo isolado onde vivia uma
famlia de camponeses e, como Michele no estava bem certo de
qual era o melhor caminho, os alemes perguntaram a esses
camponeses por onde andavam os inimigos. Queriam dizer os
Ingleses, que, para eies, de facto, eram os inimigos. Mas os
camponeses, pobrezinhos, convencidos, como todos ns,
Italianos, que os inimigos eram os Alemes, responderam que
tinham fugido para Frosinone. Os alemes, ao serem tratados
como inimigos, ficaram furiosos-compreende-se, ningum gosta
de ser considerado inimigo-e apontaram as armas contra os
camponeses. Michele meteu-se de permeio, gritando: "No
disparem, so inocentes!" Morreu ali mesmo, juntamente com
todos os outros... Uma famlia inteira massacrada... ah!
sabe-se,  a guerra, uma verdadeira carnificina, homens,
mulheres e crianas, e Michele em cima do monte, com muitas
balas no peito, pois dispararam quando ele, coitado, se meteu
de permeio... Soube-se tudo isto porque uma garota se escondeu
atrs dum palheiro e se salvou; depois veio c abaixo e contou
tudo... Mas ento no sabiam? Toda a gente em Fondi fala
disto. Ah! Sabe-se, a guerra  a guerra...~

Michele tinha morrido... e eu estava para ali sentada, a cara
entre as mos. Depois senti que chorava porque tinha os olhos
molhados e dei um suspiro profundo e comecei a soluar
baixinho. Parecia-me que chorava por todos, por Michele
principalmente, a quem queria como a um filho, e tambm por
Rosetta, que talvez fosse melhor ter morrido como Michele, e
por mim mesma, que j no tinha quaisquer esperanas, depois
de ter esperado tanto durante um ano inteiro... Entretanto
ouvia Concetta dizer: "Chora, chora, faz-te bem. Tambm eu,
quando os meus filhos fugiram para a montanha, chorei no sei
quanto tempo e depois senti-me melhor. Chora, chora, tens bom
corao e faz bem chorar... Michele, coitadinho, era mesmo um
santo e to instruido que, se no o matassem, ainda um dia
havia de ser ministro.  a guerra, sabe-se, e nesta guerra
todos perdemos qualquer coisa. Mas os Festas mais do que
todos. Aqueles que perderam a fortuna refazem-na, mas um filho
no se refaz... ah!... no, no se refaz... Chora, chora que
te faz bem..."

239





Em suma, chorei um bom bocado; entretanto, ouvia os outros em
volta a falar dos seus assuntos; por fim levantei a cabea e
vi Concetta, Vincenzo e Clorindo a discutirem a um canto da
eira, no sei que poro de farinha, e Rosetta, um pouco
afastada,  espera, de p, que eu acabasse de chorar. Olhei
para ela e mais uma vez fiquei assustada com a sua expresso,
absolutamente aptica e indiferente, de olhos secos, como se
no tivesse sentido nada, como se o nome de Michele no lhe
dissesse coisa alguma. Pensei que ela se tornara insensvel,
como quem sofre uma queimadura na mo e depois de cicatrizada
a pode pr mesmo em cima das brasas que no sente nada. Ao
v-la assim iria e aptica, voltou-me de novo a dor pela morte
de Michele, pois sabia que ele a estimava muito e era talvez a
nica pessoa neste mundo que poderia faz-la voltar ao seu
estado normal; mas Michele tinha morrido e no havia mais nada
a esperar...

Digo a verdade: naquele momento, quase mais do que a morte de
Michele, amargurou-me sobretudo a maneira como Rosetta acolheu
tal noticia. Concetta tinha razo, era a guerra e agora tambm
ns fazamos parte da guerra e nos comportvamos como se a
guerra, e no a paz, fosse a condio normal do homem.

Por fim levantei-me e Clorindo disse: "Vamos ento ver como
ficam aqui instaladas." Seguimos Concetta at a barraca do
feno j nossa conhecida. Desta vez, porm, no havia feno l
dentro, mas sim trs camas com colches e cobertores. Concetta
explicou: "So as camas daquele desgraado da estalagem de
Fondi. Pobre homem, levaram-lhe tudo, a estalagem ficou vazia,
no h l nada dentro, at os vasos de noite lhe tiraram...
Ns, com estas camas, ainda fazemos algum dinheiro durante o
Inverno. Refugiados que iam e vinham, sem nada, como ciganos,
pobre gente, pagavam um tanto por noite e assim arranjmos uns
cobres... Os proprietrios no esto c, fugiram; uns dizem
que foram para Roma, outros, que esto em Npoles. Cluando
voltarem, damos-lhes as camas, claro, somos pessoas
honestas... entretanto, vamos fazendo algum dinheiro... Ah!
Sabe-se, a guerra  a guerra..." Clorindo disse nessa altura:
"Mas estas duas senhoras no pagam nada." E ela, entusiasmada:
"Pois, certamente, quem Ihes ia pedir dinheiro? Somos todos
uma famlia..." Clorindo acrescentou: /<E ds-lhes tambm de
comer, depois fazemos contas." E ela: /(De comer, pois
decerto, coisas simples, comida do campo..." Em suma, da a
pouco foram-se embora e eu fechei a porta da barraca e, quase
no escuro, sentei-me numa das camas, ao lado de Rosetta.

Estivemos caladas algum tempo; depois explodi com violencia:
<<Mas que tens tu? Pode saber-se? No tens pena que Michele
tenha

Z40





-

morrido, dize, no tens pena? No entanto gostavas dele,.." No
podia ver Ihe o rosto, porque ela tinha a cabea inclinada e
tambm porque estvamos quase s escuras. Ouvi-a responder:
"Sim, tenho pena.>, <<E dizes isso com esse modo?~> <`Como hei
de diz-lo?~> "Mas que se passa contigo, fala, nem sequer
deitaste uma lgrima por aquele pobrezinho, que morreu para
de`ender gente pobre como ns. que morreu mesmo como um
santo..." Ela no respondeu; eu, ento, tomada no sei de que
frenesi, sacudi-a por um braso, repetindo: "M as o que tens,
pode saber-se o que tens?" Ela libertou-se sern pressa e
disse, lentamerlte, lacnica: <<Mam, deixa-me tranquila.~>
Desta vez no lhe disse mais nada e i`iquei um momento imvel,
de olhos arregalados, olhando na minha frente. ELla, ento,
levantou se, f`oi para a sua carna e deitou-se, voltando me as
costas. Deitei-me tambrn e adormeci.

Quando acordei, era noite fechada e Rosetta no estava na cama
ao lado. Durante um bocado fiquei imvel, estendida de costas,
incapaz de me levantar e de fazer fosse o que fosse, no tanto
por cansao, mas por lalta de vontade. Depois, atravs das
paredes da barraca, ouvi Concetta, que falava com algum na
eira; arranjei coragem, levantei me e sai. Concetta tinha
posto a mesa ao ar livre, perto da porta, e j l estava o
marido, mas Rosetta e Clorindo no os vi. Aproximei me e
perguntei: "Onde est Rosetta7 Viram-na?~> Concetta respondeu:
<<Julgava que soubesses, saiu com Clorindo....> ~0 que
dizes?!...~> E ela: "Sim, Clorindo foi com o carro levar uns
retugiados a Lenola. E levou Rosetta para no fazer szinho a
viagem do regresso. Devem estar de volta amanh  tarde.>> Eu
f'iquei para morrer. Rosetta nunca teria feito coisa
semelhante noutros tempos: ir-se embora assim, sem rne dizer
nada, e ainda por cima acompanhada por esse Clorindo...
Insisti, quase incrdula: :<Mas ro deixou nenhum recado?~>
<<Nada. Disse apenas que te avisasse. Nao quis acordar te, 
boa f'ilha... E depois. claro, a uventude, est na idade,
gosta de Clorindo e quer estar szinha com ele .. Ns, as
mes, a partir de certa altura, somos um estorvo para os
f'ilhos. Tarnbm os meus saem de casa para estar szinhos com
as raparigas. E Clorindo  um rapaz bem parecido, ele e
Rosetta fazem um lindo par.~> No me contive: <<Se certas
coisas no tivessem sucedido. ela no olhava para esse
Clorindo'...~> Mal pronunciei estas palavras, logo me
arrependi de as ter dito, mas j era demasiado tarde, porque
aquela bruxa me saltou em cima, perguntando: <<Mas o que
sucedeu? Achei estranho que Rosetta f'osse com ele, assim, sem
pensar, mas no fiz caso, claro, a juventude... Mas, dize me.
o que sucedeu ?~>

No sei porq~e, um pouco devido  raiva que me causava o

341





procedimento de Rosetta, um pouco para desabafar o meu
desgosto com algum, fosse quem fosse, at mesmo com Concetta,
no resisti e contei tudo: a igreja, os marroquinos e o que
nos tinham feito s duas. Concetta ia servindo a sopa e
repetia: "Pobrezinha... pobre Rosetta... como me
entristece..." Depois sentou-se e, quando acabei, comentou:
"Sabe-se,  a guerra... E os marroquinos, no fim de contas,
tambm so rapazes e, ao verem a tua filha to nova e to
bonita, no resistiram, cederam  tentao... Sabe-se, ..."
Mas no a deixei acabar, de repente, saltei como uma fria,
com uma faca na mo, e gritei: `<No sabes o que tudo isto
significou para Rosetta! Tu s uma cabra e filha doutra que
tal e queres que todas as mulheres sejam como tu. Mas se
tornas a falar de Rosetta dessa maneira, mato-te, palavra, to
certo como Deus existir!>> Ela, ao ver-me assim enfurecida.
deu um salto para trs e depois, ]untando as mos: <<Jesus.
porque te zangas tanto? Que disse eu, no fim de contas? Que a
guerra  a guerra e a juventude  a juventud~ e os marroquinos
tambm so rapazes... Mas no te zangues, Clorinoio agora
olhar por Rosetta. e enquanto ele olhar por ela vers que no
Ihe falta nada... Clonndo negoceia no mercado negro. tem tudo
o que quer, comida e vestidos. meias, sapatos, est
tranquila... Com ele Rosetta no tem nada a recear..a~
Compreendi que era tempo perdido zangar-me com aquela mulher.
pousei a faca e comi um pouco de sopa sem dizer palavra. Mas
naquela noite a comida parecia me veneno: Rosetta no me saia
do pensamento, como ela era antigamente e no que se tornara
agora. Fora com Clorindo, como qualquer prostituta vai com o
primeiro homem que Ihe aparece, e nem sequer me avisara e
talvez mesmo nem quisesse mais viver comigo. A ceia acabou em
silncio, depois retirei me para a barraca e estendi-me na
cama, mas sem poder dormir: e ali fiquei de olhos arregalados,
o ouvido  escuta e todo o corpo crispado no sei por que
fria.

No dia seguinte Rosetta no voltou e todo ele o passei
impaciente, andando pelos laranjais e aproximando-me de vez em
quando da estrada principal a ver se ela chegava. Comi com
Vincenzo e a mulher, que procurava contortar me. sempre no
mesmo tom exaltado e estpido, repetindo que, com Clorindo,
Rosetta estava bem e da em diante no Ihe faltaria nada. Eu
no respondia, sabia que nao rmerecia a pena e, alm disso,
nem vontade tinha de me zangar. Depois da ceia fui fechar-me
na barraca e por fim adormeci. Por volta da meia noite senti a
porta abrir se devagarinho: abri os olhos e  luz do luar vi
Rosetta, que entrava em bicos de ps. Caminhou s escuras at
a mesinha de cabeceira que ficava entre as nossas duas camas
e. dai a pouco, acendeu a vela: fechei os olhos,

242





fingindo que dormia. Depois entreabri-os. Rosetta estava de p
diante de mim e,  luz da vela, pude v-la toda vestida de
novo, como Concetta previra. Trazia um fato de saia e casaco,
de tecido fino, vermelho, uma blusa branca, sapatos pretos,
brilhantes, de salto alto, e tambm meias. Despiu primeiro o
casaco e, depois de Ihe lanar um longo olhar, p-lo em cima
da cadeira, aos ps da cama. Em seguida tirou a saia, que ps
ao lado do casaco. Ficou em combinao, uma combinao preta,
de renda, daquelas que deixam ver aqui e alm, pelos buracos,
a carne branca: depois sentou-se e tirou os sapatos, que olhou
demoradamente, mirando-os bem  luz da vela antes de os pr,
ao lado um do outro, debaixo da cama. A seguir aos sapatos
tirou a combinao. despindo-a pela cabea. E entao. enquanto
se esforava por tir-la, de p, contorcendo o tronco e as
pernas, vi que trazia tambm uma cinta preta que Ihe apertava
as ancas, com vrias fitas a segurarem as meias. Rosetta nunca
usara cinta para prender as meias, nem preta nem de outra cor:
habitualmente usava ligas um pouco acima dos joelhos. e aquela
cinta transformava a por completo: o seu corpo no parecia j
o mesmo, parecia outro. Antes era um corpo so e jovem, forte
e limpo. prprio da rapariga inocente que era: agora, ao
contrrio, por causa daquela cinta mnito justa e preta, tinha
um no sei qu de provocante e vicioso: as coxas pareciam
demasiado brancas, as ndegas demasiado redondas, o ventre
demasiado saliente. No era, em suma, o corpo da Rosetta que
fora at a a minha filha: era, sim, o corpo da Rosetta que
andava com o Clorindo. Levantei os olhos para o rosto e vi que
tambm este mudara. A luz da vela batia-lhe em cheio e
Rosetta. de repente, fezme pensar. pela expresso vida,
absorta e matreira, numa mulher de m vida que, depois de
andar horas e horas nas ruas e nos quartos de aluguer, volta a
casa, noite alta, e faz contas aos ganhos do dia. Desta vez
no me contive e exclamei, com voz forte: `Rosetta!~> Ela
ergueu logo os olhos para mim, depois pronunciou lentameme e
quase de m vontade: "Mam?" Disse-lhe ento: "Onde foste?
Estive em cuidados durante trs dias. Porque no me avisaste?
Onde estiveste?~> Ela olhava para mim e por fim res

pondeu: <Fui com o Clorindo, mas voltei...~> Eu tinha me
sentado na cama e insisti `Mas, Rosetta, o que te aconteccu?
J no s a mesma...~> Ela retorquiu. baixinho <E no entanto
sou a mesma... porque havia de ter mudadq?...~, Pronunciei,
amargurada Mas, minha filha, esse Clorindo. quem o conhece?
O que andas a fazer com ele?~, Desta vez no me respondeu.
estava sentada, de olhos baixos. mas por ela falava o corpo,
agora nu, s com o pra seios e a cinta, to diferente do que
era outrora.

243





Ento perdi a pacincia, levantei-me da cama, agarrei-a pelos
ombros e sacudi-a, gritando: <<Mas tu queres fazer-me perder a
cabea com o teu silncio?! Sei que no me respondes porque te
portas como uma mulher perdida e s amante do Clorindo... no
dizes nada porque j no te importas com a tua me e queres
contim~ar a mesma vida quando te parecer." Ela no tugia nem
mugia e eu continuava a sacudi-la; ento perdi de todo a
cabeca e berrei: "Mas, ao menos, vais tirar isto!" E tentei
arrancar-lhe a cinta. Ela ainda desta vez no se mexeu nem
protestou, continuou imvel, de cabeca baixa, quase enroscada
a mim: e puxei-lhe a cinta, mas no fui capaz de lha tirar,
era mnito forte: ento empurrei a para cima da cama, ela caiu
de brucos, a cara sobre a I coberta, e dei-lhe duas grandes
palmadas nas ndegas: depois atirei-me para a minha cama,
arfando, e gritei: "Mas nao percebes que te tornaste uma reles
prostituta?" Esperava, nem sei porqu, que ela desta vez
protestasse. Mas no protestou, levantou-se da cama e
dir-se-ia preocupada smente com as meias, que eu, ao tentar
arrancar-lhe a cinta, esticara demasiado. De facto, a uma
delas tinham caido algumas malhas, de cima at ao joelho: vi-a
meter um dedo na boca, molh-lo de saliva, inclinar se e
humedecer as malhas para nao se romperem mais. Depois disse-me
num tom razovel: <<Porque no dormes mam?... J  mnito
tarde..a~ Compreendi que no havia nada a fazer e. num mpeto,
estendi-me na cama e volteiqhe as costas. Senti-a mexer-se
ainda durante alqum tempo e podia ver a sua sombra que a luz
da vela projectava na parede na minha irente, mas no me
voltei. Por fim ela apagou a luz, ficmos s escuras e ouvi a
sua cama ranger, ao aninhar-se, procurando a melhor posico
para dormir.

Agora queria dizer lhe muitas coisas que, enquanto havia luz e
a podia ver, nao fora capaz de dizer, tal a raiva que me
inspirava v la assim mudada. Gueria dizer Ihe que a
compreendia: compreendia que, depois daquilo que sucedera com
os marroquinos, ela no fosse j a mesma e quisesse ter um
homem para se sentir mulher e apagar assim a recordao do que
Ihe tinham feito; compreendia tamm que depois de ter sofrido
o que sofreu, mesmo  vista de Nossa Senhora, sem que ela
fizesse fosse o que fosse para o impedir, j no acreditasse
em nada, nem mesmo na religio. Ctueria dizer-lhe tudo isto e
talvez tom-la nos braos e beij-la e acarinh-la e chorar
com ela. Mas, ao mesmo tempo, sentia que j no era capaz de
Ihe falar e de ser sincera, porque ela tirlha mudado e, ao
mudar, mudara-me a mim tambm, e assim entre ns as duas tudo
mudara... Em suma, depois de ter pensado mnitas vezes em
levantar-me e ir deitar-me ao

,;4 i

l





seu lado para a abraar mnito e mnito, renuncici e acabei por
adormecer.

No dia seguinte e nos outros f`oi sempre a mesma msica.
Rosetta quase no me falava, no porque estivesse ofendida.
mas porque no tinha nada a dizer-me. Clorindo estava sempre
ao p dela e no se envergonhava de a apalpar na minha frente.
prendendo-a pela cintura ou acariciando-lhe a face: e Rosetta
consentia tudo, com ar de submisso complacente, quase
reconhecida. Concetta exclamava constantemente, juntando as
mos. que faziam na verdade um lindo par, e eu, c por dentro,
moia-me cheia de raiva e desespero. mas nao podia f'azer nem
dizer nada, no era capaz. Um dia experimentei lembrar lhe o
noivo, que estava na Jugoslvia: sabem o que me respondeu?
"Ora, tambm ele encontrou com certeza alguma eslava E de
resto no vou esper-lo toda a vida." Alis, pouco tempo
parava na casa cor-de-rosa. Clorindo levava-a sempre no
camio, que se tornara, por assim dizer, a verdadeira casa
deles. E era ver como ela obedecia e corria ao seu encontro.
Bastava que Clorindo chegasse ao terreiro e a chamasse, para
deixar tudo imediatamente e ir ter com ele. E no a chamava
com a voz, mas com um assobio, como se f'az aos ces, e parece
que ela gostava de ser tratada como um co: via se a uma lgua
de distncia que era atrada para ele por aquim que ela nunca
antes experimentara, essa novidade de que j no podia
prescindir, como um bbado no pode passar sem vinho e um
fumador sem cigarros. Sim, tomara o gosto quilo que os
marroquinos Ihe tinham imposto pela fora; e era esse talvez o
aspecto mais triste da sua mudana, ao qual eu no podia
resignar me: que a sua revolta contra a fora que a violentara
se exprimisse em aceitar e procurar essa fora, e no em
repeli-la e recus -la.

Ela e Clorindo iam no camio a Fondi e s aldeias em redor de
Fondi, e algumas vezes at Frosinone ou Terracina ou mesmo at
Npoles, e ento ficavam fora de noite; quando voltava,
parecia-me ainda mais ligada a Clorindo, e aos meus olhos, que
Ihe notavam a mnima mudana, ainda mais prostituta.
Naturalmente no se f'alava j em ir para Roma, onde de resto
os Aliados ainda no tinham chegado. Clorindo, entretanto,
dava a entender que, mesmo depois de os Aliados tomarem Roma,
isso no significava que abandonssemos logo Fondi: Roma no
sena acessvel durante muito tempo, seria declarada zona
militar, e para entrar l iam ser necessrias no sei quantas
licenas e quem sabe como e quando se poderiam obter. Em suma,
aquele futuro que no momento da libertao me parecia to
claro e luminoso, agora, devido ao procedimento de Rosetta,
por um lado, e  presena de Clorindo, por

245





outro, obscurecera-se de tal maneira que eu prpria j no
sabia verdadeiramente se desejava voltar a Roma e retomar a
nossa antiga vida, que estava certa, no seria a mesma, uma
vez que ns tambm deixramos de ser como ramos. Aqueles dias
que passei na casita cor-de-rosa, no meio dos laranjais, foram
os mais tristes de todo aquele perodo, pois Rosetta andava
sempre enrolada com Clorindo; o que eles faziam, no o
adivinhava smente, via-o com os meus prprios olhos, pois
faziam-no por assim dizer na minha frente. s vezes, por
exemplo, estvamos j na cama e eis que ouvia, no terreiro, o
assobio do costume; Rosetta levantava-se imediatamente,
enquanto eu, furiosa, perguntava: "Mas onde vais a esta hora,
pode saber-se?..." Ela nem sequer me respondia, vestia-se 
pressa e saa a correr, sempre com a mesma expresso tensa,
vida e absorta que Ihe vi a primeira vez quando regressou de
Lenola e me fizera compreender definitivamente que j no era
a mesma doutro tempo. Uma noite, julgo que Clorindo at esteve
na barraca, pelo menos estou quase certa disso, porque fai
acordada pelo ranger da cama de Rosetta e um leve cochichar;
sentei-me nc leito,  escuta, de ouvido atento, e perguntei a
Rosetta, no escuro, se dormia: ela, numa voz aborrecida,
respondeu: "Claro que estou a dormir, que querias que
estivesse a fazer? Agora acordaste-me...~ Deitei-me pouco
convencida e creio que eles ficaram quietos e mudos at se
persuadirem de que eu adormecera novamente; depois Clorindo
saiu, sorrateiramente, um pouco antes da alvorada. Mas dessa
vez nao quis acender a vela: no fundo, preferia no os ver
juntos na cama; e, quando ele saiu, aos primeiros alvores da
manh, como disse, embora no estivesse a dormir, fingi que
estava e conservei os olhos to fechados que s o senti pelo
leve ranger da porta ao abrir-se e depois fechar-se. A maior
parte das vezes, porm, iam os dois sabe-se l para onde,
partindo na camioneta logo depois da ceia e voltando para casa
alta noite. Isto acontecia quase todos os dias; era um amor
puramente fisico, que nunca se saciava; ele andava sempre com
grandes olheiras negras e at parecia mais magro; Rosetta, por
seu turno, tornava-se, visivelmente, cada dia mais mulher, com
aquele no sei qu de lnguido e satisfeito que tm as
mulheres quando andam bem fartas e regaladas com o homem que
Ihes agrada e a quem agradam.

Depois dum ms desta vida, comecei a procurar conforto na
ideia de que, apesar de tudo, Clorindo era um belo rapaz,
ganhava bem com a sua camioneta e o mercado negro e, enfim,
podia casar com Rosetta e tudo ficaria em ordem. Esta ideia
no me agradava muito, pois no simpatizava com Clorindo, mas,
em suma, como se costuma dizer, tinha de fazer boa cara  m
fortuna; alm disso, no era eu

246





que casava com ele, mas sim Rosetta; e se ele lhe agradava,
no havia nada a fazer. Pensava que casariam, iriam viver para
Frosinone, onde Clorindo tinha a familia, teriam filhos, e
talvez Rosetta fosse feliz. Esta perspectiva confortou-me um
pouco; mas continuava inquieta porque Clorindo no falava de
matrimnio, nem mesmo Rosetta. Assim, uma noite, depois da
ceia, na barraca, enchi-me de coragem e disse-lhe: "Bem, no
sei nem quero saber o que vocs fazem ou no fazem quando
esto juntos, mas quero pelo menos saber se ele tem intenoes
srias a teu respeito e, se as tem, como espero, quando pensa
casar contigo."

Ela estava sentada na cama, diante de mim, atenta a tirar os
sapatos. Levantou-se, olhou-me e depois disse simplesmente:
"Mas, mam, Clorindo j  casado, tem mulher e dois filhos em
Frosinone ... "

C onfesso que, ao ouvir esta resposta, me subiu o sangue 
cabea; apesar de tudo, sou da Ciociaria e ns, os desses
stios, temos o sangue quente e por pouca coisa somos at
capazes de dar uma facada. Ento, sem sequer me aperceber do
que fazia, saltei da cama, fui-me a ela, agarrei-a pelo
pescoo, atirei-a para cima do colcho e comecei a
esbofete-la. Ela procurava proteger-se como podia e eu
continuava a bater-lhe e berrava: "Eu mato-te!... Tu queres
ser puta, mas eu mato-te!..." Com os braos, Rosetta procurava
defender-se das minhas pancadas, mas no protestava nem reagia
de maneira nenhuma; por fim faltou-me o flego e deixei-a: ela
no se mexcu. ficou como estava, enrodilhada em cima da cama,
o rosto enterrado na almofada, e no se sabia se chorava, se
pensava, ou o que fazia. Eu olhava-a fixamente, sentada na
minha cama, ainda ofegante, sentindo dentro de mim um
desespero indescritvel: compreendi que podia at mat-la, mas
no serviria de nada; agora era impotente, j no tinha
nenhuma autoridade sobre ela... fugira-me para sempre... Por
fim distre, cheia de r~va~ "Vou falar com esse patife do
Clorindo. Sempre quero ver o seu descaramento e o que vai
responder-me." A estas palavras, Rosetta levantou-se e vi-lhe
os olhos euxutos e o rosto, como de costume, aptico e
indiferente. Disse-me tranquilamente: "No vers Clorindo
porque voltou para a familia. No tinha mais nada a fazer em
Fondi. Foi para Frosinone e despedimo-nos esta noite. No o
tornarei a ver, o sogro ameaou-o de Ihe tirar a filha e, como
 a mulher que tem os cobres, no teve outro remdio seno
obedecer..."

Fiquei mais uma vez sem flego, pois, confesso, no esperava
tal. Sobretudo no esperava que ela me anunciasse com tamanha
indiferena que se tinha separado de Clorindo, como se o caso
no Ihe dissesse respeito. No fim de contas, fora esse o
primeiro homem

247





que passara na sua vida: c bem no intimo, sempre supus que se
amassem realmente; no entanto, nao era verdade, tinham andado
um com o outro como um homem anda com uma prostituta qualquer:
ele paga, ela recebe o dinheiro, e nao tm rnais nada a dizer
e separam-se sem saudades, como se nunca se tivessem visto nem
conhecido, Ah! Na verdade, Rosetta mudara mesmo, nao pude
deixar de repeti lo a mim prpria, mais uma vez: mas eu,
habituada a consider-la a minha Rosetta de outros tempos,
nunca chegaria a compreender at que ponto ela estava mudada!
Estupef'acta, comentei: <<Ento f`oste sua amante e ele agora
deixa-te e vai se embora e dizes-me isso dessa maneira!.,."
Ela respondeu: <<Como querias que o dissesse?u Fiz um
movimento de raiva e ela teve um gesto de medo, como se
receasse que eu lhe batesse novamente; e tambnr. isso me
amargurou, porque unr.a me no gosta de ser temida, mas sim
amada, Disse-lhe: <<Est tranquila, no te tocarei mais... mas
parte-se me o coraco por te ver chegar ao que chegaste.~> Ela
desta vez nao respondeu e continuou a despir-se, Ento, de
sbito, gritei, numa voz exasperada: <<E agora quem nos leva
para Roma? Clorindo dizia que nos levava quando Roma fosse
libertada pelos Aliados, Roma foi libertada, Clorindo
desapareceu, e agora quem nos leva para l? Amanh, seja como
for, volto para Roma, nem que v a pa> Ela respondeu
calmamente: <<Para Roma no se pode ir por estes dias, Mas, de
qualquer modo, um dos filhos de Concetta leva-nos para Roma,
logo que l se possa entrar, Estarao aqui amanh  noite, pois
foram acompanhar Clorindo a Frosinone: a sociedade desfez-se e
eles ficaram com o camio, Est tranquila que voltaremos para
Roma." Esta notcia tambm no me deu prazer, At entao no
pusera ainda a vista nos filhos de Concetta, empenhados, ao
que supunha, nos negcios do mercado negro em Npoles: mas
lembrava-me mnito bem deles, mais antipticos ainda do que
Clorindo, se era possivel, e a ideia de fazer a viagem para
Roma na sua companhia no me agradava, Disse: "A ti j nada te
importa, no  assim?" Ela olhou-me, depois perguntou: <<Mam,
porque me atormentas tanto?" Havia na sua voz como que um
reexo do antigo afecto, Volvi-lhe, comovida: "Querida filha,
tenho a impresso de que mudaste e no sentes nada por
ningum, nem mesmo por mim,,." E ela: "Estarei mudada, no o
nego, mas para ti sou sempre a mesma," Assim ela reconhecia
que estava mudada, mas ao mesmo tempo tranquilizava-me,
dando-me a entender que me queria bem como antes, Sem saber se
devia entristecer-me ou consolar-me, fiquei calada, e a
discusso aca

bou ali,
N o dia seguinte, como Rosetta me anunciara, chegou o camio
de

248





~rosinone, mas s com um dos filhos de Concetta, Rosrio: o
outro prosseguiria nos negcios em Npoles. Dos dois, ambos
antipticos, como j disse, Rosrio era aquele que me
desagradava mais, No mnito alto, atarracado e forte, com cara
de bruto, quadrada e escura, testa baixa, os cabelos
chegando-lhe quase at os olhos, o nariz curto e o maxilar
saliente, era mesmo aquilo que em Roma se chama um labrego, ou
seja, um homem rstico, um vadio do campo, que aimla por cima
no era bom nem inteligente,  mesa, no mesmo dia em que
chegou, ele, que nunca dizia nada, tornou-se quase loquaz.
Disse a Rosetta: "Trago te cumprimentos do Clorindo: ir
ver-te a Roma, quando l estiveres." Rosetta respondeu,
secamente, sem levantar os olhos: "Dize-lhe que nao v, nao o
quero ver mais,>> Compreendi ento pela primeira vez que toda
aquela indiferena de Rosetta era t'ingida: ela sentira e
talvez sentisse ainda qualque coisa por Clorindo,  estranho,
mas o facto de ela sofrer por causdaquele homem tao
desprezvel aborreceu me ainda mais do que ~ ideia de nao
querer saber dele para nada, Rosrio perguntou: <<k porqu?
Que mal te fez ele? J no te agrada?" Eu irritava me por ver
Rosrio f'alar a Rosetta sem respeito nem amabilidade, como
quem f`ala a uma prostituta, que nao tem o direito de
protestar nem de se indignar: e irritei me ainda mais quando
Rosetta respondeu: :<Clorindo fez-me uma coisa que no devia
ter feito, Nunca me disse q~u, era casado, S o soube ontem,
quando decidimos separar-nos, Enquanto Ihe fez jeito,
ocultou-o: logo que lhe conveio diz-lo, disse o." Agora era
sina minha no compreender nenhuma das reaces de Aosetta e
fiquei uma vez mais apalermada, dolorosamente confundida;
assim, ela soubera s no ltimo momento que Clorindo tinha
mulher e filhos e falava naquele tom, como dum despeito sem
importancia, prprio duma prostituta sem orgulho nem dignidade
que sabe que nao pode fazer-se valer perante o homem que ama.
Fiquei sem flego: entretanto Rosrio, com um risinho
zombeteiro, observou: "E porque havia de dizer-to?
Naturalmente vocs iam casar, no?..,>> Rosetta baixou a
cabea para o prato e no respondeu, Mas aquela bruxa da
Concetta saltou logo: <<Ideias doutros tempos... Com a guerra,
sabe se, tudo mudou, os rapazes fazem a corte s raparigas sem
Ihes dizerem se sao casados ou nao e as raparigas andam com os
rapazes sem lhes pedirem que casem com elas. Ideias de outros
tempos... tudo mudou... que importa que se seja casado ou nao,
que se tenham filhos e mulher ou no? Ideias doutros tempos...
O importante  quererem-se bem e Clorindo gostava de
Rosetta... bastava ver como a trazia vestida: antes de se
encontrarem parecia uma cigana e agora parece uma senhora.~>
Com estas palavras, Concetta, sempre pronta a defender os
malandros,

249





pois no fundo era igual a eles, dizia uma grande verdade: a
guerra mudara tudo e eu tinha a prova disso diante dos meus
olhos, na minha prpria filha, que sempre fora anjo de pureza
e bondade e agora se tornara uma prostituta insensvel e sem
vergonha. Tudo isto eu sabia que era verdade; no entanto, o
que via e ouvia confrangia-me da mesma forma o corao; por
isso saltei contra Concetta: "Tudo mudou, uma gaita! Vocs 
que estavam todos  espera da guerra, tu e os teus filhos, e
esse malvado do Clorindo. esses assassinos dos marroquinos, em
suma, todos quantos queriam dar largas aos seus instintos e
fazer o que em tempos normais nunca teriam a coragem de fazer.
Mas eu digo-te que isto no durar mnito

tempo e um dia tudo volta a entrar nos eixos, e ento tu e os
teus I

filhos e esse Clorindo ho-de ficar em maus lenc6is, moito
maus
mesmo, ao perceberem que ainda h moral, religio e leis e que
as
pessoas honestas valem mais do que os canalhas." Ao ouvir-me
falar
assim, Vincenzo, meio palerma, ele que tinha roubado os
Festas,
abanou a cabeca, dizendo: "Palavras de oiro!" Mas Concetta
encolheu os ombros e disse: "Porque te zangas tanto? O que 
preciso
 viver e deixar viver..." Rosrio, esse, ps-se a rir e
comentou: "Tu,
Cesira, s uma mulher de antes da guerra, e nds, meu irmo,
eu,
Rosetta, minha mCe e Clorindo, somos gente do aps-guerra. Por
exemplo, olha: fui a Npoles com um carregamento de conservas
americanas e pegas de militares, vendi logo tudo, tornei a
carregar
o camio com coisas para vender na Ciociaria e eis o
resultado..."
Dizendo isto, tirou um maco de notas de banco e abanou-o
diante do
meu nariz. "Ganhei mais num dia do que o meu pai nos ltimos
cinco
anos. Tudo mudou, agora j no estamos no tempo em que Berta
fiava, deves convencer-te disso! E, depois, porque te ralas
tanto com
Rosetta? Ela tambm compreendeu que a linguagem que se falava
antes da guerra no  a mesma de hoje e ps-se em dia.
aprendeu a
viver. A ti talvez nunca te tenha agradado muito o amor, e
ensinaram-te que, sem o padre a abeno-lo, o amor no  amor,
ou,
antes, no se pode amar. Mas Rosetta, essa, sabe que, com
padre ou
sem padre, o amor  sempre amor... No  verdade, Rosetta?...
V,
dize  tua me o que sabes."

Eu estava pasmada. Mas Rosetta continuava calma e serena,
quase parecia gostar daquela maneira de falar de Rosrio, que
continuou: "Por exemplo, h tempos estivemos em Npoles todos
juntos, Rosetta, Clorindo, meu irmo e eu, como amigos, sem
cimes e sem complicaces. E, embora entre nds estivesse
Rosetta e Rosetta agradasse a todos, Clorindo, meu irmo e eu
ficmos amigos como antes. E divertimo-nos os quatro, no 
verdade, Rosetta, que nos divertimos?" Toda eu tremia como
varas verdes, porque com

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preendia agora que Rosetta no s fora amante de Clorindo, o
que j era mau, mas tambm servira para distrair todo o bando,
e talvez se tivesse entregado no s a Clorindo, como j
sabia, e a Rosrio, como ficara agora a saber, mas tambm ao
outro filho de Concetta e talvez at a qualquer meliante
napolitano, desses que vivem  custa de mulheres e as trocam
entre si como mercadorias. Rosetta passara a ser uma pobre
desgraada a quem os homens faziam o que queriam, porque, no
momento em que fora violada pelos marroquinos, a sua vontade
se estilhaara e, ao mesmo tempo, qualquer coisa que ela at
ento ignorara Ihe tinha entrado na carne, como um fogo que a
queimava, fazendo-a desejar ser tratada por todos os homens
que encontrava da mesma maneira como a tinham tratado os
marroquinos.

Rosrio, entretanto, como a ceia terminara, levantou-se e,
apertando o cinto, disse: "Bem, vou dar uma volta no camio.
Rosetta, queres vir comigo?" Vi Rosetta fazer um aceno de
concordncia, pousar o guardanapo na mesa e preparar-se para
se levantar, com aquela cara vida e concupiscente que Ihe
notara  luz da vela, no primeiro dia em que se escapara com
Clorindo. Movida no sei por que impulso, ordenei: "Proibo-te
que te levantes, no sais daqui!" Houve um momento de
silncio, Rosrio olhava-me com fingida admirao, como se
dissesse: "Mas o que se passa? O mundo est s avessas?"
Depois, dirigindo-se a Rosetta, ordenou: "Ento, vamos,
despacha-te!" Eu disse ainda, no j em tom de mando, mas de
pedido: "Rosetta, no vs." Mas ela j se tinha levantado e
respondeu-me: "Mam, at logo..." Em seguida, sem se voltar,
juntou-se a Rosrio, que se afastava muito senhor de si,
enfiou-lhe a mo no brao e desapareceu com ele nos laranjais.
Assim, Rosetta obedecera a Rosrio de olhos fechados, como
antes obedecia a Clorindo, e ele levava-a para qualquer prado
e eu no podia fazer nada. Concetta exclamou: "Sabe-se, as
mes tm o direito de proibir o que quiserem s filhas...
Porque no haviam de ter?... Mas tambm as filhas tm o
direito de andar com o homem que Ihes agrada, porque no?...
Claro, as mes nunca esto de acordo com os homens que agradam
s filhas, mas a juventude tem os seus direitos e nds, as
mes, temos de compreender e perdoar e compreender..." Eu
desta vez no disse nada, fiquei de cabea baixa, como uma
flor murcha, o rosto banhado pela luz do acetilene, em volta
do qual as borboletas voavam e de vez em quando caam mortas,
queimadas pela chama. E pensava que a minha pobre Rosetta era
mesmo parecida com essas borboletazinhas: a chama da guerra
queimara-a e ela estava morta, pelo menos para mim...

Naquela noite Rosetta voltou muito tarde e eu nem sequer a
senti

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quando entrou. Mas, antes de adormecer, pensara nela durante
mnito tempo e no que Ihe acontecera e no que se tornara:
depots,  estranho diz-lo, o meu pensamento f`ixou-se em
Michele, e em todo o resto da viglia no pensei senao nele. N
o tinha tido ainda coragem de ir fazer uma visita aos Festas
pare Ihes dizer quanto me amargurara a morte do filho, tanto
que era como se me tivesse morrido um flho, nascido do meu
ventre, Mas, da mesma forma, em todo esse tempo, a sue morte,
to cruel e injusta, f'icara-me cravada no coracao como um
espinho, Era a guerra, dizia Concetta... E a guerre atinge
justamente os melhores, porque so os mais coraJosos, os mais
altruistas, os mais honestos: uns morrem como o pobre

Michele, outros ficam estropiados pare toda a vida como a
minha     I

Rosetta. E, ao contrrio, os piores, os que no tem coragem,
nem f,
nem religiao, nem orgulho, os que roubam e matam e pensam s
em
si e tratam apenas dos seus interesses, esses salvam-se e
prosperam
e tornam-se ainda mais descarados e canalhas do que eram
antes.
Se Michele no tivesse morrido, pensava, decerto me daria
algum
bom conselho e eu no teria sado de Fondi pare a minha aldeia
e
no teriamos encontrado os marroquinos e Rosetta continuaria a
ser
0 anjo de bondade e pureza que sempre fore. E dizia de mim
pare
mim que a sue morte fore mesmo uma desgraa, porque ele fore
tudo pare ns as duas, um pai, um marido, um irmo e um filho
e,
embora fosse bom como um santo, quando era necessrio sabia
ser
duro e sem piedade pare os patifes do gnero do Rosrio e
Clorindo.
E possua uma force que a mim me faltava, pods era nao s bom,
como tambm instruido, e sabia mnitas coisas e julgava do alto
os
f`actos da vida, e no terra a terra como eu, que era uma
pobre
ignorante que mal sabia ler e escrever e at agora tinha
vivido
sempre s pare 0 negcio, entre a case e a loja, sem querer
saber de
mais nada.

De repente, no sei como. nasceu em mim um desespero e um
frenesi indescritivel; e de sbito decidi que no queria viver
mais num mundo como este, no qual os homens bons e as mulheres
honestas no contam e os tratantes  que do lets; pensei que
pare mim, com Rosetta naquele estado, a vida j no tinha
sentido, e mesmo em Roma, com a case e a loja, no tornaria a
ser eu nem teria gosto de continuer a viver. Assim, valia mais
morrer... E salted da came e, com as mos a tremer de
impacincia, acendi a vela e fui ao fundo do quarto buscar uma
corda que estava l pendurada num prego e de que Concetta se
servia pare extender a roupa a euxugar, depots da barrela.
Naquele canto da barraca havia uma cadeira de palha: pus-me em
cima dela, com a corda na mo, resolvida a prende-la em
qualquer prego ou trave do tecto e depots at-la ao

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pescoco, dar um pontap na cadeira e deixar-me cair, acabando
de vez, Mas, quando, j com a corda na mo, levantei os olhos
para o tecto em busca duma trave onde a prendesse, eis que
sinto, atrs de mim, a porta abrir-se devagarinho. Voltei me e
vi Michele na soleira, ele em pessoa. Estava tal qual como o
vira a ltima vez, quando os nazis o levaram, e notei que,
como ento, tinha uma perna das calas mais comprida, a rocar
no sapato, e a outra mais curta, chegando-lhe apenas ao
artelho. Trazia culos, como sempre, e. para me ver melhor,
baixou a cabeca e olhou me por cima dos culos, como fazia em
vida, Ao ver-me assim de p em cima duma cadeira, com uma
corda na mo, fez imediatamente um gesto, como se dissesse:
<<No, no facas isso, nao deve; faz lo." Eu perguntei: "E
porque no devo faz lo?~> Michele abriu a boca e disse
qualquer coisa que no entendi: depois continuou a falar e eu
procurava ouvi-lo, mas nao ouvia nada, era mesmo como quando
se quer ouvir o que nos diz uma pessoa que est por trs dum
vidro e se v que ela mexe os lbios, mas, por causa do vidro,
no se ouve o que diz, Gritei-lhe: ,~Fala mais alto, que no
oio!~> E nesse instante acordei, alagada em suor, Compreendi
ento que tudo tinha sido um sonho: a tentativa de suicdio, a
interverico de Michele e as suas palavras que no consegui
ouvir, Ficou me, porm, o desgosto angustioso, amargo,
violento, de no ter ouvido o que ele me dizia; durante algum
tempo voltei me e tornei a voltar me na cama, perguntando a
mim prpria o que podena ser: decerto Michele me dissera por
que motivo no devia matar me e valia a pena viver, por que
razo a vida. em qualquer caso, era melhor do que a morte,
Sim, ele com certeza me explicou, em poucas palavras, o
sentido da vida, que ns, vivos, no percehemos, mas que os
mortos, ao contrrio, compreendem, clara e limpidamente, E,
para maior desgraca minha, nem pudera ouvir o que ele me
dizia, embora aquele sonho tivesse sido verdadeiramente uma
espcie de milagre, e os milagres, sabe-se, so milagres
precisamente porque tudo pode acontecer, at as coisas mais
incrveis e mais raras, O milagre dera-se, mas fora apenas
meio milagre: Michele aparecera-me e no deixara que eu me
suicidasse,  verdade, mas eu, por culpa minha, decerto,
porque no era digna disso, no fiquei sabendo porque no
devia faz lo. Assim tinha de continuar a viver, mas como
antes, como sempre, sem saber por que razo a vida 
preferivel  morte.

253





CAPTULO XI

E assim chcgou o grande die do regresso a Roma. Mas como foi
diferente do que eu imaginara nos meus sonhos, durante os nove
meses vividos em Santa Eufmia!... Sonhara um regresso alegre
e feliz, num desses camies militares repletos de rapages
loiros, ingleses ou americanos, contentes, simpticos, cheios
de vida, e Rosetta ao meu lado, doce e tranquila como um anjo;
e talvez Michele fosse tambm connosco, igualmente mnito
feliz. E eu numa grande ansiedade por ver aparecer no
horizonte a cpula de So Pedro, que  a primeira coisa que se
v de Roma, e o corao repleto de esperana, e a cabea a
zunir, cheia de projectos em relao a Rosetta e ao seu
casamento e  loja e  case.

Pode dizer-se que naqueles nove meSES estudei todos os
pormenores desse regresso e at cada pormenor desses
pormenores. E tinha imaginado tambm a nossa chegada a case,
com Giovanni a acolher-nos, calmo e sorridente, o charuto
apagado ao canto da boca, e os vizinhos que se juntavam em
volta de ns e que ns abravamos a sorer e a dizer: <<Bem,
j c estamos, depots contaremos tudo o que nos sucedeu,"
Tinha pensado em sodas estas coisas e em nuitas outras, e
lembro-me que, ao pensar nelas, me surpreendia s vezes a
sorrir com antecipada alegria, mas nunca, mesmo nunca, me
passou pela mente que as coisas no sucedessem tal qual como
eu as imaginava. Em suma, no previ que, como dizia Concetta,
a guerra  a guerra, isto , que, mesmo quando j est presses
a extinguir-se, ainda  a guerra e, qual fera moribunda que
continua a querer fazer mal, pode ainda afar nos uma patada.
Ora a guerra dera-nos patadas teem fortes mesmo nas vsperas
de acabar: os m~`rroquinos ~ iolaram Rosetta, os nazis mataram
Michele e ns as duas tinhamos agora de ir pare Roma no camio
daquele malandro do Rosrio, e eu, em vez de tantas coisas
alegres que imaginara saborear, tinha a alma cheia de
tristeza. de desiluso e de desespero.

Era uma manha de Junho, j com o calor e a lu7 de Vero no cu
afogueado e na terra seca e poeirenta. Rosetta e eu, dentro da
barraca, acabvamos de nos vesting pods o camio de Rosrio
esperava-nos na estrada principal. Rosetta passara parse da
noise f'ora, e eu, que 0 sabia e a vira entrar
sorrateiramente, continuava a

254





experimentar aquele sentimento de impotncia de que j falei:
minha alma transbordava de palavras que queria dizer, mas
minha boca no sabia exprimi-las. Todavia, por fim, consegui
pronunciar, enquanto ela se lavava a um canto, de p diante da
bacia: "Posso saber onde estiveste esta noite?" Esperava novo
silncio ou qualquer resposta breve; mas desta vez no foi
assim, no sei porqu. Rosetta acabou de se limpar, depois
voltou-se para mim e disse-me numa voz clara e firme: "Estive
com Rosrio. E no me perguntes mais o que fao, para onde vou
e com quem estou, porque ficas a sab-lo agora: fao amor,
onde posso e com quem posso. E quero tambm dizer-te que isso
me agrada, ou, melhor, que no posso nem quero deixar de o
fazer..." Exclamei: "Mas com Rosrio, minha filha, no vs
quem  Rosrio..." E ela: "Com ele ou com outro, para mim 
igual. J te disse,  a nica coisa que me agrada e me apetece
fazer. E daqui por diante ser sempre assim, por isso no me
faas mais perguntas, pois no poderei responder-te de outra
maneira." Ela nunca falara to claro, ou, antes, era a
primeira vez que me falava assim; compreendi que, enquanto no
lhe passasse aquele frenesi, devia proceder como ela me dizia:
no lhe perguntar nada, calar-me. E foi o que fiz: acabei de
vestir-me em silncio, enquanto ela, do outro lado do leito,
fazia o mesmo.

Saimos, por fim, da barraca e encontrmos Rosrio, sentado 
mesa com a me, a comer uma salada de cebolas com po.
Concetta veio logo ao nosso encontro e comeou a fazer-nos os
discursos do costume, desconexos e exaltados, que tanto me
irritavam ao princpio de a conhecer, quanto mais agora.
"Ento, sempre se vo embora, voltam para Roma, abenoadas
sejam, suas felizardas... Vo-se embora e deixam-nos, a ns,
pobres camponeses, aqui neste deserto, onde no h mais nada
seno fome e todas as casas esto em runas e toda a gente
anda rota e nua como os Ciganos... Suas felizardas, vo fazer
vida de senhoras em Roma, onde h abundancia... O que os
Ingleses deram aqui s durante trs dias daro l o ano
inteiro... Mas fico contente, porque gosto de vocs e d-nos
sempre prazer que as pessoas de quem gostamos sejam felizes e
estejam bem.,> Para me furtar a tais efuses. repliquei:
<<Sim, somos umas `elizardas... E tivemos mnita sorte, no
haja dvida... Sobretudo por termos encontrado uma familia
como a vossa." Mas ela no compreendeu a ironia e continuou:
<<Podes diz -lo bem alto, que somos uma boa famlia.
Estiveram aqui como em vossa casa, foram tratadas como irm e
filha, comeram, beberam, dormiram e estiveram  vontade. Ah!
Familias como a nossa no h muitas!...~'<<Felizmente!", ia eu
responder, mas detive-me, pois agora tinha pressa de partir,
mesmo com aquele Rosrio que me era to

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odioso, contanto que nao estivesse mais tempo naquela clareira
fechada, entre aqueles laranjais to espessos que me pareciam
uma priso. Despedimo nos de Vincenzo, que nos disse, com o
seu ar meio aparvalhado: "J nos deixam? Mas h to pouco
tempo que chegaram! Porque no ficam ao menos para as festas
de Agosto?~> Concetta quis abracar-nos e beiiar-nos nas duas
faces, com uns beijos sonoros, que soavam to fai-io como as
suas palavras. Por fim, l seguimos pelo carreiro, voltando
para sempre as costas quela maldita casa cor-de-rosa. Na
estrada principal estava o camio. Subimos, Rosetta ao lado de
Rosrio e eu ao lado de Rosetta.

Rosrio ligou o motor engrenou e ps o carro em movimento,
gritando "Partida para Roma!" O camio rolou velozmente em
direcco  estrada nacional. Era j manh alta; um sol de
Junho, ardente, seco. chelo de forca, alegre e jovem,
iluminava a estrada branca de p e as sebes tambm
esbranquicadas pela poeira; quando o camio abrandava, ouviam
se, em cima das poucas rvores que ladeavam a estrada, as
cigarras cantar, escondidas entre a folhagem. Ao ouvir esse
canto, ao ver aquele p to branco na estrada e nas sebes e as
cotovias que desciam para debicar os excrementos das mulas e
depois levantavam de novo voo no cu luminoso, vieram-me de
repente as lgrimas aos olhos. Sim, este era o campo, o meu
querido campo, onde foi criada, onde cresci e onde me refugiei
no periodo da carestia e da guerra, como quem se acolhe junto
duma me muito velha que j viveu e viu mnito e, nao obstante,
continua boa e sabe tudo e tudo perdoa. Mas o campo tinha-me
trado; tudo se conjugara para acabar mal; agora eu estava
mudada e o campo continuava a ser o mesmo de sempre: o seu sol
aquecia todas as coisas menos o meu coraco gelado; as
cigarras cantavam, belo canto que d prazer ouvir quando se 
novo e se gosta de viver, mas que me parecia fastidioso agora,
que nada mais esperava da vida: e o cheiro do p quente, que
inebria os sentidos ainda virgens e no satisfeitos,
sufocava-me como se me tapassem o nariz e a boca. O campo
tinha-me traido e eu voltava para Roma sem esperancas, ou,
pior, desesperada. Chorava baixinho e bebia as lgrimas
amargas que me desciam dos olhos. procurando no entanto voltar
a cabeca para 0 lado da estrada, para evitar que Rosrio e
Rosetta me vissem chorar. Mas Rosetta percebeu e perguntou
"Porque choras. mama?". numa voz to doce que me fez quase
pensar que se tornara de novo, por um milagre do Cu, a minha
Rosetta doutros tempos. Ia responder-lhe quando, voltando-me,
vi a sua mo pousada na coxa de Rosrio, muito em cima, e
lembrei-me de repente que eles iam calados h alguns minutos,
nem sequer se mexiam... Compreendi 0 significado daquele

'5f:





silncio e daquela imobilidade... Mesmo diante dos meus
olhos!... Aquela doura da voz de Rosetta no era a doura da
inocncia, mas a do prazer... E acariciavam-se sem pudor e sem
vergonha, enquanto ele guiava, logo de manh cedo, como os
animais no cio, que fazem aquilo a todas. as horas e em
qualquer stio. Disse ento: "Choro de vergonha,  por isso
que choro..." A estas palavras, Rosetta teve um movimento como
que para retirar a mo; mas o odioso Rosrio agarrou-lha e
tornou a p^la am cima da coxa. Ela resistiu um momento, ou,
pelo menos, assim me pareceu; depois ele deixou-lhe a mo e
ela no a retirou; compreendi uma vez mais que, para ela, o
que fazia era mais forte do que a minha vergonha e at do que
a sua, embora, apesar de tudo, fosse capaz de senti-la.

Entretanto rodvamos na Via pia; os grandes pltanos que
desfilavam dos dois lados da estrada juntavam a folhagem nova
e espessa por cima das nossas cabeas. Parecia que corramos
no interior duma galeria verde; o sol, rompendo aqui e alm
por entre as folhas, alongava de quando em quando os seus
raios na estrada e dir-se-ia ento que at o asfalto, to
opaco, se tornava matria luminosa e palpitante, semelhante ao
lombo dum animal, quente de sangue e de vida. Eu ia com a
cabesa virada para a estrada, para no ver o que Rosetta e
Rosrio faziam; para me distrair dos meus tristes pensamentos,
comecei a observar a paisagem. Vi as inundaes provocadas
pelos Alemes quando fizeram saltar os diques, com as suas
guas azuis encrespadas pelo vento, donde emergiam aqui e alm
uns tufos de rvores e runas, onde outrora havia campos
cultivados e quintas. Depois de San Biagio, a estrada seguia 
beira-mar. O mar estava calmo, varrido por uma brisa ligeira e
fresca que fazia correr de travs inmeras ondas aznis; e cada
onda mostrava um reflexo de luz a cintilar e todo o mar
parecia sorrir ao sol. Agora, Terracina. Fez-me ainda mais
impresso do que Fondi, uma verdadeira desolao, as casas
todas esfoladas pelo fogo das metralhadoras e furadas por
buracos grandes e pequenos, e as janelas negras como os olhos
dos cegos, ou, pior ainda, azuis, porque s restava a fachada
e montes de escombros poeirentos e fossos cheios de gua
amarela em toda a parte e por elas se via o ccu. No havia
ningum em Terracina, pelo menos assim me parecou, nem na
praa principal, onde a fonte tinha a taa cheia de calia at
acima, nem nas ruas compridas e direitas, marginadas por
runas, que iam em direco ao mar. Pensei que em Terracina
devia ter acontecido o mesmo que em Fondi: o primeiro dia fora
uma feira, uma grande multido, soldados, camponeses e
refugiados, distribuies de mantimentos e roupas, alegria e
alarido, em resumo, vida, depois o exrcito avanara para Roma

257





e, repentinamente, a vida cessara, ficando apenas um deserto
de runas e silncio. Passada Terracina, continumos a correr
loucamente pela estrada que vai em direco a Cisterna, tendo
dum lado o canal denso e verde do saneamento e do outro uma
vasta plancie, aqui e alm alagada, estendendo-se at o sop
das montanhas azuis que lirnitavam o horizonte. De vez em
quando,  beira da estrada via-se, nos fossos, a carcaa dum
carro militar, de rodas para cima, j enferrujado e
irreconhecvel, como se a guerra tivesse passado ali h muitos
anos; de tempos a tempos, tambm, num campo de trigo,
avistava-se, imvel, apontando para o cu, o canho alongado
dum carro de assalto e, quando nos aproximvamos, vamos o
carro inteiro afundado entre as espigas altas, imvel e
ressequido como um animal ferido de morte e depois abandonado.

Rosrio guiava agora a grande velocidade, s com uma das mos,
enquanto com a outra apertava a de Rosetta no regao dela. Eu
no podia suportar aquele espectculo, um indicio mais da
mudana que se operara na minha filha, e de repente, nem sei
porqu, lembrei-me que ela sabia cantar bem e tinha uma bonita
voz, doce e musical, e, quando estava em casa, ocupada na lida
domstica, costumava cantar para fazer companhia a si prpria,
e eu, no quarto ao lado, mnitas vezes me encantava a ouvi-la,
porque naquela voz que se elevava, tranqutia e alegre, e
parecia nunca se cansar nem perder o fio da cano, estava
todo o seu carcter, como era ento e agora deixara j de ser.
Lembrei-me do seu canto nessa estrada entre Terracina e
Cisterna e experimentei como que o impulso de ressuscitar, nem
que fosse por um momento s, a iluso da Rosetta de outro
tempo. Disse: "Rosetta, porque no cantas quaiquer coisa7
Sabias cantar to bem... V, canta uma cano bonita... de
outro modo, com este sol e esta estrada to recta, acabamos
por adormecer..." Ela respondeu: "O que queres que eu cante?"
Disse, ao acaso, o nome duma cano que estivera em voga
alguns anos antes e ela comeou a cantar, com toda a fora,
imvel, sempre com a mo de Rosrio no seu regao. Mas vi que
j no era a mesma voz; parecia menos decidida e menos
melodiosa; tambm errava a msica; ela apercebeu-se disso,
pois repentinamente interrompeu-se e disse: "Tenho medo de j
no saber cantar, mam, sinto-me sem vontade." Deu-me ganas de
Ihe gritar: "Sentes-te sem vontade e j no sabes cantar
porque tens essa mo no regaco e j no s tu, nem tei.` 0
sentimento doutro tempo, que te enchia 0 peito e te fazia
cantar como um passarinho!" Mas no tive coragem de falar.
Rosrio disse ento: "Bem, se querem, canto eu." E comecou, em
voz rude, a entoar uma

258





cano vulgar e brejeira. Eu agora sofria ainda mais do que
antes: pelo facto de Rosetta no poder cantar-at nisso estava
mudada!-e tambm por ouvir cantar Rosrio. Entretanto, o carro
seguia a uma velocidade louca e bem depressa chegmos a
Cisterna.

Tambm aqui, como em Terracina, era completa a desolao.
Lembro-me, sobretudo, da fonte da praa, um semicrculo de
casas esburacadas ou destrudas: a taa estava cheia de
destroos, no meio da taa via-se um pedestal com uma esttua;
esta esttua, porm, no tinha cabea, mas sim um gancho de
ferro negro no seu lugar, e conservava apenas um brao e a
este brao faltava a mo. Parecia uma pessoa viva,
precisamente porque lhe faltavam a mo e a cabea. Tambm aqui
no passava nem um co; as pessoas ou estavam ainda nas
montanhas ou escondidas entre os escombros. Depois de
Cisterna, a estrada atravessava uns bosques pouco densos de
sobreiros e no se via uma casa nem um cristo, mas smente, a
perder de vista, cho verde e troncos torcidos e vermelhos,
que at pareciam esfolados. Agora o dia no se mostrava to
bonito: dos lados do mar surgira um negrume, primeiro um
pequeno leque de nuvenzinhas cinzentas, depois esse leque
foi-se abrindo e tornara-se imenso, com o cabo voltado para o
mar e as varetas, feitas de nuvens cinzentas e juntas,
espalhadas por todo o cu.

O Sol encobrira-se e o campo, com aqueles sobreiros torcidos e
vermelhos, que dir-se-ia sofrerem por estarem assim torcidos e
vermelhos, ficara duma s cor, desmaiada e opaca, sem luz.
Havia uma solido completa; e, embora o ruido do motor no
parasse um nico instante, adivinhava-se que reinava um grande
silncio, sem cantos de cigarras nem de pssaros. Rosetta
dormitava; Rosrio fumava, mesmo a guiar; e eu ora seguia com
os olhos os marcos brancos dos quilmetros, ora afundava o
olhar por entre os sobreiros, sem ver nada nem ningum. Depois
a estrada fez uma curva e eu, que continuava a olhar para os
sobreiros, fui de sbito projectada para a frente, batendo com
a cabea no vidro do pra-brisas. Ouando retomei a minha
posio, vi que a estrada estava cortada por um poste
telegrfico derrubado: ao mesmo tempo, trs homens saam do
sobreiral e avanavam para ns, agitando as mos para mandarem
parar o camio. Rosetta disse, acordando: "O que ?" Mas
ningum lhe respondeu: eu no compreendia nada do que se
passava e Rosrio j tinha descido e dirigia-se com deciso ao
encontro dos trs homens. Estes, lembro-me mnitssimo bem, e
ainda hoje era capaz de os reconhecer entre mil, estavam
vestidos de farrapos, como toda a gente naqueles dias; um era
pequeno, loiro, de ombros largos e o fato de veludo castanho;
o segundo era alto, de meia idade, escanzelado, a cara tensa e
magra, os olhos encovados e

C - 18

259





os cabelos grisalhos em desordem; o terceiro era um rapaz do
tipo comum, moreno, a cara larga, os cabelos negros, no muito
diferente de Rosrio. Este, ao descer do camio, teve um gesto
que no me passou despercebido: tirou rpidamente do bolso um
embrulho e escondeu-o no tablier. Eu compreendi que aquele
embrulho tinha dinheiro e compreendi tambm, repentinamente,
que aqueles trs homens eram ladres. Depois tudo aconteceu
num relmpago, enquanto Rosetta e eu olhvamos, imveis e
paralisadas de assombro, atravs do pra-brisas, sujo de
insectos esmagados, de p6 e de sulcos de chuva que parecia
acrescentar,  luz mortia do ccu enevoado, no sei que
melancolia e incerteza. Atravs desse vidro, vimos Rosrio ir
ao encontro dos trs, com ar decidido, pois era corajoso, e os
outros afrontarem-no ameaadores. Via Rosrio de costas, mas
via mnito bem a cara do loiro com quem ele falava: tinha a
boca vermelha, um pouco torcida, com qualquer coisa como uma
erupo ou espinhas nos cantos.

Em resumo, o loiro falou e Rosrio respondeu; o loiro falou
outra vez e,  segunda resposta de Rosrio, de repente
levantou a mo e agarrou-lhe a gola do casaco mesmo por baixo
do pescoo. Rosrio fez um movimento com os ombros, primeiro
para a direita, depois para a esquerda, libertando-se, e ao
mesmo tempo vi-o, com clareza, levar a mo ao bolso de trs
das calas. Em seguida ouvi um tiro, depois outros dois, e
julguei que fosse Rosrio a disparar. Entretanto ele
voltou-se, como se se dirigisse para o camio, de cabea
baixa, estranhamente incerto, e depois, de sbito, caiu de
joelhos, mantendo-se nessa posio, com as mos estendidas
para o cho; esteve um momento assim de cabea baixa, como que
a reflectir, e por f1m atirou-se de lado. Os trs, sem se
importarem mais com ele, caminharam para o camio.

O loirinho, agora com uma pistola na mo, pendurou-se na
portinhola e meteu a cabea na cabina, dizendo-nos,
arquejante: "Vocs as duas desam imediatamente, desam!" Ao
mesmo tempo agitava a pistola, no tanto para nos ameaar,
como talvez para nos dar a entender que deviamos descer.
Entretanto, os outros dois tiravam o poste da estrada. Vi que
tinhamos de obedecer e disse a Rosetta: "Bem, desamos." E ia
abrir a porta. Mas nesse instante o loirinho, j quase todo
enfiado na cabina, inclinou-se para fora, a olhar a estrada, e
vi que os outros dois lhe faziam sinais, como que a adverti-lo
de qualquer coisa de novo que estava a acontecer. Proferiu uma
blasfmia, saltou do camio, correu para os dois companheiros
e vi-os fugir, todos trs, desesperadamente, por entre os
sobreiros, onde bem depressa desapareceram, a correr aos
ziguezagues. Durante momentos no houve mais nada nem

260





ningum, a no ser o poste telegrfico afastado para um lado e
o corpo de Rosrio im6vel no meio da estrada.

Disse ento a Rosetta: "E, agora, o que fazemos?" Mas quase ao
mesmo tempo surgiu ao p de ns um pequeno automvel
descoberto com dois oficiais ingleses e um soldado a conduzir.
O automvel abrandou a marcha, pois o corpo de Rosrio barrava
o caminho, mas no tanto que, andando ao rs da berma, no se
pudesse passar; os dois oficiais voltaram-se, olharam para o
corpo e depois para ns as duas; vi um deles fazer um gesto ao
condutor, como que a dizer: "Quem morre est morto, vamos para
diante.~, E o automvel partiu logo, passou quase rente ao
corpo de Rosrio, retomou a corrida e bem depressa desapareceu
ao longe na estrada, numa curva. Ento, no sei como,
lembrei-me do dinheiro que Rosrio escondera no tablier;
estendi a mo, peguei no embrulho e escondi-o no seio. Rosetta
viu-me fazer o gesto e deitou-me um olhar que me pareceu quase
de desaprovao. Sbitamente sentiu-se uma chiadeira forte de
freios e um camio parou ao mesmo tempo junto do nosso.

Desta vez era um italiano, um homem pequeno, de cabea grande
e calva, a cara plida e toda suada, os olhos redondos  flor
da pele e suas compridas descendo at ao meio do rosto.
Tinha uma expresso espantada e descontente, mas no m, como
a de quem faz por dever um acto de coragem e ao mesmo tempo
amaldioa a sorte que o torna corajoso contra vontade.
Perguntou  pressa: "Mas que sucedeu?", sem sair do camio, a
mo na alavanca das mudanas. Disse-lhe: "Mandaram-nos parar e
mataram aquele rapaz e depois fugiram. Queriam roubar. E agora
nds, que somos duas refugiadas..." Ele interrompeu-me: "Para
onde fugiram?" Indiquei o sobreiral; ele voltou para l os
olhos espantados e disse depois: "Por amor de Deus, depressa,
subam para 0 meu camio, se querem ir para Roma, mas depressa,
andem depressa, por amor de Deus..." Compreendi que, se
hesitasse um momento, ele partiria, e apressei-me a descer,
puxando Rosetta pela mo. Ele, ento, gritou, com voz aflita:
"Afastem esse corpo, afastem-no, seno no posso passar."
Olhei e vi que, de facto, o camio dele, muito mais largo do
que o pequeno autom6vel dos oficiais ingleses, no tinha
espao suficiente para passar entre a berma e 0 corpo de
Rosrio. "Andem depressa, pelo amor de Deus...", recomendou
outra vez, com aquela voz lamentosa; eu ento recuperei nimo
e disse a Rosetta: "Ajuda me." Caminhei para o corpo de
Rosrio, estendido de lado, com um brao levantado por cima da
cabea, como que para se agarrar a qualquer coisa que no
tivera tempo de apanhar. Inclinei-me e peguei-lhe num p,
Rosetta inclinou-se e pegou-lhe no outro, e,

261





assim, a custo, porque ainda pesava bastante, arrastmo-lo
para um lado, para a berma da estrada, as costas e a cabea no
cho e os braos estendidos ao comprido, sem vida, de rastos
no asfalto. Rosetta foi a primeira a deixar cair o p e eu
logo a seguir fiz como ela; mas depois inclinei-me  pressa
para o morto, num gesto instintivo, quase com receio de
descobrir que ainda estivesse vivo: na realidade, tinha o
embrulho do seu dinheiro no seio e convinha-me conserv-lo,
porque nas nossas condies me fazia mnito jeito e queria ter
bem a certeza de que ele estava na realidade morto. E estava
mesmo morto, compreendi-o pelos olhos, que tinham ficado
abertos e olhavam no sei para onde, imveis. Confesso,
naquele instante comportei-me como uma pessoa interesseira e
vil, tal qual como se teria comportado Concetta, em
conformidade com a sua convico de que a "guerra  a
guerra~i. Guardara o dinheiro do morto; e, por causa do
dinheiro, receava que o morto no estivesse morto, mas sim
vivo; como verifiquei que estava na verdade morto, quis
compensar aquele meu abjecto receio com um acto de f que no
custava nada: rpidamente, enquanto o homem do camio me
gritava, impaciente: "Est descansada, j est morto, no h
nada a fazer...", inclinei-me e fiz o sinal da Cruz com o
indicador e o mdio no peito de Rosrio, no stio onde o
casaco preto estava manchado com uma larga ndoa escura.
Senti, ao fazer esse gesto, os meus dedos aflorarem o tecido
do casaco, que estava hmido; e depois, enquanto corria
juntamente com Rosetta para o camio, olhei furtivamente os
dedos com que fizera o sinal da Cruz e vi-os vermelhos de
sangue vivo, acabado de jorrar. Experimentei repentinamente, 
vista daquele sangue, um remorso obscuro, quase horror de mim
mesma, por ter feito aquele gesto hip6crita no corpo do homem
que, momentos antes, tinha roubado, e esperei que Rosetta no
tivesse percebido. Mas, quando limpei os dedos  saia, vi-a
olhar para mim e compreendi que ela tinha visto tudo.
Entretanto, subimos ambas para junto do motorista. O camio
partiu.

Aquele homem guiava curvado para 0 volante, que segurava com
ambas as mos, como quem se agarra a um destroo, os olhos
esbugalhados, o rosto plido, ofegante, cheio de medo; eu ia
preocupada com o mao das notas de banco que levava no seio e
Rosetta olhava em frente, a cara imvel e aptica, em que
seria impossivel encontrar o reflexo de qualquer sentimento.
Veio-me  ideia qlie nenhum dos trs, cada qual pelos seus
motivos, tnhamos demonstrado piedade por Rosrio, morto como
um co e abandonado na estrada; o homem, amedrontado, nem
sequer descera para ver se estava morto ou vivo; eu
preocupara-me

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sobretudo em verificar se na verdade estava morto por causa do
dinheiro que Ihe tirara, e Rosetta limitara-se a arrast-lo
por um p para a valeta, como se fosse o cadver malcheiroso e
incdmodo dum animal qualquer...

No havia piedade, nem emoo, nem simpatia humana: um homem
morria e os outros no faziam caso, cada um pensando s em si
prdprio. Era a guerra, como dizia Concetta, e eu temia que
esta guerra se prolongasse nas nossas almas por muito tempo,
depois de a verdadeira guerra ter acabado. Mas o caso de
Rosetta era ainda o pior dos trs: meia hora antes acariciava
Rosrio; acordara nele o desejo e satisfizera-lho; dera e
recebera prazer; e agora ia ali sentada de olhos enxutos,
im6vel, indiferente, aptica, sem sombra de pena no rosto.
Pensava nisto e dizia a mim pr6pria que tudo estava ao
contrrio do que devia estar, que a vida se tornara absurda,
sem ps nem cabea e as coisas importantes j no eram
importantes e as que no tinham importncia  que se tornavam
importantes. Depois, de repente, aconteceu um facto estranho
que no tinha previsto: Rosetta, que at ento, como disse,
no manifestara nenhum sentimento, comeou a cantar. Primeiro
com uma voz hesitante, como que estrangulada, depois
aclarando-a e alterando-a, cada vez mais segura, comeou a
cantar a mesma cano que eu Ihe pedira para cantar pouco
antes e ela, sentindo-se incapaz, interrompera  primeira
estrofe, Era uma canoneta em voga anos atrs e Rosetta
costumava cant-la, como j disse ao cuidar da lida domstica;
no era grande coisa, antes um puco sentimental e tola, e
pareceu-me primeiro estranho que ela a cantasse naquele
momento, depois da morte de Rosrio: mais uma prova da sua
insensibilidade e indiferena. Mas a seguir lembrei-me que,
quando Ihe pedi para cantar, ela me respondera que no era
capaz, que se sentia sem vontade, e recordei-me que pensara
ento que ela tinha mudado por completo e no podia cantar
porque j no era a mesma doutros tempos; por isso disse de
mim para mim que talvez, recomeando a cantar, ela quisesse
dar-me a entender que no era verdade, que no estava mudada,
que ainda era a mesma Rosetta doutros tempos, boa, doce e
inocente como um anjo. De facto, enquanto pensava assim, olhei
para ela e vi que tinha os olhos cheios de lgrimas, e estas
lgrimas saltavam-lhe dos olhos arregalados e corriam-lhe
pelas faces; de repente, a confiana voltou-me; Rosetta no
tinha mudado tanto como eu temia; chorava por Rosrio,
primeiro que tudo, que fora morto sem piedade, como um co, e
depois por ela e por mim e por todos quantos a guerra
atingira, massacrara e arruinara. E isto queria dizer que ela,
no fundo, no estava mudada, e eu tambm no, embora tivesse

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roubado o dinheiro de Rosrio, nem os outros que a guerra, em
todo o tempo que durara, tinha tornado semelhantes a nds.
Subitamente senti-me confortada, e deste conforto brotou,
espontaneo, o pensamento: "Logo que chegue a Roma, mando este
dinheiro  me de Rosrio." Sem dizer nada, passei um braco
por cima do braco de Rosetta e apertei a sua mo na minha...

Ela cantou ainda vrias vezes aquela canc,o enquanto o camio
corria para a curva de Velletri; e depois, quando as lgrimas
deixaram de lhe correr dos olhos, parou de cantar. Aquele
homem do carnio no era mau, estava smente apavorado. Talvez
tivesse compreendido qualquer coisa, porque de repente
perguntou: "O que era a vocs aquele rapaz que mataram?"
Apressei-me a responder: "No nos era nada, apenas um
conhecido, um do mercado negro que se ofereceu para nos trazer
a Roma..." Mas ele, tomado outra vez de medo, acrescentou 
pressa: "No digas nada, no quero saber de nada, no sei nada
e no vi nada; em Roma deixo-as e ser como se nunca nos
tivssemos visto nem conhecido..., Eu respondi: "Tu  que
perguntaste..." E ele: "Sim, tens razo, mas dou o dito por
no dito."

Finalmente, surgiu ao fundo da plancie extensa e verde uma
longa risca de cor incerta, entre branco e amarelo: os
subrbios de Roma. E por trs, sobrepujando-a, simples sombra,
cinzenta no fundo cinzento do ccu, mnito distante, mas ntida,
a cpula de So Pedro! S6 Deus sabe quanto eu ansiara durante
todo esse ano tornar a ver, no horizonte, aquela querida
cpula, to pequena e ap mesmo tempo to grande que podia ser
confundida com um acidente do terreno, uma colina ou uma
montanha; to s61ida, embora no mais do que uma sombra; to
tranquilizadora e familiar, mil vezes vista e observada.
Aquele cpula, para mim, no era s6 Roma, mas a minha vida de
Roma, a serenidade dos dias que se vivem em paz connosco e com
os outros. L ao longe, no fundo do horizonte, aquela cpula
dizia-me que podia agora voltar confiante a casa, que a antiga
vida retomaria o seu curso, apesar de todas as mudanas e
tragdias. Mas tambm me dizia que essa minha nova confianc,a
a devia a Rosetta e ao seu canto e s suas lgrimas. E que,
sem essa dor de Rosetta, Roma no teria tornado a ver as duas
mulheres inocentes que um ano antes dali tinham partido e
entretanto se tornaram, com a guerra e por causa da guerra,
uma ladra e outra prostituta. A dor... Voltou-me ao pensamento
Michele, que no estava ali connosco nesse momento to
suspirado do regresso e nunca mais estaria ao p de n6s, e
lembrei-me daquela noite em que nos leu em voz alta, na cabana
de Santa Eufmia, a passagem do Evangelho sobre Lzaro,
zangando-se porque os camponeses no tinham compreendido nada
e gritando que estvamos todos mortos

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 espera da ressurreio, como Lzaro. Ento, essas palavras
de Michele tinham-me deixado na dvida; agora, sim,
compreendia que Michele tinha razo e que durante algum tempo
tambm Rosetta e eu estivramos mortas, mortas pare a piedade
que se deve aos outros e a ns prprios. Mas a dor viera
salvar-nos no ltimo momento; e, assim, de certa maneira, a
histria de Lzaro aplicava-se tambm a ns: graas  dor
conseguramos por fim sair da guerra, que nos encerrava no seu
tmulo de indiferenca, cruel dade e maus sentimentos, pare
retomarmos o curve da nossa vida, que talvez seja uma pobre
vida cheia de escurido e de erros mas a nica que devemos
viver, como sem dvida no-lo diria Michele se estivesse ali
connosco...

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